domingo, 10 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pluralismo é crítico para as universidades

Por O Globo

Professores reagem à intolerância e ao radicalismo com manifesto em defesa da liberdade acadêmica

Universidades deveriam ser espaços abertos ao pensamento livre, ao debate de ideias, à convivência entre diferentes visões políticas, ideológicas, religiosas ou de comportamento. Infelizmente, não é o que se tem visto no Brasil. Em vez de abrirem as portas a divergências e discussões produtivas, as instituições de ensino superior — em especial as públicas — têm se fechado como redutos de radicalismo, intolerância, censura e pensamento único. Por isso foi um sopro de sensatez o manifesto divulgado por um grupo de docentes e pesquisadores de diferentes partes do país em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica.

Manifestações e críticas são frequentes no ambiente universitário. Devem ser não apenas toleradas, mas encorajadas, desde que transcorram em clima pacífico e respeitoso. Não é o caso dos sucessivos episódios de cancelamento de eventos, abaixo-assinado contra professores e pesquisadores, boicote a aulas, campanhas sórdidas em redes sociais, intimidação a palestrantes e até agressão física. Está em xeque a própria essência da universidade: acolher todas as correntes de pensamento.

Gonet e o canto das sereias no Master, por Thiago Bronzatto*

O Globo

A dúvida que ainda paira é se ele estará disposto a escalar as apurações em Brasília

Quando assumiu a Procuradoria-Geral da República, Paulo Gonet costumava comparar o desafio do cargo ao de Ulisses na “Odisseia”. Na volta a Ítaca, o herói quis ouvir o canto das sereias, mas sabia que, seduzido pela melodia, poderia perder a razão e se lançar ao mar. Para sobreviver, pediu aos marinheiros que vedassem seus ouvidos com cera, enquanto ficaria amarrado ao mastro da embarcação. A estratégia permitiu que a tripulação atravessasse ilesa a zona de perigo. Inspirado nessa história, o chefe do Ministério Público Federal (MPF) dizia que teria de se manter atado à missão de cumprir seu dever, sem distrações. Passados dois anos e quatro meses, Gonet enfrenta um dilema: ser enredado por vozes políticas ou se manter firme em seu propósito?

Relógio conta as horas para Ciro, por Míriam Leitão

O Globo

Voltou-se contra Ciro Nogueira o “tic tac” que ele usava contra a esquerda. Caso Master o atingiu e afundou planos de Flávio Bolsonaro de tê-lo na vice

O senador Ciro Nogueira quando era ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, naquela administração que preparava um golpe de Estado, começou a postar nas redes sociais uma mensagem enigmática imitando o som de um relógio. Tic, tac, tic, tac. Não se sabe tudo o que ele queria dizer com essa contagem do tempo. Agora, o relógio corre contra ele. Os indícios apresentados pela Polícia Federal, retirados do celular de Daniel Vorcaro, são robustos o suficiente para sustentar que Ciro recebeu vantagens indevidas e em troca usou seu mandato para lançar uma “bomba atômica” a favor do banqueiro.

Esperteza que pode engolir Cláudio Castro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao manipular sucessão, ex-governador do Rio abriu caminho para desembargador promover devassa em sua gestão

A lição costumava ser repetida por políticos mineiros da velha guarda: a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o dono.

Cláudio Castro se julgou esperto ao negociar a renúncia do vice-governador eleito em sua chapa em 2022. Queria abrir caminho ao presidente da Assembleia Legislativa, que disputaria a eleição de outubro na cadeira de governador.

O vice saiu da fila, mas o presidente da Alerj acabou preso sob suspeita de favorecer o Comando Vermelho. Quando Castro renunciou para fugir da cassação, o estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Era o único na linha sucessória que não devia nada a ele.

Cabo de guerra, por Dorrit Harazim

O Globo

Os dois lados sabem que devem esperar o esgotamento gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário

A palavra hormuz deriva do nome de uma divindade suprema da Pérsia antiga, portadora de sabedoria, luz e bondade. Em tradução reducionista, “Senhor da Sabedoria”. No contexto da guerra desencadeada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, é difícil encontrar qualquer vestígio dessas virtudes no estrangulamento duplo do Estreito de Ormuz. Tanto para o presidente americano Donald Trump como para o que restou da liderança decapitada do Irã, trata-se de uma guerra de usura — vence quem aguentar mais tempo o custoso fechamento do Estreito.

