domingo, 28 de maio de 2017

Opinião do dia – Marco Aurélio Nogueira*

Como, então, nesse cenário, ter “paz” política ou governos estáveis?

Falta um pacto político ao País, algo com que se possa partir para um projeto de sociedade compartilhado, a partir do qual se apresentem aos cidadãos ideias novas, distantes do malabarismo marqueteiro, da demagogia populista e do radicalismo estéril.

Trata-se do destino da democratização. E é com ele que nos deveríamos ocupar.
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*Professor titular de teoria política e coordenador do núcleo de estudos e análises internacionais da Unesp. “Crises que se cruzam”, O Estado de S. Paulo, 27/5/2017.

Maiores partidos rejeitam votar a favor de Diretas-Já

Maiores bancadas rejeitam proposta de eleições diretas

Ranier Bragon, Talita Fernandes | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A maioria do Congresso é contra mudar a Constituição para convocar eleições diretas caso o presidente Michel Temer deixe o poder. Nessa eventualidade, deputados e senadores querem manter a exclusividade de escolher quem comandará o país até dezembro de 2018.

A Folha ouviu líderes dos dez maiores partidos da Câmara e do Senado, que reúnem 72 senadores (89% do total) e 397 deputados (77%).

Com exceção da esquerda, que é minoritária, todos se declararam abertamente contra as Diretas-Já.

Os oposicionistas PT, PSB e PDT não representam nem 30% das dez maiores bancadas. Para alterar a Constituição, é necessário o apoio de pelo menos 60% dos parlamentares em cada Casa.

"Neste momento acho casuísmo. [...] Não podemos ficar brincando de mudar a Constituição a cada crise, em função de um determinado caso, de um determinado momento", disse o senador Tasso Jereissati (CE), presidente interino do PSDB, partido que já definiu posição unificada contra às Diretas neste ano.

O que acontece se Temer sair da Presidência?

Renúncia, impeachment, cassação pelo TSE e afastamento por crime comum – o que aconteceria com o presidente e o cargo que ocupa em cada situação

Por Guilherme Venaglia | Veja

As revelações da delação premiada do empresário Joesley Batista abalaram o governo do presidente Michel Temer (PMDB) e abriram a possibilidade de que ele não termine o mandato herdado da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) após o impeachment. Com base no depoimento de Joesley, a Procuradoria-Geral da República (PGR) acusou o presidente de corrupção passiva, obstrução de Justiça e pertencimento a organização criminosa.

Defendido por ministros e travando uma batalha jurídica, Temer ainda não está fora de jogo. O presidente diz que fica e tenta articular a base aliada para reagir às pressões e retomar a agenda de votações – conta com a adesão de aliados que apoiam as reformas econômicas independentemente dele, para passar a impressão de normalidade e, com isso, afastar o fantasma da crise.

Temer nunca gozou de altos índices de popularidade. Desde que assumiu, pouco superou os índices pífios de apoio popular da antecessora, Dilma. No entanto, a peça-chave de seu governo é, desde o primeiro dia, o apoio de uma ampla base aliada, que esmagava a oposição e aprovava medidas difíceis, da PEC do Teto de Gastos até a reforma do ensino médio.

A solidão de Michel Temer na crise

O presidente perde assessores de confiança, desgasta-se por um protesto nas ruas e vê o Congresso parado, a discutir sua sucessão

Aguirre Talento e Mateus Coutinho | Época

Trecho da reportagem de capa de ÉPOCA desta semana: Com relatórios de tráfego na internet à mão e algoritmos capazes de propagar narrativas nas redes sociais, o publicitário Daniel Braga coordena a menos visível linha de defesa do presidente Michel Temer. Egresso da equipe do prefeito de São Paulo, João Doria, do PSDB, Braga divide seu tempo entre a sede da Isobar, agência que presta serviços para o governo e foi instada a contratá-lo, e o gabinete do ministro Moreira Franco, da Secretaria-Geral, onde é traçada a estratégia de comunicação digital do governo nestes dias de crise aguda.

Acuado pela renúncia ou pelo impeachment desde a divulgação da delação premiada do empresário Joesley Batista, do grupo JBS, Temer – e sua equipe – preocupa-se sobremaneira com a guerra digital. Foi com base em relatórios diários da empresa e na orientação dos poucos conselheiros que lhe restam que Temer atacou em entrevistas os benefícios aos delatores da JBS, foi agressivo com Joesley – até outro dia recebido com amabilidade –, questionou a validade da gravação que o deixou em maus lençóis e exaltou fatos positivos da economia nos últimos dias.

