sábado, 14 de março de 2020

José Márcio Camargo* - De volta ao paraíso

- O Estado de S.Paulo

Suspender ou flexibilizar o teto fatalmente levará a uma reversão da trajetória de queda dos juros

Na semana passada, o Congresso derrubou o veto do presidente Bolsonaro ao projeto que aumenta o limite para receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC) de ¼ para ½ do salário mínimo. Segundo o Ministério da Economia, isso significa um aumento de gasto obrigatório de R$ 20 bilhões em 2020 e R$ 217 bilhões em dez anos, o que tornaria impossível o cumprimento do teto para o crescimento do gasto público. Uma decisão em total desacordo com as necessidades do País.

No final de 2019, o governo enviou ao Congresso três Propostas de Emenda Constitucional (PECs) que, em conjunto com a PEC da Regra de Ouro, caso aprovadas, criariam condições para a redução dos gastos obrigatórios do governo e tornariam o teto do gasto sustentável. A derrubada do veto ao aumento do limite do BPC faz com que a aprovação dessas propostas seja uma condição necessária, mas talvez não suficiente, para a manutenção do teto.

A pandemia da covid-19 é uma emergência que vai requerer recursos públicos e, portanto, redução de outras despesas para que o teto seja respeitado. Este é um dos objetivos do teto dos gastos: criar na sociedade brasileira (população, Legislativo e Executivo) a cultura de ordenar e definir prioridades no processo orçamentário. As quatro PECs que estão no Congresso viabilizam essas escolhas ao diminuir os gastos obrigatórios. A opção seria suspender ou flexibilizar o teto, como já sugerem alguns analistas. Por que não adotar essa alternativa?

Roberto Simon* Apagão de liderança agravou crise

- Folha de S. Paulo

Apagão de liderança agravou pandemia

A política internacional, nos últimos anos, parecia guiada pela massa de pessoas anônimas. Da Praça Tahrir ao Occupy Wall Street.

Mais recentemente, das ruas de Hong Kong às do Chile. Dos tuítes, retuítes, likes e bots das redes sociais. E, agora, dos gráficos de curvas ascendentes de casos de coronavirus.

No entanto, a pandemia da Covid-19 mostra como, em um momento de crise sistêmica, as escolhas de algumas poucas pessoas com enorme poder, em certas capitais, determinarão o destino de incontáveis vidas e o futuro da economia global. Líderes, afinal, importam.

Essa virada é particularmente assustadora quando, à frente da maior potência da história da humanidade, está Donald Trump.

O risco geopolítico que Trump representa foi normalizado nos últimos anos.

Mas com o abismo do coronavírus a olhar dentro de nós, começa-se a entender o custo real de se ter, em Washington, um governo disfuncional, anticientífico, em guerra contra as instituições democráticas e a imprensa, e sem credibilidade internacional.

O mecanismo da negação foi simples. Trump herdou uma economia em expansão e pisou no acelerador cortando impostos (as consequências do déficit americano, um dia saberemos).

Em uma situação de pleno emprego e com a bolsa batendo recordes, o setor privado passou a vê-lo como uma distração excêntrica.

Apesar de tensões na Coreia do Norte, Crimeia ou Irã, o risco de guerra permaneceu baixo. E a pujança da economia americana reduziu o impacto das guerras comerciais com a China, e de outros disparates.

Com céu de brigadeiro, ninguém pensa no piloto. Agora, entramos na tempestade.

Julianna Sofia - À própria sorte

- Folha de S. Paulo

Os dois, que já rezaram o mesmo credo, agora duelam

Há uma pergunta em aberto após a derrota imposta pelo Congresso ao governo na ampliação dos benefícios assistenciais, criando uma despesa de R$ 200 bilhões em dez anos. O episódio seria também sinal de enfraquecimento do "primeiro-ministro", Rodrigo Maia? Contrário à medida, o presidente da Câmara perdera as rédeas da articulação ao não conter a fúria revanchista de congressistas contra o Palácio do Planalto? Talvez.

Mas o clima de cizânia entre o deputado e Paulo Guedes (Economia) abre espaço para outras leituras. Considerados os principais artífices da aprovação da reforma da Previdência, os dois, que já rezaram o mesmo credo, agora duelam.

Com o tranco provocado pelo pibinho de 2019, a guerra dos preços do petróleo e a coronacrise, o ministro passou a jogar sobre os ombros do Congresso a responsabilidade por uma solução. Enviou aos parlamentares uma lista com 19 prioridades legislativas para gerar crescimento. Numa reunião, cobrou deles uma saída política para o nó econômico, sem ele próprio apresentar medidas de efeito imediato --essas seriam condicionadas ao avanço da agenda reformista. "A solução é política, é de todos os senhores."

Hélio Schwartsman - Distanciamento medicinal

- Folha de S. Paulo

É preciso 'descriminalizar' as teleconsultas

Há pouco mais de um ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) baixou uma resolução regulamentando a telemedicina. A norma foi tão atacada pelos profissionais, que temiam ser "uberizados", que o CFM optou por revogá-la dias depois. Isso significa que, pelas regras hoje vigentes, realizar consultas à distância pode configurar, em muitas situações, uma infração ética. O problema é que agora enfrentamos um surto epidêmico de covid-19, no qual a telemedicina teria um papel valioso a desempenhar.

A covid-19 deverá pôr muita pressão sobre os sistemas de saúde de vários países. O que mais chama a atenção nessa nova moléstia é a forma desigual com que ela afeta diferentes grupos etários. Um estudo chinês com 72 mil pacientes estimou uma taxa de mortalidade de 0,2% para aqueles com menos de 39 anos, mas que vai a 8% para a população que tem entre 70 e 79 anos e chega a impressionantes 14,8% para os com mais de 80.

Diante desses números, o último lugar para o qual se deve levar um idoso que ainda não tenha contraído a covid-19 é um pronto-socorro apinhado de portadores do vírus Sars-Cov-2. O risco é tão grande que a recomendação técnica é a de só procurar serviços de saúde em casos graves. Mas como saber se um caso é grave?

Alvaro Costa e Silva - O mascarado

- Folha de S. Paulo

Coronavírus obriga Bolsonaro a cair na real

O dólar bateu todos os recordes, a Bolsa sofreu tombos sucessivos, ações da Petrobras afundaram. Uma pedra que já tinha sido cantada: a pandemia de coronavírus vai pôr de cabeça para baixo a economia mundial. Sem falar no mais grave: riscos de contaminação em massa, saturação dos sistemas de saúde, medo pânico. Qual a primeira reação do presidente? Tuitou atacando o médico Drauzio Varella.

Bolsonaro estava fora do Brasil, em visita de vassalagem aos EUA. De lá, talvez influenciado por dois minutos de conversa com o "amorzão" Trump, classificou a crise na saúde do planeta como fantasia e invenção da grande mídia. Seus bajuladores ironizavam a gravidade da situação com o neologismo "comunavírus".

Demétrio Magnoli* - A hora mais sombria

- Folha de S. Paulo

Governo italiano se tornou a primeira democracia a mimetizar a ditadura chinesa

No início, a China ocultou as informações sobre a epidemia e reprimiu os médicos que tentavam dar o alerta. Depois, isolou por meios militares 40 milhões de habitantes de Hubei. Agora, a Itália imita a China – e os dois governos, o ditatorial e o democrático, ganham aplausos da Organização Mundial de Saúde (OMS). A lei marcial será, logo, o “novo normal”?

