domingo, 27 de novembro de 2016

Opinião do dia – Aécio Neves

Há algo aí de extremamente grave e que também tem que ser investigado, o fato de um servidor público, um homem da confiança do presidente da República, com cargo de ministro de Estado, se confirmado isso, entrar com um gravador para gravar o presidente. Isso é inaceitável, é inédito na história do Brasil.

Isso permite a todos nós achar que nessa conversa ele tenha induzido qualquer palavra do presidente. Isso tem que ser investigado porque parece ato passível de punição.

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Aécio Neves é senador (MG) e presidente nacional do PSDB, sobre as gravações do ex-ministro de Cultura do governo Temer (PMDB), O Globo, 26/11/2016

Temer, Maia e Renan buscam abafar crise

Após a crise do caso Geddel, os presidentes da República, Michel Temer, do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Rodrigo Maia, tentarão acalmar o mercado hoje em entrevista. Também deverão negar apoio a projeto que anistie crimes.

Temer, Renan e Maia tentam acalmar mercado

• Para abafar crise após caso Geddel, eles darão entrevista juntos e negarão ainda apoio a projeto que anistia crimes

Isabel Braga - O Globo

BRASÍLIA - Os presidentes da República, Michel Temer; da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ); e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que marcaram reunião extraordinária no Palácio do Planalto para hoje, farão pronunciamento para tentar mostrar que os dois Poderes estão unidos e que haverá esforço para aprovar projetos que tentam retirar o país da crise financeira. A declaração se destina ao mercado, que reagiu mal logo após a demissão do ministro Geddel Vieira Lima. Geddel era o responsável justamente pela articulação política no Congresso.

Além da sinalização ao mercado, os três deverão reafirmar que não há disposição de aceitar anistia para crimes vinculados às eleições. Ontem, após passar a tarde reunido com Temer na residência do Jaburu, Rodrigo Maia não quis falar sobre o anúncio a ser feito hoje, mas garantiu que a Câmara não votará a emenda que anistia crimes. Acabou admitindo que havia um texto nesse sentido, mas disse que ele não recebeu apoio da maioria dos líderes dos partidos.

Amigos, fonte frequente de crises

• Temer é criticado por manter em equipe círculo pessoal

Maria Lima e Isabel Braga - O Globo

BRASÍLIA - Político profissional a ponto de dar origem a um verbete, o exsenador, ex-governador e ex-ministro Antônio Carlos Magalhães ensinava a máxima: nunca nomeie um amigo que não possa demitir. O presidente Michel Temer tem enfrentado crises que sugam a credibilidade de seu mandato justamente por não conseguir sair das garras da “turma” de amigos que o segue há mais de 30 anos no PMDB.

A primeira crise se deu com a queda do ex-ministro Romero Jucá (PMDB-RR), investigado na Operação Lava-Jato e, mesmo assim, alçado à liderança do governo. Foi até a beira do precipício com o presidente cassado da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e, agora, o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDBBA) lhe jogou no colo a maior crise de seu governo ao pressionar um colega de equipe, o exministro da Cultura Marcelo Calero, a liberar um empreendimento imobiliário embargado pelo Patrimônio Histórico.

Em Salvador, polêmica cerca empreendimentos em áreas históricas

• Cinco obras recentes foram liberadas apesar de denúncias de irregularidades

Tiago Dantas - O Globo

SALVADOR - O escândalo envolvendo a autorização para construção do edifício La Vue em uma área protegida pelo patrimônio histórico em Salvador, que causou a demissão do então ministro Geddel Vieira Lima na sexta, é uma amostra de como o setor imobiliário tem atuado na capital baiana na última década. A partir de entrevistas com arquitetos e urbanistas, O GLOBO identificou pelo menos outros cinco empreendimentos recentes que foram liberados pelas autoridades embora tenham tido irregularidades denunciadas por órgãos técnicos ou investigadas pelo Ministério Público.

O tombamento de dezenas de imóveis, a proibição de construção de prédios altos próximo à orla para preservar a paisagem da Baía de Todos os Santos e o bloqueio de uma série de áreas para proteção ambiental tentam manter Salvador o mais preservado possível. A partir de 2006, porém, novos espigões começaram a surgir, acompanhados de polêmicas em seus processos de autorização nos órgãos governamentais do patrimônio e do meio ambiente.

