quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna

Não dá para recusar: por mais desalentadora que tenha sido essa eleição com tantas abstenções, votos em branco ou nulos, ela estabeleceu um marco divisório na política brasileira. Não certamente pelo advento de novas narrativas que trouxessem alento para uma sociedade incerta dos seus caminhos quanto a seu futuro, menos ainda pelo surgimento de novas identidades coletivas ou de personagens que semeassem palavras de esperança, que nos faltaram. Mas, se ela não nos traz o novo, enterra um passado que nos tem pesado como chumbo, nesse longo ciclo errático que vai de Vargas a Lula-Dilma, em que temos sido prisioneiros do processo de modernização por cima que nos trouxe ao mundo com seu culto à estatolatria – do Império de um visconde do Uruguai à República com a linhagem que se inicia com Oliveira Vianna.

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Luiz Werneck Vianna é sociólogo PUC-Rio. ‘Um pouco de quixotismo não faz mal a ninguém’, O Estado de S. Paulo, 6/11/2016.

Senado aprova cláusula de barreira a partidos e fim de coligações

• De acordo com texto, legendas terão de obter, no mínimo, 2% dos votos válidos para Câmara e em 14 unidades da Federação

Erich Decat, Alline Magalhães e Paulo Palma Beraldo - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Senado aprovou na noite desta quarta-feira, 9, em primeiro turno, a proposta de emenda à Constituição que estabelece cláusula de barreira para as legendas que irão disputar as próximas eleições de 2018. De acordo com o texto aprovado, os partidos terão de obter, no mínimo, 2% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados, em 14 unidades da Federação, para ter representatividade no Congresso e acesso ao fundo partidário e ao programa eleitoral de rádio e TV. O porcentual de desempenho sobe para 3% a partir de 2022.

“A PEC é uma resposta que o Senado dá à sociedade brasileira que não pode mais conviver com 35 partidos políticos registrados e mais de 30 partidos com solicitação de regularização no Tribunal Superior Eleitoral”, afirmou o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), um dos autores da proposta. O outro autor, Ricardo Ferraço (PSDB-ES), também comemorou. “Acabou a farra de partido político no Brasil. Não podia continuar como estava”, disse ele.

Derrota. Durante a discussão no plenário, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), chegou a apresentar uma sugestão para flexibilizar os porcentuais de desempenho. Na proposta do senador, a cláusula seria de 1% em 2018, 1,5% em 2022 e 2% em 2026. No entendimento de Randolfe, tais porcentuais poupariam legendas consideradas ideológicas, como Rede, PSOL, PPS, PV e PCdoB.

Barreira a pequenos partidos e fim de coligações avançam

• Senado aprova parte da reforma política

Por 58 votos a 13, o Senado aprovou ontem a proposta de emenda constitucional que determina o fim das coligações nas eleições proporcionais e estabelece uma cláusula de desempenho, que dificultará o acesso de pequenos partidos ao Fundo Partidário e ao horário eleitoral. Na Câmara, o projeto deve enfrentar resistência.

Um freio nos partidos

• Senado aprova cláusula de barreira e fim das coligações; na Câmara votação é mais difícil

Júnia Gama e Simone Iglesias - O Globo

-BRASÍLIA- O Senado aprovou ontem, em primeiro turno, por 58 votos a 13, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que estabelece o fim das coligações nas eleições proporcionais a partir de 2020 e cria cláusula de desempenho para limitar o acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda gratuita de rádio e TV. De autoria dos senadores tucanos Ricardo Ferraço (ES) e Aécio Neves (MG), a emenda pretende conter a proliferação de partidos. A medida ainda tem de ser aprovada em segundo turno, previsto para o dia 23, antes de seguir para a Câmara, onde deve enfrentar maiores dificuldades pela grande quantidade de pequenos partidos que brigarão para derrotar a restrição às chamadas legendas de aluguel .

O plenário do Senado rejeitou destaques ao texto e aprovou substitutivo elaborado pelo líder do governo na Casa, Aloysio Nunes (PSDBSP). O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), rejeitou argumentos apresentados pela oposição de que a medida irá prejudicar os partidos pequenos:

Senado aprova em 1º turno reforma política que acaba com coligações

Débora Álvares – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Os senadores aprovaram na noite desta quarta-feira (9), em primeiro turno, uma proposta de reforma política cuja intenção é reduzir o número de partidos. Isso se dará pelo fim das coligações e por uma cláusula de barreira estabelecida pelo texto.

