quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

O que a mídia pensa – Editoriais

Diplomacia da camaradagem – Editorial | O Estado de S. Paulo

Quase todas as decisões adotadas pelo presidente Jair Bolsonaro na condução da política externa deram em nada ou impuseram severos prejuízos, sejam os de ordem econômica, sejam os danos à imagem do Brasil no exterior.

O fiasco da diplomacia brasileira observado neste ano era totalmente previsível porque o presidente da República erra no básico e não emite qualquer sinal de que está disposto a aprender com seus erros. Jair Bolsonaro crê que a relação entre as nações se estabelece por meio da afinidade pessoal e ideológica entre chefes de Estado, e não pela concertação dos interesses em jogo em uma complexa trama comercial e geopolítica. Ou seja, o presidente Bolsonaro trata o que é um mero facilitador na aproximação entre lideranças internacionais como princípio orientador de suas ações.

A opção pelo alinhamento praticamente automático ao presidente norte-americano, Donald Trump, parece ser a linha mestra da política externa do governo Bolsonaro. Na visão do presidente, isso implicaria resultados que nenhum outro governo antes dele conseguiu produzir, como o ingresso do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a abertura do comércio entre os dois países. De fato, Donald Trump apoiou a entrada do Brasil no chamado “clube dos ricos”, mas tratou-se de um apoio vago, sem a definição de prazo ou condições para que o pleito do País fosse de fato analisado. Na verdade, Trump optou por dar preferência aos interesses argentinos no âmbito da OCDE, em detrimento dos brasileiros.

Música | Teresa Cristina - Tudo se transformou

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Amor é bicho instruído

Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Opinião do dia: Sérgio Abranches* – A antipolítica

• A antipolítica é uma regra?

“Se formos pegar o período pós-militar, todos os candidatos tentaram de alguma forma se apresentar como fora do establishment: o Collor era o caçador de marajás; Fernando Henrique, o pai do Plano Real; Lula, o cara que veio da pobreza; a Dilma era a gerente e o Bolsonaro, apesar de tantos anos como deputado, também se vendeu como antipolítica.”

*Cientista Político, em entrevista, O Globo 24/12/2019

Ricardo Noblat - Bolsonaro alerta sobre novas denúncias que podem atingi-lo

- Blog do Noblat | Veja

Inferno astral antes da hora
Se tivesse dito: “Estamos terminando 2019 sem qualquer denúncia de corrupção dentro do governo”, o presidente Jair Bolsonaro estaria certo, e esse já seria um bom motivo para orgulhar-se de sua obra. Mas, não. Bolsonaro disse: “Estamos terminando 2019 sem qualquer denúncia de corrupção”. Ao ser vago, foi abrangente em excesso e derrapou.

Abriu a brecha para ouvir como resposta: 2019 termina com a nova família imperial do Brasil acossada pelo Ministério Público do Rio que investiga o mau uso de dinheiro público no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Ali, durante muitos anos, funcionários foram obrigados a devolver ao deputado parte dos seus salários.

Poucas horas antes de se vangloriar da pureza do seu governo na mensagem de Natal dirigida à Nação, Bolsonaro havia outra vez perdido as estribeiras em entrevista à BAND e acusado o Grupo Globo de persegui-lo e também ao seu filho. “Isso é um crime, o que eles estão fazendo. Tentaram armar para mim colocando o caso Marielle no meu colo”, acusou.

“O processo [de Flávio] está correndo em segredo de Justiça. O que justifica esse vazamento [de informações] para aquela grande rede de televisão?”. Em seguida, concluiu: “A nova intenção deles, não tenho como comprovar, é fazer busca e apreensão na casa de um filho meu. E fraudando provas! É o inferno da grande mídia”.

O Jornal Nacional ignorou o novo ataque de Bolsonaro ao Grupo Globo. A edição impressa do jornal O Globo desta quarta-feira não trouxe uma linha a respeito. Desde a semana passada que Bolsonaro pede a atenção de todos para o que estaria por vir: novas revelações capazes de acuar ainda mais a sua família e a ele. Do que se trata?

Certamente não foi a quebra do sigilo telefônico de ex-funcionários do gabinete de Flávio, conhecida ontem, mas decretada há dias. Bolsonaro disse mais de uma vez que gravaram dois milicianos conversando sobre dinheiro transferido à sua família. Chamou-os de vagabundos. Seria só isso? Queiroz resolveu falar? Havia uma terceira pessoa no carro dos assassinos de Marielle?

Bolsonaro aniversaria em 21 de março. Desta vez seu inferno astral começou mais cedo.

Rosângela Bittar - Meia-sola

- O Estado de S.Paulo

No momento final do processo de votação do impeachment houve sério risco à democracia

Se fossem selecionadas, para escolher uma, as invenções políticas brasileiras de maior impacto e desapontamento, da década que se encerra, nenhuma criação desbancaria do primeiro lugar a sentença de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, aquela de 2016 que é possível cunhar como a “sentença Lewandowski”.

Preparada na calada da noite anterior à votação, engendrada por uma seleta roda de advogados e políticos coordenados por Renan Calheiros, presidente do Senado, além de Lewandowski, presidente do Supremo, a manobra foi o ápice da teatralidade daquele momento de ruptura. Presidindo o processo como presidente do Supremo Tribunal Federal que era, então, o ministro Ricardo Lewandowski consumou uma transgressão à Constituição que viria superar todas as arbitrariedades de que hoje o STF é acusado.

O que fez o magistrado foi mais simples que uma receita de bolo: pegou o artigo 52 da Constituição, separou em duas a indivisível pena ao condenado por crime de responsabilidade, de perda do cargo com suspensão dos direitos políticos por oito anos, colocou uma parte em votação, primeiro (afastamento do cargo), e a outra parte (perda dos direitos políticos) submetida ao escrutínio, depois.

Na primeira, a ré foi condenada; na segunda, absolvida. Uma compensação política, apesar da Constituição, que provocou tanta surpresa e uma certa paralisia na reação pela perplexidade que invadiu a capacidade de ação dos parlamentares.

Ou Dilma não era culpada, e não poderia sofrer nenhuma sanção, ou era culpada, e tinha que ter seu mandato cassado e a elegibilidade suspensa.

Vera Magalhães - Natal isentão a todos

- O Estado de S.Paulo

Que a política não mele o amigo secreto e a harmonia familiar

A esta altura, quando você está lendo este texto, de ressaca e se preparando para esquentar as sobras do peru para o almoço, já aconteceu a parte 1 do Natal, a reunião da véspera, para a Ceia. Espero, portanto, que não chegue atrasada e o poncho já não tenha sido entornado.

Desejo a todos um feliz Natal, sem tretas familiares por conta de política, futebol, do formato da Terra, a presença ou não de uva passa nos preparos ou se o novo Star Wars é um clássico ou uma fraude. Em resumo: um Natal isentão para todos!

Esse adjetivo tão 2019 surgiu como uma tentativa de estigmatizar o centro. Se você não estava firmemente agarrado a qualquer um dos polos do debate político, tascando hashtag #LulaLivre até em post de gatinhos ou cantando o melô do MC Reaça no banho, você estava condenado a ser “xingado” de isentão.