Trechos do depoimento de Calero à PF são confirmados por pessoas citadas

Rubens Valente, Camila Mattoso, Bela Megale – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Órgãos públicos e pessoas citadas pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero confirmaram à Folhapelo menos três trechos do depoimento que ele prestou à Polícia Federal no último dia 19.

Calero afirmou ter sido pressionado pelo presidente Michel Temer e pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima a rever posição do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) contrária à construção de um prédio em Salvador (BA). Acuado, Geddel, que adquiriu imóvel no empreendimento, deixou o cargo na sexta (25).

Além do presidente e de Geddel, Calero citou dez pessoas em seu depoimento.

Geddel estava 'defendendo a Bahia', diz Jucá sobre acusações

Paula Sperb – Folha de S. Paulo

PORTO ALEGRE (RS) - O presidente nacional do PMDB, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) disse, neste sábado (26), que o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) não usou o cargo para atuar em benefício pessoal.

Para Jucá, Geddel estava "defendendo a Bahia, defendendo Salvador" quando conversou com Marcelo Calero, então ministro da Cultura, para que aprovasse a construção de um empreendimento imobiliário de 30 andares em área com bens tombados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em Salvador.

Geddel possui um apartamento no empreendimento e seus familiares representam o prédio em ação contra o Iphan.

Geddel pediu demissão na última sexta-feira (25) para evitar que o caso afetasse ainda mais o presidente Michel Temer (PMDB), a quem Calero também acusa de tê-lo pressionado no caso.

Jucá afirma que Temer apenas tentou "cobrar uma posição e solicitar uma decisão" ao sugerir a Calero buscasse uma solução com a AGU (Advocacia-Geral da União).

GSI tenta proteger Michel Temer de gravações

• Sérgio Etchegoyen, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, afirma que estuda ‘soluções tecnológicas’ para blindar sala de Temer

Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Sérgio Etchegoyen, disse ao Estado que está estudando “soluções tecnológicas” para “tentar proteger” o presidente da República de tentativas de gravações das conversas com ele, em seu gabinete, como teria sido feito pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero.

“Nunca se pensou nisso antes, pelo ineditismo, que pode ter ocorrido, que seria um ministro de Estado, que além do mais é servidor de uma carreira de Estado, gravar o presidente da República”, afirmou o ministro, responsável pela segurança do presidente. “Se isso de fato aconteceu, é um escândalo e é inadmissível.”

Etchegoyen trata o episódio como um exemplo de “quebra de ética profissional”.

Temer, Renan e Maia vão anunciar acordo contra anistia a caixa 2

• Iniciativa quer passar uma mensagem de compromisso com o combate à corrupção num momento em que o próprio presidente da República enfrenta questionamentos éticos

Tânia Monteiro, Fábio Fabrini - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Renan Calheiros, vão anunciar neste domingo, 27, um acordo para evitar que o Congresso aprove anistia explícita ao caixa-dois em campanhas eleitorais. A iniciativa visa dar uma mensagem de compromisso com o combate à corrupção num momento em que o próprio presidente da República enfrenta questionamentos éticos.

Temer, Maia e Renan marcaram para o meio dia uma entrevista para a imprensa no Palácio do Planalto. Conforme auxiliares do presidente, os três vão oficializar o pacto para que a anistia não seja incluída no projeto que trata das dez medidas contra a corrupção, iniciativa do Ministério Público que foi apoiada por mais de dois milhões de pessoas.

A expectativa é de que o texto seja votado na terça-feira, 29, pela Câmara. A proposta do MPF é que o caixa dois, termo popular dado à prática de não contabilizar despesas de campanha, seja tipificado como crime. Mas, nos bastidores, líderes partidários vêm articulando mudanças na proposta para que o procedimento deixe de ser punido.

PMDB discute voltar a ser chamado MDB, da época da ditadura

• A intenção, segundo o senador e presidente do partido, Romero Jucá (PMDB-RR), é que a legenda se fortaleça

Lucas Azevedo - O Estado de S. Paulo

PORTO ALEGRE - Caso aprovado em uma consulta interna, o PMDB pode voltar a chamar-se MDB (Movimento Democrático Brasileiro), assim como na Ditadura Militar. A intenção, segundo o senador e presidente do partido, Romero Jucá (PMDB-RR), é que a legenda se fortaleça.

