domingo, 1 de janeiro de 2017

Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna

Mas tréguas devem ser respeitadas e na paz destes dias de começo de ano convém notar que temos um governo que governa, desses que sabem, como dizia Ulysses Guimarães, que a cada dia cabe sua agonia, e que se deve ter paciência, esperança e mão firme no leme, porque o tempo de bonança talvez não tarde, porque não é pouco o que se tem de salvar dessa barafunda. A começar pela Carta de 88, já na mira dos que sempre desdenharam dela.

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Luiz Werneck Vianna é sociólogo da PUC-Rio. ‘O dilúvio e a arca de Noé’, O Estado de S. Paulo, 01/01/2017.

Nos anos 1990, criticados por doação da Odebrecht, Lula e Dirceu choraram

Rubens Valente | Folha de S. Paulo

Há mais de 20 anos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-deputado José Dirceu choraram em um encontro nacional do PT quando um militante foi à tribuna para criticar os rumos que a corrente majoritária do partido vinha tomando. No centro da polêmica estavam pagamentos feitos pela Odebrecht ao partido.

A história começou na campanha eleitoral de 1994, quando José Dirceu se lançou ao governo de São Paulo, mas foi derrotado. Após a disputa, a imprensa revelou a lista dos doadores. Naquela época, os financiadores só eram divulgados pela Justiça Eleitoral após o fim da campanha.

Dirceu declarou ter arrecadado R$ 1,1 milhão. Desse total, 42% vieram da Odebrecht e de uma empresa sob seu controle, a CBPO. A empreiteira também doou para as campanhas do PT no Distrito Federal e no Espírito Santo.

A notícia chocou a militância mais à esquerda no partido porque a Odebrecht havia passado por dois escândalos duramente atacados pelo PT– em especial por José Dirceu, na época deputado federal– nas CPIs que investigaram o esquema PC Farias, durante o governo de Fernando Collor, em 1992; e dos Anões do Orçamento, em 1993.

Presidente do TSE, Gilmar Mendes vai estimular Congresso a rever sistema eleitoral do Brasil

Por Painel | Folha de S. Paulo

Junta tudo e joga fora O TSE fará em fevereiro um seminário para analisar sistemas eleitorais mundo afora. Presidente da corte, o ministro Gilmar Mendes quer discutir não só o financiamento de campanhas, mas como os candidatos serão eleitos em 2018. O objetivo é influenciar a aprovação de um novo modelo até setembro para que o próximo escrutínio ocorra dentro de melhores regras. “Ou o problema das doações ficará mais grave, porque será briga de elefantes — eleição de governadores e presidente.”

Xerife Caciques de alguns dos maiores partidos articulam restabelecer a doação empresarial, mas com limite de repasses. Transferências com CNPJ cairiam em um fundo controlado pelo TSE, e não nas contas de comitês financeiros das campanhas.

A pão e água “Você imagina uma eleição presidencial usando dinheiro do Orçamento? Serão 30 mil candidatos em 2018. Não se sustenta a ideia de financiamento público”, afirma Mendes.

Crise deixa cenário incerto para 2018

• Apesar da rejeição à classe política, partidos já se articulam para a construção de candidaturas

Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho | O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - As delações da Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato e a ação contra a chapa Dilma Rousseff-Michel Temer, que tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tornam o cenário para a eleição presidencial de 2018 um dos mais imponderáveis desde a redemocratização do Brasil.

Mas, apesar das incertezas e da crescente rejeição da população à classe política, sentimento evidenciado nas eleições municipais, os partidos já começaram o processo de construção de candidaturas que consideram viáveis – e deflagraram as inevitáveis disputas que antecedem o pleito.

Entre os líderes partidários há o temor de que um nome de fora da classe política surja com força e repita o “efeito Donald Trump”. Para especialistas, esse cenário, que foi visto em 2016 em São Paulo, com João Doria (PSDB), e Belo Horizonte, com Alexandre Kalil (PHS), dependerá da economia.