Semanas atrás, Matteo Salvini, o líder da Liga, convocou o vírus para sua campanha anti-imigração. O fraco governo italiano de Giuseppe Conte respondeu ao clamor da extrema-direita ignorando o avanço da doença, que se espalhava silenciosamente. Consequência do catastrófico equívoco original: a Itália tornou-se a primeira democracia a mimetizar a ditadura chinesa, ameaçando encarcerar cidadãos que se moverem para outras cidades.

A trajetória repetiu-se no Irã. O regime camuflou a ampla difusão das infecções até girar 180 graus, advertindo que usará “a força” para conter deslocamentos no Ano Novo persa.

Trump inverteu o percurso, girando no sentido anti-horário. No começo, capturando a covid-19 para legitimar suas políticas xenófobas, fechou as fronteiras a qualquer viajante proveniente da China. Na sequência, diante da turbulência financeira que complica sua reeleição, escreveu no muro da Casa Branca que o vírus é “uma gripe comum”. Bolsonaro repetiu a mensagem embusteira do mestre, sem se dar conta de que ela seria revertida outra vez, dando lugar à perversa proibição de viagens entre Europa e EUA para barrar o “vírus estrangeiro”.

Entrevista | João Doria :Bolsonaro desrespeita Congresso e Judiciário e estimula 'miliciamento' de polícias

Tucano sobe o tom contra o presidente, apoia o Parlamento e vê risco de miliciamento de polícias pelo governo

Igor Gielow | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Para o governador João Doria (PSDB-SP), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desrespeita o Congresso e o Judiciário, aumentando a crise econômica e política do país e aglutinando contra si governadores de estado.
“Vejo com profunda preocupação. O afastamento entre Poderes aumenta a crise e gera insegurança entre investidores”, disse o tucano à Folha na noite de quinta (12), no Palácio dos Bandeirantes.

Após passar um ano se distanciando do presidente, apesar de ter surfado a onda conservadora que levou Bolsonaro à Presidência, Doria subiu bastante o tom e agora é só críticas ao titular do Planalto.

Segundo ele, “a política prejudicou a economia” e “o Brasil não pode ser governado com ódio”. Ficou ao lado da Câmara na disputa acerca do manejo de R$ 30 bilhões do Orçamento, rejeitou a convocação de atos contra o Congresso por Bolsonaro e não criticou a pauta-bomba de R$ 20 bilhões aprovada em retaliação por deputados.

Clima para impeachment? O governador não diz isso, mas lembra ironicamente que o próprio Bolsonaro poderia resolver sua dúvida acerca da legitimidade do pleito de 2018 convocando novas eleições.

Provável presidenciável em 2022, Doria disse que Bolsonaro logrou fazer uma união inédita entre governadores antes rivais, e vê com preocupação o precedente da condução da crise do motim da Polícia Militar do Ceará. Para ele, o governo estimula o “miliciamento de polícias” em todo o país, inclusive São Paulo.

Doria tentou se diferenciar de Bolsonaro como um ator racional na condução da crise do novo coronavírus —enquanto o presidente seria um “ausente”, ainda que o tucano elogie o trabalho do ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde).

A conversa ocorreu antes da definição sobre a infecção ou não de Bolsonaro pelo vírus. Em todo o palácio paulista há potes de álcool gel para desinfecção das mãos. “Não mudamos a rotina”, disse, ressalvando que “a decisão de hoje pode ser mudada amanhã”.

• Como o sr. avalia a condução da crise do coronavírus, do ponto de vista federal e dos outros estados?

Eu não quero avaliar outros estados. Sobre o governo federal, são duas avaliações. Do ponto de vista de saúde, o ministro Luiz Henrique Mandetta tem conduzido até aqui muito bem o processo, com equilíbrio, amparo de informações corretas, e não de forma intuitiva ou política.

Ele tem realizado uma boa interação com o Governo de São Paulo. Espero que ele não se contamine. Não pelo vírus, mas pela falta de ação republicana. Até aqui, tem se comportado exemplarmente.

• E o presidente?

O presidente está ausente desse processo, e cometeu o equívoco de minimizar o efeito do coronavírus. Creio que ele estava um pouco desinformado.

• O sr. teme que a prudência adotada na crise, pregando maior racionalidade, possa se voltar contra o sr. caso a epidemia saia de controle?

Eu tenho deixado claro que a pandemia exige uma avaliação diária, com decisões diárias. O que você não pode fazer é prognósticos antecipados. Em saúde, você tem que trabalhar com pesquisa e informação, não com especulação.

A decisão de hoje pode ser revista amanhã. Neste momento, a minha obrigação é decidir baseado na medicina, não na política.

A decisão de ordem política é a mais fácil, mas é a mais dolorida e a que vai gerar mais vítimas, não só do ponto de vista da saúde, mas da economia, da movimentação, do abatimento psicológico.

Marcus Pestana - Orçamento impositivo e conflitos institucionais

No artigo da última semana, afirmei que a Constituição e o Orçamento são as principais leis que orientam a democracia. E quem faz as leis é o Congresso. Portanto, não há nada demais na ideia de orçamento impositivo e isto não representa usurpação de poder alheio.

Como afirmei, durante muito tempo, o orçamento era uma peça de ficção. As emendas parlamentares serviam de instrumento de pressão sobre o parlamento e quem divergia do governo não tinha suas emendas executadas.

Em 2015, o Congresso aprovou o caráter obrigatório da execução das emendas individuais. Foi uma verdadeira alforria aos parlamentares, que ganharam um grau maior de liberdade para expressar suas opiniões e votar conforme suas consciências, longe das pressões do Planalto. O orçamento brasileiro é extremamente engessado pelas despesas obrigatórias (salários, previdência, juros, custeio da máquina) e vinculações como as da saúde e educação. Apenas 6% dos recursos são de execução discricionária.

Agora, na votação do OGU/2020 – Orçamento Geral da União, o Congresso estendeu o caráter impositivo para as emendas de bancada, relator e comissões temáticas. O problema é que houve um acordo costurado por dois Ministros de Estado com as direções do Senado Federal e da Câmara dos Deputados e o dispositivo foi vetado, dando origem a toda a polêmica.

Martin Wolf* - Onda de gastos para cumprir a missão

- Valor Econômico (13/3/2020)

Foi-se a ideia de tentar encolher o governo: os gastos totais aumentarão de 39,3% do PIB para 40,7% em 2024-2025. Foi-se a ideia de impostos baixos. Foi-se o objetivo de orçamento equilibrado: a captação do setor público subirá de 1,8% para 2,2% do PIB

Rishi Sunak, ministro das Finanças do Reino Unido há menos de um mês, fez exatamente aquilo para o que foi indicado pelo primeiro-ministro Boris Johnson. Cumpriu o compromisso de elevar o gasto governamental, em especial, os investimentos, e o de “equilibrar” a situação nas regiões do país mais atrasadas economicamente. Também arquitetou uma reação sensata contra o coronavírus.