"Queremos deixar de ser partido e ser um movimento, ser algo mais forte, mais permanente", afirmou Jucá, a uma plateia de prefeitos e vice-prefeitos peemedebistas gaúchos, em Porto Alegre.

"Voltar a ser MDB resgata uma tradição. Se o MDB fez a redemocratização, o MDB novo pode fazer a reconstrução social e econômica do país", completou o senador, que participou do 1º Ciclo de Debates com Prefeitos, organizado pela Fundação Ulysses Guimarães.

‘Partidos não são mais capazes de capitalizar as massas’

• Para pesquisador, crise política não tem gerado líderes com poder de mobilizar um corpo social democrático

Alexandra Martins – O Estado de S. Paulo

O professor de ética política Roberto Romano defende a tese de que quanto mais caótico estiver o contexto político brasileiro, mais cara sairá a fatura de negociações do presidente Michel Temer com sua chamada base aliada. 

Leia os trechos da entrevista.

Com PMDB em crise, Paes sonda ida para PSDB

• Partido é apontado como destino preferencial do prefeito do Rio, que é pré-candidato a governador

Fernanda Krakovics, Chico Otavio - O Globo

Na semana em que o ex-governador Sérgio Cabral foi preso, o prefeito Eduardo Paes procurou o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG). Com a crise que abateu o PMDB do Rio, do qual Cabral é a principal liderança, o PSDB é apontado por aliados do prefeito como um dos destinos mais prováveis para Paes. Ele pretende disputar o governo do estado em 2018.

No telefonema, o prefeito pediu, segundo pessoas próximas, que os dois se encontrem quando o tucano vier ao Rio, onde tem um apartamento. Aécio, no entanto, estaria “com os dois pés atrás” em relação à eventual filiação de Paes, porque o prefeito já foi do PSDB, além de já ter passado por diversos partidos.

Aécio aposta, mais uma vez, no lançamento do técnico de vôlei Bernardinho para o governo do Rio. Ele já foi a principal opção dos tucanos em 2014, mas na última hora não aceitou disputar a eleição. Segundo aliados, Aécio tem dito que, desta vez, Bernardinho, que é filiado ao PSDB, vai topar, porque já passou a Olimpíada do Rio.

Isenções no Rio superaram gastos com setores essenciais

• Estado abriu mão de R$ 166,7 bi em impostos, mais do que gastou em saúde, educação e segurança

Rafael Galdo - O Globo

Os investimentos do Estado do Rio em segurança, saúde, educação e assistência social, de 2009 a 2015, ficaram muito aquém dos incentivos fiscais, de acordo com o Tribunal de Contas e o Ministério Público estaduais. No período, a política de isenções fez com que as empresas deixassem de recolher R$ 166,7 bilhões de ICMS aos cofres estaduais. Nos quatro setores essenciais, os gastos totalizaram R$ 117,7 bilhões, mostra Rafael Galdo. O governo informa, porém, que a renúncia foi de R$ 46,5 bilhões.

A vida e a época de Fidel Castro

• Após o fim da União Soviética, muitos achavam que o regime cubano cairia, mas o governo de Fidel Castro resistiu

The Economist - O Estado de S. Paulo

Fidel Castro era marxista por conveniência, nacionalista por convicção e caudilho por vocação. Seu herói era José Martí, o cubano que se levantou contra o domínio espanhol, mas que temia, com acerto, as ambições dos EUA em relação a Cuba. Na Guerra Hispano-Americana de 1898, os EUA sequestraram a revolta pela independência iniciada por Martí e transformaram Cuba numa neocolônia.

De acordo com a tristemente afamada Emenda Platt, os EUA se reservavam o direito de intervir na ilha a qualquer momento. O dispositivo foi revogado na década de 30, mas o domínio dos americanos sobre a economia e o vital setor açucareiro perdurou até a revolução. A presença dos americanos incentivou o desenvolvimento, incluindo a formação de uma grande classe média; mas também produziu forte desigualdade.