A PEC (Proposta de Emenda Constitucional) passou por um placar de 58 a 13. Antes de seguir para a Câmara dos Deputados, ainda passará por uma segunda votação no Senado, agendada para o dia 23 de novembro.

As coligações proporcionais serão permitidas até as eleições de 2020, quando ocorrerá pleito municipal para eleger prefeitos e vereadores.

Já a cláusula de barreira estabelece normas para o funcionamento dos partidos. Cada sigla terá a atividade vinculada à aquisição de 2% dos votos válidos em todo o país a partir das eleições de 2018. Esse percentual deve estar distribuído em, pelo menos, 14 Estados, cada um deles também devendo ter 2% dos votos. Para se fazer uma transição, em 2022, esse percentual subiria para 3%.

Cláusula de desempenho passa no Senado

Por Vandson Lima e Fabio Murakawa – Valor Econômico

BRASÍLIA - O plenário do Senado aprovou, em primeiro turno, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que estabelece uma cláusula de desempenho para atuação de partidos políticos e acaba com as coligações em eleições proporcionais a partir de 2020.

A PEC foi formulada pelos senadores do PSDB Ricardo Ferraço (ES) e Aécio Neves (MG) e ainda precisa passar por uma segunda votação no Senado, que deve ocorrer no dia 23, antes de seguir para a Câmara dos Deputados.

Os partidos só terão funcionamento parlamentar, com acesso ao fundo partidário e ao tempo de rádio e TV, se tiverem, a partir das eleições de 2018, um mínimo de 2% dos votos válidos em todo o país, que devem estar distribuídos em pelo menos 14 unidades da Federação, com percentual mínimo também de 2% em cada uma delas. Este percentual sobe para 3% a partir de 2022.

Este ponto causou controvérsia no plenário. Senadores da oposição alegaram que, aplicada essa regra, siglas como PPS, PCdoB, Psol e Rede, que tem atuação efetiva, seriam inviabilizadas. Sugeriram que a regra fosse aplicada com maior espaçamento, mas foram derrotadas. Por isso, o PT, por exemplo, votou contra a PEC.

O EFEITO TRUMP

Presidente eleito faz discurso conciliador, mas EUA e aliados mergulham na incerteza

Política econômica ainda é incógnita, e analistas temem guinada protecionista

Apesar do discurso de união nacional feito pelo 45º presidente eleito dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, a memória da campanha agressiva e das promessas polêmicas levou os americanos e seus parceiros mundiais a mergulharem em incertezas diante da falta de experiência e do estilo explosivo do futuro comandante do país. O presidente Barack Obama e a candidata democrata derrotada, Hillary Clinton, também defenderam uma transição amena, mas já no discurso da vitória Trump sinalizou que buscará viabilizar sua agenda conservadora e nacionalista: “Prometo que serei o presidente para todos os Estados Unidos. Vamos renovar o sonho americano.” A onda conservadora que as urnas irradiaram assustou grande parte do mundo, mas foi bem recebida pela extrema-direita europeia. Mesmo com maioria republicana na Câmara e no Senado, Trump não terá, porém, poderes ilimitados. Economistas temem uma guinada protecionista e um revés na globalização, ressaltando a falta de clareza sobre a política econômica que o futuro presidente deverá implementar. As Bolsas globais reagiram com fortes quedas na abertura dos mercados, mas depois reduziram as perdas diante da avaliação de que muitas das propostas do candidato não conseguirão ser postas em prática.

NOVO TOM A ERA DA INCERTEZA

• Trump adota mensagem conciliadora no primeiro discurso como presidente eleito, mas estilo raivoso preocupa republicanos e pode obrigá-lo a ter de buscar apoio para governar

Henrique Gomes Batista - O Globo

Trump será o presidente com maioria mais ampla no Congresso em 8 décadas

• Distribuição de cadeiras na Câmara e no Senado favorece republicanos, mas novo líder precisará negociar com grupos dentro do próprio partido para aprovar pautas como o aumento do teto de gastos públicos; democratas usarão obstrução

Cláudia Trevisan – O Estado de S. Paulo

O presidente eleito Donald Trump assumirá a Casa Branca no dia 20 de janeiro com a maior base republicana no Congresso desde 1928 e a disposição de usar o poder do Executivo para transformar elementos fundamentais das políticas externa, econômica e social dos EUA. Mas os democratas terão o poder de usar a obstrução para bloquear ou retardar a aprovação das propostas no Senado.