Oficialmente, continua em vigor um esquisitíssimo cessar-fogo assinado em 8 de abril passado. Suas duas semanas de validade, inicialmente previstas para reavaliação de parte a parte, já não têm prazo para acabar. É nesse ínterim poroso de violações pelos dois lados que se desenrola o atual cabo de guerra.

O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O avanço das apurações do caso Master produzirá reações políticas cada vez mais intensas. Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. É um dos líderes mais influentes do Centrão

“Pelas ruas vis deve passar um homem que não seja ele próprio vil, que não esteja maculado nem tenha medo. O detetive, nessa espécie de história, deve ser esse homem. Ele é o herói; ele é tudo. Deve ser um homem completo, um homem comum e, contudo, um homem incomum. Deve ser, para usar uma frase já bastante gasta, um homem de honra — por instinto, inevitavelmente, sem pensar nisso, e certamente sem dizê-lo. Deve ser o melhor homem de seu mundo e suficientemente bom para qualquer mundo.”

Essa passagem do ensaio literário A simples arte de matar (“The Simple Art of Murder”), de Raymond Chandler (LPM), é a melhor definição do herói noir dos romances policiais norte-americanos. O homem solitário, moralmente íntegro, mas mergulhado num mundo corrompido, no qual a fronteira entre crime e legalidade se tornou nebulosa. O herói atravessa uma sociedade decadente sem ilusões sobre justiça ou pureza como um Ulysses da sarjeta.

Faltam seis meses para a eleição. E aí? Por Daniel A. de Azevedo*

Correio Braziliense

As coisas mudaram, mas nossas reflexões muitas vezes permanecem presas a lógicas do passado. É hora de encarar a eleição de 2026 como o fenômeno novo que ela realmente é

A seis meses das eleições, é preciso compreender que o pleito de 2026 não é apenas mais um capítulo na nossa cronologia democrática. Embora possa parecer um processo rotineiro, o contexto atual é inédito. O mundo político pós-pandemia não é o mesmo, apesar de insistirmos em olhá-lo como uma continuação óbvia do passado. Isso é um fato para todo o mundo, e o Brasil não é exceção. Para decifrar o que nos espera em outubro, proponho três pontos de observação essenciais.

Em primeiro lugar, destaca-se a diversidade do campo político. A ciência política descreveu, por muito tempo, a existência de uma "direita envergonhada" no Brasil pós-redemocratização. Nos anos de 1990, poucos candidatos assumiam tal posição política, temendo a associação imediata com o período iniciado em 1964. Éramos um país de esquerda e de um vasto centro; a própria esquerda hoje deve olhar com nostalgia para a época em que rotulava Fernando Henrique Cardoso — um social-democrata — como a face da direita brasileira.

A verdade encontra um caminho, por Ana Dubeux

Correio Braziliense

A desinformação é considerada o mal maior deste século. Mas existe um porém: em algum momento, a verdade se estabelece. Ela encontra caminhos e normalmente eles são institucionais.

A desinformação é considerada o mal maior deste século. Porque ela pode decidir eleições, destruir a democracia, matar pessoas. A IA generativa eleva o risco a uma potência extrema, até incalculável. O uso de inteligência artificial para criar conteúdos falsos cresceu 308% entre 2024 e 2025, segundo dados da Agência Lupa. Estamos na véspera de uma campanha eleitoral mais uma vez polarizada, e as fake news serão fermento para a animosidade. 

Segundo o DataSenado, cerca de 70% dos brasileiros afirmam ter visto notícias falsas recentemente e 91% da população acredita que as fake news representam um perigo real para a sociedade. Ou seja, estamos todos preocupados.

Dinheiro, direito e política, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos

A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia é o título do livro de Joaquim Falcão, prestes a ser publicado. Foi Falcão quem me presenteou, anos atrás, com How Democratic is the American Constitution?, livro de Robert Dahl, um dos mais influentes cientistas políticos norte-americanos no século 20, falecido em 2014. Nessa obra, Dahl formula uma pergunta que considera tão relevante quanto assustadora: “Será que os Poderes constitucionais dos Estados, do governo federal e dos três ramos principais deste último são apropriados para as nossas necessidades e valores democráticos de hoje?”

Dahl lembra que direitos implicam deveres e também oportunidades: o que significaria liberdade de expressão se não houvesse oportunidade de se manifestar livremente? E acrescenta um quarto elemento: os recursos para o exercício de direitos e oportunidades (e deveres), cujo caráter indispensável o autor ilustra ao auxílio de cenário ficcional.