O fato de esta estrela conservadora em ascensão ser um filho brilhante de imigrantes indianos mostra a tradicional incorporação de novos talentos pelo partido. Tal flexibilidade fica ainda mais visível no repúdio que se vê no novo orçamento britânico ao que o partido defendeu nos governos de David Cameron e George Osborne. Saíram de cena a austeridade e o Estado mínimo: agora, este é o partido dos altos gastos e do Estado grande. Seu programa é o “nacionalismo de bem-estar social”.

Acertadamente, o ministro começou com a covid-19. Ele ressaltou a alta coordenação com as bem-vindas medidas do Banco da Inglaterra, autoridade monetária do país. Há certas coisas, no entanto, que apenas um governo pode fazer. O Estado é o protetor e garantidor de última instância. Uma pandemia é precisamente o tipo de situação para a qual o Estado existe. Sunak prometeu ao Serviço Nacional de Saúde britânico “quaisquer recursos extras” necessários. Graças aos céus, o Reino Unido, assim como outros países civilizados, reconhece que a saúde é um bem público de suma importância. Nunca deveríamos esperar que pessoas se recusem a ir ao médico ou ao hospital por falta de dinheiro, em especial durante epidemias de doenças altamente contagiosas.

No total, Sunak anunciou a disponibilidade de 7 bilhões de libras esterlinas para auxiliar empresas e pessoas físicas, 5 bilhões de libras para o Serviço Nacional de Saúde e outros departamentos públicos e 18 bilhões de libras adicionais em afrouxamento fiscal para dar sustentação à economia, somando 30 bilhões de libras (US$ 38,5 bilhões). Essas quantias representam um afrouxamento fiscal total em torno a 1,5% do PIB.

Ninguém sabe se esse dinheiro será suficiente. Ninguém sabe que rumo a doença vai tomar. Ninguém sabe até que ponto vai prejudicar a economia. Sunak está certo ao dizer que o choque será “temporário”. Um choque temporário, porém, pode ter efeitos prejudiciais permanentes se a reação não for forte e persistente o suficiente. O governo de coalizão de 2010 a 2015 não foi o único, infelizmente, a não ter percebido isso depois da crise financeira mundial de 2008. O que se espera é que este governo tome as ações econômicas e sanitárias necessárias para guiar o país do melhor modo possível durante este choque.

Rio: Metade dos vereadores deve deixar partidos para eleição

Bancadas se reorganizam em janela para troca de legenda como parte de estratégias para a votação de outubro

Luiz Ernesto Magalhães | O Globo

Um grande troca-troca de partidos deve mudara configuração da Câmara Municipal. Alei eleitoral permite mudança de legendas em perda de mandato até o próximo dia 3, e a expectativa é que pelo menos metade dos 51 vereadores do Rio o faça, de olho na reeleição em outubro. Entre os que buscam novos ares está até mesmo o presidente da Casa, Jorge Felippe (MDB), que tenta se livrar do desgaste do partido, que teve integrantes envolvidos em casos de corrupção.
Procurado pelo GLOBO, ele não quis se manifestar.

Nesse processo, o prefeito Marcelo Crivella pode perder parte de sua base (que hoje lhe garante um certo conforto nas votações) para partidos que terão candidatos próprios na disputa pela administração municipal. É o caso do DEM, que tentará eleger Eduardo Paes, e o PDT, que brigará por Martha Rocha.

A baixa entre os 35 vereadores da base pode chegara dez. Ao menos, na ponta do lápis.

— Como a maioria dos vereadores, sou da Zona Oeste. Meu perfil é comunitário. Sempre defenderei o governo e vou continuar ajudando o prefeito mesmo que meu partido não consiga eleger seu candidato. Afinal, seja quem for eleito, vai depender de mim — argumentou um vereador que está trocando de partido e prefere ficar no anonimato.

Partidos adotam uma série de critérios para decidir sobre essas “migrações” e quem será aceito como filiado. Pelas regras eleitorais, cada legenda precisa de pelo menos 75 candidatos, sendo que pelo menos 22 têm de ser mulheres. O chamado coeficiente eleitoral (número de votos necessários para garantir uma cadeira) chega a 56 mil votos.

O critério não leva em conta apenas o desempenho individual.

—A estratégia de tentara reeleição passa por uma boa nominata, com candidatos que geram votos e ajudam o principal nome do partido — resume Luiz Carlos Ramos Filho, que trocou o Podemos pelo PMN, onde é considerado o principal puxador de votos.

Ramos Filho entrou no PMN enquanto Dr. Gilberto se despedia da legenda para ser o puxador de votos do PTC. Por sua vez, o Podemos, um dos partidos que tenta emplacar o vice de Crivella, que busca a reeleição, virou o pouso de Carlos Eduardo (ex-Solidariedade). O Podemos também deverá abrigar o suplente Petra (hoje no PDT) e o atual líder do governo, Dr. Jairinho, atualmente no MDB.

No Republicanos de Crivella, só têm vagas garantidas os três vereadores do partido, que são ligados à Igreja Universal do Reino de Deus. Em princípio, a legenda só tem as portas abertas para uma eventual entrada de Carlos Bolsonaro (hoje no PSC), caso o filho do presidente Jair Bolsonaro dispute um novo mandato.

DEBANDADA DO PSDB
O PSDB deve perder a bancada toda. Teresa Bergher , Professor Adalmir e Felipe Michel estudam propostas. Suplente na vaga de Michel, que atualmente ocupa uma secretaria na prefeitura, Arraes é cotado para o Novo, que perdeu Leandro Lyra, seu único vereador:

— Esse PSDB atual não é aquele que eu conheci. Eu procuro um posicionamento ideológico ao Centro — disse Teresa, que já foi foi sondada pelo PDT e PSC.

Sem ambiente no PSD, Eliseu Kessler, ligado ao ex-deputado federal Índio da Costa, deve deixar o partido. No PTB, na briga por espaço só sobrou Marcelo Arar. Zico e Rocal deixaram o partido na quarta-feira.

Verônica Costa(MDB) rumo upara o DEM. Rosa Fernandes também deve sair do MDB e se aliar ao PSC de Wilson Witzel devido à proximidade do governador com seu filho, Pedro Fernandes, secretário de Educação. O MDB vive uma situação curiosa. Maior partido da casa (dez vereadores) corre o risco de perder toda abancada. Mas já acertou com Paulo Messina, ex-aliado de Crivella, que concorrerá ao cargo de prefeito.

O que a mídia pensa – Editoriais

O governo descobre a crise – Editorial | O Estado de S. Paulo

No mundo rico, os governos já mobilizaram um poderoso arsenal de medidas anticrise. No Brasil, o governo adotou, até agora, medidas limitadas

Com atraso o governo brasileiro decidiu, enfim, reagir aos efeitos econômicos do coronavírus. Cerca de R$ 23 bilhões entrarão no mercado, em abril, com a liberação da primeira parcela do 13.º aos segurados do INSS. Depois de muita relutância, a medida foi anunciada na quinta-feira, no fim de mais um dia de terror nas bolsas de valores e de commodities de todo o mundo. Na manhã seguinte, o ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a prometer novas medidas em 48 horas, em resposta a cobranças e críticas do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O ministro se absteve de especificar as medidas. No começo da semana será possível conferir se foi apenas uma bravata, mais uma reação às dificuldades de entendimento com o Legislativo. Como nos dias anteriores, o ministro estava pressionando os parlamentares pela aprovação de reformas. Deputados e senadores poderiam, naquele momento, responder no mesmo tom, cobrando a apresentação, já com muito atraso, das propostas do Executivo para a reforma administrativa e para a tributária.