“Nós veremos mudanças gigantescas de políticas públicas e há muitas coisas que o presidente pode fazer por decreto”, afirmou David Birdsell, reitor da Escola Marxe de Relações Públicas e Internacionais.

Apesar de ter maioria no Congresso, o professor avaliou que Trump poderá entrar em conflito com setores do Partido Republicano que defendem a redução do déficit público e se opõem ao aumento de gastos governamentais.

Contrariando os conservadores fiscais da legenda, o presidente eleito prometeu manter benefícios sociais e ampliar investimentos em infraestrutura.

Eleito, Trump deve unir políticos e executivos para reformar governo

Marcelo Ninio, Anna Virginia Balloussier – Folha de S. Paulo

NOVA YORK - Numa guinada da retórica agressiva adotada durante a campanha, Donald Trump assumiu tom conciliatório em seu discurso da vitória, na madrugada de quarta (9), logo após a confirmação de que se tornará o próximo presidente dos Estados Unidos.

A diferença foi o primeiro indício do que poderá ser a cara de seu governo, enquanto circulam especulações de quem o bilionário chamará para compor seu gabinete.

"Agora é hora de os EUA curarem as feridas da divisão, de promover a união. A todos os republicanos, democratas e independentes de todo o país, digo que é hora de nos unirmos como um só povo", disse o presidente eleito em um hotel em Nova York, a poucas quadras da Trump Tower, onde vive.

A versão Trump paz e amor também se estendeu a sua rival na disputa, a democrata Hillary Clinton, a qual passou os últimos meses chamando de "trapaceira" e merecedora de estar na cadeia pelo uso de um servidor privado de e-mail quando era secretária de Estado (2009-2013). Trump contou ter sido recebido um telefonema de Hillary pouco antes do discurso, em que ela o parabenizou pela vitória.

'Pânico' inicial com Trump cede e avaliações ficam mais cautelosas

- Valor Econômico

SÃO PAULO - Foi menos dramático do se imaginava o dia seguinte da eleição de Donald Trump para a Presidência dos EUA. As bolsas de todo o mundo abriram em clima tenso, com quedas relevantes, da ordem de 5%, mas depois se acalmaram. O discurso de vitória conciliador do eleito alimentou a expectativa de que o presidente Trump possa vir a ser mais sensato do que foi o candidato. Até a Bolsa de Nova York, que abriu com forte queda, terminou o pregão em alta de 1,4%.

No Brasil não foi diferente. "Treino é treino, jogo é jogo", disse o chanceler José Serra, que em julho havia chamado a possível eleição de Trump de "pesadelo". A Bovespa abriu em queda acentuada e fechou com variação negativa de 1,41%. O dólar subiu só 1,34%, para R$ 3,21.

O Valor ouviu empresários de vários setores e colheu discursos que, em geral, consideraram relativos os efeitos para o Brasil de um eventual governo protecionista. Marco Polo de Melo Lopes, do Instituto Aço Brasil, disse que presidentes republicanos e democratas sempre sobretaxaram o aço brasileiro. 

A Gerdau está otimista, porque produz 35% do aço nos EUA e Trump promete investir em infraestrutura. A Embraer, também com fábrica nos EUA, diz que no curto prazo pode haver repercussões por conta do câmbio, mas acha que Trump terá efeito neutro na demanda mundial de aviões. 

Fernando Figueiredo, da Abiquim, não acredita que Trump possa ser mais protecionista que Obama no setor químico. Nas montadoras, a expectativa é que a nova gestão possa até abrir oportunidade para o Brasil e outros países da América Latina, com perda para o México.

Pezão procura Temer e Meirelles em busca de recursos para o Rio

• Segundo o governador, dinheiro da repatriação não resolverá problemas

Gabriela Valente, Catarina Alencastro e Isabel Braga - O Globo

-BRASÍLIA- Sem recursos para pagar todas as contas até o fim do mês, o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, passou os últimos dias em Brasília de pires na mão. Depois de visitar o Supremo Tribunal Federal (STF), falar com parlamentares e se reunir com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ele foi apelar ao presidente Michel Temer.

O governador ficou com o presidente até as 23h de anteontem e teve de se convencer de que o governo federal não pode ajudar apenas o Rio de Janeiro, já que outros estados também enfrentam problemas financeiros.

