quarta-feira, 5 de julho de 2023

Vera Magalhães -Governo e oposição medem forças

O Globo

Reforma vira jogo de tabuleiro em que Lula, Lira e bolsonaristas tentam prevalecer, e resultado pode ser nova estagnação

A discussão da reforma tributária chegou àquele ponto em que se assemelha a uma partida de duração avançada daqueles jogos de tabuleiro de guerra quando um jogador tem de destruir os exércitos dos outros. Depois de muitas rodadas, todo mundo já fortaleceu demais suas guarnições, e qualquer avanço se torna difícil de prever, por depender de um misto de sorte e estratégia.

Vencidos alguns oponentes mais fracos, restam na disputa Arthur Lira, com os tanques do Centrão, o governo, que tenta esconder o jogo, e a oposição, que nas rodadas mais recentes levou a melhor nos dados e avança pelo mapa depois de ser bastante desacreditada. Parecia que a batalha se resolveria logo, mas agora periga avançar indefinidamente.

A entrada de São Paulo no jogo foi um fator a mudar os prognósticos. Tarcísio de Freitas demorou a se posicionar em relação aos principais pontos, mas, quando se posicionou, conseguiu juntar os governadores do Sudeste e do Sul em algumas reivindicações e na resistência ao Conselho Federativo nos moldes em que tinha sido desenhado. De quebra, vem conseguindo transformar a discussão da reforma justamente naquilo que o Executivo tentou evitar: uma disputa entre governo e oposição.

Elio Gaspari - Lula vai se acertar com a Europa

O Globo

Isso acontecerá quando ele descer do palanque

Lula exagerou na dose quando chutou o balde ao atacar as restrições que a União Europeia quer impor a compras de produtos agropecuários da Amazônia e do Cerrado brasileiro. As restrições foram concebidas para um país que tinha uma diplomacia inerte. Países se relacionam com países, não com governos. Até as pedras sabiam que um boicote às exportações de grãos e carnes estava na esquina, e o governo de Pindorama prestigiava, por palavras e atos, a facção agrotroglodita de seu empresariado.

Desde agosto do ano passado sabia-se que os grãos e a carne brasileira poderiam vir a sofrer restrições para entrar na Europa. Tratava-se, entre outras coisas, de antecipar de 2030 para 2025 a meta de desmatamento zero no Cerrado, de onde sai o grosso das exportações de grãos. Saiu uma recomendação para que, a partir de 2024, não se comprem produtos colhidos em áreas desmatadas depois de 2020.

Se esse assunto for entregue a um terceiro-secretário recém-formado pelo Instituto Rio Branco, ele entregará em poucos dias uma planilha capaz de orientar uma negociação para desfazer o enrosco. Se o assunto ficar como está, na pura marquetagem, os interesses do outro lado, comovidos, agradecerão.

Luiz Carlos Azedo - Lula precisa moderar a retórica para não perder apoio do centro

Correio Braziliense

Ciscar pra dentro implica num discurso que tenha mais apoio político na sociedade e alargar o espectro de forças que compõem a base de sustentação do governo no Congresso

Quinta-coluna, a única peça teatral de Ernest Hemingway, autor de O velho e o mar, transporta o leitor aos horrores das batalhas da Guerra Civil espanhola, iniciada em junho de 1936, quando o general Francisco Franco, admirador de Adolf Hitler e Benito Mussolini, líderes do nazifascismo, rebelou suas tropas para derrubar o governo constitucional republicano. Como mostra a série Os pacientes do Dr. Garcia (Netflix), foi mais bem-sucedido do que os que tentaram um golpe e fracassaram na invasão dos palácios dos Três Poderes, em 8 de janeiro.

Publicado pela Bertrand Brasil, com tradução de Ênio Silveira e capa primorosa, na qual aparece uma víbora peçonhenta, a peça narra o cerco de Madri, que durou três anos, nos quais ocorreram intensos combates. Quatro colunas das forças franquistas avançaram sobre Madri e a mantiveram sob ataque. Entretanto, havia uma força agindo dentro da cidade, que indicava alvos para os bombardeios, realizava atos de sabotagem e assassinatos. Era a chamada quinta-coluna, termo que passou a designar grupos ou indivíduos que atuam sub-repticiamente, num país ou num partido, a serviço de seus inimigos.