Música | Alcione - Fascínio

Poesia | Manuel Bandeira - Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Merval Pereira - Legislação eficiente

- O Globo

A lei prevê isolamento de pessoas doentes ou contaminadas, a quarentena de gente com suspeita fundada de contaminação

Embora tenha se mostrado apático até ontem em relação à pandemia do Codiv-19 que está afetando o mundo, o governo Bolsonaro aprovou ainda em fevereiro deste ano uma ampla legislação que dá às autoridades de saúde uma gama variada de possibilidades jurídicas para enfrentar a crise.

Antecipando-se ao que viria, o governo mostrou capacidade de previsão. O preocupante é que nem o próprio presidente Bolsonaro, na sua fala de ontem em rede nacional, nem o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, se lembrem dessa lei, que foi aprovada em decisão rápida pelo Congresso.

O presidente Bolsonaro, que apareceu de máscara junto ao ministro da Saúde em sua live, não se referiu aos poderes que o governo tem para enfrentar a emergência de saúde pública, e o ministro Moro, entrevistado na Central Globonews, respondeu de maneira genérica às questões de segurança pública relacionadas à sua pasta.

Diversas decisões previstas na legislação dependem de aprovação dele e do ministro da Saúde. A Lei federal nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, prevê um amplo arsenal de medidas administrativas para a guerra contra a disseminação do novo vírus, afinadas aos padrões determinados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Prevê até mesmo “restrição excepcional e temporária de entrada e saída do país, conforme recomendação técnica e fundamentada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por rodovias, portos ou aeroportos”, exatamente o que o presidente dos Estados Unidos fez ao proibir temporariamente a chegada de aviões vindos da Europa. Para essa medida, será preciso a autorização também do ministério da Justiça.

Bernardo Mello Franco - Um discurso para a claque

- O Globo

Bolsonaro só passou a levar o coronavírus a sério depois que a doença bateu à sua porta. Mesmo assim, preferiu dedicar o pronunciamento oficial na TV à claque governista

Demorou, mas parece que a ficha caiu. Dois dias depois de chamar a epidemia do coronavírus de “fantasia”, Jair Bolsonaro apareceu de máscara no rosto. Apesar de todos os alertas, o presidente só passou a levar a ameaça a sério quando a doença bateu à sua porta.

O caso de Fabio Wajngarten ilustra os riscos de travar uma guerra permanente com os fatos. Na quarta-feira, a colunista Mônica Bergamo informou que o secretário de Comunicação Social havia se submetido ao teste do vírus. Ele sabia que a notícia era verdadeira, mas preferiu iludir a opinião pública e atacar o jornalismo profissional.

“Em que pese a banda podre da imprensa já ter falado absurdos sobre a minha religião, minha família e minha empresa, agora falam da minha saúde. Mas estou bem, não precisarei de abraços do Drauzio Varella”, escreveu, usando o nome do médico para fazer militância política.

Horas depois do tuíte, confirmou-se que o secretário está mesmo com o coronavírus. Ele ainda pode ter transmitido a doença a dois chefes de Estado. Além de viajar com Bolsonaro, participou de jantar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Wajngarten foi atendido num dos melhores hospitais do país e não apresenta sintomas graves da doença. Espero que ele se recupere logo. Também torço para que aproveite o período de isolamento para refletir sobre os erros da comunicação do governo.

Míriam Leitão - O ponto em que as crises se encontram

- O Globo

É preciso adotar medidas para que uma crise temporária não seja permanente na economia. Mas o governo ainda não apresentou respostas efetivas

Há um ponto em que as crises se encontram e se parecem. Esta é diferente na origem, um vírus que se espalha de forma assustadora, podendo atingir uma dimensão desconhecida. A partir daí começam as semelhanças. Atividade econômica suspensa produz PIB menor. O mundo perderá crescimento e pode entrar em recessão. Mudanças bruscas em valor dos ativos produzem inúmeras consequências, principalmente se apanha o país num contrapé, que é o nosso caso. Quando a bolsa cai fortemente, isso leva à perda de riqueza que afeta todos, principalmente os pequenos investidores.

Esta tem sido uma semana devastadora. Ontem, o dia foi de quedas tão brutais nas bolsas que os analistas pararam de comparar com 2008, mas ao colapso da bolsa em 1987, que ficou conhecido como Black Monday. No Brasil, um rápido balanço mostra o seguinte: desde o início do ano, a perda de valor de mercado chega a R$ 1,5 trilhão, segundo cálculos da Economática. Somente ontem houve recuo de R$ 489 bilhões, a maior perda diária da história da bolsa brasileira. A Petrobras já perdeu R$ 240 bilhões em valor no ano. O índice Ibovespa recuou aos 72.582 pontos e voltou ao mesmo patamar de junho de 2018.

Como nunca houve tanta pessoa física na bolsa brasileira, e os estrangeiros saíram nos últimos meses, essa perda de valor afeta diretamente a economia real. O investidor que vê uma desvalorização brusca de seus ativos ficará retraído para tudo o mais, do consumo ao crédito a investimentos com qualquer nível de risco. Assim vão se formando os canais pelos quais a oscilação das ações afeta a tomada de decisão e a economia real.

O economista Márcio Garcia, da PUC do Rio, diz que o problema é haver uma dinâmica que contamina setores e se espalha pelos países, como o próprio vírus.

Luiz Carlos Azedo - Ilustre passageiro

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“”A reação dos países à epidemia é proporcional à envergadura de seu sistema de saúde, esclarecimento da população e escala de medidas de contenção por parte dos governos”

Um dos mais famosos “cases” da propagada brasileira é um anúncio de bondes: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado”. O poeta Bastos Tigres levou a fama, mas a autoria seria do farmacêutico Ernesto de Souza (1864-1928), criador da fórmula, que até hoje serve de exemplo nas escolas de comunicação, por causa da simplicidade de seus versos. De acordo com o anúncio publicado no jornal Correio da Manhã, de 8 de agosto de 1920, a fórmula do Rum Creosotado, produzido pela centenária Drogaria Granado, era mesmo aquela que aparece na propaganda, com “fartos elementos para a hygiene dos pulmões”: iodo, hypophosphito de sódio (NaH2PO2), e de cálcio [Ca(H2PO2)2]. Naquela época, como grande público tinha baixa escolaridade, os versos e a ilustração facilitavam a propagação do anúncio boca a boca.

Seu principal concorrente era o Biotônico Fontoura, criado em 1910 pelo médico Cândido Fontoura para sua esposa. Seu amigo Monteiro Lobato, que tomava o produto para combater o cansaço, batizou a fórmula exaltando suas propriedades e o nome do criador. O Biotônico ganhou muita fama por causa da Lei Seca dos Estados Unidos (1920-1933), para onde foi exportado e fez muito sucesso como remédio que podia ser comprado nas farmácias, mas que servia para aliviar a abstinência dos beberrões, por causa do teor de 9,5% de álcool. No Brasil, era usado como abridor de apetite das crianças, misturado com leite condensado e ovos de pata, um coquetel antianêmico. Em 2001, a Anvisa proibiu que produtos destinados às crianças tivessem qualquer quantidade de álcool em sua composição, razão pela qual o produto foi modificado, ganhando os sabores morango e uva, sem álcool, para as crianças. Rico em ferro, é vendido até hoje, por R$ 26.

