terça-feira, 6 de julho de 2010

O que pode fazer diferença na urna:: Raymundo Costa

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Talvez maior até que em campanhas passadas, é alto o ruído em torno das pesquisas eleitorais. Sem motivo aparente, a não ser o clima do já ganhou que tenta consolidar a impressão segundo a qual a vitória do governo é mera questão de tempo. A única novidade, no universo das pesquisas, é que dirigentes de institutos trocaram o bastidor pelo centro da cena. Eles opinam, torcem e apostam. É gato na tuba. Vuvuzela eleitoral. A ansiedade, pelo visto, venceu a prudência. Menos mal se for apenas por vaidade intelectual.

De cada número ou índice divulgado até agora, é possível tirar a conclusão ao gosto do freguês. Até mesmo aquela que foge às teorias conspiratórias do momento, conforme o registro das últimas edições do Datafolha e do Ibope: a disputa presidencial de 2010 não tem um vencedor indiscutível no horizonte. O eleitor ainda precisa ir a uma cabine de votação, no próximo dia 3 de outubro, e digitar o número do seu candidato favorito.

O ex-deputado Delfim Netto costuma dizer que, sob tortura, os números confessam qualquer coisa. Mas há alguns números que falam por si mesmos. Se não falam, o PT se encarrega de cornetear. O desempenho de José Serra nas pesquisas de opinião, por exemplo, parece indicar que o ex-governador de São Paulo tem um teto, está sempre na faixa entre os 35% e 40% das intenções de voto - a média aritmética do tucano, nas seis últimas pesquisas do Datafolha, é de 39%.

O ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, morto em 1997, não gostava muito dessa história de média aritmética. Se alguém botasse um sujeito com a cabeça no fogão e os pés na geladeira - dizia -, a média estaria na barriga. O que não quer dizer, neste caso, que a temperatura média está ótima. Para registro: Nesse mesmo período, a média aritmética de Dilma é de 32%. A candidata do PT saiu de pouco (26%), na extração de dezembro do Datafolha, para muito (38%), na pesquisa divulgada no último dia 1º de julho.

Ninguém no PT sabe dizer qual é o teto de Dilma, se ele já foi alcançado ou se apenas diminuiu a força da transferência de votos de Lula. Já no PSDB os 39% alcançados por Serra são vistos quase como um patrimônio pessoal do tucano, patamar a partir do qual deve dar o bote no horário eleitoral gratuito, quando as diferenças entre os candidatos passam a ser aferidas. Para os tucanos, a campanha no rádio e televisão, que começa em 17 de agosto, é que fará a diferença.

Os petistas não têm a resposta sobre se Dilma atingiu um teto ou pode alcançar um pouco mais antes da campanha nos meios eletrônicos. Mas têm soluções engatilhadas que vão além do gogó de Lula. E todas elas passam pelo governo, cujas engrenagens continuam se movimentando para eleger a candidata oficial no dia 3 de outubro e assim evitar o embate de segundo turno, no qual a candidata teria de se expor mais do que se prevê que ela faça daqui até a eleição.

Na avaliação do PMDB, parceiro de chapa de Dilma Rousseff, o que decide uma eleição rigorosamente empatada chama-se máquina governamental. Não existe transferência de votos sem um governo com desempenho ao mesmo razoável e uma caneta cheia de tinta por trás. Lula é um presidente vaidoso, mas também tem a noção muito clara do poder da máquina federal à sua disposição. Graças a ela conseguiu construir do nada uma candidatura competitiva às eleições, já faz algum tempo, desde que apresentou ao país a "Mãe do PAC", no início de 2007.

O governo ainda tem muita lenha para queimar, mesmo que seja o simples anúncio das obras selecionadas para o PAC 2. É bem verdade que as obras físicas do primeiro PAC mal saíram do papel (distinção importante porque o governo diz que chegou aos 70% da execução financeira), mas em tempos de campanha eleitoral para presidente vale inaugurar até terreno baldio.

Em agosto, às vésperas do início do horário eleitoral gratuito, mês do Dia dos Pais, o governo também pretende pagar os atrasados referentes ao aumento dos aposentados. Como se recorda, o presidente enviou ao Congresso uma medida provisória concedendo aumento de 6,14% aos aposentados que ganham mais de um salário mínimo. O Congresso aumentou este percentual para 7,7%. A equipe econômica recomendou o veto, mas o presidente, sob os aplausos do comitê de Dilma, sancionou o aumento de 7,7%.

Desde janeiro o governo já paga os 6,14% estabelecidos na medida provisória. Agora, deve a diferença relativa a cinco meses, de janeiro a junho, o que deve beneficiar algo em torno de oito milhões de aposentados e irrigar a economia com cerca de R$ 1 bilhão. É dinheiro bastante em circulação, às vésperas da eleição, numa economia já aquecida.

Isso quer dizer que Serra já perdeu a eleição? Não. Só que o arsenal à disposição do governo é bem fornido e Lula demonstra que pode recorrer a ele sem constrangimentos.

Interlocutor assíduo do ex-governador Aécio Neves diz ser um "estresse paulista" que não faz sentido a dúvida no PSDB sobre o empenho do mineiro para eleger José Serra presidente.

Explicação: há uma enorme diversidade regional em Minas Gerais. Grande parte do estado (Norte, Jequitinhonha, Mucurí, etc.) é semelhante ao Nordeste; Zona da Mata se assemelha aos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo e o Triângulo Mineiro e o Sul se identificam mais com São Paulo.

O comportamento eleitoral de Minas deve seguir essas diferenças. Em grande parte do Estado (Norte e Nordeste), independente de esforço do governador, a tendência será votar com o candidato de Lula. Já nas regiões limítrofes a São Paulo e na região metropolitana o desempenho do ex-governador paulista deverá ser maior.

O mesmo raciocínio serve em ao candidato apoiado pelo PT, o pemedebista Hélio Costa ao governo estadual: ele terá dificuldades nas regiões onde o governo estadual está muito bem avaliado. Em resumo, Aécio tem demonstrado apoio o Serra mas sua influência é muito limitada.

Há também duas frustrações que podem se manifestar nas urnas: a de não ter um mineiro concorrendo à Presidência e a frustração dos petistas por não ter candidato próprio a governador, no momento que tinha mais chances de vencer.

Raymundo Costa é repórter especial em Brasília.

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