quarta-feira, 2 de maio de 2018

Ressentimento de Temer com Alckmin ameaça aliança

Por Andrea Jubé | Valor Econômico

BRASÍLIA - A evolução das articulações entre PSDB e MDB na construção de uma candidatura única do centro político não passa pela interlocução direta entre o presidente Michel Temer e o presidenciável tucano Geraldo Alckmin. Temer continua ressentido com Alckmin após o desembarque do PSDB do governo e tem mantido conversas com outras lideranças tucanas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-prefeito João Doria. Outra aresta nesse movimento é a clássica divisão no MDB, já que os caciques emedebistas do Norte e Nordeste rejeitam a aliança com os tucanos.

Até o momento, o único elo que une todas as alas do MDB é o ressentimento com o PSDB, que em novembro do ano passado rompeu com o governo Temer, entregando - embora parcialmente - cargos de primeiro e segundo escalão que mantinham na Esplanada. Dos cinco ministérios originalmente comandados pela sigla, apenas o chanceler Aloysio Nunes permaneceu no cargo, na cota pessoal do presidente.

"Eu me senti humilhado pelos tucanos", disse um cacique emedebista ao Valor, que rechaça a aliança com o PSDB. A avaliação é que Alckmin, já na conturbada transição do comando do partido, conduziu com "arrogância" o rompimento com o governo Temer.

Esse sentimento é a força motriz da articulação das alianças regionais por caciques do MDB de Estados do Norte e do Nordeste. O presidente do Congresso, Eunício Oliveira (MDB-CE), e os senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Jader Barbalho (MDB-PA) têm o PSDB como adversário local em seus Estados. Eunício declara voto no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - que mesmo preso, continuará sendo uma referência eleitoral no Nordeste -, fechou aliança com o PT do governador Camilo Santana e deverá estar no palanque do pré-candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes.

É nessa conjuntura que as negociações para uma eventual chapa encabeçada por Alckmin, com Henrique Meirelles (MDB) como vice, avançam aos solavancos. Para agravar o quadro, Meirelles ainda resiste à posição de candidato a vice-presidente.

Quando assumiu a presidência do PSDB, em dezembro, Alckmin fez um aceno considerado tímido ao MDB, elogiando o trabalho de Temer na recuperação econômica. "Registre-se os esforços do atual governo, que pouco a pouco começa a reversão da tragédia econômica em que o país foi colocado."

Uma declaração, entretanto, considerada insuficiente para reaproximá-lo de Temer, que encheu um pote de mágoas com as atitudes do então governador de São Paulo nos capítulos mais dramáticos de seu governo.

Aliados de Temer recordam que Alckmin estimulou o então líder tucano, Ricardo Tripoli (SP), a ampliar na bancada os votos favoráveis às duas denúncias contra o presidente, enquanto o senador Aécio Neves (PSDB-MG) - adversário interno de Alckmin na sigla - trabalhava a favor do Planalto. Para agravar o cenário, Alckmin não adotou uma postura incisiva a favor da reforma da Previdência, nem mobilizou os parlamentares tucanos para que apoiassem a proposta.

Por sua vez, segundo interlocutores, Alckmin não está convicto da necessidade de uma aliança com o MDB para dar musculatura à sua candidatura, porque tem receio de que as denúncias de corrupção contra caciques da sigla - que atingem, inclusive, o presidente Temer - contaminem sua postulação.

É nessa conjuntura de desconfiança e ressentimento, que Temer elegeu como interlocutores preferenciais no PSDB o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-prefeito de São Paulo João Doria. Outra referência tucana do emedebista continua sendo o ex-presidente da sigla Aécio Neves. O mineiro - adversário declarado de Alckmin - submergiu na cena nacional diante de novas denúncias contra ele, mas ainda é considerado um aliado de peso do governo em Minas Gerais, onde convenceu o senador Antonio Anastasia a concorrer ao governo, garantindo um palanque robusto aos seus aliados no segundo maior colégio eleitoral.

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