Só isso já é um sintoma eloquente dos tempos bizarros que vivemos hoje: ser isento deveria ser uma qualidade desejável, não uma pereba. No aumentativo, então: nossa, você é isento mesmo, uma espécie de fada sensata.

Maioria dos partidos se identifica como de centro

Vinte siglas se classificam como fora dos extremos no espectro político em meio a um cenário polarizado; apenas uma legenda, o PSL, se considera de direita

Vinícius Passarelli / Paulo Beraldo | O Estado de S. Paulo

Vinte dos 33 partidos políticos existentes no País se identificam como de centro, enquanto apenas o PSL se diz de direita. É o que mostra levantamento feito pelo Estado com todas as siglas registradas no TSE. Outros sete partidos se consideram de esquerda – e cinco informaram se enquadrar em “outras concepções ideológicas”. O termo “liberal” aparece com frequência nas autodefinições das siglas.

Em meio a um cenário polarizado, mais da metade dos partidos políticos brasileiros se diz de centro, enquanto apenas um – o PSL, até pouco tempo atrás a legenda do presidente Jair Bolsonaro – se considera de direita e sete se colocam como de esquerda. É o que aponta levantamento feito pelo Estado com os 33 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A reportagem questionou as siglas como elas se autodefinem em relação à orientação ideológica. “O PSL é um partido liberal, de direita”, informou a legenda. Partido hegemônico na esquerda do País há pelo menos 30 anos, o PT saiu de sua última convenção nacional, realizada em novembro, como uma agremiação “de esquerda democrática e libertária”.

Já outros partidos deram respostas “curiosas” quando questionados sobre qual orientação ideológica seguem. O Solidariedade, por exemplo, se declara uma sigla que segue os preceitos do “humanismo sistêmico”, enquanto a Rede se enxerga como um partido “sustentabilista progressista.”

O levantamento mostra que, diante da narrativa de polarização que coloca, de um lado, parte da direita aglutinada em torno do bolsonarismo e, do outro lado, a esquerda tendo como núcleo o petismo representado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os partidos buscam se afastar dos extremos se colocando, de alguma forma, no centro do espectro político.

Dez partidos se declaram puramente como de centro: PMB, MDB, PL, PSD, PTC, DC, PROS, Avante, Patriota e Podemos. De centro-direita são PTB, Progressistas, PSC, PRTB e Republicanos. Já PDT, PSB, Cidadania, PV e PMN se encontram na centro-esquerda, segundo eles mesmos.

Mais pobre chega ao Natal com pouco otimismo na economia, diz Datafolha

Baixa renda tem mais dificuldade que rico em retomar confiança, segundo pesquisa

Emilio Sant'Anna, Eduardo Cucolo | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - “Daqui eu vejo tudo. Quem está comprando para o Natal e sai com sacola de marca e quem só pode tomar um café mesmo”, diz o senhor que se apresenta apenas como Luda, 66, e há oito anos passa as tardes em seu banquinho, tocando clarinete, em frente ao shopping Pátio Higienópolis, no bairro homônimo de classe alta, em São Paulo. “Sou uma espécie de barômetro da economia.”

O músico, porém, vê mais do que isso. Pela calçada, ao seu lado, passam entregadores, motoristas de aplicativos e ambulantes —que não se fixam em frente ao shopping. Assim como ele, todos tentam se virar de alguma forma.

Alguns deles, tão ou mais jovens que Gabriel Obelino de Souza, 19. A Folha o encontrou, na quarta-feira (18), em frente ao shopping Cidade de São Paulo, na avenida Paulista. Diariamente, o vendedor de balas percorre toda a via. No fim do mês, nunca leva pra casa mais do que R$ 800 —dinheiro que sustenta ele, a mãe, que está impedida de trabalhar por uma cardiopatia, e o irmão de oito anos.

A ceia de Natal de sua família: arroz, feijão e uma mistura (a depender do resultado das vendas), diz.

Para o próximo ano, o jovem morador de Cidade Tiradentes, na zona leste paulistana, não espera mais do que isso. Tampouco acredita que poderá pagar com um pouco mais de folga os R$ 400 de aluguel ou que chegará ao Natal de 2020 em condição melhor. “Pra gente, com o Bolsonaro, só piorou. A única coisa que ele faz é falar de arma. Emprego mesmo não tem”, afirma.

A falta de perspectivas narrada por Gabriel retrata o estado de ânimo de boa parte da parcela mais humilde da população brasileira. Ao longo do primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro (sem partido), formou-se um cenário no qual quanto menor a renda, mais forte foi ficando o pessimismo e mais tímido o otimismo com a recuperação da economia.

Bruno Boghossian – Retrospectiva turbinada

- Folha de S. Paulo

Balanço mostra que o principal interesse do governo foi agradar suas bases

O governo preparou um embrulho vistoso para divulgar o balanço de realizações do primeiro ano de Jair Bolsonaro no poder. O conteúdo do pacote, como se vê ao desatar o laço, é bem mais mixuruca que o marketing presidencial.

A retrospectiva com as “principais entregas do governo”, anunciada na segunda (23), é um compêndio das confusões administrativas do Planalto. Há números maquiados, propostas que jamais serão aprovadas e até manifestações de órgãos públicos sem nenhum efeito prático.

Uma análise feita pela Folha mostrou que o governo lista como um de seus feitos um resultado positivo de R$ 30,2 bilhões nas contas públicas em janeiro. Bolsonaro tentou pegar carona numa herança contábil da gestão de Michel Temer e escondeu o fato de que os cofres ficaram no vermelho nos meses seguintes.O presidente nem precisava recorrer a essa tapeação. Bastava mencionar que o rombo no Orçamento vem caindo em comparação com anos anteriores. Mas a decisão de pinçar um dado revela a compulsão do governo em distorcer o que for possível.

Bolsonaro incluiu na propaganda oficial uma medida provisória que foi rejeitada pelo Congresso e perdeu a validade. O balanço também foi inflado pela proposta de isentar de punição os militares e agentes de segurança que cometerem crimes durante operações de garantia da lei e da ordem. O projeto é considerado abusivo por deputados e senadores, que tendem a engavetá-lo.

Hélio Schwartsman - Disciplina militar

- Folha de S. Paulo

É especialmente na infância e na juventude que as pessoas devem ser livres para experimentar

Antes mesmo de o programa do governo federal de militarização de escolas públicas engrenar, a moda se espalhou e fincou raízes Brasil afora. Como mostrou reportagem da Folha, só na Bahia já são 83 as instituições que adotaram esse modelo, em que a parte pedagógica da escola segue sob comando de professores, mas policiais militares aposentados recebem um ordenado complementar para cuidar das questões disciplinares.

Para mim, o tipo de disciplina imposto aos alunos, com continências, uniformes, padrões para corte de cabelo e maquiagem, além da vigilância extrema, é um cenário de pesadelo. É especialmente na infância e na juventude que as pessoas devem ser livres para experimentar. É claro que escolas precisam de um pouco de ordem para funcionar, mas não penso que seja necessário convocar militares para estabelecê-la. Um bom diretor é em tese capaz de fazê-lo.