Wilson Gomes* - O relativismo democrático

Folha de S. Paulo

Por que a democracia era essencial em janeiro, virou secundária para Lula?

Lula, sabidamente um democrata, vem arriscando de forma consistente a própria reputação, no limite da inconsequência, apenas para não abandonar velhos companheiros dos sonhos da esquerda latino-americana unida, mesmo os que se colocaram fora da órbita da democracia.

Ele o faz mesmo ao custo de ignorar circunstâncias, como a brasileira neste momento, em que flexibilizar a democracia não parece ser bom negócio.

Convenhamos que repartir o pão com ditador "bróder" e partidos que sustentam ditaduras, como no Foro de São Paulo, porque se considera que ser de esquerda é bem mais importante do que ser democrata, é um insulto desnecessário à parte ainda lúcida do país que saiu em socorro da democracia em 8 de janeiroOu que votou em Lula por saber que um segundo mandato de Bolsonaro e a democracia seriam incompatíveis.

É mais forte do que Lula, porém, e lá estava ele de novo na semana passada respondendo com destemor à candente questão sobre "ditaduras legais". "A Venezuela tem mais eleições do que o Brasil", dizia.

Roberto DaMatta - Mãe Terra ou desigualdade?

O Globo

Enxergar o planeta como sujeito, e não como um objeto passivo e passível de implacável exploração, é o primeiro passo

Um bolsonarizado Lula defende ditadores na Venezuela e uma absurda relativização da democracia, mas bota o dedo na ferida quando relaciona a “questão climática” à desigualdade.

A incompatibilidade entre um sistema motivado por um incremento ilimitado de produção e consumo e a destruição do planeta é certamente o maior conflito que devemos enfrentar. Enxergar o planeta como sujeito, e não como um objeto passivo e passível de implacável exploração, é o primeiro passo para equacionar esse conflito. O globo azul é a Mãe Terra que partejou todos os sistemas humanos e não humanos de vida conhecidos. Vale lembrar, ensina Thomas Mann, que não por acaso o homem se chama Homo humanus, como sinal de que vem do torrão materno, o húmus.

Bruno Boghossian - Como tratar o inelegível?

Folha de S. Paulo

Seria mais que saudável dedicar tolerância zero para comportamento reincidente de Bolsonaro

O julgamento no TSE nem tinha terminado, mas Jair Bolsonaro já era reincidente. Numa entrevista improvisada, o ex-presidente voltou a alimentar suspeitas falsas sobre as urnas e repetiu a enganação de que os ataques de 8 de janeiro foram "uma grande armação". Quando ele começou a fazer campanha contra vacinas, a CNN cortou a transmissão.

Horas depois, naquela mesma sexta-feira (30), Bolsonaro foi mais longe. Em outra entrevista, reciclou teorias da conspiração sobre as investigações da facada que sofreu e sobre as eleições de 2018. Para completar, insinuou que teve mais apoio do que Lula em 2022, mas "os números do TSE apontaram outra direção".

Vinicius Torres Freire - Inimigos da reforma dos impostos

Folha de S. Paulo

Prefeitos, alguns governadores e muitas empresas querem manter situação atual ou privilégios

A votação da reforma tributária encrencou nos últimos dias porque pelo menos dez governadores querem mudar a maneira pela qual será distribuída a receita do novo imposto estadual unificado sobre o consumo de quaisquer bens e serviços. Isto é, o IBS, Imposto sobre Bens e Serviços, que vai substituir ICMS e ISS.

Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) lideram a pressão. A dúvida é saber se o problema é mesmo esse, o método de repartição, ou se querem adiar ou derrubar a reforma. Caiado, aliás, não quer mudança estadual alguma.

Lobbies empresariais marcam parlamentares corpo a corpo e agradecem a oportunidade de ter mais tempo para cavar um favor ou até derrubar a reforma, como também o querem associações de prefeitos.

Nas audiências públicas sobre o assunto, no Congresso, montes de representantes empresariais disseram que eram "a favor da reforma", desde que o caso deles fosse tratado de modo especial. Parecia piada.

