sexta-feira, 29 de maio de 2009

Câmbio e juros, faces de uma mesma moeda

Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Juros reais muito mais altos do que em outros países tornarão a valorização do real superior à das outras moedas

TENHO ESCRITO com frequência sobre uma nova dinâmica da formação da taxa de câmbio no Brasil. O real faz parte hoje de um seleto grupo de moedas emergentes que se colocam como alternativas de reserva de valor para os investidores internacionais.

Esse movimento foi interrompido em setembro passado. No pânico que se seguiu à quebra do banco Lehman Brothers, todos correram para o abrigo seguro que ainda é o dólar. Agora, com a sensatez voltando para os mercados e o espectro, real ou imaginário, de uma crise fiscal nos Estados Unidos, um novo movimento de diversificação de riscos começou.

Ainda nesta semana circulou a informação de que a Nomura Securities, um dos grandes intermediários financeiros no Japão, estaria liderando a criação de mais um fundo de investimento para aplicação em títulos públicos em várias economias emergentes. O total chegaria a US$ 4 bilhões, e o Brasil receberia uma grande parte desses recursos.

Com nossa moeda próxima a romper a barreira psicológica de R$ 2 por dólar, voltamos à velha discussão sobre a necessidade de garantir uma taxa de câmbio competitiva. O presidente do Banco Central brasileiro tem reafirmado que a instituição que preside tem como mandato a manutenção da inflação dentro da meta fixada pelo governo e que não pode, por isso, cuidar também da taxa de câmbio. Sabemos que em um sistema de metas de inflação, como temos no Brasil, isso é verdade. O câmbio entra apenas indiretamente na decisão do BC em relação aos juros, na medida em que influencie a inflação.

Mas também é preciso que se diga que essa nova situação internacional de nossa moeda não permite ao BC trabalhar com uma gordura excessiva na sua taxa de juros de intervenção. O BC brasileiro, escaldado por um passado muito difícil na gestão da política monetária, prefere sempre errar para mais. Essa posição mais conservadora revelou-se correta no passado e foi um dos fatores para a consolidação da estabilidade da economia brasileira nos anos recentes.

Mas o Brasil mudou muito. A gestão da política monetária hoje é mais eficiente em razão principalmente da penetração das importações no nosso aparelho produtivo e da maturação da economia brasileira. Por isso poderíamos trabalhar com um prêmio menor nos juros Selic. E isso ainda não aconteceu. O diferencial de juros entre o Brasil e o G7 permanece praticamente igual à média dos últimos anos. Isso parece excessivo, tendo em vista o quadro de inflação benigno e o excepcional sucesso da economia brasileira, que passou no teste da crise.

O sucesso do Brasil reforçou a confiança internacional. O corolário é que não podemos ter uma taxa de juros real desproporcionalmente alta em relação aos outros países que fazem parte desse novo grupo.

Se isso acontecer, o fluxo de recursos financeiros para nosso mercado vai ganhar contornos especulativos. E, nessa situação, a valorização do real será muito superior à das outras moedas, que parece ser a referência adotada pelo BC para uma política de intervenção no câmbio.

O presidente Meirelles tem razão em não concordar com os que, dentro do governo Lula, defendem uma ação direta sobre o nível da taxa de câmbio, buscando um patamar mais desvalorizado. Mas também é preciso reconhecer que o Brasil não está isolado do mundo. O BC precisará aceitar uma convergência para taxas de juros mais baixas. E que a política fiscal atue no sentido de ajudar a compatibilizar esses objetivos.

Luiz Carlos Mendonça De Barros, 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

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