quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Rosângela Bittar: Oposição sem adjetivo

- Valor Econômico

PT e PSDB não têm ideia sobre o que fazer ano que vem

Enquanto Jair Bolsonaro vai dando forma à concepção política do seu governo, procurando identificar uma maioria de centro-direita que chega ao Congresso e que possa aprovar seus principais projetos, a oposição sofre para chegar ao fim da campanha eleitoral e vai penar mais ainda para definir uma forma eficiente e inovadora de atuação, que reconquiste o eleitorado perdido.

É impossível, dado o avanço tecnológico demonstrado pela campanha deste ano e a clareza do eleitorado ao não se deixar engabelar por nenhum tipo de propaganda falsa, que se fará uma oposição apenas inventando adjetivos. Antigamente a oposição e o apoio se davam em torno dos adjetivos "sistemático" e, principalmente, "construtivo"; hoje, surgiram novos para a oposição e o apoio: "seletivo" e, principalmente, "crítico". Terá que ter uma tecla na urna eletrônica de confirme o voto crítico.

Com o fim a campanha eleitoral vão ter que correr com as definições, não vai dar para continuar com uma sustentação política baseada na retórica. E não será ao estilo Gleisi Hoffmann, ou Geraldo Alckmin, que o PT e o PSDB vão retomar sua supremacia política.

O PT, se perder no domingo, sairá da disputa de 2018 com uma vitória, elegeu a maior bancada da Câmara, o que é um desempenho admirável para um partido na sua situação. Mas sem força, sem credibilidade e, principalmente, sem um líder que possa substituir Lula, arrastar o que sobrou montanha acima e criar um discurso, o que sempre cobrou da oposição quando virou governo.

Não se pode imaginar que será feita uma oposição de grito, à moda Gleisi. Uma possibilidade de nova liderança no PT seria, tendo se tornado conhecido em todos os Estados e os milhões de votos que vai conquistar, Fernando Haddad. A ver se terá força para construir tão complexa obra de engenharia.

O ex-prefeito de São Paulo ficou muito marcado nesta campanha pelas visitas semanais a Lula, na prisão, em Curitiba, para pedir orientação e fundir sua imagem á dele. Ainda hoje, duas semanas após suspender essas visitas, é criticado por ser um cidadão que se sujeita às decisões de Lula e vai à Cadeia se violentar.

Ainda não pode ser considerado um líder com opiniões e projeto próprios, e há quem diga que nunca será, não é de sua constituição.

Um segundo nome seria o de Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, eleito agora senador. Da sua nova Casa poderia presidir o partido e criar um projeto para conduzi-lo novamente ao poder. Pairam sobre Wagner e Haddad menções nas investigações da Lava-Jato, mas nada que tenha tido consequências até agora. Se preferirem os nunca citados, há os governadores do Ceará, Camilo Santana, e da Bahia, Rui Costa.

Discurso, parece que a oposição petista já tem e está sendo construído agora, na reta final da campanha eleitoral: essencialmente mostra-se velho e inadequado, pois é o mesmo que adotou no governo de Michel Temer: o da deslegitimação das eleições, tese que será levada adiante mesmo se for confirmada a maioria esmagadora de votos para seu adversário que as pesquisas prometem. Se o mandato do presidente não é legítimo, não o é também o mandato da maior bancada que o PT elegeu na Câmara na mesma eleição. Mas quem se preocupa com isso?

Mas até para esse tipo de discurso o PT terá que se refazer, pois se ficar explorando contra o adversário práticas de sua própria agenda, como a declaração sobre necessidade de fechar o Supremo Tribunal Federal, discurso comum a Eduardo Bolsonaro (PSL) e Wadih Damous (PT), além dos protestos genéricos de Lula contra juízes e ministros, será difícil ter curso. O eleitorado está realmente mais atento e se informando por outros meios.

Surpreendido pelas transformações das campanhas eleitorais este ano, o PT tomou uma rasteira da tecnologia, uma área em que sempre teve proeminência. Com isso, saiu atirando para todos os lados na tentativa de atingir algum alvo. De forma pouco organizada e esbarrando na incoerência, como se viu no caso do STF e também no caso WhatsApp, que atingiu, antes da denúncia contra empresários em São Paulo, um candidato do partido em Minas Gerais. Ainda ontem o candidato Haddad escorregou ao reproduzir como verdadeira notícia falsa, já desmentida publicamente. O PT terá necessariamente que buscar caminhos mais sólidos se quiser reconquistar seu eleitorado dos anos Lula.

A oposição que fará o PSDB é ainda mais nebulosa. O partido já estava, antes mesmo desta campanha, esfacelado. Seu grupo fundador é considerado praticamente extinto há mais de oito anos. E ninguém surgiu no lugar de Fernando Henrique, José Serra, Geraldo Alckmin, Mário Covas, Franco Montoro, Arnaldo Madeira; José Richa. Euclides Scalco e tantos outros. Essa geração que conquistou o governo duas vezes, em 94 e 98, fez uma boa gestão mas não conseguiu manter o poder.

Surgem desta eleição dois líderes que podem rejuvenescer a ação política do PSDB: Antonio Anastasia, perdendo ou ganhando o governo de Minas, é um deles. Se perder, terá ainda quatro anos de mandato de senador, e de lá poderá comandar seu partido.

Outro é Eduardo Leite, candidato ao governo do Rio Grande do Sul, que lidera as pesquisas no segundo turno. Teve força para impor-se ao PT, ao MDB e ao PP, fortes no Estado. Notou-se a ausência do candidato ao governo de São Paulo, João Doria, nessa lista? Pois é: no partido ele não é considerado PSDB. Apenas uma invenção de Geraldo Alckmin que pode se dissolver no ar, mesmo que vença a disputa do segundo turno para o governo de São Paulo. Está levando um baile de Márcio França, do PSB, vice-governador também do Alckmin que, por isso, rodou como pião nessa disputa.

Quanto ao discurso a ser feito, é difícil imaginar o que o PSDB dirá, pois quando tinha que ser oposição ficou gravitando em torno do PT, sem coragem para se reposicionar.

Falta, aos jovens do PSDB, cultura política que lhes permita assumir o comando. A preparação precisa ser célere. E o PT, embora considerado em vantagem por ser um partido com bandeiras definidas, naufragará se permanecer só com slogans, na base do "Fora Bolsonaro". Nada de anacronismo e ausência de senso na nova vida.

Mas PT e PSDB terão que se reconstruir, renovar seus métodos, atualizar sua ação política, procurar um rumo e um nexo. Este fim de campanha de segundo turno mostrou que ninguém, na oposição, tem a mais pálida ideia sobre o que fazer a partir do ano que vem.

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