.Fidel Castro está morto

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Fidel Castro, líder da Revolução Cubana e da única ditadura remanescente nas Américas, morreu aos 90 anos às 22h29 desta sexta-feira (25) em Havana (1h29 de sábado no horário de Brasília). O anúncio foi feito na TV estatal pelo seu irmão e sucessor, Raúl Castro.

Comandante do levante guerrilheiro que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista em 1959, Fidel permaneceu no poder por 49 anos, até renunciar em favor de Raúl, em 19 de fevereiro de 2008.

À exceção da rainha Elizabeth 2ª, há 64 anos no trono britânico, o ditador cubano foi quem por mais tempo chefiou uma nação entre os líderes ainda vivos.

Ao longo de 57 anos, o regime comunista dos Castro foi diretamente responsável pela morte ou pelo desaparecimento de 9.504 pessoas, segundo o projeto Cuba Archive. Em 2016 ocorreram 9.125 prisões por motivo político.

Adeus ao senhor da ilha

• Morte de Fidel Castro, aos 90 anos, abre especulações sobre o futuro político de Cuba, que comandou por 47 anos, e deflagra luto e celebração no país e no exílio. Obama diz que a História deverá julgá-lo; já Trump o chama de ditador brutal

A morte de Fidel Castro provocou reações entre o luto e a celebração para cubanos que moram na ilha e em Miami. E abriu especulações sobre o futuro de Cuba sem o líder da revolução que comandou e o manteve por quase meio século à frente do país. Doente e afastado da política desde 2006, foi cremado ontem. Líder autoritário ou um simples tirano para uns, lenda revolucionária para outros, era considerado o último sobrevivente da Guerra Fria. O presidente dos EUA, Barack Obama, que liderou a aproximação com Cuba, disse que a História deverá julgar o enorme impacto de sua personalidade. Já o eleito, Donald Trump, o chamou de ditador brutal.

À espera do julgamento da história

• Morte de Fidel, aos 90, abre especulações sobre o futuro de Cuba sem o líder da revolução

Marina Gonçalves - O Globo

RIO E HAVANA - Era pouco antes da meianoite de sexta-feira quando o presidente Raúl Castro apareceu na televisão de surpresa para dar a notícia que a maioria dos cubanos sabia que, mais cedo ou mais tarde, viria. Foram menos de dois minutos de um discurso seco, até a imagem de Raúl ser cortada quando as palavras começaram a falhar. Aos poucos, a notícia da morte de Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, foi calando a festa e o barulho permanente em Havana. A polícia fechou o acesso à Praça da Revolução, na capital, e o governo decretou nove dias de luto oficial. O jornal “Granma”, órgão oficial do Partido Comunista de Cuba (PCC), demorou quase cinco horas para atualizar sua primeira página com a notícia que rapidamente se espalhou pelo mundo — depois de tantos boatos, desta vez era verdade.

Conexão com artistas e políticos brasileiros

• Temer ressalta defesa das ideias, Lula diz que perdeu um irmão, e FH lembra gentileza e convicção

Isabel Braga, Luiza Souto - O Globo

BRASÍLIA E SÃO PAULO - Poucos meses depois de ter tomado o poder em Cuba, Fidel Castro fez a primeira de suas oito visitas ao Brasil, onde, além dos compromissos políticos, sempre que podia incluía na agenda encontros com estudantes e intelectuais. Era maio de 1959, e o comandante veio pessoalmente agradecer ao Brasil de Juscelino Kubitschek por ter reconhecido o novo governo cubano. Ele retornou somente 31 anos depois, em 1990, para a posse de Fernando Collor.

A partir daí, voltou em outras seis oportunidades: 1992, 1995, 1998, 1999, 2001 e 2003, quando veio para a posse de Lula. Com um grande número de admiradores entre artistas e intelectuais, Fidel ontem foi lembrado por aqueles que o conheceram, como Gilberto Gil.

— Ele foi um grande ícone da política internacional. Uma vez, em Havana, quando ministro, passei com ele algumas horas. Era bem maluquinho — disse Gil.