Também me parece preocupante que muitas dessas escolas exijam que o aluno arque com o custo das fardas, quando não pedem uma contribuição voluntária às famílias. Isso, aliás, explica parte dos tão propalados efeitos acadêmicos positivos da militarização. A correlação entre renda e performance educacional é conhecida e robusta. Assim, um modo eficaz para melhorar o desempenho de uma instituição é aumentar suas mensalidades, excluindo os alunos mais pobres.

Elio Gaspari - O Natal do papa Francisco

- O Globo | Folha de S. Paulo

O padre que criou os Legionários de Cristo agia como um miliciano

Num dos mistérios do Natal, a ordem mexicana dos Legionários de Cristo penitenciou-se pelos crimes de pedofilia cometidos por seu fundador e por outros 32 padres de seu culto.

Um dia antes, o papa Francisco obteve a renúncia do cardeal Angelo Sodano da posição de decano do Sacro Colégio. Aos 92 anos, ele já não votava no conclave que elege os papas. Durante os pontificados de João Paulo 2º e de Bento 16, Sodano foi um dos homens mais poderosos de Roma, secretário de Estado do Vaticano durante 14 anos.

Sua vida foi de diplomata, ex-núncio em Santiago, teve boas relações com o general Augusto Pinochet. Em 2005, quando o cardeal Ratzinger foi eleito, Sodano teve quatro votos no primeiro escrutínio. Pouca gente soube, mas um argentino chamado Jorge Bergoglio foi o segundo mais votado em todos os quatro escrutínios.

O pontificado de Ratzinger durou sete anos, Bergoglio virou Francisco e no mesmo fim de ano em que a Netflix apresenta o filme "Dois Papas", de Fernando Meirelles, ele congelou Sodano e desentulhou o lixo do padre Marcial Maciel, fundador e dono da ordem dos Legionários de Cristo.

Bernardo Mello Franco - A política do balde de tinta

- O Globo

João Doria mandou pintar as escolas paulistas com as cores de seu partido. Na era das redes sociais, os políticos ainda usam baldes de tinta para fazer campanha com dinheiro público

No início dos anos 90, o velho Maracanã levou um banho de tinta. A parte externa do estádio foi pintada de azul, vermelho e branco. Eram as cores do PDT, partido do então governador Leonel Brizola. Na gestão seguinte, o vermelho sumiu, e as cadeiras inferiores ganharam tons azuis e amarelos. Eram as cores do PSDB, partido de Marcello Alencar.

Em 2004, o prefeito Cesar Maia percebeu que a Comlurb era o órgão municipal mais admirado pelos cariocas. De repente, o laranja usado pelos garis passou a enfeitar placas, quiosques e até uniformes escolares. Meses depois, Cesar disputou a reeleição. Numa curiosa coincidência, o laranja dominou todas as suas peças de campanha.

Há seis meses, o governador de São Paulo, João Doria, mandou tingir mais de duas mil escolas de azul e amarelo. O tucano mal entrou no Palácio dos Bandeirantes e já quer se mudar para o Planalto. A imagem de criancinhas felizes entrando em colégios com as cores de seu partido cairia como uma luva na campanha presidencial.

Zuenir Ventura - Cada vez mais atual

- O Globo

Chico Mendes precisou morrer assassinado para ser reconhecido como um herói

Há 31 anos, às vésperas do Natal de 1988 — exatamente às 18h45m do dia 22 de dezembro —, o Brasil perdia um dos mais importantes personagens de sua História moderna: Chico Mendes, o líder seringueiro que mobilizou o país e o mundo para a defesa da Floresta Amazônica.

Ele ficou famoso e respeitado por ter desenvolvido táticas pacíficas de resistência contra a ação violenta de latifundiários, madeireiros e dos projetos agropecuários que viviam da derrubada da floresta para substituí-la por pasto.

Por sua luta, Chico conquistou a admiração internacional (foi considerado pelo “New York Times” como um “símbolo de todo o planeta”) e foi o primeiro brasileiro a receber da ONU o Prêmio Global 500. Mas precisou morrer assassinado para ser reconhecido como um herói trágico, o protomártir da causa ambiental.

Papai Noel poderia aproveitar e dar de presente ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o excelente e oportuno livro “Chico Mendes —Um grito no ouvido do mundo”, recém-publicado, em que o sociólogo Nilo S. Melo Diniz mostra em profundidade como a imprensa, inclusive a internacional, cobriu a luta dos nossos Povos da Floresta.

Roberto DaMatta - Crônica do Natal

- O Globo | O Estado de S. Paulo

Em memória de Alba Zaluar

Vários amigos do coração me perguntaram como seria esta escrita de Natal. Um dia no qual no nosso mundo nominalmente cristão deveríamos —honrando a invenção dos Reis Magos — nos presentear mutuamente porque o “dar com o receber” — o reciprocar — é o berço do amor e a manjedoura da paz solidária que tanto procuramos.

É trégua, porque a vontade — com seus desejos, projetos, fantasias, calúnias, traições, doenças e sonhos — está em febril movimento e sempre nos traz de volta a frustração da nossa humanidade.

O acontecimento mais marcante do ano tem sido a continuidade do desmascaramento em todos os níveis, incluindo a presidência desempenhada por um péssimo ator. Mas há um claro desmonte do poder à brasileira. Um modo de dominação pessoal que hoje enfrenta uma implacável crítica aberta e, principalmente, a lei impessoal inerte para com os poderosos, mas que passou a ser tenazmente implementada, desmascarando partidos populares e aristocráticos, gente grande e comum, bem como magos, atletas, ateus e escovados malandraços.

O que tem ocorrido no Brasil — e, também nos países que os subsociólogos julgavam resolvidos ou “adiantados” — é o insólito presente do desmascaramento. Realmente, num planeta globalizado, movido a Facebooks e fake news —bem como true news! —, repleto de câmaras com onipotência divina, criou-se a contragosto e a despeito da malandragem como um valor uma inexorável demanda coletiva de transparência e honestidade. Um desejo coletivo de desmascarar e desmistificar tanto de um lado quanto do outro, tanto de cima quanto de baixo.

Míriam Leitão - Varejo melhora e aguarda reforma

- O Globo

Gasto médio neste Natal avança e vendas em 2020 devem voltar ao nível pré-crise no setor, que espera pela reforma tributária

Nesta longa crise que atingiu o Brasil, o Natal será um ponto importante. Apesar de as vendas no ano crescerem menos do que em 2018, é previsto que o gasto médio do consumidor neste Natal tenha retomado o nível de cinco anos atrás. Durante a recessão, o varejo encolheu 20%. Desse baque foi se recuperando devagar e apenas em 2020, se a projeção se confirmar, as vendas voltarão ao nível de 2014.

A Confederação Nacional do Comércio revisou para 5,2% a estimativa de alta nas vendas neste Natal. Em 2014 as famílias foram às compras sem saber o tamanho da recessão que o país enfrentaria. Depois das grandes quedas de 2015 e 2016, o consumidor ficou arisco. Agora, o gasto médio esperado é de R$ 489 por família, o que levará o faturamento do setor a R$ 36,3 bilhões no período natalino.