A propósito do tipo faceiro, ilustre passageiro ao lado, era o caso do secretário de Comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten, que viajou aos Estados Unidos com o presidente Jair Bolsonaro e seus familiares e está com coronavírus. Toda a comitiva presidencial — parentes, ministros, assessores civis e militares, parlamentares — fez exames ontem para saber se alguém mais foi contaminado. Fábio está em isolamento, depois de fazer novo exame em São Paulo; o resultado da contraprova confirmou a infecção. Bolsonaro, a primeira-dama Michelle e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República, fizeram o teste no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, e não apresentam sintomas da doença.

Desdenhar do coronavírus é a mesma coisa que acreditar que o Rum Creosodato resolveria o problema dos pulmões, numa época em que a penicilina não havia sido descoberta e, por isso mesmo, não existiam antibióticos capazes de curar a tuberculose, e a pneumonia era quase fatal. Essa suposição é alimentada pela baixa letalidade da epidemia (entre 0,5% e 3,5% dos infectados), que atinge grupos de risco (cardiopatas, diabéticos e idosos). O problema é a velocidade da propagação da epidemia, que aumenta sua letalidade por causa da incapacidade de o sistema de saúde atender o crescimento exponencial de casos graves, que exigem entubação dos pacientes em leitos de UTIs. Até a volta dos Estados Unidos, Bolsonaro tratava o assunto de forma até leviana, comparando o coronavírus a uma simples gripe e culpando a imprensa — sempre ela — pelo justificado temor que se disseminou na população, o que é muito diferente de pânico.

César Felício* - Bolsonaro na encruzilhada

- Valor Econômico

Coronavírus muda dinâmica entre governo e Congresso

Não faltaram tiros de advertência antes de o Congresso detonar a pauta-bomba contra o governo Bolsonaro. A derrubada do veto presidencial ao projeto que amplia a base populacional a receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC) está longe de ser um ato inaugural.

E nem teria como ser, afinal se tratava de uma tréplica do Congresso, depois do presidente ter decidido barrar a proposta votada pela Câmara e Senado.

O projeto que aumentou o limite de renda per capita para receber o benefício de 25% do salário para a metade era bastante antigo, do ex-senador catarinense Casildo Maldaner. Tramitou no Legislativo por nada menos que 23 anos. Passou no Senado no fim de novembro, sem que o governo esboçasse reação. Bolsonaro vetou a proposta no dia 20 de dezembro.

A relação entre Executivo e Legislativo no Brasil é péssima desde o início do governo, mas a crise envolvendo o Orçamento impositivo - estopim para a derrubada do veto - estava delineada com perfeição desde o fim de 2019.

Ainda falta no governo Bolsonaro, onde pululam militares no Palácio do Planalto, uma figura como Golbery do Couto e Silva, o ministro da Casa Civil de Geisel e do início do governo Figueiredo. A ele é atribuída uma frase, que teria sido dita a líderes da oposição:

“Segurem seus radicais que nós seguramos os nossos.”

Todo este ambiente de impasse fez diminuir o otimismo em relação à manutenção de ambiente para aprovar no Congresso a agenda pró-mercado, como vinha sendo feito. Chegamos aos idos de março, com as eleições se aproximando e o coronavírus tracionando a escalada do pânico.

O cronograma de 15 semanas que seriam as disponíveis este ano para o ministro da Economia, Paulo Guedes, para aprovar sua agenda este ano - conforme o próprio ministro disse em encontro com parlamentares - corre, célere, sem que fique claro sequer quem é o interlocutor do Planalto com o Legislativo. Quem era no começo do governo? Onyx Lorenzoni? Bebianno? Santos Cruz? e quem é agora? Braga Netto? Ramos? Jorge Oliveira? Rogério Marinho?

Claudia Safatle- Uma visão crítica da inteligência nacional

- Valor Econômico

Para Delfim, governo deveria focar na PEC Emergencial

Delfim Netto, 92 anos, ficou em frente à TV por três horas, assistindo a votação no Congresso que derrubou o veto do presidente Jair Bolsonaro à ampliação do Benefício de Prestação Continuada (BPC), e concluiu: “Acabou a inteligência no Brasil”.

A reação dos parlamentares ao impor uma grave derrota ao governo de Bolsonaro foi um ato impensado, irresponsável mesmo. “Explodiram o teto do gasto!”, reagiu o ex-ministro e ex-deputado Delfim Netto.

Ao derrubar o veto presidencial, o Congresso criou uma despesa permanente da ordem de R$ 20 bilhões por ano sem indicar a devida receita para financiar a nova despesa.

O BPC, instituído pela Constituição de 1988, equivale a um salário mínimo por mês e destina-se às pessoas deficientes e idosos a partir de 65 anos cuja renda familiar per capita seja menor do que um quarto do salário mínimo. Com a derrubada do veto, ele passa a cobrir, também, idosos e deficientes com renda familiar per capita equivalente à metade de um salário mínimo.

O governo, por seu turno, não tem feito nada para melhorar o ambiente entre o Executivo e o Legislativo. Ao contrário, cada vez que o presidente da República fala é para insuflar o mal-estar das relações políticas.

“O problema ideológico atingiu tal dimensão que a coisa mais pecaminosa é ter lógica”, desabafou Delfim.

Por mais meritório que possa parecer, o Congresso criou um gasto no pior momento possível, em meio à hecatombe do coronavírus, que está causando destruição por onde passa e já se instalou por aqui.

“Foram ver se tinha gasolina no carro e acenderam um fósforo”, continuou o ex-ministro. “A maior burrice é repetir medidas que já não deram certo no passado na pretensão de que agora elas darão certo”, completou ele, referindo-se à votação de quarta-feira no Congresso.

Fernando Abrucio* - Factoides não vão tirar Brasil da crise

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Hoje, o presidente se refugia num discurso cada vez mais beligerante e ideológico, e busca proteção nos militares e na ameaça da volta do petismo

Produzir factoides é a principal estratégia de governar do bolsonarismo. Desde o início do governo, os brasileiros são brindados todos os dias com uma nova história, uma frase de impacto ou alguma notícia que nunca se concretizará. Nesta novela, é preciso lutar incessantemente com inimigos, reais ou imaginários, e a emoção prevalece sobre a razão. Por enquanto, mesmo tendo um mandato atribulado em tão curto espaço de tempo, Bolsonaro mantém o apoio de um terço da população e sonha com a reeleição. Mas será que esse modelo será capaz de lidar com a imensa crise que o Brasil enfrentará neste ano?

Apesar de as ações do governo Bolsonaro parecerem muitas vezes irracionais e de difícil explicação, é possível definir os desafios que ele vai enfrentar e dizer se seu estilo é eficaz para lidar com tais situações. Para desenvolver este argumento, a visão de Maquiavel, pai da teoria política moderna, é essencial.

O grande filosofo florentino dizia que duas categorias são centrais para analisar as lideranças políticas. A primeira é a fortuna, que representa a situação objetiva de cada época, ao passo que a segunda é a virtù, que diz respeito às habilidades políticas dos líderes.