PPS destaca liderança de Fidel Castro e espera que Cuba aprofunde reformas

Ex-presidente cubano morreu neste sábado, em Havana, aos 90 anos

A Executiva Nacional do PPS divulgou neste sábado (26) nota pública de pesar pela morte de Fidel Castro. O texto (veja abaixo) destaca a liderança do ex-presidente cubano na revolução de 1959 que “despertou no mundo uma grande esperança de transformação”, e “impulsionou uma agenda de reformas e lutas de libertação” em vários continentes.

Segundo o partido, a “expressão de mudança representada por Fidel”, no entanto, foi estancada pelo fim do socialismo real e a ausência de democracia em Cuba. A nota ressalta ainda a importância do reatamento de Cuba com os Estados Unidos, e diz esperar que com a morte de seu “líder maior” Cuba aprofunde as reformas econômicas no rumo da liberdade.

Veja abaixo a íntegra do texto.

Quem quer salvar o País tem de cuidar do governo - Rolf Kuntz

- O Estado de S. Paulo

Se o presidente Michel Temer for incapaz de cuidar do próprio governo, poderá resgatar o Brasil da pior crise econômica em muitas décadas, talvez a maior da História da República? Ele demorou perigosamente para demitir o ministro Geddel Vieira Lima e liquidar o impasse mais grave, até agora, de seu mandato. A demissão diminui o risco de avançar qualquer ação legal contra o presidente, mas ele obviamente incorreu em alguns erros de avaliação.

Subestimou a importância política do escândalo, superestimou a importância de um auxiliar perigoso e deu pouco peso à imagem de um governo supostamente empenhado na recuperação dos padrões da administração. Pode-se esperar, com algum otimismo, um efeito positivo do susto, mas qualquer correção dependerá de um balanço realista dos erros cometidos no Palácio do Planalto. Alguns são graves e, se repetidos, poderão comprometer os objetivos mais importantes do governo.

A busca de um rumo - Míriam Leitão

- O Globo

Pela primeira vez em muitos anos a produção agrícola vai encolher. Não é efeito da crise econômica, mas a agrava um pouco mais. Alguns índices de confiança que estavam em alta nos últimos meses começaram a cair. O PIB do terceiro trimestre deve ter tido queda próxima de 1%. Nesse quadro econômico, uma paralisia no governo provocada pelos constantes inesperados da política pode reduzir o ritmo do ajuste fiscal.

O que abateu a produção de grãos, em 12%, foi La Niña. Isso é mais um baque para a atividade econômica. Os índices de confiança do consumidor e da construção civil já mostraram a mudança de humor. A frágil melhora está indo embora com o acúmulo de notícias ruins. O PIB do terceiro trimestre será o sétimo a vir com queda. O economista José Roberto Mendonça de Barros, que calculava um crescimento de 2% em 2017, reduziu a previsão para 1%.

A lição de cada um – Samuel Pessôa

- Folha de S. Paulo

Há um problema fiscal estrutural dos Estados que precisa ser enfrentado. A principal fonte de desequilíbrio é o deficit dos regimes previdenciários estaduais.

O Rio Grande do Sul e Minas Gerais já gastam pouco menos de 30% da receita corrente líquida (RCL) com o deficit do sistema previdenciário.

Evidentemente o problema estrutural é agravado pela má gestão. Por exemplo, o gasto previdenciário de Minas Gerais subiu 34% em termos reais em 2015, comparando com 2014. Algo de muito errado ocorreu com a previdência mineira. Para o Rio de Janeiro, o aumento do deficit em 2015 foi de 97%.

Nadica de nada - Eliane Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo

Para cumprir sua determinação de nomear para a Secretaria de Governo alguém “não metido com nada de nada”, como disse ao Estado na sexta-feira, o presidente Michel Temer terá de pinçar um ser bastante estranho: um político, mas que nunca disputou eleição.

Campanhas são caríssimas e o candidato que não era muito rico ou não tivesse roubado antes, fora das eleições, obrigatoriamente buscou financiamento de pessoas físicas, organizações e empresas – como a Odebrecht. Ou seja, logo, logo, terá o nome nas quase 80 delações premiadas da maior empreiteira do País e será respingado, ou encharcado, pelos vazamentos que ocorrerão aos borbotões e virarão manchetes.