Os caminhos do acordo

Os políticos ainda buscam um nome capaz de conduzir o País até 2018. Com Temer ou sem, as reformas não podem parar. Sem elas, chegaremos ao próximo ano sem o direito de ter esperança

Débora Bergamasco, Eduardo Militão e Ary Filgueira | IstoÉ

Até a quarta-feira 17, o Brasil ensaiava seus primeiros passos rumo à saída do atoleiro. A inflação estava controlada, a economia recuperava o fôlego e os índices de desemprego pareciam desidratar. Ao menos do ponto de vista administrativo, o presidente da República, Michel Temer, conduzia o País, até então à deriva, sem maiores sobressaltos.

Os fiadores de seu mandato, nas esferas política e econômica, exalavam confiança, sobretudo porque as reformas previdenciária e trabalhista estavam em marcha e perto de serem apreciadas pelo Congresso Nacional – mesmo que com alguns remendos.

A divulgação de trechos da delação dos donos da JBS empurrou não apenas o presidente da República, Michel Temer, como o País para o epicentro de uma nova crise. Desta vez, mais grave que aquela experimentada pelo Brasil em 2016, quando Dilma Rousseff se inviabilizou política e administrativamente. Agora, embora a situação do presidente da República se deteriore a cada átimo de tempo, ainda não há uma convergência sobre quem irá comandar o Brasil até as eleições de 2018.

Investigado no STF por corrupção, organização criminosa e obstrução de Justiça, Temer pode até não ter mais condições políticas de permanecer na cadeira de presidente, e é provável que não as tenha, mas é certo que todos os caminhos que apontam para o desenlace da crise atual ainda passam por ele.

Para minimizar crise política, Temer cobra agenda positiva de ministérios

Daniel Carvalho | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer quer preparar uma agenda positiva para anunciar nos próximos dias na tentativa de minimizar os efeitos da mais severa crise política desde que assumiu o governo, há pouco mais de um ano.

Ministros foram orientados a fazer um pente-fino nas ações de seus ministérios para apresentar ao presidente ações e obras que podem ser anunciadas brevemente.

Além disso, o Planalto cobrou a divulgação do que cada sigla fez de positivo ao longo da administração Temer.

"Os resultados [da semana passada] sugerem que o governo deu rumo ao país. É preciso ter muito cuidado nessa hora para não ter nenhum tipo de obstáculo que prejudique esses ganhos e traga atrasos nesta trajetória", disse à Folha o ministro Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo).

Temer almoça com ministros tucanos e recebe Sarney

Presidente busca apoio do PSDB para tentar vencer a crise política

Cristiane Jungblut | O Globo

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer almoçou ontem com três ministros do PSDB. O encontro, no Palácio do Jaburu, durou cerca de três horas e reuniu os ministros Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores), Antônio Imbassahy (Secretaria de Governo) e Bruno Araújo (Cidades), além do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen. O ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, não estava. O PSDB é fundamental para Temer, na tentativa de vencer a crise política.

A cúpula do partido têm evitado um rompimento com o governo, defendida por setores da base. A bancada paulista, por exemplo, pediu para que os líderes abandonassem o governo Temer logo após a divulgação do conteúdo das delações dos executivos da JBS.

Alckmin sobre a crise: ‘Não temos compromisso com o governo’

Governador diz que apoio do PSDB é às reformas e ao crescimento do país

Ana Paula Ribeiro | O Globo

SÃO PAULO - Em meio às discussões no PSDB sobre qual será o posicionamento do partido em relação ao presidente Michel Temer, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, afirmou ontem, ao comentar a situação do país, que os tucanos não têm compromisso com o governo, mas com as reformas necessárias para o crescimento do país. Alckmin já havia lançado publicamente o nome do senador Tasso Jereissati e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como nomes para uma eventual sucessão indireta de Temer.

— Não temos compromisso com o governo. Temos compromisso com o Brasil, com as reformas e com o crescimento do país — disse ele.