Zeina Latif - Reforma Tributária no divã

O Globo

Em que pesem as concessões e os ajustes, perder a janela de oportunidade para avançar nesse tema seria um equívoco

Apesar do anseio generalizado pela simplificação e eliminação da cumulatividade de impostos — exceto parcela dos profissionais que ganham com a confusão, nos setores privado e público —, o tema é mais desafiador que a Reforma da Previdência. Há um conjunto maior de players que se julgam prejudicados e têm capacidade de organização e pressão no Congresso, de governadores a segmentos do setor produtivo.

São muitas décadas de convivência com um sistema que produziu desigualdades incompreensíveis entre bens e serviços consumidos, mas que moldou decisões de investimento das empresas. Agora muitos temem as mudanças. A grande desconfiança na ação estatal — um mal frequente em nações menos avançadas — está no cerne dos temores.

Tiago Cavalcanti* - Heterogeneidade dos juros bancários

Valor Econômico

Indivíduos com menor renda pagam taxas de juros mais elevadas, independentemente da classificação de risco do cliente

No artigo publicado no mês anterior neste Valor Econômico, abordei a temática da expansão e simplificação da portabilidade dos serviços bancários como um meio de estimular a competição entre instituições financeiras e, consequentemente, de contribuir para a redução dos altos custos de crédito no país. Neste novo artigo, exploro com mais detalhe o mercado de crédito pessoal no Brasil.

Realizei o estudo “Consumer Loans, Heterogeneous Interest Rates, and Inequality”, em colaboração com Marco Bonomo (Insper), Fernando Chertman (Banco Central), Amanda Fantinatti (FGV-SP), Andrew Hannon (Universidade de Cambridge) e Cézar Santos (IDB). Foi utilizada uma amostra representativa de 1,36 milhão de pessoas no Brasil, que contrataram diversos tipos de empréstimos bancários no período entre 2013 e 2019. Os dados para nossa análise foram obtidos do excelente Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central do Brasil.

Martin Wolf* - A volta da inflação muda o mundo

Valor Econômico

Uma combinação de pressão inflacionária com fragilidade financeira não existia na década de 1970

Nos países de alta renda a inflação dos preços ao consumidor alcança taxas não observadas nas últimas quatro décadas. Pelo fato de a inflação ter deixado de seguir baixos patamares, o mesmo ocorreu com as taxas de juros. A era dos juros “baixos por muito tempo” acabou, pelo menos por enquanto. Por que isso ocorreu? Será uma mudança duradoura? Qual deveria ser a reação da política pública?

Nas últimas duas décadas, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) ofereceu um ponto de vista diferente do da maioria das organizações internacionais e bancos centrais de peso. Enfatizou os perigos de uma política monetária ultraexpansiva, do endividamento elevado e da fragilidade financeira. Sempre valeu a pena considerar sua posição, caracterizada por certo catastrofismo.

O relatório resume a recente experiência como de “inflação alta, resiliência surpreendente da atividade econômica e os primeiros sinais de estresse grave no sistema financeiro”. Destaca a opinião defendida em amplos círculos de que a inflação vai diminuir e desaparecer. Em contraposição, observa que a porcentagem de itens da cesta de consumo com altas anuais dos preços de mais de 5% alcançou mais de 60% nos países de alta renda. Enfatiza também que os salários reais caíram significativamente neste episódio de inflação. “Seria pouco razoável prever que os assalariados não tentarão recuperar o poder de compra perdido, até porque os mercados de trabalho permanecem muito apertados”, afirma. Os trabalhadores poderiam reaver parte dessas perdas, sem manter a inflação em níveis elevados, desde que os lucros fossem comprimidos. Nas economias resilientes de hoje, no entanto, uma disputa distributiva parece muito mais provável.

Paul Krugman* - Biden pode mudar a narrativa econômica?

Folha de S. Paulo

Os números melhoraram muito. Os eleitores vão dar crédito a ele?

Na década de 1970, Arthur Okun, um economista que havia sido consultor de políticas do presidente Lyndon Johnson, sugeriu uma maneira rápida e suja de avaliar a situação econômica do país: o "índice de miséria", a soma da inflação com o desemprego. Foi e é uma medida grosseira, facilmente criticada.