Antes da reunião com Meirelles, ontem pela manhã, o governador disse que o dinheiro extra arrecadado com a lei da repatriação de recursos do exterior (o Rio receberá R$ 88 milhões) não será a solução para os graves problemas de caixa. Ele afirmou que o assunto foi tratado no encontro com o presidente Michel Temer.

— Não é a repatriação, uma receita extraordinária de um mês, que vai resolver os problemas dos estados. Pode resolver um problema momentâneo — afirmou Pezão.

Presidente da Câmara quer ajuda da União a estados

• Rodrigo Maia diz que eventual projeto do Planalto seria aprovado em 24 horas; deputados sugerem intervenção

Gabriela Valente, Isabel Braga e Leticia Fernandes - O Globo

O governador Luiz Fernando Pezão ganhou apoio para tentar convencer a União a ajudar os estados que, como o Rio, enfrentam uma crise financeira. Ontem, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que pediu ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que faça um levantamento do que pode ser aprovado no Congresso Nacional para auxiliar os governos. Ele garantiu que uma eventual proposta do Palácio Alvorada seria discutida, votada e aprovada em 24 horas.

— Pedi para o ministro e a Secretaria do Tesouro avaliarem o que é possível, algo que não provoque impacto do ponto de vista fiscal. Queremos um texto. E o que for feito passará na Câmara em 24 horas — disse Maia. — A gente pediu celeridade. Não é para ficar estudando três semanas. Eu quero uma decisão amanhã. O que pode ser feito do ponto de vista legislativo? Aquilo que for feito passará, pois não é uma crise que atinge o partido A ou o partido B.

Defensoria tenta impedir cortes na área social

• Órgão pede manutenção dos benefícios para a população de baixa renda

- O Globo

Algumas medidas anunciadas pelo governo estadual para tentar frear a crise financeira do estado estão na mira da Defensoria Pública do Rio, principalmente as propostas que afetam a população de baixa renda. O órgão quer impedir a extinção dos programas Aluguel Social e Renda Melhor, além de evitar a fixação do teto de R$ 150 mensais de repasse para o Bilhete Único e da alíquota previdenciária de 30% para aposentados e pensionistas que recebem menos de R$ 5.189 mensais (proposta que já foi rejeitada pela Assembleia Legislativa).

No caso do Aluguel Social, que garante moradia a quem vive em áreas de risco, a Defensoria Pública afirma que 35% das famílias inseridas no programa foram retiradas de suas casas pelo governo com promessas de reassentamento. O órgão defende a continuidade do projeto até que os dez mil beneficiados ganhem casas em caráter definitivo. Desde maio, a Defensoria Pública garante o repasse do dinheiro do programa — R$ 5 milhões mensais; R$ 400 por imóvel — por meio de medidas judiciais.

Obstáculo ao pacote

• Alerj decide devolver ao governo projeto que criava alíquota extra, a principal medida anticrise

Renan França - O Globo

A recusa da Alerj a votar o projeto que cria alíquotas extraordinárias para a previdência no Estado do Rio compromete todo o pacote anticrise, alerta o economista Raul Velloso. Com o projeto, o estado arrecadaria mais R$ 6,8 bi em 2017. 

Enquanto servidores protestavam ontem em frente à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) contra o pacote de ajustes do estado, o presidente da Casa, deputado Jorge Picciani, anunciava a decisão de devolver ao governo o projeto de lei que prevê a criação de alíquotas de contribuições previdenciárias extraordinárias de 16% e 30%. 

Segundo o parlamentar, os 16 deputados do PMDB (partido do governo) apoiaram a devolução e, em contrapartida, comprometeram-se a discutir as demais 21 propostas do Executivo. Parlamentares de outros partidos também estariam de acordo com a posição do PMDB. A recusa da Alerj em votar a cota extra causa um problema para o estado, pois a medida representaria um aumento na arrecadação de R$ 6,8 bilhões em 2017, metade do ganho previsto se todo o pacote fosse aprovado.

Protesto de servidores tem confronto, comércio fechado e um detido

• Manifestantes tentam invadir Alerj, mas, desta vez, PM reage com bombas

Antônio Werneck e Gustavo Goulart - O Globo

Uma nova manifestação contra o pacote de ajustes do governo voltou a provocar, ontem, tumulto em frente à Assembleia Legislativa (Alerj). Servidores tentaram invadir o Palácio Tiradentes à tarde, mas, diferentemente do que aconteceu na terça-feira, policiais da tropa de choque da Polícia Militar reagiram e conseguiram conter a multidão. Foram usadas bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Anteontem, a PM não fez nada para impedir que centenas de funcionários da área de segurança ocupassem o plenário da Casa e depredassem móveis e portas.