Nos últimos dias, a cúpula do PSDB vem estudando se vai continuar ou não a apoiar o governo de Michel Temer, decisão que só será tomada a partir do resultado do julgamento sobre o pedido de cassação da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a partir de 6 de junho. O governo vem perdendo apoio de sua base aliada desde que o presidente foi flagrado numa conversa com o empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, que assumiu já ter pago propina a cerca de 1.800 políticos.

'Acordo entre partidos para eleições indiretas não está na agenda hoje', diz Alckmin

Governador reafirmou compromisso com as reformas e evitou definir uma posição partidária antes do julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE

Daniel Weterman e Pedro Venceslau | O Estado de S. Paulo

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), negou neste sábado que haja um acordo entre diferentes partidos para eleger um nome contrário à Operação Lava Jato em uma eventual eleição indireta para a Presidência da República - no caso de afastamento do presidente Michel Temer.

Uma das principais lideranças nacionais tucanas, Alckmin almeja disputar o Palácio do Planalto nas eleições gerais em outubro do ano que vem. O governador afirmou que nenhum acordo desse tipo está na agenda e que é preciso garantir o encaminhamento das reformas antes de conversar sobre eleição indireta. "Hoje a pauta é trabalhar, tentar acelerar as reformas, acredito que possamos rapidamente no Senado aprovar a reforma trabalhista", disse o tucano quando perguntado sobre o suposto "acordão".

Nos bastidores, Alckmin articula o nome do presidente interino do PSDB, senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), para uma eleição indireta, garantindo em troca o apoio à sua candidatura em outubro de 2018. Ontem, o tucano chegou a defender publicamente o nome do senador e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para um eventual colégio eleitoral. O ex-presidente, no entanto, já afastou a possibilidade de concorrer.

Deputados resistem à proposta de eleição indireta bicameral caso Temer deixe a presidência

A rejeição à proposta se deve ao velho conflito entre Senado e Câmara, em que deputados reclamam que os projetos aprovados na Casa são ignorados ou sensivelmente alterados no Senado quando há pressão da opinião pública

Daiene Cardoso | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - A hipótese de uma eleição indireta para a Presidência da República em modelo bicameral, com votação separada na Câmara sendo referendada pelos senadores, sofre resistência entre os deputados. A Constituição prevê que, em caso de vacância do cargo nos últimos dois anos do período presidencial, o Congresso fará eleição indireta no prazo de 30 dias.

Como não existe lei regulamentando o processo de eleição indireta, deputados e senadores teriam de aprovar uma legislação estabelecendo as regras do pleito. Os deputados, no entanto, não abrem mão da força de seus 513 votos contra os 81 do Senado e dizem que não há nenhuma chance de a proposta, se for formalmente apresentada, prosperar. “A Constituição é clara: a eleição é no Congresso e todos nós somos congressistas”, definiu o líder do DEM da Câmara, Efraim Filho (PB).

Na base de Temer, a fidelidade está restrita à agenda de reformas

Para base aliada do governo, reformas independem de Temer

Partidos mantêm apoio à pauta do presidente, mas duvidam sobre permanência do peemedebista

Catarina Alencastro, Cristiane Jungblut, Fernanda Krakovics e Júnia Gama | O Globo

BRASÍLIA - Ainda engolfado pela crise política que o atingiu em cheio desde que veio à tona a delação da JBS, o presidente Michel Temer viu na última semana sua base aliada no Congresso dar andamento à pauta legislativa, apesar de muita confusão e pedidos de renúncia. O GLOBO procurou os líderes dos partidos da base e o tom geral é claro: em sua maioria, há apoio às pautas do governo, especialmente às reformas trabalhista e da Previdência, mas os mesmos pontuam que isto independe da permanência de Temer no cargo. De forma geral, há cautela em relação à continuidade do governo e ao julgamento da chapa presidencial marcado para o próximo dia 6 de junho, que pode selar o destino de Temer no poder.

Partido de Temer, o PMDB busca uma forma de sobreviver e de ter poder na definição do futuro. Por isso, a bancada da Câmara está decidida a se unir para não ficar sem espaço, seja qual for o cenário. O líder do PMDB na Câmara, Baleia Rossi (SP), fez uma reunião com ministros e alguns deputados para fechar a estratégia. Baleia tem sido cuidadoso ao falar sobre Temer e tem deixado o papel de tropa de choque aos deputados Carlos Marun (PMDB-MS) e Darcísio Perondi (PMDB-RS). O líder diz que a bancada “confia na palavra do presidente Temer”. Mas todos preferem o discurso de “apoio à agenda do país”, e não à pessoa do presidente.