Travessia - A luta de Temer entre a pinguela e a tormenta

• Presidente faz anotações diárias e confessa a amigo: ‘estou cansado de apanhar injustamente

Vera Rosa | O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Com uma crise atrás da outra batendo à porta do Palácio do Planalto, o presidente Michel Temer confidenciou, nos últimos dias, que não esperava enfrentar tantos percalços no caminho. “Estou cansado de apanhar injustamente”, desabafou ele, em recente conversa com um auxiliar. O receio do PMDB, agora, é de que a “tempestade perfeita”, composta por problemas tanto na política como na economia, ponha em risco o mandato de Temer.

A Operação Lava Jato abalou a República, deixou o governo na corda bamba e trouxe uma penca de incertezas para 2017, já que, das 77 delações de executivos e ex-diretores da Odebrecht, apenas quatro tiveram o conteúdo divulgado. Até agora, as investigações arrastaram a cúpula do governo e do PMDB para o centro da conflagração política.

No Congresso, a oposição calcula que, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki homologar os depoimentos, por volta de março, o governo enfrentará mais sobressaltos.

Em público, Temer tenta contornar as dificuldades com palavras, muitas vezes entremeadas por mesóclises. Dono de um vocabulário rebuscado, ele disse que apreciaria não ser “vergastado” (chicoteado) nas redes sociais, mas até hoje não conseguiu reverter o desgaste e vê sua impopularidade aumentar dia após dia. “Dizem que eu ando abatido, mas isso não é verdade. Os desafios me estimulam. Não sou homem de cair de joelhos”, afirmou o presidente a um amigo.

Temer começou a escrever um livro. Não é, no entanto, o romance inspirado em sua vida, como já anunciou. Desde o impeachment de Dilma Rousseff, ele tem anotado passagens sobre os seus dias no Planalto, tentando desmistificar a tão falada solidão do poder. Escreve tudo a mão. Até quarta-feira, contou 280 audiências. Supersticioso, não ocupa a cadeira em que Dilma costumava despachar, no gabinete do 3.º andar. Senta-se numa poltrona de couro preto.

Antes da enxurrada de denúncias, das ameaças veladas do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e da deterioração do cenário econômico, Temer revisitou as memórias de Getúlio Vargas, que comandou o País em duas ocasiões (de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954).

Projetos inacabados provocam perdas de R$ 2 bi para a Petrobrás

• Obras paralisadas pela empresa, como a do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, continuam a gerar prejuízos bilionários com o desgaste dos materiais

Fernanda Nunes | O Estado de S. Paulo

RIO - A Petrobrás inicia o ano de 2017 com o caixa menos comprometido com dívidas do que ingressou em 2016. No mercado financeiro, as ações estão em escalada ascendente. Mas, no seu encalço, ainda existem R$ 6,25 bilhões (valor contábil) de obras inacabadas, que já não condizem com a nova Petrobrás.

Sem destino definido, esses projetos geraram perdas de R$ 2,05 bilhões por desgaste, por causa do passar do tempo, como informou a empresa na última demonstração financeira, relativa ao período de janeiro a setembro deste ano. Mudanças nas condições de mercado, como no câmbio e na cotação do petróleo, corroeram parte do dinheiro investido e alguns deles se tornaram definitivamente inviáveis.

“Parar grandes obras como a do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) gera prejuízos fantásticos. Qualquer retomada tem alto custo. E a paralisação acontece justamente num momento em que o País precisa de refino (para reduzir a importação de combustíveis)”, avalia o vice-presidente da Associação de Engenheiros da Petrobrás (Aepet), Fernando Siqueira.

O dilúvio e a arca de Noé - Luiz Werneck Vianna*

- O Estado de S. Paulo

• Aos pescadores de águas turvas a mídia empresta vocalização e amplifica a balbúrdia

Rituais estão aí para serem observados, e mesmo os céticos os reverenciam pelo sentimento imemorial de que crenças coletivas, mesmo que não se acredite nelas, não devem ser desafiadas. Neste primeiro dia de 2017 acabamos de celebrar o nascimento de um ano novo, em que se renovam as esperanças de uma vida melhor, recém-saídos de uma balbúrdia que nos aturdiu, em meio a vociferações, ódios desabridos e o alastrar da cultura do ressentimento como se vivêssemos na cena das revoluções. Ainda bafejados pela confraternização das festas natalinas, ganhamos a graça de uma trégua que nos abre espaço para a reflexão e nos distancia das agitações estéreis que têm mantido o País em constante sobressalto. Mas sem ilusões, porque alguns eixos saíram do lugar e não é tarefa fácil devolvê-los às suas operações originais.