O dano econômico mensurável do desemprego, por exemplo, é muito maior que o da inflação. Esse índice, no entanto, fez historicamente um bom serviço para se prever o sentimento econômico geral.

Vale a pena notar que o índice de miséria –que disparou junto com a inflação durante 2021 e no primeiro semestre de 2022– caiu no ano passado. Agora está de volta ao nível de quando o presidente Joe Biden tomou posse.

Carlos Pereira - Seria mais apropriado que o eleitor fosse o ‘juiz’ do ex-presidente?

O Estado de S. Paulo

Após a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro pelo crime eleitoral de “prática ilegal de abuso de poder político” e torná-lo inelegível por oito anos, levantaram-se dúvidas sobre quem de fato deveria tomar essa decisão. Foi alegado que, em vez do TSE, seria mais apropriado que o eleitor fosse o “juiz” do ex-presidente. Afinal de contas, em uma democracia o “verdadeiro soberano” é o eleitor e não o Judiciário.

O próprio presidente Lula, quando estava sendo julgado pelos crimes de “corrupção passiva e lavagem de dinheiro” na Operação Lava Jato pelo ex-juiz e agora senador Sérgio Moro, disse: “Eu não quero ser apenas julgado pela Justiça. Quero antes ser julgado pelo povo brasileiro”. O eleitor, entretanto, não é juiz criminal nem tampouco de ilícitos eleitorais. Assim como a reeleição de um governante supostamente criminoso não pode ser interpretada como uma absolvição dos seus crimes, sua eventual derrota eleitoral também não pode ser interpretada como uma condenação. Concretamente, assim como a eleição de Lula em 2022 não foi uma absolvição do eleitor pelos seus crimes pregressos, a derrota de Bolsonaro não foi uma condenação pelos seus crimes de ameaças às instituições democráticas.

Marcelo Godoy - TSE cassa o HC de Lula

O Estado de S. Paulo

Presidente não tem mais o conforto de ver Bolsonaro no seu retrovisor e será julgado pelo que faz

O cientista político Francisco Weffort dizia que a democracia era o seu sonho, a sua ilusão, mas que ela tinha algo de realidade. “Não é pura loucura da minha parte.” O Brasil vivia os anos de Jair Bolsonaro na Presidência. Weffort, que ajudara a fundar o PT e depois se distanciara do partido, via na democracia uma espécie de destino. Mas sabia que ela era frágil. “Moralistas políticos têm tratado disso. O problema não é quem faz o mal, mas a preguiça de quem faz o bem e não se mexe.”

Luiz Inácio Lula da Silva devia ler a obra do ex-companheiro. E prestar atenção no espírito do tempo. Ele muda. E, às vezes, na velocidade com que um expresidente é condenado por uma Corte de Justiça. Na semana passada, foi a vez de Bolsonaro, o homem que acusavam de conspirar contra a democracia. O político que ia dar um jeito no STF, que tinha muita saliva – mas se revelou sem pólvora – tornou-se inelegível. E, assim, o fantasma que rondava o Planalto já não assusta mais.

Nicolau da Rocha Cavalcanti* - A opinião

O Estado de S. Paulo

Quantas gerações de leitores não tiveram sua preocupação com a coisa pública despertada pela leitura diária dos editoriais?

Recentemente, Wilson Gomes, professor titular de Teoria da Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), questionou a publicação dos editoriais nos dias de hoje. “Considerando como os novos leitores julgam a cobertura pelos editoriais, que não têm valor factual, não seria mais vantajoso para o jornalismo acabar com o editorial?”

Jornalismo não é um fato da natureza. É construção humana, fenômeno histórico, com muitas possibilidades de configuração. A pergunta é, portanto, válida. Faz sentido que um jornal continue publicando, hoje em dia, sua opinião?

Certamente, se os editoriais fossem uma opinião arbitrária, similar ao polegar do imperador nas arenas romanas, eles não teriam muita utilidade. Mas os editoriais dos grandes jornais nunca quiseram ser isso. Nunca pretenderam ser apenas voto opinativo, sem fundamentação.