No geral, 2019 terá um crescimento de 1,9% nas vendas do comércio. É menos do que a alta de 2,3% de 2018. Isso porque este ano teve dois períodos distintos. O primeiro semestre foi de frustração, explica Fabio Bentes, da CNC. Os erros do governo, os ruídos que ele produziu, tiraram o vigor da economia. Já a segunda parte de 2019 foi positiva. Em 2020 a alta esperada é de 3%. E se não houver novos sustos, o país poderá dizer que a atividade de fato engrenou.

— Três fatores foram mais importantes para a melhora. A inflação baixa garantiu o poder de compra dos consumidores. No crédito, as taxas ainda são absurdamente altas, mas os prazos estão mais longos e o que o brasileiro leva em consideração mesmo é o preço da prestação. O terceiro ponto foi a liberação do FGTS, que ficou concentrada neste fim de ano e impulsionou a Black Friday e o Natal — explica Bentes.

O ano em que o capitalismo se tornou fofo

Mundo dos negócios parece ávido por se provar um agente social construtivo

Andrew Edgecliffe, Johnson Attracta Mooney | Financial Times / Folha de S. Paulo

NOVA YORK E LONDRES - Milton Friedman teve um ano difícil. O economista de Chicago morreu em 2006, mas seu legado persistiu nos conselhos das grandes empresas.

Isso mudou em 2019, quando presidentes-executivos de companhias em todo o mundo dos negócios anglo-saxão parecem ter formado fila para renegar a doutrina que o economista laureado com o Nobel popularizou em um ensaio histórico publicado em 1970: a de que a única responsabilidade de uma companhia é a de produzir lucros para seus acionistas.

Em seu lugar surgiu uma visão nova e mais acolhedora do capitalismo, sob a qual executivos ansiosos por atender às necessidades de todas as partes interessadas (“stakeholders”) deram posição central em seus modelos de negócios ao conceito de “propósito”; ofereceram aulas de “mindfulness”, café de boa qualidade e recapacitação profissional ao seu pessoal; e agiram antes dos governos relutantes para melhorar a situação dos imigrantes, enfrentar a questão da violência armada e salvar o planeta do aquecimento.

“O capitalismo tal qual o conhecemos está morto”, disse Marc Benioff, presidente-executivo da Salesforce, em uma conferência em outubro. Um novo modelo de negócios estava tomando seu lugar, propelido por valores, ética e cuidar dos trabalhadores —não “o capitalismo de Milton Friedman, que cuida só de ganhar dinheiro”.

MUDANÇA NO CERNE E GESTOS GENEROSOS
Uma década depois de uma crise financeira mundial que destruiu a confiança nas grandes companhias, as pessoas que as dirigem estão ansiosas por se reposicionarem como agentes sociais construtivos.

Sede do Porta dos Fundos é atacada com coquetéis molotov no Rio

Atentado ocorre em meio a polêmica com Jesus gay em programa especial de Natal

Júlia Barbon | Folha de S. Paulo

RIO DE JANEIRO - A sede do programa de humor Porta dos Fundos foi alvo de um atentado na madrugada desta terça (24), véspera de Natal. Por volta das 4h, dois coquetéis molotov foram atirados contra a fachada do edifício onde funciona a produtora, no Humaitá, zona sul do Rio de Janeiro. Segundo a assessoria de imprensa do grupo, um dos seguranças conseguiu controlar o princípio de incêndio e não houve feridos. O caso foi registrado como crime de explosão na delegacia de Botafogo, bairro vizinho.

A Polícia Civil disse que realizou uma perícia no local e que a equipe do Esquadrão Antibombas arrecadou fragmentos dos artefatos explosivos para análise. Informou também que diligências estão em andamento para esclarecer o caso.

O Porta dos Fundos afirmou que já disponibilizou as imagens das câmeras de segurança para as autoridades e que espera que os responsáveis sejam encontrados e punidos. "Contudo, nossa prioridade, neste momento, é a segurança de toda a equipe que trabalha conosco", ressaltou em nota.

A assessoria do programa disse ainda que condena qualquer ato de violência: "Seguiremos em frente, mais unidos, mais fortes, mais inspirados e confiantes que o país sobreviverá a essa tormenta de ódio e o amor prevalecerá junto com a liberdade de expressão".

O atentado ocorre em meio a uma polêmica com a exibição do "Especial de Natal Porta dos Fundos: a Primeira Tentação de Cristo". O filme retrata um Jesus gay (Gregorio Duvivier), que se relaciona com o jovem Orlando (Fábio Porchat), e um Deus mentiroso (Antonio Tabet) que vive um triângulo amoroso com Maria e José.

Indulto de Bolsonaro para policiais é 'ornitorrinco jurídico' e 'excesso de poder', diz coordenador da PGR

Presidente concedeu benefício a policiais condenados por crimes culposos

Vinicius Sassine | O Globo

BRASÍLIA — O decreto do presidente Jair Bolsonaro que perdoa a pena aplicada a policiais e a outros agentes de segurança pública condenados por crimes culposos – quando não há a intenção de ser praticado – é um "ornitorrinco jurídico", um "excesso de poder" por parte do presidente e, numa análise inicial, uma violação à Constituição Federal. É o que afirma ao GLOBO o subprocurador-geral da República Domingos Sávio da Silveira, coordenador da Câmara de Controle Externo da Atividade Policial da Procuradoria-Geral da República (PGR).

A subprocuradora-geral Luiza Frischeisen, coordenadora da Câmara Criminal, um segundo colegiado da PGR responsável por assuntos relacionados a crimes cometidos por militares, também critica o decreto de indulto assinado ontem por Bolsonaro e publicado nesta terça-feira no Diário Oficial da União. Para ela, o mais preocupante do decreto é a extensão do perdão de pena a agentes de segurança que tenham sido condenados por ato cometido "mesmo que fora de serviço", como consta no texto assinado pelo presidente.

Os integrantes das duas câmaras vão analisar os detalhes do decreto e podem provocar o procurador-geral da República, Augusto Aras, para que conteste o decreto no Supremo Tribunal Federal (STF). Integrantes da cúpula da PGR lembram que este tipo de contestação já ocorreu por parte de um procurador-geral.

Em dezembro de 2017, Raquel Dodge ingressou no STF com uma ação direta de inconstitucionalidade contra decreto de indulto do presidente Michel Temer, que ampliava possibilidades de perdão em casos de condenação por corrupção. A ministra Cármen Lúcia suspendeu no dia seguinte, por liminar, os efeitos do decreto. Quase um ano e meio depois, o plenário do STF derrubou a liminar.

O que a mídia pensa – Editoriais

Linha dura – Editorial | Folha de S. Paulo

Queda de homicídio anima discurso; agenda bolsonarista felizmente avança pouco

As estatísticas compiladas pelo Ministério da Justiça indicam que a elevadíssima taxa de homicídios do Brasil voltou a diminuir neste ano, acentuando uma tendência iniciada nos últimos meses de 2017.