Durante a confusão, o servidor Diogo de Carvalho, do Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas (Degase), foi detido. Ele foi ouvido na 5ª DP (Rua da Relação) e liberado no fim da tarde.

Sem onda conservadora - Roberto Freire

- O Globo

• É equivocado dizer que todos aqueles que se opõem ao PT são direitistas

Após verem sepultada a narrativa de que Dilma Rousseff foi apeada do Planalto por meio de um “golpe”, o PT e seus satélites tentam justificar a acachapante derrota nas eleições municipais com uma outra tese igualmente desprovida de qualquer sentido. A palavra de ordem entoada pelo núcleo duro do lulopetismo é de que o Brasil teria sido tomado, nas urnas, por uma “onda conservadora”.

Na realidade, o eleitorado rejeitou o projeto de poder representado pelo PT e pelos governos de Lula e Dilma, que nos levaram a uma das maiores crises econômicas de nossa história. Os maiores vitoriosos nas disputas municipais foram os partidos que votaram pelo impeachment e hoje compõem a base de sustentação do presidente Michel Temer — e aqui cabe ressaltar o êxito das legendas que integram o campo da social-democracia e dos partidos da esquerda democrática brasileira, como o PSB, o PPS e o PV. A exceção talvez seja o PDT, partido de esquerda e aliado dos governos petistas, que também experimentou um crescimento eleitoral. Mais uma prova de que a “onda conservadora” é uma narrativa enganosa.

Lições da Trumplândia - José Roberto de Toledo

- O Estado de S. Paulo

• A eleição presidencial nos Estados Unidos é um curso intensivo de comunicação, ciência política, estatística e mídias sociais.

1 - O candidato que aparece mais – não importa como – está sempre em vantagem. Ao contrário do Brasil, onde ao contribuinte sobra a fatura, na Trumplândia, a propaganda eleitoral na TV é paga pelas campanhas e custa caro. Espaço de graça na mídia é mais do que objetivo, é necessidade. Nunca um candidato conseguiu tanta exposição grátis quanto Trump. Não importa que ele mentisse descaradamente e cultivasse o ultraje como programa de governo.

Quanto mais absurdas as declarações, mais Trump aparecia. Os meios tentaram tratar coisas diferentes como iguais e acabaram potencializando a celebridade do republicano. Só deu Trump. Mas se engana quem acha que ele foi apenas um clown.

O mundo mudou - Merval Pereira

- O Globo

“Os homens e mulheres esquecidos nunca mais serão esquecidos novamente. Nós todos vamos estar juntos como nunca antes”. Essas primeiras palavras do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, escritas no Twitter, mostram bem a centralidade que tem para ele a base do eleitorado que o levou à presidência.

Ele pode ter arrefecido o ímpeto no discurso logo após a vitória, pode até não concretizar boa parte das ameaças que brandiu durante a campanha, mas que o mundo mudou na madrugada desta quarta-feira, não tenhamos dúvidas.

Foi uma campanha em que, paradoxalmente, cada candidato enfrentou o melhor adversário que poderia escolher para ser batido. Hillary Clinton, representante máxima do establishment político de Washington, candidata a inaugurar uma oligarquia política duradoura, cheia de arestas morais e exposta à desconfiança pública por palavras e gestos.

O mundo de Trump - Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

• China e outros países asiáticos levam vantagem na concorrência com o Ocidente. Qual será a resposta de Trump?

Estamos todos perplexos, ainda, com ascensão de um empresário arrogante e aventureiro, que faliu quatro vezes e não esconde o passado de sonegador “legal” do fisco de seu país, ao comando da maior potência mundial, os Estados Unidos. Histriônico, xenófobo e machista durante a campanha, Trump atropelou uma quinzena de pretendentes ao posto no seu próprio partido e, depois, derrotou a democrata Hillary Clinton no colégio de “superdelegados”, que define o presidente americano. Ela, com longa estrada na política, venceu a disputa no voto popular. Todas as pesquisas e os principais comentaristas políticos diziam que a ex-primeira dama e ex-secretária de Estado seria a sucessora de Barack Obama, um presidente que orgulharia qualquer país. Deu Donald Trump!

