domingo, 18 de fevereiro de 2018

Luiz Sérgio Henriques: A crise latino-americana no espelho da Europa

- O Estado de S. Paulo.

Pouca ou nenhuma compreensão merecem aduladores de tiranetes terceiro-mundistas

Este tem sido um tempo de manifestos de intelectuais, no Brasil e fora daqui, a respeito dos problemas que nos acometem num ritmo quase de tirar o fôlego. Fácil demais, mas inútil, ironizar esse tipo de “literatura”, caracterizando-a como manifestação superficial de intelectuais sartrianamente engajados, para usar terminologia anacrônica, a respeito de caóticas situações de um Ocidente distante, posto na periferia do mundo e submetido, em passado não tão remoto assim, a golpes sangrentos e regimes de exceção.

Não se trata só de cálculo pragmático. Todo e qualquer democrata, seja de que tendência for, conhece o peso e a dimensão de um Jürgen Habermas ou de um Charles Taylor – para só mencionar dois nomes que, avalizadores da hipótese de golpe contra a democracia brasileira com o impeachment de Dilma Rousseff e os problemas judiciais de Luiz Inácio Lula da Silva, carregam consigo a capacidade de influenciar pessoas de bem nas mais diferentes latitudes. Não são “companheiros de viagem”, como se dizia outrora daqueles cujo apoio uma esquerda muitas vezes sectária aceitava transitoriamente, enquanto lhe serviam de um ponto de vista puramente tático. Na verdade, mais além do pragmatismo, o que dizem de certo ou errado, de profundo ou superficial, faz pensar nas relações entre cultura e política, nos meios e modos de recíproca influência entre duas esferas ligadas, mas irredutíveis uma à outra.

Se Habermas é um intelectual que estimula e inspira respeito, há, evidentemente, outros nomes cuja atitude diante não só do Brasil, como também da América Latina, dá margem a preocupação e a pessimismo. A virada à esquerda que marcou a política do subcontinente sulamericano na primeira década do novo século nem sempre foi acompanhada com sobriedade e mesmo seriedade. Tendências que se afiguravam desde o início autoritárias e potencialmente destrutivas foram saudadas por figuras públicas maiores ou menores como indícios de insurgência anti-imperialista, rebeliões populares contra o neoliberalismo, como se conviesse à esquerda reeditar, com sinal trocado, o doloroso passado de caudilhos e ditaduras de nuestra América.


A justiça social, assim, se imporia à força, em contraposição às formas de uma democracia estruturalmente vazia e oligárquica. Novos heróis libertadores elaboraram, ou tiveram quem por eles elaborasse, estratégias de refundação radical de seus países. Nas situações mais extremadas, a mistura de nacionalismo e militarismo criou o terreno para o surgimento do homem forte e providencial, acima das instituições, que, aliás, deveriam ser remodeladas segundo uma receita que pouco a pouco se espalharia – Constituintes (ou “prostituintes”) exclusivas, reeleições indefinidas, mecanismos plebiscitários de legitimação.

A Venezuela, o país vizinho e amigo que ora apodrece sob o chavismo e o madurismo, terá sido o exemplo mais acabado desse retorno tosco ao nacional-popular de outras eras. O bolivarianismo lançou ondas de choque por toda parte, hegemonizando o discurso da esquerda não só no entorno mais imediato. No reino restaurado do nacional-popular, um submarxismo não poderia deixar de se fazer presente, como quando o caudilho anunciou, com a megalomania característica, a criação de uma “V Internacional” em torno de seu país, a nova Meca revolucionária. Ou quando passou a exportar para a Europa – para alguns de seus políticos e intelectuais – as estratégias de uma esquerda de tipo populista, como suposto remédio para a crise – efetiva – da esquerda histórica. Que o diga o Podemos espanhol, que por aqui teve, e tem, seus admiradores.

O petismo, que poderia ter sido um contraponto a esse movimento, não raro foi um elemento a ele subordinado e, por isso, incapaz de se tornar a vanguarda do Ocidente político na subregião. Construiu uma mitologia global em torno de seu líder único, o que talvez seja agora um elemento de força para a agitação e propaganda em torno do “golpe branco” e do regime de exceção que teria imposto ao Brasil. Num tempo em que não só mercadorias transitam velozmente, mas também ideias e visões de mundo, estabeleceu pontes com a cultura europeia progressista, aproveitando-se, também nesse ponto, do caráter cartorial e provinciano das demais correntes partidárias internas. Conseguiu prodigiosamente manejar a linguagem bolivariana e a do socialismo reformista, que evidentemente considera como capitulação – ainda que, no poder, tenha praticado um reformismo errático e fraco, passivamente sustentado, como acontece a qualquer economia agroexportadora, no extraordinário dinamismo da “globalização chinesa” da década inicial do século.

Nada casual, pois, que intelectuais da área social-democrata, de sólido compromisso com as liberdades, subscrevam a versão petista da nossa crise. Num mundo ideal, grandes intelectuais não deveriam vir a reboque da política de uma facção – de qualquer uma delas. Deveriam ser mais amigos da democracia como um todo do que de um só partido, atitude que requer estudo, serenidade e análise refletida de mitos, mais além da imensa competência em seus campos específicos. Seja como for, trata-se de interlocutores preciosos, pensadores que defendem a razão neste tempo conturbado e não isento de perigos para todas as democracias, incluída aquela sob a qual vivemos ininterruptamente desde 1988.

Pouca ou nenhuma compreensão merecem os aduladores de tiranetes terceiro-mundistas de fachada revolucionária. A destruição da Venezuela é séria demais para que deixemos de cobrar responsabilidades de quem insiste em ver a América Latina como uma Sierra Maestra que não passa. Quanto à nossa esquerda, longe de projetar golpes e catástrofes, já era para ter ciência plena de que ciclos eleitorais vão e vêm, como é próprio das democracias normais, que, com toda a firmeza, deveríamos aspirar a ser.

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✽ Luiz Sérgio Henriques, tradutor e ensaísta, é um dos organizadores das ‘Obras’ de Gramsci

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