Desbalanço - Fernando Henrique Cardoso*

- O Estado de S. Paulo

• O País redescobriu suas mazelas, reagiu a elas e se reencontrou com a contemporaneidade

É difícil fugir à tradição: fim de ano, momento de balanço. Primeiro, do mundo, depois, do Brasil, na difícil tarefa de comprimir com algum senso o que se desdobrou por 365 dias. Parece que acabou a longa trégua mundial estabelecida depois da queda do Muro de Berlim, da aceitação tácita pelos americanos de que a China existe e de que a Rússia “pode ser contida”. O terrorismo e o triste fim da intervenção no Iraque para “estabelecer a democracia”, somados às batalhas que Estados Unidos e Rússia, por interpostas mãos, enfrentam na Síria (com a participação marginal de europeus), são sintomas de que começam a se desenhar outras formas de equilíbrio/desequilíbrio no mundo.

Made in Brazil - Fernando Gabeira

- O Globo

Por mais que se fale em ano novo, em vida nova, no fundo de cada um de nós está a certeza de que certas complicações atravessam o réveillon e prosseguem em nossas vidas. Na última semana de 2016, a Polícia Federal fez uma busca nas gráficas que serviram à chapa Dilma-Temer. Isso serviu para nos lembrar que o tema voltará em 2017 e com a dose de realismo fantástico que tempera nosso noticiário.

Temer vai dizer que as contas são separadas. Seus adversários dirão que é uma só, indivisível. Se forem separadas, o foguete explode apenas no colo de Dilma. Se forem uma só, a chapa vai para os ares e teríamos eleições indiretas. As próprias gráficas misteriosas já têm algo de fantástico. O dono de uma delas é um homem chamado Beckembauer Rivelino. Certamente o pai queria lembrar dos dois grandes craques. Um joga no ataque, outro na defesa. No próprio nome, atacante e defensor se equilibram, o menino já vem com salvaguardas para não jogar muito solto. Essa discussão sobre a chapa Dilma-Temer vai depender muito da política. A tendência é de que defensores do governo afirmem a tese da separação e críticos a da unidade indissolúvel.

Olhando para trás e para a frente – Samuel Pessôa

- Folha de S. Paulo

Na coluna de 10 de janeiro do ano passado, anotei que a hipótese básica de meu cenário para 2016 era que ele dependeria pouco de haver ou não troca de Dilma por Temer. Considerava que nossos problemas estruturais eram graves demais para serem encaminhados rapidamente.

Projetei que o crescimento em 2016 seria negativo em 3%, com continuidade do ajuste externo e deficit de transações correntes de US$ 35 bilhões e com inflação de 7,5%. O câmbio de final de ano seria de R$ 4,60 por dólar.

A troca de governo mudou as expectativas, e o câmbio se valorizou. Em vez dos R$ 4,60, terminamos o ano com câmbio na casa de R$ 3,20. O câmbio 30% mais valorizado do que o previsto tirou 0,81 ponto percentual da inflação, sugerindo IPCA de 6,7%, em vez dos 7,5% projetados. Boa parte do erro de previsão da inflação -7,5%, no lugar dos 6,3% com que o ano deve fechar- deve-se ao erro no cenário de câmbio.

O mundo encantado de Michel Temer - Elio Gaspari

- O Globo

Em 2017 a economia começaria a rodar, pois a máquina do governo seria destravada quando o Senado depusesse a presidente da República. A doutora foi para Porto Alegre e o governo de Michel Temer vive em regime de perplexidade, com ministros permanentemente ameaçados pela lâmina. (Noves fora os seis que já rodaram.) O crescimento de 2017 poderá vir, se vier, no segundo trimestre. A caravana Temer dizia que até o final de 2016 seriam criados 100 mil novos empregos. Nos últimos 11 meses (cinco dos quais na gestão do comissariado), três milhões de pessoas perderam seus postos de trabalho, e há 12,1 milhões de brasileiros desempregados, na pior marca de todos os tempos (11,9%).

