domingo, 19 de junho de 2016

Cego em tiroteio – Ferreira Gullar

- Folha de S. Paulo

Tenho assistido pela televisão ao processo de impeachment de Dilma Rousseff no Senado Federal. Confesso que me falta paciência para ouvir tanto falatório, leitura da peça de acusação e, pior ainda, a intervenção de certas figuras que ostentam a condição de senadores da República, para nosso constrangimento.

Mal conseguem formular o que pensam e, quando o conseguem, é num português digno de um mau aluno do curso primário. Mas isso é o de menos, porque falar errado tanto é comum a eles como aos apresentadores do programa, com raras exceções.

Não quero aborrecer vocês com minhas gramatiquices, mas é duro ouvir o cara dizer "eram várias milhões de pessoas".


E já observaram que quase todos os verbos agora têm como regência o advérbio "sobre"? Em vez de "comentou o problema", dizem "comentou sobre o problema"; em vez de "tratou do assunto", dizem "tratou sobre o assunto". As palavras "este" e "esta" não se usam mais: agora é "esse" e "essa". Outra palavra excluída da fala desse pessoal é "quando", substituída sempre por "onde". Não dizem "naquela ocasião, quando a encontrei", e sim "onde a encontrei". Mas não são só eles que falam assim; razão pela qual temo que, em breve, talvez o certo será falar errado.

Mas deixemos isso para lá, uma vez que o país inteiro está mesmo interessado é na questão política, do impeachment de Dilma às propinas da Lava Jato, que deram aos jornais de televisão maior audiência que as novelas.

Como todo mundo sabe, o PT chegou ao poder para não sair mais. José Dirceu mesmo, com poucos meses de governo, numa viagem a Portugal, declarou, ao chegar lá: "Ganhamos a eleição, e vamos ficar no poder por, pelo menos, 20 anos".

Claro, "no mínimo", porque, como Hugo Chávez e Evo Morales, o projeto também de Lula era de fato não sair mais. Para isso, valeram-se de tudo. Evo Morales, por exemplo, que já governa por três mandatos, mudou o nome do país de República da Bolívia para Estado Plurinacional Boliviano, e argumentou: "Como o país agora é outro, tenho o direito a mais mandatos". E ressalvou: "Mas não pensem que quero me eternizar no poder". Claro que não! Para comprová-lo, depois de dez anos no governo, propôs recentemente nova reeleição, mas aí o povo boliviano achou que já era demais e disse não.

Lula, por sua vez, bem que tentou o terceiro mandato, mas, como isto aqui não é exatamente uma Bolívia, teve que pôr Dilma em seu lugar. O plano dele era voltar ao poder nas eleições seguintes, mas, quando viu o estrago que ela havia feito no país, desistiu e deixou-a candidatar-se de novo, porque bobo ele não é. Quem pariu Mateus que o embale.

Pois bem, a coisa deu no que deu, e ela acabou afastada. Está fora do governo e, ao que tudo indica, para sempre. Não foi à toa que o próprio Lula procurou o Sarney para, chorando, confessar-lhe que o maior arrependimento que tem na vida é ter elegido Dilma presidente da República. Mas iria eleger quem? Líder populista não deixa crescer ninguém em volta dele, tanto assim que, no lugar de Chávez, quem entrou foi o gaiato e imaturo Maduro.

Mas voltemos à discussão do impeachment de Dilma no Senado brasileiro. Atenho-me à sessão em que as testemunhas de acusação foram chamadas a depor. Os petistas, em face dos depoimentos irrespondíveis, tudo faziam para atropelar-lhe as respostas, levantando questões descabidas e aludindo a dispositivos legais que nada tinham a ver com as acusações que fundamentaram o pedido de impeachment.

Isso sem falar nas ocasiões em que não só perguntavam, como queriam responder no lugar da testemunha, como fez a senadora Gleisi Hoffmann. Lindbergh Farias usa de outra tática: inventa leis e decisões inexistentes para desautorizar as teses do depoente. Quando percebem que seus truques não estão surtindo efeito, passam a gritar ou se retiram da sala.

Porém o mais extravagante em tudo isso é que os petistas, embora já não queiram mais que Dilma volte ao governo, se veem obrigados a lutar para que volte. E daí a impressão que temos de estarem mais perdidos do que cego em tiroteio.
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Ferreira Gullar é ensaísta, crítico de arte e poeta

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