Economia fraca amplia desgaste de Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Humor dos cidadãos poderá melhorar se houver condições para juros menores

Boa notícia para a direita e para o précandidato Flávio Bolsonaro: o mau humor dos cidadãos impõe ao presidente Lula um desafio singular. A redução da popularidade presidencial contrasta com alguns dos principais indicadores econômicos. O desemprego de 6,1% no primeiro trimestre foi o menor para esse período na série iniciada em 2012. O ganho médio mensal dos brasileiros em 2025, R$ 3.367,00, foi 5,4% maior do que o do ano anterior. O bolo dos ganhos também foi recorde. A massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, R$ 361,7 bilhões no ano passado, foi a maior da série, superando por 7,5% a de 2024 e por 23,5% a de 2019.

Lula e Trump dominam teatro político, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Uma semana antes de visitar Xi Jinping em Pequim, Donald Trump se reuniu com Lula. Embora fosse um pedido antigo do Brasil, a reunião foi marcada às pressas. Não havia agenda preparada com antecedência pelos diplomatas dos dois lados. A substância dos assuntos não era importante. Para Trump e Lula, a reunião bastava.

Por isso ela foi um sucesso: as muitas divergências não foram endereçadas. Cada um disse o que quis, sem contestação. Os assuntos foram lançados, sem um objetivo que não a simples ocorrência de uma conversa longa e amistosa.

O quase monopólio da China sobre minerais críticos fragiliza os EUA. A guerra contra o Irã agravou a situação. O Pentágono informou em sessões sigilosas com integrantes das Comissões de Defesa da Câmara e do Senado que consumiu metade dos seus mísseis mais sofisticados – Tomahawk, Atacms, Thaad e Patriot.

Só a pizza salva Flávio, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se investigação que pegou Ciro Nogueira se estender, vida do filho de Bolsonaro deve ficar difícil

Bolsonaristas querem salvar a si mesmos e a aliados de direita, mas que mão pesada caia sobre Moraes

Segundo a Polícia FederalCiro Nogueira (PP-PI), que Flávio Bolsonaro já considerou vice dos sonhos por sua fidelidade a Jair Bolsonaro quando foi seu ministro da Casa Civil, é ladrão. Ciro recebeu dinheiro do Banco Master para apresentar um projeto de emenda à Constituição que teria dado sobrevida à ciranda do Master, com custos incalculáveis para a economia brasileira.

Se você costuma ler essa coluna, já sabe de que projeto se trata. É a emenda 11 à PEC 65/2023, que é assunto aqui quase toda semana. Segundo a PF, ela foi escrita no Banco Master e entregue a Ciro em um envelope para ser apresentada ao Congresso.

Silêncio de peixe fora d'água, por Muniz Sodré

Por Folha de S. Paulo

Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado genitor, Flávio ostenta a marca de 'moderado'

Se desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador

"Peixe morre pela boca" é velho ditado com aplicações novas na vida política. Disso é ilustrativo Bolsonaro 2.0, Flávio, filho 01 do ex-presidente encarcerado. Candidato à Presidência da República por mérito digital, logo, críptico, evita falar sobre programa político. Há razões, segundo o irmão 03: "Ele morde a isca com mais facilidade do que lambari em anzol de mosquito". Uma arrelia de quem pesca em águas turvas.

Fazendo e desfazendo a Constituição, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história da Carta dos EUA, que se destinava a regular o uso de terras

Adaptabilidade é ao mesmo tempo o ponto forte e a vulnerabilidade da Carta

Uma boa pedida para quem quer entender melhor o que acontece nos EUA é "The Making & Breaking of the American Constitution", do historiador Mark Peterson (Yale). Para Peterson, constituições são métodos para administrar a riqueza de um país, daí que ele começa sua obra sobre a história constitucional americana com a batalha de Hastings na Inglaterra de 1066. Gerir riqueza, tanto na Inglaterra do século 11 quanto nos EUA do 18, era regular o uso das terras agricultáveis.

É mito achar que delações fazem Brasília tremer, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Quem sabe o que fez no verão passado não se aflige. Antes, atua para escapar dos infortúnios do amanhã

A corrida é para ver quem cruza primeiro a linha de chegada: se investigados ou investigadores

Há algo de mito, daqueles que facilitam o raciocínio, na história de que Brasília "treme" a cada expectativa de delação premiada de investigados presos.