No primeiro semestre, o número de vítimas de assassinatos caiu 22% em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados ainda preliminares das polícias estaduais. Nos seis meses iniciais de 2018, a queda havia sido de 9%.

Crimes contra o patrimônio, incluindo roubos de veículos e assaltos a bancos, também apresentam declínio, assim como os latrocínios.

Os especialistas ainda se mostram inseguros ao buscar explicações para o fenômeno. Polícias estaduais mais efetivas e a dinâmica das disputas entre facções criminosas estão entre os motivos apontados com mais frequência, mas inexiste diagnóstico consensual.

O governo Jair Bolsonaro se apressou a reivindicar parte dos louros, apontando o isolamento dos líderes das facções após sua transferência para presídios federais e o discurso duro adotado pelo presidente contra os criminosos.

Música | Inti Illimani - El derecho de vivir en paz

Poesia | Vinicius de Moraes - Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Entrevista: 'Caminhamos para a paralisia do governo', afirma Sérgio Abranches

Criador do termo ‘presidencialismo de coalizão’ diz que Bolsonaro frustra parte de seu eleitorado e prevê que governo não conseguirá caminhar se não resolver articulação com Congresso

Thomas Traumann | O Globo

RIO - Em 1987, quando a Constituição ainda estava sendo debatida no Congresso, o cientista político Sérgio Abranches, hoje com 70 anos, cunhou a expressão “presidencialismo de coalizão” para definir as novas relações entre o o Executivo e o Legislativo. Sem maioria no Congresso, o presidente seria forçado a compor seu governo com aliados. Essa relação complexa dominou a política até Jair Bolsonaro se eleger. “Este presidente se recusou a fazer a coalizão e se nega a se articular com os partidos. Não há possibilidade de funcionar”.

• Passados seis anos, quais foram os gatilhos das marchas de 2013?

Primeiro havia uma insatisfação generalizada com a economia, sinais de que o poder de compra da população estava comprometido. Isso criava uma insatisfação difusa. O segundo componente foram as redes sociais, a possibilidade de as pessoas saberem que existem outras tão insatisfeita quanto elas. Aí, um grupo mais organizado chamou para discutir a questão das tarifas de ônibus, e o que começou como uma coisa pontual se espalhou como um protesto generalizado porque havia gente descontente com o desemprego, outros com a política, outros com a corrupção.

Esses são movimentos de contágios, igual à Primavera Árabe (na África e Orienta Médio) ou dos Coletes Amarelos (França). É um movimento que reflui quando vai para a violência, com os Black Blocs, mas deixa nas pessoas a sensação de “foi legal ter ido para a rua. Pelo menos eles nos ouviram em algumas coisas”.
  • A partir de 2013 as ruas foram tomadas pela direita. Por quê?
Depois do lacerdismo (do ex-governador Carlos Lacerda, 1914-77) não apareceu ninguém capaz de legitimar o sentimento de direita. Ele ficou no armário, enrustido, enquanto PSDB e PT dominavam o debate. Mas quando os direitistas encontram outros falando sem censura o que eles só pensavam, passamos a ver a verdadeira cara do espectro ideológico brasileiro.

• Por que uma das novidades nas manifestações recentes é a defesa da intervenção militar?

Não é saudade, é ignorância. Aquela maioria com cartazes dizendo “volta” é de gente que nunca viveu a repressão, não teve pais perseguidos e mortos. Nunca me preocupei com a demanda de volta dos militares porque é de gente que não sabe o que está falando. E os que sabem são uma minoria que não vão vingar.

• O que achou das declarações de Eduardo Bolsonaro e Paulo Guedes sobre AI-5?

As menções ao AI-5 são feitas como ameaça. Nos dois casos referiam-se aos protestos do Chile e prometiam o AI-5 se ocorresse algo assim por aqui. Por outro lado, mostra que eles têm medo das ruas.

O mais importante são as muitas transgressões à democracia que o governo vem fazendo ou estimulado seus simpatizantes a fazer, como perseguições aos que pensam diferente, ameaças a professores que dão tópicos que eles consideram “ideológicos”; aparelhamento do estado para desmontar mecanismos de fomento à cultura e às artes; censura, que chamam de “filtragem” nas concessões para áreas de pesquisa; ameaças a funcionários que querem cumprir o seu dever, no Ibama e, no ICBMBio.

O ministro da Educação promete deixar as áreas de filosofia e ciências humanas sem apoio. Há muita vingança e retaliação por parte de membros do governo contra instituições nas quais não conseguiram entrar ou progredir por mérito. São inúmeras as ameaças à liberdade de expressão e à liberdade de cátedra. A tentativa de Bolsonaro de tirar a "Folha de S. Paulo" da licitação para renovar assinaturas, os ataques à TV Globo. Estão fazendo o país escorregar para o autoritarismo. Há risco institucional e, até agora, pouca reação articulada a essas ameaças

Ranier Bragon – Brincando com coisa séria

- Folha de S. Paulo

Pasta tem que ser tratada como prioridade, não playground de terraplanistas irresponsáveis

Um ano se passou. É preciso ir direto ao ponto: até quando as pessoas responsáveis deste país e aquelas com voz de comando continuarão a fechar os olhos ou a bater palmas para o circo macabro de terraplanistas desvairados que tomou conta do Ministério da Educação?

Isso não é assunto de véspera de Natal, me desculpe, mas há coisas tão absurdas sendo feitas que não dá para ficar discutindo as uvas-passas.

A educação no Brasil —em situação crítica e com resultados lastimáveis, apesar de alguns avanços— foi dominada neste ano, no plano federal, por uma caravana de alucinados seguidores de um charlatão de filme B, tendo como resultado o que não poderia ser outra coisa. Como bem mostrou o repórter Paulo Saldaña, nesta Folha, caos administrativo, paralisia, baixa aplicação de recursos, falta de rumo, tudo embalado no discurso biruta de que estamos, pelo menos, livrando as criancinhas da ameaça gayzista e comunista.

Hélio Schwartsman - Assassinos estatísticos

- Folha de S. Paulo

É possível salvar muitas vidas estatísticas e alcançar índices europeus de mortes no trânsito

Se você tem a chance de salvar uma vida sem colocar-se em grande risco, fazê-lo é uma obrigação moral? Grande parte dos filósofos morais sustentará que salvar uma pessoa é um dever, desde que fazê-lo não exija um esforço sobre-humano e que você não tenha boas razões para querer ver esse indivíduo morto —é louvável, mas não obrigatório salvar a vida do assassino que o perseguia e sofreu um acidente.

Bem, a maioria dos prefeitos do Brasil e várias outras autoridades têm a possibilidade de salvar não uma, mas dezenas, às vezes centenas, de vidas estatísticas, apenas assinando um pedaço de papel, mas optam por não fazê-lo.

Joel Pinheiro da Fonseca* - Como lidar com o tiozão reacionário no Natal

- Folha de S. Paulo

Muitos dos jovens que hoje julgam horrorizados os pais e tios acabarão por ficar iguaizinhos a eles

Não tenho nada contra quem defende o governo, seja qual for o motivo, com argumentos e alguma preocupação com os fatos. Tenho até amigos que são.