Só que não há uma única forma de se fazer política, pois cada momento exige características distintas dos governantes. O que pode ser eficaz num determinado caso pode não ser noutro, e o político bem-sucedido, na visão de Maquiavel, é o que consegue se adaptar a realidades diferentes, que exigem estratégias específicas.

Na eleição de 2018 houve um casamento perfeito entre a fortuna e a virtù de Bolsonaro. Ele percebeu que a maior parte do eleitorado queria um candidato que combinasse duas características: ser antipetista e “outsider”. Assim, tendo os petistas e a classe política tradicional como principais inimigos, construiu uma campanha em nome da renovação - embora ele mesmo fosse deputado há 28 anos, o público o percebeu como um novo “condottiere”. O destino, ademais, trouxe-lhe um episódio paradoxal: a facada, que quase o matou, mas que lhe deu mais força eleitoral.

O contexto do primeiro ano de governo era todo favorável ao novo presidente. Alta popularidade, expectativas muito positivas, Congresso a favor de reformas como nunca antes, oposição dividida e enfraquecida. Bolsonaro poderia ter montado uma coalizão parlamentar com pouquíssimo esforço em termos de divisão de poder.

José de Souza Martins* – O dedo oculto

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Um único dedo, de uma mão, O dedo indicador das digitações armou a subversão política da frágil República e colocou no desvio nosso destino como povo e nação

O Brasil aceitou naturalmente a informação de que a perturbação nacional do processo democrático, que culminou com os surpreendentes resultados das eleições de outubro de 2018, tivesse sido decidida pela intervenção das redes sociais na formação da opinião eleitoral.

Um único dedo, de uma única mão, o dedo indicador das digitações, armou a subversão política da frágil República e colocou no desvio nosso destino como povo e nação. Pelo fato elementar de que a mudança resultante passou a ser expressão de uma vontade única, a de um pequeno grupo de pessoas que agem como uma só e personificam uma só. A que resulta de caprichos ideológicos e sectários e deformações de uma mente autoritária, antipolítica, que trata o povo e a democracia como estorvos.

A força subversiva do dedo antidemocrático refabrica o país, relativiza a força legítima das instituições políticas, o modo da interferência popular no traçado do destino da nação, reformula direitos políticos, cria uma nova categoria de brasileiros de terceira classe, os que votam sem saber no que estão votando, os que já não são considerados sujeitos de direito e de vontade política.

O sociólogo e filósofo francês Henri Lefebvre (1901-1991), há algumas décadas, já havia chamado a atenção para o renascimento do caráter estamental, pré-moderno e pré-capitalista, na sociedade moderna. Nesse sentido, uma sociedade resultante de um novo peneiramento social, que exclui multidões das possibilidades que o capitalismo é capaz de criar e não é politicamente capaz de distribuir e realizar.

Entrevista/ Rodrigo Maia: ‘Não podemos imaginar que Guedes tenha pensado de forma tão medíocre’

Segundo presidente da Câmara, lista de projetos enviada pelo ministro à Casa não resolve crise de curto prazo com coronavírus

Leandro Colon, Julia Chaib | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirma que a agenda dos próximos 45 dias será focada no combate aos efeitos econômicos do coronavírus. Na sua opinião, o governo tem de apresentar medidas de curto prazo para discussão. Segundo ele, a ausência disso incomodou deputados e senadores que se reuniram com o ministro Paulo Guedes (Economia) na quarta (11).

“Guedes não tinha uma coisa organizada ou não quis falar. Se olhar os projetos, tem pouca coisa que impacte a agenda de curto prazo ou quase nada”, disse.

Maia recebeu a Folha nesta quinta (12) na residência oficial da presidência da Câmara.

As propostas econômicas em andamento no Congresso, listadas por Guedes em ofício enviado aos parlamentares na terça (10), segundo o deputado, não resolvem a turbulência dos próximos meses.

Para Maia, a reforma administrativa, ainda a ser enviada pelo governo, não é uma solução no momento.

“A reforma administrativa estar atrasada incomodava até 15 dias atrás”, afirmou.

O presidente da Câmara disse ainda que terá sido “medíocre” se Guedes pensou em transferir a responsabilidade para os deputados sobre a solução da crise ao ter cobrado a votação da agenda. “Não posso acreditar que um homem de 70 anos, com a experiência dele, tenha mandado isso com essa intenção. A crise é tão grande que a gente não tem direito de imaginar que o ministro da Economia de uma das maiores economias do mundo possa ter pensado de forma tão medíocre.”

• Os parlamentares ficaram frustrados com Guedes porque não ouviram medidas concretas e ele ainda tentou dividir a responsabilidade dizendo que a solução é política. Como o senhor avaliou o encontro e a reação dos colegas? 

Compreendi o que ele [Guedes] quis dizer. Precisamos continuar olhando projetos de lei e emendas constitucionais que ajudam a melhorar o ambiente de negócios no país. Em relação a essa parte da participação dele, entendi muito bem. O que preocupou os parlamentares é que certamente teremos impacto de curto prazo e que essas reformas de médio e longo prazo não vão resolver. Temos uma crise de pandemia de um vírus que começa a crescer no Brasil.

O que incomodou os parlamentares é que não sentimos e não vimos, se ele [Guedes] não podia falar ou se ainda não organizou, as soluções para os problemas de curto prazo, como nos setores da aviação civil e de serviços.

São dois eixos: como impacta a saúde dos brasileiros e como impacta a vida econômica e social. São duas urgências. Essa primeira está bem organizada. Por outro lado, como o governo vai reagir em relação à queda da atividade e a algum risco de perda de emprego? Essa parte incomodou os deputados e senadores. A falta dessa parte.

O que eu falei a alguns deputados é que certamente o governo agora está começando a fazer suas simulações. Nós queremos ajudar o governo também, claro, com a organização do diagnóstico feito por eles. A indústria automobilística, por exemplo, teve um resultado em setembro ruim. O setor de serviços vai desempregar muito? O setor de aviação precisa de apoio? Como faz com as empresas de turismo que compram assentos nos aviões, quartos de hotel olhando o futuro e vai começar a ter um cancelamento?

O setor de entretenimento vai começar a cancelar eventos como já está acontecendo nos Estados Unidos. Essas variáveis de curto prazo é que eu acredito que os deputados e senadores sentiram falta na apresentação do Guedes.

Bruno Boghossian – Crise real, liderança imaginária

- Folha de S. Paulo

Presidente conduziu país por caminho perigoso ao sustentar discurso da 'fantasia'

Foi preciso que o vírus entrasse no Palácio do Planalto para que o presidente suspendesse sua anticampanha de saúde pública. Dias depois de dizer que a proliferação da covid-19 era fantasia, Jair Bolsonaro apareceu de máscara nas redes e sugeriu adiar os protestos a favor do governo marcados para domingo.

O presidente conduziu o país por caminhos perigosos no início da semana. Sustentou um discurso que desdenhava dos riscos e só corrigiu a rota depois que um assessor recebeu resultado positivo de teste para o vírus. Bolsonaro pode ter evitado prejuízos maiores, mas já fabricou uma crise de liderança e confiança.