Temer sabe que com a atual taxa de juros não há a menor possibilidade de se começar a amenizar o desemprego antes do segundo semestre. Ele e o Banco Central foram aprisionados pelo todo-poderoso "mercado" e, fugindo da realidade, o governo encastelou-se na moderna astrologia dos marqueteiros. Temer roda o país prometendo fantasias encantadoras embebidas de "pensamento positivo": "Quero no futuro ser reconhecido como o maior presidente nordestino que esse país teve". Para o presente, informa que o seu mandarinato "há de ser um governo reformista".

Ganha uma viagem à Coreia do Norte quem tiver lido as autolouvações publicitárias que a marquetagem oficial espalha pelo país, com o dinheiro dos impostos dos outros.

Um país a inventar - José de Souza Martins

- O Estado de S. Paulo | Aliás

• O Brasil não é isso que está aí. A obra e a vida dos intelectuais, dos cientistas e dos trabalhadores podem trazer de volta os anseios de construir, em vez de só demolir

Num momento como este, de graves tensões políticas, sociais e econômicas, que propõem a passagem de ano fora dos marcos da tradição e do costume, nós nos defrontamos com um abismo de incertezas, impróprias para o rito das travessias simbólicas que dão sentido à vida com esperança.

No balanço do ano civil que acabou, há débitos enormes que dificilmente serão pagos no ano que começa. Perdemos a compostura política e perdemos o sentido da honra na política, basicamente porque a perdemos de vista e chegamos ao absurdo de achar que a política é um estorvo, que seria melhor acabar com ela. Sem política as sociedades não existem nem podem existir. Confundimos política com políticos.

A crise e a força da Nação – Editorial | O Estado de S. Paulo

Não é preciso carregar nas tintas para afirmar que a dimensão social da crise que atinge o País é grave. O desemprego atingiu patamar recorde registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com 12,132 milhões de pessoas em busca de uma vaga. Até mesmo a atividade econômica informal, que geralmente cresce em tempos de crise, retrocedeu pelo segundo ano consecutivo – informou recentemente a Fundação Getúlio Vargas (FGV) –, em razão da forte e duradoura recessão.

É cada vez maior o número de pessoas, em todas as faixas etárias, que não têm perspectivas profissionais. E mesmo quem está empregado sofre os efeitos da crise, pela diminuição do poder aquisitivo do salário – corroído pela inflação dos últimos anos – ou pela aflição com a possibilidade de perda do trabalho. A crise faz com que os sonhos e projetos – pessoais, familiares ou profissionais – sejam adiados, à espera de dias melhores.

O ano da dúvida - Míriam Leitão

- O Globo

Entramos no ano sem saber se o presidente será o mesmo ao fim destes 12 meses. Este é o segundo ano em que temos essa dúvida inicial. O andamento da Lava-Jato e do processo no Tribunal Superior Eleitoral podem definir uma situação inédita no país que é um mesmo mandato com “dupla vacância”, como diz a Constituição. Esse é o ponto principal da incerteza política e econômica de 2017.

Na economia em si o ano promete ser morno. Sem grandes alegrias, mas pequenos pontos de alívio. O quadro, no entanto, pode ser profundamente alterado se houver nova reviravolta política. As previsões mais comuns entre os economistas, com as divergências numéricas de sempre, são: inflação mais baixa; juros em queda; economia ainda fria, mas na qual a queda do PIB será estancada embora não revertida; desemprego subindo no primeiro semestre, porém com chance de se estabilizar na segunda parte do ano. Há a possibilidade de aprovação de reformas que, contudo, provocarão muito debate no país.

Oremos! - Eliante Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo

• Nada está uma maravilha, mas entramos 2017 com otimismo realista

Depois de tanto sofrimento e tanto sobressalto em 2016, que tal iniciarmos 2017 com alguma esperança e um otimismo realista? Não custa nada tentar, já que, como diria o Tiririca, pior do está não fica. Os sustos ainda serão muitos, porque a Lava Jato segue em frente, o Congresso que aí está continuará aí e a recuperação da economia vai continuar sendo um processo lento. Mas há algumas indicações de que, devagar e sempre, a coisa agora vai. Oremos!

A Lava Jato está completando três anos, com vários troféus inéditos: 24 peixes graudíssimos presos, 14 deles já condenados e dez na fila esperando sua vez, e a expectativa é de retorno de R$ 10 bilhões desviados para bolsos (e bolsas) criminosas. Mas o melhor nem é isso, é que a Justiça, o MP, a PF e a Receita conseguiram desvendar e seguir a trilha inteira de um esquema monumental de corrupção que atravessou continentes.

