quinta-feira, 23 de julho de 2009

Lula pede cuidado com 'biografia de investigados'

Felipe Recondo e Leonencio Nossa
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Presidente já havia dito que Sarney não é uma "pessoa comum"

Na solenidade de posse do novo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu cuidado com a história dos investigados. "O Ministério Público tem o dever de agir com a máxima seriedade, não pensando apenas na biografia de quem está fazendo a investigação, mas pensando, da mesma forma, na biografia de quem está sendo investigado", afirmou. Lula já tinha declarado que o presidente do Senado, José Sarney, alvo de uma série de denúncias, não pode ser tratado como “pessoa comum”. O novo procurador-geral prometeu lutar contra propostas que limitem o poder de investigação do Ministério Público. "É preciso que o órgão continue tendo a liberdade para combater todas as ameaças aos direitos dos brasileiros", disse Gurgel

Frase

"No Brasil, dependendo da carga de manchetes da imprensa, a pessoa já está condenada"

Presidente Lula

Lula pede cuidado com ""biografia dos investigados""

Na solenidade de posse de novo procurador, ele pede que Ministério Público aja com ""máxima seriedade""

Em meio à série de denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem ao novo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que o Ministério Público deve levar em consideração a biografia dos investigados. Em 18 de junho, do Casaquistão, Lula já fizera apelo similar, ao questionar a ligação do senador com os atos secretos e declarar que Sarney tem histórico e não pode ser tratado como "pessoa comum".

"A única coisa que eu peço é que uma instituição que tem o poder que tem o Ministério Público brasileiro, garantido pela Constituição, tem o dever e a obrigação de agir com a máxima seriedade, não pensando apenas na biografia de quem está fazendo a investigação, mas pensando, da mesma forma, na biografia de quem está sendo investigado", afirmou Lula ontem, na última cerimônia de posse de um procurador-geral em que participa como presidente.

"No Brasil, dependendo da carga de manchetes da imprensa, a pessoa já está condenada. Depois, não adianta ser absolvida, porque não valeu nada aquilo, a pessoa já está condenada", afirmou o presidente.

A declaração está afinada com apelo do próprio Sarney aos colegas, em 16 de junho, no seu primeiro discurso sobre a crise no Senado. "É injustiça do País julgar um homem como eu, de postura austera, família bem composta", declarou, à época, o senador. "Nunca neguei um voto que fosse a não ser no sentido de avançarmos na melhoria dos costumes da Casa."

À tarde, porém, quando questionado pela imprensa sobre as interceptações telefônicas reveladas ontem pelo Estado, que reforçam as suspeitas sobre Sarney, Lula evitou voltar ao assunto. Após participar do lançamento do Plano Safra de Agricultura Familiar 2009/2010, no Museu da República, ele passou direto pelos jornalistas, que perguntavam se o governo continuaria defendendo Sarney.

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que no decorrer da crise também deu declarações a favor do presidente do Senado, também saiu do evento sem dar uma palavra sobre o aliado no Congresso.

""CASTRAMENTO""

No primeiro evento de que participou, ao lado de Gurgel, Lula também alertou que o Congresso pode se sentir motivado, ante abusos, a promover alterações na Constituição para reduzir os poderes do Ministério Público. "Sabemos que a mudança nunca será por mais liberdade, mas por mais castramento."

Apesar do apelo e de criticar o "show de pirotecnia" em alguns casos, Lula avisou que jamais vai interferir em investigações feitas pelo Ministério Público. "Eu não tenho dúvida de que neste um ano e meio que vamos ter pela frente jamais farei um pedido, um alfinete para impedir investigação."

Prova disso, segundo ele, foi o fato de ter indicado, desde o primeiro mandato, os procuradores mais votados pela categoria e incluídos em lista tríplice não-oficial encaminhada ao Palácio do Planalto.

"Isso foi por garantia minha. Se amanhã alguém disser que o procurador não é bom, a culpa é da categoria", disse o presidente, arrancando risos da plateia. Pela Constituição, Lula poderia escolher livremente um membro da carreira para comandar o Ministério Público.

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