Enquanto o mundo entrava em parafuso diante da pandemia e os mercados derretiam, ele fracassou em dar o devido senso de urgência ao combate ao vírus no Brasil. Sustentou, ao contrário, que a covid-19 não era "isso tudo que a grande mídia propaga" e repetia que "outras gripes mataram mais do que essa".

Hélio Schwartsman - Covid-19, a solução darwiniana

- Folha de S. Paulo

Até o ponto de inflexão, epidemias progridem em ritmo avassalador

Respondo hoje à provocação do leitor Claudio Rangel: "Começo a achar cada vez mais que há um dramático exagero na reação ao coronavírus. Talvez dar 'shutdown' no mundo como estamos fazendo acarrete muito mais externalidades (mortes) do que se 'deixássemos a coisa rolar'. Numa visão utilitarista, não seria melhor assumir que o vírus é um elemento de seleção natural e levar a vida (quase) normalmente? Haveria um colapso maior nos sistemas de saúde por 1, 2, 3 meses, mas depois voltaria ao normal e o resto do mundo seguiria funcionando".

Eu penso que não. Mesmo na visão utilitarista, é importante que nos esforcemos para reduzir o ritmo dos contágios. O problema de fundo aqui é que, na fase inicial da epidemia, nós lidamos com uma função exponencial —algo que a intuição humana tem dificuldade em processar. Se você lembrou da história do grão de trigo e o tabuleiro de xadrez popularizada por Malba Tahan, acertou.

Até atingir o ponto de inflexão, epidemias progridem em ritmo avassalador. Um exemplo calculado por Grant Sanderson, do canal 3Blue1Brown, dá bem a dimensão do problema. Se você tem 21 mil infectados e a epidemia cresce a uma taxa de 15% ao dia, haverá, dentro de 61 dias, 105.873.570 infectados.

Reinaldo Azevedo – Até vírus dá lição a Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

A estupidez impune no governo federal é de tal ordem que essa gente está recebendo ensinamento de microorganismo

O “Encontro Anual da Educação Já”, promovido pela ONG Todos Pela Educação, começou e terminou no dia 9, embora previsto para mais dois. Priscila Cruz, presidente-executiva da entidade, passou mal e fez o teste para detecção da covid-19. Deu negativo felizmente. O episódio, no entanto, deu “positivo” para o vírus das trevas.

Abraham Weintraub, ministro da Educação, que comanda o segundo maior orçamento da Esplanada — ou terceiro caso se inclua a Previdência, mas acho impróprio —, resolveu se manifestar no Twitter. Postou oito mensagens atacando Priscila. No momento mais eloquente, mandou ver: “Para fechar o bloco de informações sobre Priscila Cruz e sua ONG ‘Todos pela Educação’: CORONAVÍRUS!!!".

É pouco? Veio a conclusão: “Salmos 94:23: O Senhor fará recair sobre eles a sua própria iniquidade, e os destruirá na sua própria malícia; o Senhor nosso Deus os destruirá.” Weintraub afirmava com todas as letras que a covid-19 é um castigo divino que atinge os que ele considera adversários do governo.

Vinicius Torres Freire – Na peste, Bolsonaro fala para fanáticos

- Folha de S. Paulo

Em cadeia nacional, disse só que sistema de saúde tem limites e fez política com a militância

A preocupação com a covid-19 se alastra pelo Brasil quase inteiro. Jair Bolsonaro vai então à TV para dizer, em primeiro lugar, que há uma pandemia declarada no mundo e que o sistema de saúde “tem limites” para atender os doentes.

Trata-se de frase tanto óbvia quanto atrocidade que intranquiliza ainda mais o país inteiro. Atrocidade desestabilizadora é um dos motes deste desgoverno.

O que pretende fazer desses limites? Dane-se.

O que tem a dizer ao país sobre providências para conter a epidemia, que ele chamava de “fantasia” da mídia faz dois dias? Dane-se.

O que tem a dizer sobre o risco de paralisia de atividades econômicas? Sobre a tensão nos mercados financeiros, sobre o risco de acidentes na finança? Sobre a disparada das taxas de juros na praça, que ora tem cara de prenúncio de recessão? Dane-se.

O que importa, como logo se ouviu em seu discurso, é espalhar a epidemia de golpeamentos institucionais e fazer chacrinha como animador de auditório de fanáticos de extrema direita.

Foi assim no discurso em cadeia nacional na noite desta quinta-feira.

Logo depois de dizer que o sistema de saúde é limitado, Bolsonaro usou o tempo de TV da Presidência da República para se dirigir a sua militância e aos líderes se suas falanges, que planejavam uma espécie marcha sobre o Congresso, um protesto convocado contra o Parlamento, para domingo próximo (15).

Eliane Cantanhêde - Fantasia e pesadelo

- O Estado de S.Paulo

O presidente ainda acha que Bolsas, dólar e coronavírus são 'fantasias da grande mídia'?

É dramaticamente irônico que o presidente Jair Bolsonaro tenha dito que o coronavírus não passava de uma “pequena crise”, uma “fantasia” criada pela “grande mídia”, e apenas dois dias depois um dos contaminados no Brasil venha a ser justamente o secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten. Vítima da “fantasia”? Vítima da imprensa?

O fato é que, agora, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já declarou pandemia, os casos e mortes se multiplicam rapidamente por todos os continentes, as Bolsas despencam, eventos nacionais e internacionais são cancelados, um atrás do outro, e as escolas estão sendo fechadas.

A curiosidade é por que o presidente perde todas as chances de ficar calado. Fantasia? O coronavírus já atingiu centenas de milhares de pessoas no mundo, com perto de 5 mil mortes. No Brasil, já havia em torno de 80 casos confirmados e mais de 1.400 suspeitos em vários Estados e no DF.

A Bovespa já foi suspensa quatro vezes nesta semana, com as maiores quedas desde 1998, enquanto o dólar chegou a bater em R$ 5. É para brincar com uma coisa dessas? Ou para imitar seu ídolo Donald Trump? Ou para aproveitar para jogar descrédito sobre a mídia? Melhor do que isso seria o Planalto e o Ministério da Economia seguirem o exemplo do Ministério da Saúde. Mostrar serviço, atenção, presteza. Não é essa a sensação, nem em Brasília nem no mercado.

Em meio a tudo isso, é muito preocupante, sim, que Wajngarten tenha viajado no mesmo avião do presidente e tido contato o tempo todo com ministros e assessores da comitiva presidencial a Miami. Para constrangimento geral, ele também participou do jantar de Trump para Bolsonaro na restrita Mar-a-Lago e ainda tirou foto com Trump e o vice Mike Pence com aquele boné ridículo do “Brasil great again”. Já imaginaram se ele sai contaminando a cúpula da Casa Branca?

Celso Ming - Um tsunami atinge a economia brasileira

- O Estado de S.Paulo

Não é mais o momento para palpitar sobre quantos pontinhos irá cair o PIB, mas de distribuir paraquedas e coletes salva-vidas

A economia brasileira está sendo atingida por um tsunami. O momento não é mais para palpitar sobre quantos pontinhos mais cairá o PIB deste ano, mas de distribuir paraquedas e coletes salva-vidas.