O pessoal que sabe o que fez em verões e invernos passados não perde o sono nem tempo com aflições comuns aos inocentes. Trata mesmo é de se mexer para encontrar um jeito de escapar dos infortúnios do porvir.

Fuzil de olhos verdes, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Carmen Miranda serviu, sim, à Política da Boa Vizinhança. Ela e dezenas de astros americanos

Ao se apresentar para os soldados nos quartéis, ela era o Brasil lutando pela causa da liberdade

Em coluna recente (22/4), tentei desmentir a história repetida à exaustão de que Carmen Miranda foi para os EUA em 1939 nas asas da Política da Boa Vizinhança, uma arma americana na Segunda Guerra. Demonstrei que, naquele ano, a famigerada política ainda não estava em operação, que os EUA sequer tinham entrado na guerra (o que só aconteceria em dezembro de 1941) e que a guerra nem mesmo começara. Carmen foi contratada por seu talento e pelo dinheiro que renderia para o megaempresário dos teatros, Lee Shubert. A Broadway, então uma operação doméstica, exclusivamente nova-iorquina, não tinha o menor interesse pela guerra.

Poesia | Viva o dia das mães! - Para Sempre, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Mãe, Meu Fado

 

sábado, 9 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Senado não pode ser omisso ante provas contra Ciro

Por O Globo

Senador deve ter oportunidade de se defender no Conselho de Ética, mas cassação parece desfecho provável

As provas colhidas pela Polícia Federal (PF) sobre as relações entre o senador pelo Piauí Ciro Nogueira, presidente do Progressistas (PP), e Daniel Vorcaro, do Banco Master, são eloquentes. O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado não pode fechar os olhos às evidências. É imperativo conceder a Ciro amplo direito à defesa — na Justiça e no Conselho. Ele afirmou que não renunciará ao mandato e, em nota, classificou a operação da PF como “tentativa de manchar sua honra”. Mas o Parlamento tem o dever de agir em nome da preservação do decoro. Com base nos fatos disponíveis, sua cassação parece o desfecho provável. Por ora, ele deveria afastar-se ou ser afastado temporariamente do mandato para se concentrar na própria defesa, sem prejuízo de voltar ao Senado se for inocentado.

Estranhos tempos mórbidos, por Roberto Amaral*

“O Brasil tem um enorme passado pela frente.”
Millôr Fernandes


Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”. Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje, talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode nascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma história regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas palavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.

São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.

Garantir a mamata do clã é único projeto de Flávio Bolsonaro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Primeira mulher de Jair, Rogéria mira o Senado, como Michelle

Num eventual governo, Eduardo e Carlos vão povoar o Palácio do Planalto

Flávio Bolsonaro se prepara para dar um peteleco em Cláudio Castro. Condenado no TSE por abuso de poder político e econômico e tornado inelegível, mas insistindo em concorrer ao Senado, Castro viu despencar sua aprovação como governador do Rio de Janeiro, segundo a Quaest. Passou de 53% em outubro —mês em que ocorreu a matança nos complexos da Penha e do Alemão— para 35%. Entre os entrevistados, 47% rejeitam sua administração.

Depois de Ciro, o medo de ser o próximo, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidente do PP foi o anfitrião de Vorcaro no Congresso

Senadores evitam se pronunciar por medo de provocar guerra contra líder de partido poderoso

O celular de Ciro Nogueira toca. O nome de Daniel Vorcaro aparece na tela iluminada do aparelho e a reportagem da Folha, que entrevistava o presidente do PP, flagra a ligação.

Era abril de 2025, e o senador tinha apresentado, apenas cinco dias após o anúncio da compra do Master pelo BRB, proposta para aumentar a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) dos bancos.

O aumento valeria exclusivamente para as instituições financeiras com maior lucro, os bancões. A emenda foi apresentada ao projeto do Executivo que isentava o IR para quem ganha até R$ 5.000 —a proposta mais importante para Lula.

Dinheiros degradados, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Brasil insiste em piorar uma das principais invenções humanas, a moeda que é o meio de troca universal

Vales refeição e FGTS são formas pioradas de dinheiro que só beneficiam lobbies específicos

dinheiro é uma das mais importantes invenções da humanidade. Ele pode ser descrito como uma realidade imaginária, abstrata e contável, que funciona como meio de troca universal, com o qual todos os membros de uma sociedade podem intercambiar as coisas que produzem e os serviços que prestam por aqueles de que têm necessidade.