A propósito da eleição, um velho amigo, o sociólogo Marcos Romão, líder negro de sua geração, num comentário carregado de emoção, disparou nas redes sociais: “Quem é este homem que votou no Donald Trump? Sim, eu o vejo na Rússia, na Hungria, na Alemanha, na Polônia, na Argentina, nos EUA, na Argentina e no Brasil. E para onde eu olhar, é um homem, em geral, precarizado no mundo do trabalho, que perdeu todos os direitos que possuía ao perder o emprego seguro que tinha. Este homem que rumina toda tarde diante da televisão, com uma cerveja ao lado, destila no saco um ódio a todos os vizinhos – mexicanos, muçulmanos, negros, estrangeiros, mulheres, gays –, que ele imagina terem ocupado o seu lugar e que seriam as causas de sua desgraça e perda do poder que tinha, em um mundo em ordem, num passado distante.”

A vitória de Donald Trump desnudou tantos tão errados – Roberto Dias

- Folha de S. Paulo

A vitória de Donald Trump desnudou tantos tão errados. E esses não são os eleitores dele, mas os muitos que previram vitória confortável de Hillary Clinton.

O evento eleitoral mais importante da temporada, esquadrinhado de perto por vários dos melhores cientistas de dados e analistas do planeta e alimentado pelo maior volume de dinheiro da política mundial, resultou numa baita zebra.

A certeza equivocada sobre a improbabilidade de vitória dele ecoou por tanto tempo que o efeito manada encaçapou até Obama. Sempre tão perspicaz, ele caiu na armadilha de mais de uma vez fazer chacota de Trump naquele nível "sei-que-isso-não-vai-acontecer".

Deu ruim também para Nate Silver, semideus das previsões estatísticas nos EUA. Depois de errar na convenção republicana, apostou suas fichas em Hillary. Rendeu-se com um post lacônico ("é o acontecimento político mais chocante da minha vida").

Trump e a praça Zuccotti - Maria Cristina Fernandes

- Valor Econômico

• Repressão unilateral da contestação contribuiu à eleição

Foi um voto antissistema, dizem os americanos. Ou anti-establishment, como se fala no Brasil. Ainda que o vitorioso seja um milionário e aqueles que garantiram sua vitória, de maioria branca. O país já teria sucumbido à barbárie se a maioria dos eleitores de Donald Trump compartilhasse da misoginia e da xenofobia do discurso eleitoral. Há de se buscar as razões da contestação para além de raça e gênero.

Não falta quem atribua o resultado a uma aliança conservadora global que arrebatou o eleitor do Brexit, enfezou-se com o plebiscito que bloqueou o acordo com as Farc na Colômbia e já ameaça a permanência da Holanda na União Europeia. E há ainda quem preveja como consequência da era Trump um abalo irremediável no livre-comércio, na Otan, nas políticas imigratórias de todo o mundo e até no aquecimento global.

Parte-se do pressuposto de que a decisão do voto é tomada numa mesa-redonda sobre geopolítica, mas o eleitor faz sua escolha numa cabine individual e indevassável e se vale do universo mais restrito de seus interesses. Não se importa de ser acusado de politicamente incorreto num país onde empresas que pouco empregam têm o monopólio da virtude.

Os limites de Trump - Míriam Leitão

- O Globo

Donald Trump será um presidente forte. Ele terá maioria nas duas Casas, um partido sobre o qual se impôs e cujos votos ele puxou. Mas ele não tem poderes para mudar a maneira como a economia mundial se organizou nas últimas décadas, em cadeias produtivas globais. Por isso, a maior das suas promessas não é exequível. Após o resultado, os discursos de Trump, Hillary e Obama foram no tom certo.

Na campanha, Trump prometeu a trabalhadores do empobrecido cinturão da velha indústria americana que traria de volta os empregos que “foram embora para a China”. Para isso, teria que barrar o comércio com o país asiático e revogar os arranjos produtivos das principais indústrias. Reconstruir o apogeu da velha manufatura americana, trazer de volta os salários e a sensação de afluência dos operários que trabalhavam nas fábricas do meio-oeste só seria possível voltando-se no túnel do tempo.