Mas é difícil aguentar quem apenas repete chavões do senso comum (“é tudo corrupto, tem que prender”) e vocifera amargurado contra “a esquerda”, “os comunistas”, “os vagabundos”, Paulo Freire ou outro bicho-papão. Com o Natal vindo aí, a ideia de conviver por horas a fio com um parente assim não anima ninguém.

Por sorte, na minha família a conversa é sempre alegre e civilizada, mesmo quando divergências políticas vêm à tona. Pelo que diversas pessoas têm me contado, contudo, há muitas famílias ruindo sob o peso do radicalismo burro de algum parente.

É triste constatar que, não raro, esse parente insuportável é uma pessoa mais velha. O pai, a mãe, o tio, o avô; pessoas inteligentes, não raro com ensino superior, que, de 2018 para cá, se transformaram em verdadeiros robôs repetidores de slogans pró-Bolsonaro e compartilhadores de fake news. A idade nem sempre traz sabedoria...

Pablo Ortellado* - Ainda Belo Monte

- Folha de S. Paulo

Problemas técnicos e ambientais na usina que teve a última turbina inaugurada confirmam alertas de indígenas e ambientalistas

No dia 27 de novembro, o presidente Jair Bolsonaro inaugurou a última turbina da usina hidrelétrica de Belo Monte. A usina foi construída durante os governos petistas e inaugurada por Dilma Rousseff um pouco antes do impeachment.

Ao custo de R$ 40 bilhões, Belo Monte foi marcada por controvérsias: sobre o enorme impacto ambiental, sobre condições de trabalho abusivas durante a construção e sobre impactos sociais nas comunidades ribeirinhas e na região de Altamira que viu explosão demográfica e ampliação alarmante do tráfico de drogas e do número de homicídios.

Vendida com a promessa de ser a maior geradora nacional de energia (depois de Itaipu, que é binacional), Belo Monte só apresenta problemas.

No último dia 12, reportagem da Reuters mostrou que a usina foi advertida pela Agência Nacional de Águas por reduzir a vazão dos reservatórios, colocando em risco a qualidade da água do Rio Xingu. Se não se adequar, a usina pode descumprir os termos de outorga de direito de uso de recursos hídricos e perder a autorização para funcionar.

Ricardo Noblat - Bolsonaro, ascensão e queda

- Blog do Noblat | Veja

O sofrimento do patriarca
O presidente Jair Bolsonaro desmaiou e por isso caiu e bateu com a cabeça no chão do banheiro da área residencial do Palácio da Alvorada? Ou apenas caiu por que escorregou ou tropeçou em alguma coisa? Essa era a pergunta que muitos se faziam, ontem à noite, em Brasília, e que estava sem resposta até esta madrugada.

Se ele caiu por ter desmaiado, o caso pode inspirar maiores cuidados. Levado às pressas para o Hospital das Forças Armadas, uma tomografia computadorizada não detectou alterações no seu crânio, segundo nota oficial do governo. Ficaria em observação por 6 ou 12 horas, devendo ser liberado logo em seguida.

Com 64 anos de idade, Bolsonaro sempre gozou de boa saúde. Quando serviu ao Exército ganhou o apelido de “cavalão”, tal era sua disposição física que lhe rendeu boas notas em competições esportivas. Foi elogiado muitas vezes por seu desempenho. Arriscou a vida para salvar um colega paraquedista que se afogava.

Não tivesse levado a facada que quase o matou em Juiz de Fora, estaria em forma. A facada pode tê-lo ajudado a se eleger presidente, mas fragilizou seu corpo e principalmente sua mente. Foi operado mais de uma vez em menos de um ano. Usa uma tela para proteger seu abdómen. Sente dores com frequência.

Ter visto a morte de perto mexeu muito com sua cabeça. Vive assombrado. Receia ser alvo de um novo atentado. Enxerga perigo por toda parte. Presidente algum desde a redemocratização do país escolheu ser refém de um aparato de segurança tão gigantesco como o que o protege. Apesar disso, ele cobra sempre mais.

Quando Bolsonaro fala que só será candidato à reeleição se sua saúde permitir, não está blefando. Muito menos se vitima para atrair mais votos. De fato, ele não parece nem um pouco disposto a pôr sua vida novamente em risco para exercer por mais quatro anos uma tarefa que tanto o desagrada.

Sua intenção inicial ao lançar-se candidato a presidente era ajudar os filhos em suas carreiras políticas. Não imaginava que venceria. Na hora que sua vitória foi anunciada, teve uma crise de choro. Mais tarde, confessou que se sentia esmagado pelo que acabara de acontecer. Sabia que carecia de preparo para o novo ofício.

Os filhos Flávio e Eduardo tiveram votações expressivas nos rastros do pai. Mas um ano depois, Flávio está cada vez mais enroscado com a Justiça, e Eduardo frustrado por não ser embaixador do Brasil em Washington. A família jamais se sentiu tão acuada. Natural que o patriarca sofra com tudo isso.

Rubens Barbosa * - Bioeconomia e a Zona Franca de Manaus

- O Estado de S.Paulo

Não se pode mais adiar a discussão da mudança de foco nas políticas públicas da região

O tema do meio ambiente entrou definitivamente na agenda global. E mais cedo ou mais tarde voltará a ser uma prioridade para o governo brasileiro, por realismo político e por razões pragmáticas.

Diante das atitudes do atual governo, são crescentes as ameaças de prejuízo para o setor do agronegócio pela possibilidade de boicote de consumidores e pela crescente influência da política ambiental sobre as negociações comerciais. A atuação na defesa dos legítimos interesses do setor está levando as associações das diferentes áreas e a frente parlamentar da agropecuária a defender mais atenção aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil nos acordos assinados desde 1992 e, sobretudo, uma atenuação da retórica governamental e uma correção de rumo de algumas políticas anunciadas pelo governo.

As percepções críticas no exterior têm como foco a Amazônia. Recentemente, as queimadas e o desmatamento foram alvo de manifestações no mundo todo. Informações distorcidas e meias verdades se misturaram a fatos, ampliando as consequências negativas para nossos interesses comerciais e políticos. As diferenças quanto à gestão do Fundo Amazônico puseram em risco a cooperação internacional com Alemanha e Noruega.

Não estão em questão a soberania e a capacidade do governo de determinar as políticas para a região. As recentes manifestações no mundo inteiro, sobretudo de jovens, para sensibilizar os governos a tomar medidas que evitem as grandes alterações no clima com o aumento da temperatura no planeta, incluem a preocupação com a preservação da Floresta Amazônica.

Pedro Fernando Nery* - Natal na miséria

- O Estado de S.Paulo

Desde 2016, o mercado de trabalho adicionou mais de 4 milhões de vagas, pelos últimos números da Pnad

O fim do ano é de otimismo com números da economia. O último relatório Focus, divulgado ontem pelo Banco Central, trouxe novas revisões para cima na expectativa do PIB: próximo a 1,2% para 2019 e, mais importante, subindo a 2,3% no ano que vem. A Bolsa tem quebrado sucessivos recordes – ultrapassando os 115 mil pontos na semana passada – e a valorização do Ibovespa é superior a 30% no ano. A consolidação da recuperação econômica, porém, esconde um resultado: a pobreza teima em não ceder. Para os brasileiros mais pobres, a recessão parece não ter acabado.