Sem o dinheiro como intermediário, se eu quisesse levar um filé para o jantar da família, teria de encontrar um pecuarista ansioso para adquirir colunas de jornal, o que quase certamente me condenaria à inanição. A economia tem uma escala com a existência desse meio de troca e teria outra se dependêssemos só do escambo.

Política e negócios, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O escândalo Master é o retrato bem desenhado das relações do mundo econômico com a política no Brasil. Se for levada às últimas consequências, a investigação desmontará biografias na direita e na esquerda

Ciro Nogueira, presidente do Progressista, senador pelo Piauí, chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, entre agosto de 2021 e dezembro de 2022, expoente do Centrão, estava no bolso de Daniel Vorcaro. Recebia mesada de R$ 300 mil (R$ 500 mil?) para ajustar os interesses do banco ao processo político. Foi ele o autor de projeto de emenda — não aprovado — elevando de R$ 250 mil para um milhão a responsabilidade do Fundo Garantidor de Créditos, o que daria mais folga para o banco continuar a vender títulos falsos, cujo prejuízo seria coberto por outras instituições financeiras. Uma esperteza bancária, coberta por esperteza político-partidário. E tudo isso tem valor. O representante do Piauí cobrou caro, mas foi desmascarado pela Polícia Federal. Está na mira do Supremo Tribunal Federal.

Treze de Maio, passado e presente, por Jorge Santana*

Correio Braziliense

O quilombo Família Thomaz, na cidade Treze de Maio, em Santa Catarina, é categórico em revelar o quanto os negros foram apagados, ilegalmente expropriados de suas terras e vítimas de racismo.

Em uma audiência do Supremo Tribunal Federal (STF) que tinha como pauta a inconstitucionalidade de lei estadual que pôs fim às políticas de ações afirmativas em Santa Catarina, o governo de Jorginho Melo (PL) defende tal descalabro alegando que o estado catarinense tem a maior população branca entre todos os estados — portanto, não necessita de políticas afirmativas destinadas às pessoas negras e indígenas. A lei do fim das cotas raciais foi aprovada no ano passado e sancionada em 2026, provocando diversas críticas.

Pós-Ciro, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Ciro Nogueira está – ou estava – entre os cinco políticos mais poderosos do Brasil. Presidente do PP, líder da (até ontem) cobiçadíssima federação União Progressista; e ex-ministro de Bolsonaro, responsável pelo apaziguamento das relações daquele governo com o Parlamento, conquista decorrente da formulação-execução do orçamento secreto, de que é um dos senhores. Com Davi Alcolumbre.

Você decidirá se se trata de coincidência ou causalidade. A Operação Compliance Zero, da PF, chegou ao Senado na semana seguinte à derrota infligida ao governo Lula por aquela Casa. De acordo com a versão mais influente no debate público, Alcolumbre e galera teriam vencido também o ministro André Mendonça, militante por Jorge Messias, relator do caso Master no STF e, pois, o que autorizou a ação contra Ciro. Evento que inaugura a chegada previsível da polícia – das investigações sobre o “elefante pintado de azul” de Daniel Vorcaro, que circulava invisivelmente pela Esplanada – ao Congresso.

O mundo entre dois imperadores, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Nunca houve uma rivalidade entre duas potências com tamanha interdependência

A Guerra do Peloponeso talvez ensine algo desconfortável ao século XXI: o crescimento econômico de uma potência pode gerar medo suficiente para transformar comércio e convivência em rivalidade estratégica. Enquanto Atenas crescia, comerciava e enriquecia, Esparta observava. Até que o avanço de uma passou a alterar o equilíbrio do mundo grego. A história raramente se repete. Mas grandes disputas entre potências quase sempre acabam misturando comércio e poder.