Na crise política, empresários defendem reformas

Para presidentes de grandes empresas, mais importante do que Temer ficar ou não no cargo é a continuidade da agenda econômica

Fernando Scheller. Luciana Dyniewicz, Mônica Scaramuzzo, Marcia de Chiara e Naiana Oscar | O Estado de S.Paulo

A delação dos irmãos Batista, da JBS, caiu feito uma bomba em Brasília e gerou uma crise política que deixou sob ameaça o mandato do presidente Michel Temer, poucos dias depois de ele completar um ano no cargo e justamente quando a economia começava a dar os primeiros sinais de recuperação. Para oito presidentes e fundadores de grandes empresas ouvidos pelo ‘Estado’, a prioridade número um agora deve ser a agenda econômica, com a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária.

A maior parte dos empresários parece estar menos preocupada com a manutenção ou não de Temer no cargo e espera que, na medida do possível, os objetivos econômicos caminhem separados dos projetos políticos de deputados e senadores. Fundador e presidente do conselho de administração da construtora MRV, Rubens Menin diz que “ficou triste” com as denúncias, mas considera que o presidente Temer “não cometeu um pecado mortal”.

A maior parte dos empresários defende o direcionamento que a economia teve ao longo do último ano. Tanto o presidente da Telefônica, Eduardo Navarro, quanto o do Grupo Pão de Açúcar, Ronaldo Iabrudi, dizem que é necessário ter pressa para recolocar a economia nos trilhos. O primeiro vê risco de “paralisia” na atividade, enquanto o segundo teme que os poucos avanços já conseguidos possam ser perdidos.

O caminho é o desenvolvimento | Michel Temer

- Folha de S. Paulo

Inicio nesta terça (30), em São Paulo, o Fórum de Investimentos Brasil 2017, uma jornada de debates que vem sendo preparada há meses pelo governo federal e seus parceiros.

Esse importante encontro reunirá empresários, executivos e jornalistas estrangeiros, além de ministros, gestores públicos e das estatais.

Trata-se de mais uma prova incontestável de que, após um ano de compromisso com a responsabilidade fiscal, nossa economia saiu do fundo do poço e voltou a ser vista aqui e lá fora como oportunidade de investimentos e negócios, incluindo concessões e privatizações -algo fundamental para que possamos recriar os milhões de empregos perdidos desde 2015.

A realização desse fórum tem patrocínio do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Receberemos, nos próximos dois dias, investidores de mais de 42 países e de 22 setores da economia. O interesse mostra que nossas reformas econômicas criam ambiente confiável para o investimento e o crescimento.

Nossos malvados preferidos | Merval Pereira

- O Globo

Corruptores se valem da lassidão moral. A Operação Lava-Jato está nos revelando um país que suspeitávamos existir, mas nos recusávamos a enfrentar de maneira rigorosa. Explicitações desmoralizantes de um modo de ser nada republicano revelam uma ética pública que reflete a moral privada, não apenas de corruptos e corruptores, mas de todos nós, cidadãos, que afinal de contas somos os responsáveis por colocar no Congresso e no Executivo figuras que necessariamente nos representam como sociedade.

Tão chocante quanto ver e ouvir delações de executivos da Odebrecht, especialmente de seu patriarca Emilio, explicando as relações promíscuas com parlamentares e governantes com um ar de superioridade de quem está nessa vida subterrânea há muitos anos, foi ver e ouvir o dono da JBS descrever um leilão de deputados contra e a favor do impeachment da ex-presidente Dilma, como se fossem os bois que compra para seu abatedouro.

A falta que um líder faz | Eliane Cantanhêde,

- O Estado de S.Paulo

Se Congresso armar indulto para ex-presidentes, sucessor de Temer vira picadinho

O principal embate na definição de um eventual substituto de Michel Temer é da “senioridade”, o PSDB, o PMDB e o Senado contra a “junioridade”, a massa e os partidos médios da Câmara. O ponto em comum é que todos, do PSDB ao PT, aderiram ao “voto de desconfiança construtivo”, do Direito alemão, que consagra o que vem sendo dito aqui desde o início da crise JBS: Temer só cai quando houver um sucessor virtualmente ungido.