Quaisquer modelos matemáticos que se empreguem mostram duas coisas: (1) diante do despreparo, os estragos do coronavírus tendem a se espalhar rapidamente também por aqui; e (2) mantida a tendência, a hemorragia das contas públicas será colossal.

Só porque é “abençoado por Deus e bonito por natureza”, como canta o samba de Jorge Ben Jor, não há por que poupar o Brasil dos flagelos que já atingiram tantos países.

Isso vai exigir providências que implicarão fechamento temporário de fábricas e do comércio. A hotelaria, companhias aéreas, empreendimentos ligados a congressos e turismo e companhias de transporte sofrerão forte impacto nas suas receitas. Empresas mais endividadas terão dificuldades para honrar seus compromissos. Não há ideia de como os bancos serão atingidos, mas se a clientela baquear não há, também, como evitar o impacto sobre eles e demais credores.

As contas públicas que já vinham sofrendo de raquitismo enfrentam ameaças em pinça. A primeira, relacionada com a queda de receitas, vai ligada à quebra da atividade econômica e da renda, à redução do consumo e também ao desemprego. Uma fatia da arrecadação deixa de acontecer.

É também a situação a que está exposto o setor do petróleo. A derrubada internacional dos preços, de 28% em apenas cinco dias úteis, não tem prazo para se recuperar. O governo federal vai perder royalties, contribuições especiais e receitas com leilões de áreas de exploração. Alguns Estados, especialmente Rio de Janeiro e Espírito Santo, cujos orçamentos são fortemente dependentes de receitas com royalties (sempre calculados sobre os preços), também levarão pauladas. Os Estados mais dependentes das receitas de ICMS sobre combustíveis – a maioria – também serão atingidos.

Elena Landau* - Sem rumo, sem laços

- O Estado de S.Paulo

Bolsonaro vive em outra dimensão; não indica estar preocupado com a crise

Ken Loach fez um filme forte. Para mim, mais perturbador que Parasita ou Coringa, muito bons e grandes vedetes do ano. Mas nesses me senti distante daquelas realidades, apesar da relevância da discussão sobre desigualdade de renda, pobreza e violência retratados. Em Você Não Estava Aqui, a experiência foi oposta. A direção é seca, com atores excepcionais, sem trilha sonora ou glamourização na atuação e na cenografia. A vida como ela é.

Cansado de pular de emprego, dos patrões e da falta de oportunidades compatíveis com sua experiência, Ricky resolve se arriscar e virar autônomo. Vai ser entregador de encomendas. É avisado na partida de todos os riscos que estava correndo, tanto pelo contratante de seus serviços quanto pela própria mulher. Mas se joga. Não vê alternativas. A realidade, no entanto, se revela muito pior que imaginava.

O filme é visto como uma denúncia sobre a precarização das relações trabalhistas. É mais que isso. Há questões importantes ali levantadas, como a queda do padrão de vida após a recessão de 2008, os adolescentes que perdem interesse no ensino tradicional e a terrível realidade da falta de emprego para a meia-idade. Todos temos por perto alguém vivendo a mesma situação de desesperança. É o retrato de uma família que poderia ser a nossa. Um soco no estômago.

É passado no Reino Unido, mas faz pensar sobre Brasil. O impacto da nova revolução tecnológica sobre mercado de trabalho ou a necessidade de adaptação do currículo escolar, que evite a evasão de jovens, são temas comuns. A grande diferença está na rede de proteção social, que aqui não existe. Lá, serviços públicos ajudam a família a lidar com a situação por eles inesperada. Transporte que permite à mulher, mesmo que com muito sacrifício, manter seu emprego como cuidadora; acesso à rede de saúde, e uma escola que mantém um acompanhamento rigoroso da frequência e desempenho dos filhos.

Simon Schwartzman* - Mussolini

- O Estado de S.Paulo

O ‘Duce’ tinha defeitos, mas a recuperação da Itália tudo justificava. Deu no que deu

Para entender os movimentos de extrema direita que ocorrem hoje, a leitura de M - O Filho do Século, de Antonio Scurati, recém-publicado pela Editora Intrínseca, que conta a história do surgimento do fascismo na Itália, é leitura obrigatória. É um romance documental, que faz lembrar o Romance de Perón, de Tomás Eloy Martinez, publicado em 1998 pela Companhia das Letras, que merece reedição.

O fascismo surge das cinzas ainda quentes da 1.ª Guerra Mundial, com seus 11 milhões de mortos. Vitoriosa, mas economicamente arrasada, a Itália se divide entre um governo liberal, que tenta reconstituir a economia, e um forte movimento socialista que ganha cada vez mais força no campo e nas cidades. Todos anseiam pela paz, mas Mussolini, que havia começado sua carreira como editor do jornal do Partido Socialista, Avanti!, e sido expulso do partido por defender a entrada na Itália na guerra, decide abraçar a morte, a violência e o nacionalismo como formas de ação política e busca do poder.

Seus principais parceiros, no início, são os remanescentes de uma tropa de elite desmobilizada, os Arditi, treinados para assassinar os inimigos, que depois da guerra se sentem frustrados e marginalizados. Scurati os descreve como passando o tempo embriagados, nos bordéis e envolvidos em atividades criminosas. São eles que Mussolini conquista pelo seu novo jornal, O Povo da Itália, cujo tema principal é o ataque aos que se opuseram à participação italiana na guerra, e os organiza com a criação, em 1919, do Fasci Italiani di Combattimento, os Grupos Italianos de Combate, simbolizados por uma caveira, que dão início ao movimento e ao Partido Fascista.

No início, Mussolini e suas milícias paramilitares são olhados com desprezo tanto pelos liberais, que controlam o governo nacional, como pelos socialistas, que cada vez mais controlam os governos locais e ganham espaço no Parlamento. A economia do país continua estagnada, a Itália não consegue participar da partilha do mundo colonial feita pelas potências europeias e os Estados Unidos, e o exemplo da revolução russa inspira entre os socialistas a ideia de que a hora da revolução italiana também está próxima. Mussolini, no início, ainda tentou manter um discurso a favor dos operários e camponeses; e compartilhava com os setores mais radicais do partido socialista a ideia de que o regime político liberal não servia para nada, os políticos eram, na melhor hipótese, incapazes e na pior, corruptos, e só uma revolução poderia resolver os problemas do país. Ambos acreditavam, com Marx e os anarquistas, que a violência era a parteira da história.

O que a mídia pensa – Editoriais

Mundo em alerta – Editorial | O Estado de S. Paulo

As últimas informações sobre a pandemia do novo coronavírus recomendam que tanto as autoridades públicas como a população sigam obedientemente as orientações sanitárias. Não há razão para pânico – uma reação assim apenas agravaria o quadro –, mas é preciso prudência e diligência, para evitar o contágio e também as nefastas consequências de uma doença que tem afetado o mundo inteiro. Como as autoridades médicas alertam, medidas relativamente simples podem ser decisivas para reduzir as taxas de contaminação.

Vale destacar, em primeiro lugar, que o mundo está diante de uma situação excepcional. Numa medida inaudita para tempos de paz, a Itália decretou quarentena em todo o país, com recomendações para que a população não saia de casa. Em Madri, na Espanha, todos os museus estatais fecharam desde ontem suas portas ao público.

Música | Teresa Cristina - As rosas não falam

Poesia | Fernando Pessoa - Prefiro rosas

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.