Desde 2016, o mercado de trabalho adicionou mais de 4 milhões de vagas, pelos últimos números da Pnad. O orçamento da Seguridade Social é recorde ano após ano. Mas a melhora do mercado de trabalho e o gasto social recorde, que é puxado pela Previdência, não impediu o aumento da extrema pobreza. Os mais pobres seguiram perdendo renda até 2018. E dados recentes sugerem que a situação pode não ter se alterado este ano. Seria uma recessão invisível.

Dois novos estudos jogam luz sobre a “recessão invisível”. A última carta de conjuntura do Ipea divide os brasileiros em seis faixas de rendimento. O estudo monitora não apenas a evolução do rendimento dessas faixas pela Pnad ao longo do ano, mas também a inflação que incide sobre cada grupo. E mostra que a faixa mais pobre teve perda real nos 2.º e 3.º trimestres deste ano. Os ganhos de rendimento em 2019 teriam se concentrado em altas expressivas nas faixas de renda média e média-baixa. A carta é assinada pelos pesquisadores Maria Andreia Lameiras, Carlos Henrique Courseil, Lauro Ramos e Sandro Sacchet, e a discrepância foi divulgada por Carlos Madeiro, do UOL.

Carlos Andreazza - Essa família é muito unida

- O Globo

Poucos pais, no entanto, são presidentes da República

‘Bolsonaro só sai do sério se mexem com os filhos.” Quem nunca ouviu essa sentença sobre a sensibilidade do presidente? Qualquer pai pode compreendê-la. É a imposição do senso de responsabilidade disparando o ímpeto por proteger a cria. Que progenitor não se desequilibraria ante uma ameaça contra seu fruto? Tanto mais se tiver sido o pai a introduzir na vida do filho um elemento como Fabrício Queiroz. Qualquer pai pode compreender isso. Muitos se culpariam. O que poderia ser pior do que colocar um filho no caminho do vício? Nem obrigar um filho a disputar uma eleição contra a própria mãe.

Poucos pais, no entanto, são presidentes da República. Pouquíssimos, aqueles pais presidentes com cujos filhos senadores quem mexe é o Ministério Público. E raríssimos, os filhos senadores de presidente investigados a partir da relação com um velho amigo do pai, delegado pelo pai. Que progenitor presidente não se desestabilizaria ante uma ameaça contra seu descendente senador com veneno para lhe contaminar o governo? Tanto mais se a ameaça extrapolar a descoberta de uma simples lavanderia para expor uma à qual se teria associado o crime organizado. É a imposição do instinto de sobrevivência disparando o ímpeto por proteger o mandato.

A ciranda é circuito de família. Para o bem e para o mal, Bolsonaro é o clã Bolsonaro. A ciranda é circuito de família — e com alto nível de civilidade: abriga ex-mulher e parentes de ex-mulher, laranjas ou não. A ciranda é circuito de família que agrega também os amigos e os amigos dos amigos, laranjas ou não. Para o mal ou para o mal, Bolsonaro também é Queiroz. O ex-policial, amigo do pai, operava desde o gabinete do filho — que, segundo o operador amigo do pai, sabia de nada. Sabia o pai?

Bernardo Mello Franco - Bolsonaro dá presente de Natal a criminosos de farda

- O Globo

Bolsonaro rasgou outra promessa e anistiou criminosos de farda em seu primeiro ano no cargo. Se a vida no Brasil vale pouco, a palavra do presidente vale menos ainda

A um mês da posse, Jair Bolsonaro fez um anúncio solene aos brasileiros. “Garanto a vocês, se houver indulto para criminosos neste ano, certamente será o último”, assegurou. O Supremo Tribunal Federal julgava a validade do perdão concedido por Michel Temer. Pelo Twitter, o presidente eleito avisou que a Corte não precisaria mais se preocupar com o assunto. A partir de 2019, o tradicional indulto natalino viraria coisa do passado.

“Qualquer criminoso tem que cumprir sua pena de maneira integral. Essa é a nossa política”, reforçou, no dia seguinte. Após uma formatura militar, Bolsonaro repetiu que não assinaria novos atos de perdão. “Minha caneta continuará com a mesma quantidade de tinta até o final do mandato em 2022. Sem indulto”, sentenciou.

Se a vida no Brasil vale pouco, a palavra do presidente vale menos ainda. Bolsonaro não esperou nem um ano para descumprir o que prometeu. Ontem ele editou o indulto mais generoso dos últimos tempos. Anistiou policiais condenados por homicídio culposo, que agiram fora das hipóteses de legítima defesa.

O decreto beneficia até os agentes de segurança que mataram em dias de folga. É um presente de Natal para milícias e esquadrões da morte, que sempre contaram com a simpatia do clã presidencial.

José Casado - Uma história real de Natal

- O Globo

Petróleo começou a jorrar na Guiana

Na noite de sexta-feira, os 782 mil habitantes da Guiana receberam a confirmação de que ganharam o grande prêmio da loteria geológica: o petróleo começou a jorrar quatro dias antes do Natal no campo de Liza-I, situado a 120 quilômetros da costa, em frente à capital Georgetown.

Mudou a sorte do país mais pobre da América do Sul, vizinho do Brasil nos 1.605 quilômetros de fronteira com Roraima. O petróleo produzido desde o fim de semana sela o destino da sociedade construída por migrantes indianos e africanos nas colonizações holandesa e britânica, até 1966.

Na sexta-feira, o país estava atolada na miséria de sempre, só comparável à de El Salvador, na América Central, ou do Quirguistão, na Ásia . Concentrados no litoral (10% do território), os guianenses têm expectativa de vida de 67 anos. Quatro de cada dez sobrevivem com menos de R$ 4 por dia. Água encanada é luxo, para apenas 5%.

Míriam Leitão - A busca dos valores na noite especial

- O Globo

Não é preciso ser cristão para saber que o relato da vida de Cristo nos Evangelhos traz como mensagem fundante a paz e o desarmamento de espíritos

Paz, perdão, empatia. Inúmeras palavras são harmônicas com as ideias que Jesus Cristo demonstrou na prática na sua vida, segundo o registro dos Evangelhos e dos textos dos apóstolos. A arma não faz parte desse conjunto, ela distoa. Quando se tenta pôr numa mesma proposta Cristo e armas a dissonância é completa. Quem o faz distorce a mensagem que está no Novo Testamento. A figura fascinante de Jesus está ligada à superação de preconceitos: salvar a mulher do apedrejamento, falar com a estrangeira, perdoar, no último suspiro, quem tinha feito uma trajetória de vida oposta à dele.

Existe a fé, e existe o entendimento. A fé pertence a cada um e só a pessoa sabe de sua existência, e os que não a têm merecem o mesmo respeito. A questão é íntima, delicada. A fé é inefável, excede a todo o entendimento, como eu ouvia na minha casa paterna. O entendimento, e não a fé, é a matéria dessa coluna. Ele deve ser buscado como forma de evitar os enganos e os usos indevidos dos valores que cada pessoa carrega.