A eterna esperança - Cacá Diegues

- O Globo

• Anos difíceis são todos. Claro, alguns são mais difíceis porque trazemos na memória feridas abertas e mal fechadas, fracassos secretos que nos afligem

De vez em quando, dá vontade de mudar de assunto, desorientar nossos interlocutores com temas inesperados, nem sempre próprios às meditações de fim de ano. Dá vontade de dizer que o que passou, passou, e o que há de vir é inescrutável. Assim como não temos o poder de mudar o passado, tampouco o temos de tornar o futuro aquilo que sonhamos.

Anos difíceis são todos. Claro, alguns são mais difíceis porque trazemos na memória feridas abertas e mal fechadas, fracassos secretos que nos afligem mais do que aqueles que são do conhecimento de multidões. Talvez o fracasso não seja nada mais, nem menos, que o nosso próprio segredo, a nossa indisposição em revelar o que acabou por nos acontecer. Como se fôssemos responsáveis (ou, pelo menos, únicos responsáveis) por tudo o que nos acontece.

2017, o ano da verdade - Geraldo Alckmin

- Folha de S. Paulo

"O povo cansou de tanto desiludir-se. Chegou a hora da verdade." Lembro-me dessas palavras de Mário Covas em seu discurso de posse como governador de São Paulo, em 1º de janeiro de 1995. Eram tempos difíceis; havia necessidade de mudar o panorama da gestão pública para superar décadas de crise econômica e social no país.

Dávamos, então, os primeiros passos rumo à estabilidade e devemos muito do que conseguimos nos anos seguintes à coragem e à ousadia de nosso governador.

Duas décadas se passaram, muitos rumos foram prometidos e tentados no Brasil, e aqui estamos na maior crise econômica da nossa história, que maltrata a população e a faz ter medo do futuro.

Farra fiscal, gasto público de má qualidade e o ilusionismo como política econômica produziram o imenso desastre que teve a sua apoteose em 2016. No país com mais de 12 milhões de desempregados, respiramos o desânimo de um ano que parece não ter fim.

Muitos anos em um – Editorial | Folha de S. Paulo

Quem detinha o poder não mais o exerce. Quem em liberdade desfrutava de status e riqueza está preso. Frustraram-se expectativas econômicas e subverteram-se, nas urnas, desfechos de votações tidos como certos. O mundo e o Brasil se mostraram mais complexos e imprevisíveis do que se supunha no desenrolar de 2016.

O impeachment de Dilma Rousseff (PT) não é fato a festejar. Há algo errado numa jovem democracia que depõe, pela via legítima da Constituição, dois chefes de Estado num lapso de 24 anos. Falharam os controles que deveriam evitar o uso desse recurso brutal e traumático contra o mandato presidencial concedido pelo voto direto.

A reincidência do impeachment não foi o único elemento incomum. Extraordinária também se mostrou a latitude do poder presidencial para atropelar a responsabilidade fiscal e sustentar seu apoio com centenas de bilhões de reais em contratos e créditos a fluir por fora do Orçamento, nos balcões de empresas e bancos estatais engordados.

Ano envolto em temores, mas que pode ser de superação – Editorial | O Globo

Virou lugar-comum a referência ao livro de Zuenir Ventura sobre 1968 (“O ano que não acabou”) em análises sobre o que poderá ser 2017. E com fundadas razões, porque, em vários aspectos, o ano começa com um certo perfil carregado de 2016.

Este, cópia de 2015, quando o embuste eleitoral da campanha da petista Dilma Rousseff — já visível para os mais atentos desde 2013 — explodiu à frente de todos na forma de inflação de dois dígitos, desemprego em ascensão veloz, causado por um ciclo recessivo que se aprofundava.

Na verdade, a crise em si não surpreendeu quem acompanhou a crônica da debacle fiscal do país já sinalizada em fins de 2005, quando a nova ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, descartou, por “rudimentar”, proposta dos colegas Antonio Palocci (Fazenda) e Paulo Bernardo (Planejamento) para limitar os gastos à evolução do PIB.

Pecado Original – Fernando Pessoa

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
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In poesia Álvaro de Campos