Alckmin e Doria lançam Fernando Henrique, o top da senioridade. FHC e Serra preferem Nelson Jobim, que se finge de morto, mas está bem vivo. Tasso Jereissati faz o meio de campo, mas, se o ângulo ajudar, chuta em gol. As conversas entre eles decantam para a base governista e se ampliam em ondas pelos cafezinhos do Congresso.

Caos nosso de cada dia | Fernando Gabeira

- O Globo

Numa carta endereçada a Robert Louis Stevenson, o escritor Henry James diz que gostaria que ela fosse um mingau de boas notícias. Infelizmente, não é possível preparar esse prato no Brasil, com notícias tão tristes que nem podemos homenagear e conhecer melhor as vítimas do atentado em Manchester, algo que aconteceu nos principais países do mundo.

Apesar das más notícias, é possível demonstrar que o Brasil está preparado para uma situação melhor se olhar para algumas decisões recentes. Por exemplo: as desordens que aconteceram em Brasília não aconteceram em Curitiba, quando Lula foi depor. E, se acontecessem, seriam rapidamente debeladas, tal o aparato policial e sua articulação com outros setores do governo.

Direta já? | Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

Direta já? Em tese, eu concordo. Todo poder, afinal, emana do povo. Além disso, a campanha seria uma oportunidade para a população definir para que lado o país deve caminhar, deixando para trás as intermináveis discussões sobre a legitimidade do presidente.

Só que nada na vida é tão simples. Além do reconhecimento do fato de que é improvável que o Congresso aprove uma emenda que lhe retiraria o poder de escolher sozinho o mandatário, o que me faz pensar duas vezes antes de sair gritando "direta já" são o custo e a oportunidade.

Truco na Lava-Jato | Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

De origem espanhola, o jogo de truco foi popularizado na América Latina por imigrantes espanhóis e italianos, sendo muito popular em São Paulo, Minas, Goiás e no Rio Grande do Sul. O apelo popular do jogo vem do sistema emocionante de apostas, nas quais cada tipo de pontuação pode ser escolhido para marcar mais pontos para a equipe. As propostas são aceitas, rejeitadas ou aumentadas. O blefe e o engano também são fundamentais para o jogo, inclusive na distribuição das “mãos” de cartas, cujo número precisa ser conferido a cada rodada. Com todo respeito, a crise chegou aos tribunais superiores como uma espécie de jogo de truco.

Atalhos institucionais | Vera Magalhães,

- O Estado de S.Paulo

O mais 'popular' desses puxadinhos legais atende pelo slogan de 'diretas-já'

Diante da crise generalizada e da falta de saídas fáceis, vários atores aos quais caberia a responsabilidade de conduzir o País para uma transição minimamente racional flertam perigosamente com saídas fáceis ou atalhos institucionais. É o ingrediente que falta para o Brasil descambar de vez para situações que assistimos num passado recente – ou mesmo hoje – nos nossos vizinhos de continente.

O mais “popular” desses puxadinhos legais atende pelo aparentemente libertário slogan de “diretas já!”, como se vivêssemos um período de hiato democrático e não tivéssemos um ciclo ininterrupto de eleições diretas a cada dois anos desde a década de 80. Como se a malfadada dupla Dilma Rousseff & Michel Temer não tivesse sido eleita e reeleita por voto popular.

A inércia do Brasil na podridão | Vinicius Torres Freire

- Folha de S. Paulo

Não há liderança partidária relevante que se arrisque a abandonar um sistema político que se chama de podre. Por outro lado, não há movimento ou organização social que se apresente como partido alternativo.

Quem está dentro não quer sair ou não tem força ou imaginação para se reagrupar em um partido reconectado a um interesse social qualquer de renovação. Quem está fora não quer entrar, não sabe como ou não tem força para fazê-lo.

É uma descrição estilizada do colapso da representatividade dos partidos gangrenados, exagerada por definição.

Sendo menos abstrato e extremista, há exemplos de saídas desse beco? Não se trata de apontar modelos, mas o descrédito dos partidos maiores, entre outras crises, propiciou tentativas de mudança na Espanha e na França.