O terremoto - Celso Ming

- O Estado de S. Paulo

• As expressões fortes tentam explicar somente como foi avaliada a vitória do empresário Donald Trump, mas não explica as forças que a produziram

É isso aí. O cara da foto abaixo, considerado pelo presidente Obama como “altamente (woefully) despreparado” para o cargo a que se candidatou, vai ficar no comando do botão da bomba atômica.

O uso de expressões fortes para tentar explicar o que aconteceu, como tsunami, terremoto, furacão, transmite apenas como foi avaliada a vitória do empresário Donald Trump. Mas não explica as forças telúricas que a produziram.

O eleitor de Trump não se sente apenas insatisfeito. Ele se sente passado para trás, com a percepção de que tem gente metendo demais a mão no seu prato. E usou o voto para manifestar esse estado de espírito. É mais ou menos a percepção daqueles que produziram o Brexit ou que vêm apoiando líderes nacionais populistas na França, Áustria, Espanha, Hungria e Polônia.

Os EUA meio atrapalhados - Carlos Alberto Sardenberg

- O Globo

• Morte de uma indústria, nos países desenvolvidos, golpeou a classe média trabalhadora, colarinhos azuis

Pelos padrões tradicionais, nos países desenvolvidos, a esquerda aumenta impostos dos mais ricos e das empresas para gastar em programas sociais; a direita reduz impostos das corporações e dos mais ricos, na expectativa de que as primeiras invistam e os segundos consumam mais, gastando assim na economia real o que deixam de enviar para o governo. A esquerda quer distribuir renda e fazer justiça social. A direita acha que o gasto de corporações e ricos gera mais negócios e, pois, mais empregos.

A esquerda acha que é preciso proteger os trabalhadores e os empresários nacionais, restringindo importações e investimentos externos. A direita pensa o contrário, que fronteiras abertas estimulam positivamente a competição.

Esquerda, na Europa, são, ou melhor, eram os partidos trabalhistas, socialistas, social-democratas etc. Nos EUA, o Partido Democrata. Direita, na Europa, eram os partidos conservadores, com nomes variados, até como o Partido Popular da Espanha. Na Europa, liberal é da direita. Nos EUA, é da esquerda.

Mudou o cenário econômico e a receita - Ribamar Oliveira

- Valor Econômico

• Só arrecadação extra ou mais imposto fecha a conta em 2017

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, mudou o cenário que havia traçado inicialmente para o desempenho da economia em 2017. Agora, acha que a retomada do crescimento se dará em ritmo mais lento. "Devemos começar a crescer, mas pouco, 1%, algo por aí", disse, em conversa com os jornalistas Claudia Safatle e Cristiano Romero, do Valor.

A proposta orçamentária para o próximo ano foi elaborada com a previsão de uma expansão econômica de 1,6%. O novo cenário econômico reforça, portanto, a percepção de que a projeção da receita federal para 2017 está superestimada.

Para entender a situação que está sendo colocada, é preciso recuar um pouco no tempo. No dia 7 de julho, em exposição realizada no Planalto, o ministro interino do Planejamento, Dyogo de Oliveira, apresentou uma tabela muito sugestiva (veja abaixo). Com ela, o ministro argumentou que o governo precisava realizar um "esforço fiscal" de R$ 55,4 bilhões para alcançar a meta de déficit primário de R$ 139 bilhões em 2017, definida na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o governo central (Tesouro, Previdência e BC). Esse "buraco" nas contas tinha como um de seus parâmetros um crescimento de 1,2% do PIB no próximo ano.

Triunfo da desordem - Demétrio Magnoli

- O Globo

9/11 (de 2016), 11/9 (de 2001). Os espíritos cabalísticos já registraram a conexão entre o Dia de Trump e a data dos atentados às Torres Gêmeas. Mais que numerologia, o traço que os aproxima é a entropia: triunfos da desordem. O 11/9 assinalou, apocalipticamente, a ruptura do otimismo que se seguiu à dissolução da Guerra Fria. O 9/11 entra para o registro histórico como uma tripla ruptura da ordem.

A vitória de Trump representa uma inflexão decisiva na crise que devasta o sistema político americano. Os sintomas dessa crise emergiram há oito anos, com o entusiasmo colossal pela candidatura de Barack Obama (“Yes, we can”), que prometia mudar a morfologia do “fazer político” nos EUA, e saltaram novamente dos subterrâneos tanto nas primárias democratas como nas republicanas, personificadas em Bernie Sanders e Donald Trump, os outsiders de esquerda e direita.

