terça-feira, 23 de junho de 2015

Bernardo Mello Franco - Lula e os pés de barro

- Folha de S. Paulo

Quando Marina Silva virou favorita na tumultuada campanha de 2014, Lula confidenciou a aliados que uma derrota do PT não seria tão ruim assim. "Ruim mesmo é a Dilma ganhar e não mudar", disse, segundo o relato de um petista.

Dilma ganhou, e as coisas mudaram para pior. Ela perdeu o controle da economia, viu sua base se esfarelar no Congresso e se tornou a presidente mais rejeitada desde Collor.

Na semana passada, Lula reclamou da sucessora e disse a religiosos que os dois chegaram ao "volume morto". Ele reconheceu que Dilma mentiu para se reeleger e agora está fazendo o oposto do que prometeu.

Nesta segunda, o ex-presidente estendeu as queixas ao PT. Afirmou que o partido "está velho", "só pensa em cargo" e sucumbiu ao "cansaço". Só faltou dizer que seria melhor ter perdido a eleição do ano passado.

Lula deixou o poder como o governante mais popular da história recente. Recebeu homenagens, manteve o discurso triunfalista e foi descrito como um "Pelé no banco de reservas". Seu retorno ao Planalto parecia ser questão de vontade. Bastaria estalar o dedo para voltar nos braços do povo, como Getúlio em 1950.

A guinada no discurso sugere que o ídolo se descobriu com pés de barro. O Datafolha confirmou que ele ainda é forte, mas deixou de ser imbatível. Se a eleição de 2018 fosse hoje, teria apenas 25% dos votos.

O ex-presidente fez o desabafo aos religiosos na quinta-feira, antes de a Lava Jato atingir os chefes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez. Seria interessante vê-lo de volta ao confessionário no dia seguinte, depois da prisão dos amigos empreiteiros.

Em março, o ex-ministro Cid Gomes caiu por apontar "300 ou 400 achacadores" na Câmara. Nesta segunda, os repórteres Natuza Nery e Ranier Bragon mostraram como um grupo de 243 deputados ameaçou o governo para arrancar a liberação de emendas. Se Cid errou, foi na conta.

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