Que país é esse? - Fernando Gabeira

- O Globo

Gostaria de ter ido a Salvador para conhecer e mostrar a Igreja de Santo Antônio da Barra, o Forte de São Diogo e o Cemitério dos Ingleses. Na igreja, você assiste à missa e contempla a Baía de Todos os Santos. O Forte de São Diogo foi erguido para defender o flanco sul da cidade, no tempo em que Salvador era a capital do Brasil.

Só que os inimigos não chegaram pelo mar. Vieram de dentro de Salvador, capitaneados por Geddel Vieira Lima. Construiriam um prédio de 30 andares, que, segundo o Iphan, arquitetos e moradores, arruinaria a paisagem.

Curto-circuito - Dora Kramer

- O Estado de S. Paulo

Nos idos do governo Lula já atingido por escândalos de corrupção, mas ainda bem avaliado pela população, o ex-presidente Fernando Henrique fez a seguinte constatação a um grupo que lhe perguntava a razão da passividade popular diante dos desmandos: “Determinadas mudanças na História ocorrem quando, de algum lugar, surge um curto-circuito e as coisas começam a explodir onde antes reinava a calmaria”.

À ocorrência desse colapso, cujo marco localiza-se nas manifestações de junho de 2013, a maioria da classe política resiste. Uma minoria já compreendeu o que se passa. E é por isso que até agora não foi possível a Câmara incluir na Constituição anistia ao crime do uso de caixa 2 e correlatos. Corrupção e lavagem de dinheiro.

Tapa na cara do cidadão - Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

• Políticos que receberam dinheiro de caixa dois da Odebrecht estão à beira de um ataque de nervos e dispostos a pôr um fim à Operação Lava-Jato

O Brasil não é para principiantes, dizia Tom Jobim; ou seja, não é para amadores, ainda mais quando se trata do Congresso Nacional. As Dez Medidas Contra a Corrupção, com mais de dois milhões de assinaturas, são resultado de uma iniciativa dos procuradores da República para endurecer o jogo contra empresários, executivos e políticos corruptos, mas estão servindo de cortina de fumaça para aprovação de uma lei que anistia os envolvidos na Operação Lava-Jato. Por duas vezes, a manobra já foi tentada e fracassou em plenário, mas, na próxima terça-feira, voltará à pauta da Câmara dos Deputados. O presidente da casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), nega a existência do substitutivo e garante que, se for apresentado, o submeterá à votação nominal.

Rótulo em branco - José de Souza Martins

-O Estado de S. Paulo

• A esquerda não tem feito o esforço de traduzir em teoria a realidade social do País, e prefere copiar experiências que não são nossas, diz sociólogo

Em entrevista densa e de teor raro entre petistas, o prefeito de São Paulo prevê que a polarização política no Brasil, nos próximos anos, será entre direita e extrema direita. Convém considerar, porém, que tem havido polarizações de um lado e de outro do cenário, como componente crônico do processo político. Os próximos anos serão de polarização também entre esquerda e extrema esquerda, esquerdas procurando o rumo que perderam lá atrás, principalmente na época do mensalão. Nos dois casos, porque a direita se fortalece e desglobaliza o mundo e a esquerda se perde porque demoliu identidades profundas dos que poderiam identificar-se com ela. Aqui, tudo virou conceitualmente “trabalhador” e “companheiro”, mesmo que intimamente as pessoas tenham outras identificações precedentes e decisivas, das quais não abrem mão. Estamos vivendo num fim de era que pede diversa compreensão da realidade, oposta à da reafirmação das categorias de polarização e contraposição de pessoas, grupos e partidos.

Absolveu? - Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

"A história me absolverá", declarou Fidel Castro ao ser julgado pelo frustrado ataque a Moncada, em 1953. Absolveu?

É sempre precipitado emitir juízos em nome da história, mas acho que dá para afirmar que, julgando pelo "Zeitgeist" de hoje, o veredicto final não será dos mais benignos para com o líder cubano. Mas, como o mundo não é um filme de Hollywood, não dá para apenas pintar Castro como um vilão "tout court". Na vida real as coisas são incrivelmente mais complexas e nuançadas —e o caso de Fidel não é exceção.