Lula, candidato, tem plano B em curso, por Thaís Oyama

O Globo

Três nomes já foram testados como eventuais substitutos nas urnas: Fernando Haddad, Camilo Santana e Geraldo Alckmin

‘Não decidi se vou ser candidato ainda.’ A frase, dita por Lula em entrevista ao ICL News em abril, foi lida menos como expressão de autêntica indecisão do presidente do que como queixume decorrente de suas muitas insatisfações. Lula, segundo repetem os que convivem com ele, está “frustrado” com a resposta do eleitorado ao seu governo. Reclama ainda da imprensa, que não divulga seus feitos, e do PT, que não está empenhado na briga com gana proporcional ao risco da disputa. A declaração de abril ficaria, assim, num ponto intermediário entre a ameaça e o chamado às armas — uma tentativa de Lula de sacudir a própria campanha. Expoentes do governo e do PT, porém, não estão dispostos a ser pegos de calças curtas. Nos laboratórios de Sidônio Palmeira, ministro da Secom, três nomes já foram testados como eventuais substitutos de Lula nas urnas: o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, o ex-ministro da Educação Camilo Santana, e o vice-presidente, Geraldo Alckmin.

A falta que faz um sinal de ironia, por Eduardo Affonso

O Globo

Ironizei a anacrônica e oportunista apropriação que correntes ideológicas antagônicas fazem do cristianismo

Há alguns anos, Joel Pinheiro da Fonseca escreveu, num artigo sobre a quem interessa a liberdade de expressão irrestrita:

— Poderíamos formar algo como um comitê de notáveis, apenas com referências indiscutíveis das ciências (exatas, biológicas e humanas), com a devida representatividade de todas as minorias sociais, para julgar previamente artigos, podcasts ou vídeos que possam ter conteúdo problemático. É isso ou a barbárie.

Apanhou feio de quem não percebeu a ironia. Mas o pior foi ter recebido apoio dos que já acreditam em tanto absurdo que um a mais, um a menos não faria diferença.

Casa Branca S.A. Por Jamil Chade

CartaCapital

Donald Trump transforma o exercício do segundo mandato em uma extensão dos negócios da família & amigos

De bíblias personalizadas a criptomoedas, sem falar nos acordos imobiliários em zonas de guerra, terras-raras, contratos de obras na Europa e dezenas de esquemas de supostas doações, Donald Trump transformou a Casa Branca em uma máquina de fazer dinheiro. Para si, para a família e para os amigos. Em recente levantamento, o jornal The New York Times contabilizou o tamanho da fortuna extra acumulada pelo republicano desde o retorno à Presidência dos Estados Unidos, em janeiro do ano passado: 1,4 bilhão de dólares.

Dupla derrota para a democracia, por Pedro Serrano

CartaCapital

Na rejeição a Messias e na derrubada do veto ao PL da Dosimetria o Congresso impôs medidas de exceção

Em apenas 24 horas, dois novos e tristes capítulos que atentam contra a democracia foram escritos pelo nosso Legislativo. Dois atos autoritários, imperiais, cujos executores tentam vestir de normalidade institucional, mediante argumentos de inexistente sustentação legal.

No primeiro, ao negar a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, vimos o Senado exercer um papel que cabe ao Executivo. Um dia depois, o Congresso derrubou o veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria, caracterizando a intenção de substituir o Judiciário em seu juízo de Justiça.

Esperança e mudança, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Um documento do velho PMDB sobre o futuro do País continua atual

Em 21 de abril, data dedicada a homenagear o brasileiro ­Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o editorial da Folha de S. Paulo disparou objurgatórias ao Partido dos Trabalhadores. Escolhi um parágrafo que trata do ­impeachment de Dilma Rousseff: “…Os petistas atribuem os desmandos comprovados do passado a conspirações e reafirmam o pensamento econômico estatista e intervencionista que produziu o desastre de dez anos atrás. Ainda que hoje seja mais difícil dar concretude às mesmas ideias equivocadas, não espanta que o País ainda esteja às voltas com a ruína orçamentária legada por Dilma Rousseff”.

O parlamentarismo inconcluso, por Marcus Pestana

Em 1988, coroamos o processo de redemocratização do país. Foi uma transição peculiar: negociada, pacífica, original e longa. A travessia percorrida iniciou-se com a Lei da Anistia, passou pela vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, culminando com as eleições diretas para presidente da República. Mas o ápice, dos dez longos anos de transição, foi a promulgação do novo texto constitucional, apelidado por Ulysses Guimarães de “Constituição Cidadã”.

O texto consolidou direitos democráticos individuais e coletivos, organizou os poderes da República, ampliou direitos sociais. Um traço inequívoco da nova Constituição é seu espírito parlamentarista. Foi previsto e realizado, em abril de 1993, o plebiscito para que a população escolhesse a forma e o sistema de governo. A República derrotou a Monarquia. O presidencialismo deu uma goleada no parlamentarismo, reafirmando a cultura política dominante no Brasil. Sobreviveu uma contradição: um sistema presidencialista coabitando com um texto constitucional de índole parlamentarista.