A aposta econômica | Míriam Leitão

- O Globo

Temer tenta surfar na economia. O presidente Michel Temer está apostando nos efeitos da semana econômica. Duas notícias favoráveis devem ser divulgadas. Os juros vão cair mais uma vez na quarta-feira. E na quinta será divulgado o PIB do primeiro trimestre e ele será positivo, podendo chegar até a 1%. Com isso, o ambiente será propício para o discurso de deixar tudo como está para manter a recuperação.

A deterioração aumenta e não é só a da política | Celso Ming,

- O Estado de S.Paulo

Nesta sexta-feira, uma das três mais importantes agências de análise de risco, a Moody’s, colocou em perspectiva negativa a avaliação dos títulos de dívida do Brasil.

Trata-se de um aviso prévio. Se não houver solução imediata para a crise política, aumentam as incertezas sobre a capacidade do governo de perseguir o equilíbrio das contas públicas e, com isso, cresce o risco de calote. Não significa que o Brasil vá dar calote. Significa, apenas, que a qualidade dos títulos está azedando. A consequência imediata é o aumento dos juros.

O instrumento financeiro que mede melhor esse risco é o Credit Default Swap (CDS), contrato que funciona como seguro contra problemas de pagamento de um título de dívida. O CDS do Brasil saltou de 2,0 pontos porcentuais ao ano acima dos juros registrados imediatamente antes da crise para a casa dos 2,4.

O mundo gira enquanto o Brasil se enrola | Rolf Kuntz

- O Estado de S. Paulo

Ninguém vai deixar seus negócios à espera do fim da crise, nem os problemas darão trégua

Bateu em R$ 4,55 trilhões, valor muito maior que o da produção anual de qualquer outro país sul-americano, a dívida bruta do governo geral brasileiro. Essa era a posição de abril, segundo o último relatório das contas consolidadas do setor público. Esse monte de papagaios corresponde, pelo critério usado no Brasil, a 71,7% do produto interno bruto (PIB), valor adicionado da produção de bens e serviços – carros, aviões, tecidos, vestuário, bicicletas, cervejas, macarrões, óculos, sapatos, celulares, televisores, assistência médica, espetáculos, cortes de cabelo, jogos de futebol, telefonemas e tantos outros itens consumidos e usados no dia a dia dos brasileiros ou exportados. Pelo padrão brasileiro, a conta exclui os títulos do Tesouro na carteira do Banco Central (BC). Pelo método usado no Fundo Monetário Internacional (FMI), sem essa exclusão a dívida pública brasileira já chegou a 78,3% do PIB no ano passado, deve atingir 81,2% neste ano e alcançar 87,8% em 2022. Como esse padrão é aplicado aos 189 países-membros da instituição, os dados do Fundo são úteis para comparações internacionais.

Desemprego e pensamento mágico | Samuel Pessôa

- Folha de S. Paulo

O pensamento heterodoxo brasileiro acredita que o crescimento tudo resolve.

A partir de leitura muito extremada de Keynes, a heterodoxia supõe um mundo em que, na prática, não há restrição de recursos. A suposição de desemprego permanente de recursos produtivos permite, se as políticas de estímulo à demanda forem adotadas, que a economia cresça sem limites.

Para essa tradição de pensamento, o sucesso do leste asiático não é fruto das elevadíssimas taxas de poupança, sempre acima de 35% do PIB, das prolongadíssimas jornadas de trabalho e dos melhores sistemas educacionais do mundo.

Um exemplo para o mundo | Cacá Diegues

- O Globo

Não estamos desistindo. Pelo contrário, estamos enfrentando aquilo que não gostamos de ser e não queremos ser

País enfrenta o que não quer mais ser. Nessa crise política, estamos assistindo ao fim dos heróis. Corretas ou não, a velocidade e a quantidade de informações que recebemos diariamente através dos jornais, da televisão e, sobretudo da internet, nos fazem senhores do conhecimento e, portanto, senhores de nós mesmos, desnecessitados de representação.

Nos livramos dos heróis, não precisamos mais deles. Mas tampouco percebemos como nos tornamos comandados, orientados pelo que nos dizem aquelas mídias, a transformar em pensamento próprio aquilo que elas nos revelam, como se nós mesmos tivéssemos criado todas aquelas noticias, ideias e conclusões, tudo aquilo. Nos tornamos um oráculo de nós mesmos a repetir, sem perceber, o que as redes sociais nos enfiam na cabeça.