A realidade e os românticos de Cuba ‘libre’ - Fernando Gabeira

- O Globo

A revolução cubana, Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e Sierra Maestra sempre incendiaram o romantismo revolucionário no Brasil. O auge dessa paixão foi a tentativa de reproduzir a experiência cubana aqui. Ela nos chegou no livro de Regis Debray “Revolução na revolução’.’ A experiência foi um fracasso, mas não se pode atribui-lo apenas às teses de Debray.

Muitos grupos revolucionários brasileiros passaram por Cuba, tentando aprender in
loco os segredos daquele êxito. O romantismo revolucionário continuou sendo a lente preferencial para o enfoque da experiência cubana. O próprio Sartre olhou por essa lente em “Furacão sobre Cuba’.’

A necessária prudência – Editorial / O Estado de S. Paulo

O momento pelo qual passa o Brasil requer grandeza. Exige dos líderes sabedoria e equilíbrio para que se restaurem a moralidade pública e a responsabilidade econômica e administrativa, destruídas durante os governos lulopetistas.

Demanda, enfim, serenidade diante dos desafios, mas também a firme determinação de superá-los. Contudo, a imprudência tem prevalecido, como se os atos não tivessem consequências, como se houvesse alguma margem para erros e amadorismo. Essa margem simplesmente não existe: tudo hoje tem o potencial de alimentar a crise, porque há várias autoridades, em todos os Poderes, que parecem interessadas somente em seus objetivos particulares ou que se movem apenas pela vaidade, enquanto dos brasileiros comuns se exige todo tipo de sacrifício. Com isso só lucram os oportunistas de sempre – aqueles empenhados em minar os esforços de normalização da vida nacional para ganhar poder.

Não aprenderam nada – Editorial/Folha de S. Paulo

Depois de figuras como o senador Romero Jucá (PMDB-RR), flagrado em entendimentos para "estancar a sangria" da Operação Lava Jato, e o ex-ministro Henrique Alves (PMDB-RN), citado em delação como beneficiário de R$ 1,6 milhão em propinas, mais um ministro do governo Michel Temer se vê forçado a pedir demissão devido à falta de mínimas condições éticas para permanecer no cargo.

O caso de Geddel Vieira Lima, que deixa a Secretaria de Governo depois da entrevista concedida à Folha pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, só não se inclui numa rotina de oportunismo e de suspeita porque expressa de maneira vulgar, desassombrada e tosca o nível de degradação atingido pelos costumes políticos no país.

O fim do passado – Editorial/O Globo

• O Brasil precisa ter um papel de peso na transição de Cuba rumo ao regime democrático

• A esquerda deve refletir se vale a pena imolar as liberdades em nome de uma pretensa justiça social

Anunciada pelo irmão Raúl na TV estatal, a morte de Fidel Castro, aos 90 anos, ocorrida na madrugada de ontem, é o ponto final na biografia de um dos mais longevos ditadores, e que já havia entrado para a História faz tempo.

Afinal, ficou no poder por mais de 50 anos, transformando Cuba num parque temático a céu aberto de um tipo de regime anacrônico que desaparecera do mapa no final do século passado com o fim da União Soviética, a reunificação da Alemanha, a debacle dos regimes comunistas na Europa Oriental e a adoção de uma espécie de socialismo de mercado na China.

Trump: après moi, le déluge – Ferreira Gullar

- Folha de S. Paulo

  • O capitalismo trumpariano se aproxima do nacionalismo nazista

Se a vitória de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos, sob certos aspectos, foi uma surpresa, sob outros resulta coerente com determinadas mudanças verificadas nas últimas décadas na realidade contemporânea a partir do fim do sistema soviético.

O término da Guerra Fria, que dividia o mundo em duas facções hostis, provocou uma série de mudanças políticas, econômicas e ideológicas.

Elas geraram desde o radicalismo islâmico no Oriente Médio até o populismo latino-americano, que vive seus últimos momentos. Mas não só: provocou também reações diversas tanto no capitalismo europeu quanto no capitalismo norte-americano, de que a eleição de Trump é, sem dúvida, uma das consequências mais graves.

Poema do jornal - Carlos Drummond de Andrade

O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.

Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.