A morte cerebral das instituições, por Murillo de Aragão

Veja

A dúvida é se ressuscitarão melhores ou piores do que são hoje

Não há dúvida de que vivemos tempos estranhos. Mas tampouco existe dúvida de que tudo o que está acontecendo — por mais extravagante que pareça — era mais do que previsível. É a crônica da morte institucional do país. Só que, diferentemente das mortes “morridas”, a morte institucional traz a promessa de uma ressurreição. A dúvida é se as instituições ressuscitarão melhores ou piores do que são hoje.

Que tal a “conhecimentobras”? Por Cristovam Buarque

Veja

Sem educação e cérebros afiados, as terras-raras serão areia

Em 1953, o Brasil criou a Petrobras com o propósito de buscar petróleo escondido nas profundezas do solo, até mesmo sob o mar. A empresa é hoje um dos maiores exemplos mundiais de sucesso na descoberta, extração, refino, transporte e distribuição de óleo e seus derivados. Transformou em riqueza o tesouro negro escondido sob a forma de lama subterrânea. Agora, defende-se a criação da Terrabras, para explorar os minerais usados nos produtos da nova economia de alta tecnologia.

Em busca da humanidade perdida das mães, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Quem é a mãe se não a que tudo faz pelo filho, a que tudo renuncia, o amor mais profundo e especial, aquela disposta a todo sacrifício, aquela que é o lugar de descanso, a fortaleza do cuidado, a que nos preenche de amor e de contentamento?

Estamos na véspera de uma data que mobiliza o comércio e os afetos, o dia das mães. É um momento do ano em que filhos manifestam carinho e prestam homenagens às mulheres responsáveis pelo seu cuidado. Também é um momento em que somos bombardeados com uma profusão de mensagens e simbolismos repetidos que, de alguma forma, mistificam o papel de cuidar desempenhado pelas mulheres, mistificam a figura da mãe, associando-as a capacidades quase sobre-humanas. Longe de nos lisonjear, essa mistificação deveria ser alvo do nosso questionamento mais profundo.

Poesia | A máquina do do mundo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Vidal Assis e Chico Buarque - Mascarada (Elton Medeiros e Zé Keti)

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aproximação de Lula e Trump permite otimismo

Por O Globo

Agenda positiva é boa notícia, mas ela carece de resultado e precisa ir além da motivação eleitoral

Quebrando a praxe, os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva não deram entrevista conjunta no Salão Oval da Casa Branca. O motivo alegado foi terem extrapolado o tempo para reunião e almoço. Ficaram juntos quase três horas, quando o previsto eram duas. Ao fim, Trump publicou uma mensagem sóbria. Descreveu Lula como “dinâmico”, disse que a “reunião correu muito bem”, que debateram comércio e tarifas e prometeu reuniões futuras entre representantes dos dois países. Lula foi mais efusivo: “Demos um passo importante na consolidação da relação democrática histórica que o Brasil tem com os Estados Unidos. É uma demonstração de que as duas maiores democracias do continente podem servir de exemplo ao mundo”.

A relevância dos estados para a democracia, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

O federalismo precisa ser mais incorporado na interpretação dos caminhos e descaminhos democráticos do Brasil

A disputa presidencial de 2026 será decisiva ao país, disso ninguém tem dúvida. Só que o debate político precisa aprender a ter um olhar mais sistêmico para tantos cargos eletivos em jogo. Desde que as eleições se tornaram “casadas”, em 1994, a competição pelo Palácio do Planalto ocorre simultaneamente às corridas eleitorais nos estados. Até que nos últimos anos tem aumentado a cobertura sobre o lado regional do pleito geral que ocorre a cada quatro anos - César Felício faz isso brilhantemente aqui no Valor. Só que é preciso avançar mais na compreensão do papel da esfera estadual na democracia brasileira.

Obviamente é difícil fazer uma cobertura jornalística e análises políticas que consigam captar tanta disputa numa mesma eleição: presidente, senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais. O peso da Presidência da República é muito grande no sistema político brasileiro, mas mesmo essa característica tem se modificado com o poder cada vez maior adquirido pelo Congresso Nacional - o que deveria levar a aumentar o acompanhamento das disputas pelas cadeiras congressuais, tarefa para a qual, infelizmente, a sociedade brasileira ainda não se preparou.