Uma questão de liderança – Editorial |O Estado de S. Paulo

Quando se veiculou, no dia 17 de maio, a versão de que havia um áudio no qual o presidente Michel Temer teria dado anuência à compra do silêncio de Eduardo Cunha e de Lúcio Funaro, foi pelos ares a relativa estabilidade que o País vivia nos últimos meses e que começava a mostrar seus resultados. A crise política voltou forte e arrastou os primeiros indícios de recuperação econômica. Ainda que a divulgação da gravação, no dia seguinte, tenha mostrado que não havia a propalada anuência presidencial, o estrago estava feito e o País, uma vez mais, se via enredado em discussões sobre a governabilidade.

Sucessão especulada – Editorial | Folha de S. Paulo

Difundiu-se, no mundo político e empresarial, a ideia de que é possível —e desejável— dar solução à crise que corrói o governo por meio do que poderia ser chamado de mudança com continuidade.

Propõe-se, segundo essa estratégia, que uma eventual substituição do presidente Michel Temer (PMDB) —caso este venha a ser, por exemplo, cassado pela Justiça Eleitoral— ocorra nos termos estritos do que dispõe o texto constitucional, sem emendas. Isto é, por meio de eleições indiretas.

Quanto à economia, defende-se a preservação do programa que lograva dar fim à recessão, além de encorajar projeções de crescimento maior no futuro. Leia-se, nesse caso, controle rígido de gastos e agenda de reformas liberalizantes.

Aposentadoria de servidor federal concentra renda – Editorial | O Globo

Debate sobre a Previdência tem permitido a revelação de vários mecanismos de injustiça social, como são os sistemas de benefícios do funcionalismo

Este período conturbado em que se somam crises econômica e política tem servido para expor várias das mazelas brasileiras, enquanto partidos, corporações de diversos tipos e organizações variadas se mobilizam na defesa de respectivos interesses. Já a maioria desorganizada, de renda baixa, apenas lembrada em discursos políticos em favor do “povo”, observa. Ela é que costuma pagar o preço dos acertos feitos entre poder político e categorias influentes no Congresso — servidores públicos, sindicatos fortes do setor privado —, para a criação e aumento de vantagens pecuniárias.

O Relógio | João Cabral de Melo Neto

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Uma vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

que continua cantando
se deixa de ouvi-lo a gente:
como a gente às vezes canta
para sentir-se existente.

O que eles cantam, se pássaros,
é diferente de todos:
cantam numa linha baixa,
com voz de pássaro rouco;

desconhecem as variantes
e o estilo numeroso
dos pássaros que sabemos,
estejam presos ou soltos;

têm sempre o mesmo compasso
horizontal e monótono,
e nunca, em nenhum momento,
variam de repertório:

dir-se-ia que não importa
a nenhum ser escutado.
Assim, que não são artistas
nem artesãos, mas operários

para quem tudo o que cantam
é simplesmente trabalho,
trabalho rotina, em série,
impessoal, não assinado,

de operário que executa
seu martelo regular
proibido (ou sem querer)
do mínimo variar.

A mão daquele martelo
nunca muda de compasso.
Mas tão igual sem fadiga,
mal deve ser de operário;

ela é por demais precisa
para não ser mão de máquina,
a máquina independente
de operação operária.

De máquina, mas movida
por uma força qualquer
que a move passando nela,
regular, sem decrescer:

quem sabe se algum monjolo
ou antiga roda de água
que vai rodando, passiva,
graçar a um fluido que a passa;

que fluido é ninguém vê:
da água não mostra os senões:
além de igual, é contínuo,
sem marés, sem estações.

E porque tampouco cabe,
por isso, pensar que é o vento,
há de ser um outro fluido
que a move: quem sabe, o tempo.

Quando por algum motivo
a roda de água se rompe,
outra máquina se escuta:
agora, de dentro do homem;

outra máquina de dentro,
imediata, a reveza,
soando nas veias, no fundo
de poça no corpo, imersa.

Então se sente que o som
da máquina, ora interior,
nada possui de passivo,
de roda de água: é motor;

se descobre nele o afogo
de quem, ao fazer, se esforça,
e que êle, dentro, afinal,
revela vontade própria,

incapaz, agora, dentro,
de ainda disfarçar que nasce
daquela bomba motor
(coração, noutra linguagem)

que, sem nenhum coração,
vive a esgotar, gôta a gôta,
o que o homem, de reserva,
possa ter na íntima poça.