segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

José Roberto Mendonça de Barros - Quem enfrentará bem 2015?

- O Estado de S. Paulo

• Incertezas são muitas e variadas, mas os setores mais preparados, como o agronegócio, poderão colher frutos graças à valorização do dólar frente ao real

O cenário para o próximo ano se afigura como desafiador. O volume de incertezas ainda é muito grande e vão desde a natureza do ajuste prometido pela nova equipe econômica até a crise internacional, passando pelas consequências, políticas e econômicas, do Petrolão.

Será possível extrair algo de mais firme para a construção de cenários para setores e empresas?

É o que tentamos fazer a seguir.

Em primeiro lugar, precisamos destacar algumas variáveis que devem, com boa probabilidade, ter tendências definidas em meio a atual volatilidade.

As mais relevantes são:

- bom crescimento nos Estados Unidos; fraco na Europa, Japão, exportadores de petróleo e muitos emergentes.

- preços baixos de commodities. No caso das agrícolas, o consumo continua forte e as cotações refletem mais do que tudo a grande safra americana. Isto posto, os preços podem se recuperar adiante por flutuações da oferta (como está acontecendo com o trigo, dadas as dúvidas quanto ao efeito da seca na produção russa). Nos metais e minérios, a queda de demanda veio para ficar por um bom tempo e os preços devem seguir baixos, dado o excesso de capacidade produtiva. Finalmente, por queda de demanda e elevação da oferta (sem redução de produção por parte da Opep), os preços do petróleo não só deverão seguir baixos, como poderão cair ainda um pouco mais.

- valorização do dólar, alta nos juros americanos e elevação do custo de colocação de papéis de empresas brasileiras no exterior.

- desvalorização adicional do real.
- crédito muito mais seletivo; elevação do custo do passivo externo.
- elevação de alguns tributos, como parte do programa de ajuste.

Oportunidades. Onde estarão algumas oportunidades? Quais setores mais bem defendidos?

A lista que se segue, evidentemente, é sugestiva e não extensiva.

Em primeiro lugar, as exportações industriais estão estimuladas em decorrência da forte desvalorização cambial (que, ao longo do próximo ano, poderá ser ainda maior). Leva tempo e exige esforço, mas não tenho dúvidas que a indústria vai exportar mais. Por exemplo, as vendas externas de bens de capital cresceram, em dólares, algo como 13% de janeiro a outubro deste ano, em relação ao ano passado.

Embora passando por uma situação difícil, temos no Brasil muitas indústrias eficientes e produtivas (particularmente multinacionais), que, com o câmbio, poderão exportar. No caso dos bens de capital, boa parte do crescimento dos embarques se deu em direção aos Estados Unidos e à Europa.
Ao mesmo tempo, está aberta a porta para a nacionalização de componentes e partes, especialmente no setor automotivo, onde temos muitas novas plantas e produtores.

O agronegócio é, sem dúvida, o segmento mais preparado para 2015. Não há, como mencionado, um desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda e os preços podem melhorar no futuro próximo. A rentabilidade deve cair um pouco em grãos, mas os últimos cinco anos foram magníficos.

Além disso, a desvalorização do real afeta positivamente toda a receita, mas nem toda a despesa (por exemplo, salários e outros serviços), o que melhora as margens.

Mais ainda, por conta do petróleo, muitos insumos caíram em dólares (a uréia no golfo caiu mais de 20%), o que mitiga um pouco a elevação do custo de importação.

Mesmo o etanol, tão machucado, deve melhorar com a esperada reintrodução do imposto ambiental, a Cide, e o enfraquecimento do real. Exceto pelo clima, o ano deverá ser bom.

Nos últimos meses, a nafta petroquímica caiu bem mais que o petróleo, dada a grande oferta de propano, derivada da crescente produção do ‘shale gas’ nos Estados Unidos, entre outros fatores. Como a petroquímica brasileira se baseia na nafta, muitos segmentos estão sendo beneficiados. Em particular, a produção de eteno e a cadeia do plástico recebem um merecido alivio nos custos. Ainda no setor químico, a crise hídrica está implicando numa enorme demanda de produtos para tratamento de água, saneamento e tratamento de efluentes, buscando o reuso do produto. Os investimentos nestes segmentos irão crescer bastante e extrapolarão 2015.

Outro complexo importante que deve continuar a desempenhar bem é o de saúde, indústria farmacêutica, higiene, beleza e farmácias. Nesta área o envelhecimento da população traz maiores demandas e tanto o setor público quanto empresas e famílias gastam cada vez mais para atender suas necessidades.

O mercado de trabalho vem desacelerando e não esperamos crescimento real na massa salarial para o ano que vem. Com isso, o consumo de bens mais dispendiosos, como carros e outros bens duráveis são claramente prejudicados. Ao mesmo tempo, os bens não duráveis acabam relativamente beneficiados, uma vez que a reorganização dos orçamentos familiares acaba dando mais atenção à alimentação e outros setores não duráveis.

Finalmente, queria chamar a atenção que, em situações como a que estamos vivendo, existe um processo natural de consolidação, uma vez que empresas alavancadas acabam tendo dificuldades, podendo ser absorvidas por aquelas com maior fôlego financeiro e disposição para crescer em momentos difíceis.

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