Tive uma educação protestante, como os que me conhecem sabem. Meu pai era pastor presbiteriano, então na minha casa lia-se a Bíblia com frequência e falava-se dela com intimidade. Um dos princípios caros aos herdeiros da reforma era a separação entre Igreja e Estado. Na doutrina, a mistura é vista como um terreno pantanoso. Como meu pai Uriel era, ao mesmo tempo, diretor de um colégio e o pastor da igreja em Caratinga, Minas Gerais, ele praticava no cotidiano essa separação. O colégio era absolutamente laico, como ele acreditava que deveria ser o Estado. O Estado laico era estudado nas salas de aula como um dos avanços importantes da história humana. Da mesma forma separavam-se ciência e religião.

Chile - Piñera promulga lei que convoca plebiscito para Constituinte

Projeto foi marcado por debates acalorados sobre cotas para mulheres e índios em convenção constituinte

- O Globo e agências internacionais

SANTIAGO — O presidente do Chile, Sebastián Piñera, promulgou nesta segunda-feira a lei que convoca um plebiscito para uma reforma constitucional para o próximo dia 26 de abril. A formalização da legislação, discutida em debates acalorados no Senado e na Câmara, ocorre após um final de semana marcado pelas imagens de um manifestante que foi atropelado e imprensado por dois blindados da polícia e no mesmo dia da divulgação de um relatório que aponta "graves e muito numerosas"violações dos direitos humanos na repressão às manifestações.

Segundo o presidente, o plebiscito deve servir para “deixar para trás a violência e as divisões” e recuperar a “boa política”. Em um evento com a presença de ministros, autoridades e líderes políticos da situação e da oposição, Piñera disse que é necessário “recuperar o valor do diálogo, da unidade, do acordo, e aprender a pensar e trabalhar juntos para construir este Chile melhor que queremos”. Os pontos mais debatidos da reforma constitucional, no entanto, que dizem respeito a cotas para mulheres e índios, continuam sob discussão no Senado.

— [A Carta] não é uma varinha mágica que resolve todos os problemas. O que ela faz é nos dar um marco institucional adequado para avançar em direção a um país com maior capacidade de atender e satisfazer as necessidades dos cidadãos — disse Piñera. — Como presidente, estou seguro de que vamos saber transformar esta crise em um novo Chile mais fraterno, prolífico, justo e livre, do qual todos nós nos sintamos parte.

Piñera disse ainda que é "de enorme importância condenar de forma clara, categórica e permanente todo tipo de violência e ameaças, porque isto só envenena a alma de nosso país". O presidente, cuja aprovação está na casa de 11%, disse ainda que é importante "honrar nosso juramento, de respeitar sempre nossa Constituição, nossa democracia e nosso Estado de Direito".

Uma Carta que substitua a atual, herança da ditadura liderada por Augusto Pinochet (1973-1990), é considerada uma via institucional para canalizar as insatisfações que agitam as ruas chilenas desde 18 de outubro. Desde então, a resistência de setores da direita, sobretudo da herdeira do pinochetismo União Democrática Independente (UDI), a aceitar mudanças é tida como uma das principais causas para a dificuldade do governo e da classe política de dar respostas às mobilizações.

O plebiscito de abril perguntará à população se é necessária uma nova Constituição, e por qual mecanismo ela deve ser elaborada: por uma “convenção constituinte”, formada por 155 deputados eleitos com mandato exclusivo, ou então por uma convenção constitucional mista de 172 membros, entre representantes do atual Congresso e novos deputados constituintes. O mecanismo escolhido terá um período de nove meses de funcionamento, podendo ser prorrogado por outros três. Ao fim, o texto será submetido a um outro plebiscito ratificatório.

O que a mídia pensa – Editoriais

A insatisfação com Bolsonaro – Editorial | O Estado de S. Paulo

O primeiro ano de governo não foi positivo para a popularidade do presidente Jair Bolsonaro. Ao longo do ano verificou-se uma crescente insatisfação com sua gestão, revela a mais recente pesquisa CNI/Ibope. Em abril, 27% dos brasileiros consideravam o governo ruim ou péssimo. Em junho, 32%. Em setembro, 34%. Agora, em dezembro, o porcentual de insatisfeitos chegou ao seu maior índice – 38% dos brasileiros avaliaram negativamente o governo Bolsonaro.

Tal insatisfação é corroborada pelo decréscimo contínuo dos que aprovam a gestão de Jair Bolsonaro. Eram 35% em abril, 32% em junho, 31% em setembro e 29% em dezembro.

Quando questionados se aprovam ou desaprovam a maneira de o presidente Bolsonaro governar o País, 53% disseram que a desaprovam. No levantamento anterior, esse porcentual foi de 50%. Ao mesmo tempo, diminuiu o porcentual dos que aprovam o jeito de Jair Bolsonaro governar. Antes, eram 44%. Agora, são 41%.

A pesquisa CNI/Ibope foi realizada entre os dias 5 e 8 de dezembro. Ou seja, a população foi ouvida antes de virem a público os recentes desdobramentos da investigação envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente Bolsonaro. É provável, portanto, que os porcentuais de aprovação do governo sejam hoje um pouco piores do que os medidos no início do mês pelo Ibope.

Exilados voltam e passam o Natal explicando por que voltaram sem passaportes

- JORNAL DO BRASIL - terça-feira, 26/12/78

Legenda: Graziela e Gilvan Cavalcanti de Melo foram liberados na Polícia Marítima às 11 horas

Fora do país há seis anos, absolvido em setembro último da acusação de pertencer ao PCB, o ex-funcionário do INPS Gilvan Cavalcanti Melo, chegou do Panamá com a mulher e os dois filhos, no domingo e foi preso. A Embaixada do Brasil informara que poderiam desembarcar só com a carteira de identidade, mas a polícia deteve o casal por 12 horas durante a noite de Natal, para saber porque estavam sem passaportes.

O Sr Gilvan e D. Graziela Cavalcanti Melo passaram a noite num sofá da Delegacia de Polícia Marítima, onde foram interrogados ontem de manhã e liberados depois de preencherem um questionário mimeografado. Os filhos, Gilvan de 16 anos, paralítico, e Ana Amélia, de 12, foram dispensados pela polícia ainda no aeroporto e ficaram com parentes.

GARANTIA
Hoje, com 43 anos, o Sr Gilvan de Cavalcanti Melo, nascido em Pernambuco, foi demitido do INPS por decreto baseado no AI-5, em 1972, sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro. Logo após foi com a família para Buenos Aires, Porto Alegre e finalmente Santiago onde trabalhou na Corporação de Fomento.

Música | Paulinho da Viola - Timoneiro

Carlos Drummond de Andrade - Organiza o Natal*

Com esse poema do nosso poeta maior Carlos Drummond de Andrade, o blog deseja a você que nos brinda com sua visita um Natal alegre, cheio de paz e luz. E um 2020 pleno de tolerância, diálogo e entendimento. Que a gente continue juntos!

“Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso.

A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade."


*Extraído do livro “Cadeira de Balanço”, Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.