Aventura americana – Editorial /O Estado de S. Paulo

Os Estados Unidos elegeram como seu presidente alguém que, a julgar pelo que disse e fez em sua campanha, despreza profundamente a democracia. É claro que, uma vez no poder, Donald John Trump pode se revelar mais pragmático do que se mostrou nos palanques, porque, afinal, o inquilino da Casa Branca não pode tudo, e terá pela frente as instituições que são o contrapeso do Executivo. Mas uma eleição em que o grande derrotado foi o establishment político, cujo vigor é sintoma de saúde democrática, lança os Estados Unidos em uma aventura de resultados imprevisíveis.

Fossem os Estados Unidos uma república bananeira, o desfecho eleitoral seria danoso apenas para seus infelizes habitantes. Mas é desse país que depende grande parte da segurança internacional e da estabilidade econômica global. Um passo em falso do governo americano, por voluntarismo ou por uma visão estreita das relações internacionais, pode arrastar o resto do mundo para uma turbulência que só interessa aos inconsequentes e aos inimigos dos valores ocidentais. Não há razões para otimismo.

Era Trump torna imprevisível a equação mundial – Editorial/O Globo

A confirmação da vitória de Donald Trump na corrida para suceder a Barack Obama na Casa Branca causou perplexidade em boa parte do mundo. Candidato que se colocou à margem do sistema político, o magnata do setor imobiliário conseguiu atrair o voto —e a esperança — de milhões de americanos insatisfeitos, muitos dos quais afetados pelos efeitos econômicos e sociais da crise financeira de 2008. A vitória numa das eleições mais polarizadas da história recente dos EUA foi o triunfo de um discurso populista, calcado num nacionalismo que se julgava ultrapassado em nações desenvolvidas.

Desde as primárias, passando pela belicosa disputa com a oponente democrata Hillary Clinton, Trump compôs a retórica eleitoral num duplo eixo: prometendo devolver a grandeza perdida dos EUA e culpando agentes externos pelos infortúnios do país. Assim, na lógica trumpista, a integração global eliminou empregos americanos; os imigrantes hispânicos aumentaram o problema das drogas e da violência; as comunidades muçulmanas abrigaram terroristas, entre outros discursos xenófobos, misóginos e racistas.

Triunfo do improvável – Editorial/Folha de S. Paulo

Foi como se um Boeing tivesse colidido contra a pomposa e tradicional fachada do establishment político norte-americano. De forma quase instantânea, o abalo eleitoral na grande potência repercutiu em todos os cantos do planeta.

Atônitos, comentaristas não disfarçavam o embaraço ao tentar explicar como o republicano Donald Trump atropelou as pesquisas, a inclinação majoritária da mídia e os temores dos mercados quanto a sua condução à Casa Branca.

Como no 11 de Setembro, a sensação era de incredulidade. O tradicional revezamento entre democratas e republicanos materializou-se de maneira plena e categórica, com vitórias na Presidência, no Senado e na Câmara.

Trump passa por cima dos partidos e se elege presidente – Editorial/Valor Econômico

A vitória de Donald Trump na eleição presidencial abre nova era de incertezas para os Estados Unidos e o mundo. Com agressões e injúrias, Trump pôs abaixo todos os obstáculos em seu caminho, a começar pelo establishment político e, nele, a cúpula do Partido Republicano. Sem experiência política, enfrentou os principais caciques do partido, derrotou mais de dez candidatos nas primárias e em uma virada surpreendente, tirou a Presidência da veterana democrata, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton. Trump reuniu 279 votos no colégio eleitoral, suficiente para levá-lo à Casa Branca, ante 228 de Hillary. Na contagem, perdeu por 125 mil votos dos 118,13 milhões de pessoas que foram às urnas, 55,6% dos habilitados a votar.

Apesar de dar à indignação dos agredidos por sua retórica ultrajante um toque de reunir, e de os hispânicos terem batido recordes de comparecimento, o percentual de eleitores que se deram ao trabalho de escolher foi o menor desde as eleições presidenciais de 2000. Se Trump foi capaz de mobilizar para a cabine de votação adeptos e desafetos, Hillary não conseguiu a mesma coisa sequer com seus partidários, como também mostra a perda de redutos democratas desde a década de 80, como Wisconsin, Michigan e Pensilvânia.

Corte transversal do poema – Murilo Mendes

A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça,
fica com um braço de fora.
Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
em torno da lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.
Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
um olho andando, com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem.
A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou