quarta-feira, 14 de março de 2018

Rosângela Bittar: Balé coreografado


- Valor Econômico

Bolsonaro cai e Alckmin sobe em potencial eleitoral

Há um cenário precioso para se compreender este momento de escolha preliminar dos candidatos a presidente da República, e ele ficou oculto nas pesquisas divulgadas pelo Instituto MDA: o potencial eleitoral. O índice mede o potencial eleitoral do candidato, a possibilidade de crescimento da candidatura, tanto o que o eleitor ainda não conhece, e portanto é um dado irrelevante - "ainda não vi e não gostei" - e o potencial eleitoral do candidato que o eleitor conhece. Esse é o quadro relevante.

Pode-se medir o potencial positivo, (com certeza votaria naquele candidato) ou potencial negativo (a rejeição peremptória).

Um das revelações mais surpreendentes foi a queda do candidato Jair Bolsonaro no ranking. Ele escorrega para o quarto lugar em potencial de voto positivo, com o nome do ex-presidente Lula na tabela, e para o terceiro, sem a figuração de Lula. O quarto lugar, entre sete candidatos, não é um bom patamar. Eis como ficou o quadro de possibilidade de voto nos sete principais candidatos já assumidos como tal por seus partidos: Lula (PT), 50,5%, Marina Silva (Rede) 41,3%, Geraldo Alckmin (PSDB) 41,1%, Jair Bolsonaro (PSL) 39,7%, Ciro Gomes (PDT) 31,4%, Rodrigo Maia (DEM) 18,3% e Michel Temer (PMDB) 7,6%.

O potencial positivo é uma possibilidade de voto efetivo muito forte. O potencial negativo é igualmente muito forte, só que ao contrário, de rejeição do eleitor.

No caso da rejeição, o que se destaca é a melhora da situação do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o pré-candidato do PSDB, que passa para o segundo lugar dos menos rejeitados. Porém, chama a atenção a situação de Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados, que ficou com um potencial de expansão de sua candidatura muito limitado: 77% dos entrevistados o rejeitam. O potencial negativo dos sete é o seguinte: Lula 47%, Alckmin 54,9%, Marina 55,4%, Bolsonaro 56,4%, Ciro Gomes 59,6%, Rodrigo Maia 77,1% e Michel Temer, até agora o presidente mais impopular da história brasileira, 89,2%.

Boas notícias para Alckmin e Marina, além de Lula, se conseguir escapar das barreiras judiciais e se candidatar; péssimas para Bolsonaro, Ciro, Temer e Rodrigo.

Essa sondagem diz muito sobre as candidaturas postas hoje, mais, muito mais que a tradicional pesquisa de intenção de voto, em que a sucessão não anda, ninguém sai do lugar, dando a impressão que a disputa está definida entre os candidatos que estão aí, e agora seja o que Deus quiser, é só sair em campanha. Não está.

São poucas as definições. Há muitos candidatos a presidente da República definidos e definitivos, que irão até o fim a não ser que um raio os abata. E há muitos outros candidatos definidos, mas não definitivos, são os que se declaram candidatos, alguns até lançados pelos partidos. Mas são candidatos até não serem mais. Para alguns esse dia está próximo, para outros o período de candidatura provisória pode se prolongar até junho.

São candidatos definitivos Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro. Marina Silva às vezes entra nesse grupo, outras sai, e no momento está sendo considerada, pela perda de densidade política, uma candidatura duvidosa, porém sustentada, e assim pode ir até o fim, pelo sucesso nas pesquisas.

No segundo grupo, dos candidatos que podem deixar de ser brevemente ou um pouco mais para a frente, destaca-se Rodrigo Maia, lançado com alarde inclusive contra a vontade de seu patrono político e pai, Cesar Maia. Este é um projeto formulado pelo novo presidente do DEM, ACM Neto, como sua própria plataforma de condução do partido. Com uma bancada ampliada por migrações nesta janela partidária, o DEM adquiriu força política para, inclusive, fazê-la crescer ainda mais e melhorar suas cartas eleitorais. Correndo por aí com uma candidatura a presidente apoiada por vários partidos do centro, por enquanto, o DEM pode sair do pleito com um imbatível Rodrigo para a reeleição a deputado federal e novamente presidente da Câmara, além de dar fôlego aos candidatos aos governos estaduais e força política para aliança com candidatos presidenciais melhor colocados. Portanto, a candidatura do DEM parece ser para negociar uma Vice-Presidência e a reeleição do deputado carioca para a presidência da Câmara.

Se crescer demais por falta de opção do eleitorado, o que parece não irá ocorrer por causa de seu baixo potencial de voto, pode até ficar, mas isso é o acaso. Henrique Meirelles é outro desses casos, de ser candidato até não ser, só que sua data limite para decidir-se é 6 de abril. Pode ser o candidato do MDB, pode ser também o vice indicado pelo governo para compor alguma chapa, ou mesmo nada. Se continuar no cargo depois de 6 de abril, é porque abdicará de qualquer veleidade eleitoral, nos próximos quatro anos. Se sair, pode ser qualquer coisa, mas terá mudado de partido nesse período de migração porque o seu, o PSD, se encaminha para uma aliança com o candidato do PSDB.

Um terceiro grupo abriga os candidatos de si mesmos, quadros permanentes do cenário eleitoral sem compromisso nem perspectiva de vitória, mas mantidos até o fim porque a candidatura é um objetivo em si mesma. Aqui estão Paulo Rabello de Castro e Valéria Monteiro, pela direita. Pela esquerda se veem Manuela d'Ávila, do PCdoB, e Guilherme Boulos, do Psol. Os dois últimos podem, amealhando votos á esquerda, principalmente os que se perderem da candidatura Lula, salvar os seus partidos da cláusula de barreira. Rabello de Castro e Valéria estão naquele grupo onde, como Eymael, Levy Fidelix e outros que surgirem do mesmo tipo, são vistos como candidatos especulativos. E tem Alvaro Dias, do Podemos, já apelidado de "Não Podemos" e que, diante do sucesso eleitoral demonstrado pela candidatura, especialmente nos Estados do Sul, avalia se muda de partido para conseguir melhor estrutura política.

Todos eles, porém, podem funcionar, enquanto durarem, para produzir o bem maior desejado por todos os partidos, que é uma bancada numerosa na Câmara, com a qual podem ter as seguintes irrecusáveis vantagens: tempo de propaganda gratuita na televisão, maior participação no fundo eleitoral, aliança para dar governabilidade e cargos correspondentes à força política do partido.

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