IEPfD |Para que Serve a Política? Introdução Cursos de Formação Política com Marco Aurélio Nogueira

 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Venezuela e China provocam divisão na Cúpula do Mercosul

Valor Econômico

Se o Brasil pretende unir o Mercosul e não aprofundar desavenças, o melhor é arranjar a entrada em vigor do acordo com a União Europeia

A volta do Brasil à Presidência rotativa do Mercosul marca também um retorno ao passado, com a tentativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de incorporar novamente a Venezuela ao bloco. Não são apenas velhas questões que desafiam os quatro países. O Uruguai parece ter entrado na fase de ultimato para que se faça um acordo conjunto com a China, cuja negativa levará o país a negociá-lo separadamente, segundo declarou claramente o presidente uruguaio, Lacalle Pou.

“Quando vemos que não avançamos juntos, entendemos a visão de cada um de vocês. A nossa é que façamos juntos. Se não podemos fazer assim, vamos fazer bilateralmente”, disse Pou ontem, no último dia da 62ª Cúpula do Mercosul, em Puerto Iguazú (Argentina). O presidente do Uruguai, pela quarta vez, deixou de assinar o documento conjunto da reunião, defendeu mais uma vez a flexibilização das regras do Mercosul e criticou o “isolamento” do bloco, com a falta de acordos comerciais relevantes - uma constatação irretorquível.

Poesia | Ascenso Ferreira - Misticismo

 

Música | Adoniran Barbosa - Viaduto Sta. Efigênia

 

terça-feira, 4 de julho de 2023

Merval Pereira - A hora da verdade

O Globo

Seria trágico se a nomeação de Nísia Trindade para a pasta da Saúde, como resposta à sociedade pelos anos perversos que vivemos, fosse agora neutralizada pelo anseio de parlamentares que invejam a verba a que o setor tem direito pela Constituição

É irrealista exigir que o presidente Lula, ou qualquer outro presidente da República, trombe com o Congresso a cada reivindicação fisiológica que surja, especialmente agora que os parlamentares foram empoderados com emendas impositivas e com o orçamento secreto, que teima em não morrer, apesar da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de considerá-lo inconstitucional.

Mas existe uma diferença entre atender às demandas dos parlamentares e a interesses que desvirtuem um projeto de governo em área vital, como o Ministério da Saúde. Depois de todos os transtornos que vivemos como nação durante a pandemia, com ministros da Saúde caindo um atrás do outro para satisfazer às idiossincrasias do presidente Bolsonaro, seria trágico se a nomeação de Nísia Trindade para a pasta da Saúde, como resposta à sociedade pelos anos perversos que vivemos, fosse agora neutralizada pelo anseio de parlamentares que invejam a verba a que o setor tem direito pela Constituição.

Somente no Ministério da Saúde, as sobras das emendas de relator (nome oficial do orçamento secreto) totalizam R$ 3 bilhões, dos quais R$ 600 milhões já foram liberados para projetos cadastrados por municípios nas áreas de atenção primária à saúde e de média e alta complexidade. Pela decisão do STF, essa verba deve ser alocada nos programas definidos como prioritários pelo ministério, e os parlamentares têm de adequar seus pedidos de verba a esses programas.

Míriam Leitão - Poucos poderes do inelegível

O Globo

Bolsonaro pode ter pouca capacidade de transferir votos e muita dificuldade de atravessar os longos anos de ostracismo eleitoral

Cinco ex-governadores de São Paulo tentaram a presidência. Todos perderam. Paulo Maluf, Mário Covas, Orestes Quércia, José Serra e Geraldo Alckmin. A ideia de que Tarcísio Gomes de Freitas tem chance de vencer em 2026 por ser governador de São Paulo e se receber as bençãos do inelegível é prematura e contra os fatos. A hipótese de que Bolsonaro seja capaz de ir de capitão a cabo eleitoral depende de inúmeros fatores, mas o mais importante deles é o desempenho do governo do PT.

No Brasil, sempre houve extrema direita. Bolsonaro não inventou nada. Afinal este é o país em que a extrema direita deu um golpe, passou 21 anos no poder, cometeu inúmeros crimes e, ao sair, nenhum dos seus criminosos foi punido. E até hoje existem aberrações como a proposta de Tarcísio de Freitas de homenagear Erasmo Dias, para emular quem louvava o torturador Brilhante Ustra. O que Bolsonaro representou de novidade foi quebrar o princípio de que para ser eleito é preciso caminhar para o centro. O princípio permanece em vigor. A eleição de 2018 foi um ponto fora da curva, que não tem explicação simples.

Luiz Carlos Azedo - Governo precisa da reforma tributária para deslanchar

Correio Braziliense

A movimentação de governadores e prefeitos nos bastidores da Câmara contra o projeto do governo pode retardar a aprovação. Alguma forma de compensação terá que ser encontrada

Uma comparação objetiva entre o governo Lula e o de Bolsonaro, ao longo desses seis meses, mostra uma mudança da água para o vinho no país. Os indicadores são significativos: o fim do isolamento internacional; a mudança de rumo na questão ambiental e na demarcação das terras indígenas; a retomada das políticas públicas nas áreas de saúde, educação, segurança pública e direitos humanos; a aprovação do novo Arcabouço Fiscal; o início da reforma tributária. Portando, não se trata de jogar a criança fora com a água da bacia. Houve uma mudança de rumo muito positiva para a sociedade. Entretanto, o país ainda não deslanchou como deveria.

A primeira razão para isso é a economia estar contingenciada por uma taxa de juros de 13,75%, uma espécie de remédio que virou veneno. Economistas como o mineiro Benito Salomão, ontem, em artigo na Folha de S.Paulo, destacam os sinais de que a curva da desinflação aponta realmente para baixo.

As principais razões, sem economês, seriam a queda gradativa, porém continuada, do dólar, que retrai o peso das importações na cesta inflacionária; o fato de que os reajustes de preços estão sendo feitos muito mais em razão da inflação passada do que devido à expectativa de alta; e a aprovação da nova política fiscal, que deu mais previsibilidade à economia.

Carlos Andreazza - Valor absoluto

O Globo

Confrontar a inelegibilidade de Bolsonaro à elegibilidade eterna de Maduro faz materializar os princípios sólidos — não relativizáveis — da democracia.

Por favor, não use conceitos da ciência política para defender a relativização da democracia segundo Lula. O presidente se referia à Venezuela, uma autocracia, e sua formulação — “o conceito de democracia é relativo para você e para mim” — apenas pretendeu acarinhar um regime amigo. Coisa de compadres. De Hugo Chávez a Nicolás Maduro.

Sem novidade. Veio para nos salvar de Jair Bolsonaro — o das joias da ditadura árabe — o outrora camarada de Muamar Kadafi. Tudo previsível.

Razão por que, a propósito, será falso — talvez mesmo carinhoso — acusar Lula de haver cometido “estelionato eleitoral”. Ninguém pode ter sido pego de surpresa. Não faltou transparência — nem na campanha — sobre relações (históricas) de amizade fraternal com autocratas e outros ortegas.

Dora Kramer – Aviso aos navegantes

Folha de S. Paulo

Os males do sistema político/partidário vêm de muito antes da reeleição

A Justiça Eleitoral é habitualmente generosa para com governantes, sejam eles vencedores ou perdedores. Abusos de poder são frequentes e raríssimas as punições. Na esfera do Executivo, então, só ocorreram quando o prefeito ou o governador estavam fora dos cargos.

Com presidentes da República nunca acontecera. Vimos agora, e pela primeira vez, um ex-presidente ser castigado devido ao abuso das prerrogativas em campanha eleitoral.

O Tribunal Superior Eleitoral tornou Jair Bolsonaro inelegível cinco meses depois do término do mandato, numa decisão inédita que pode ser didática caso o rigor venha a se configurar como regra.

Alvaro Costa e Silva - Bolsonaro, o ultraprocessado

Folha de S. Paulo

Como fica o bolsonarismo sem o capitão, agora rebaixado a cabo?

O Partido Liberal de Valdemar Costa Neto, que paga um salário de R$ 46 mil a Bolsonaro e ainda arca com os custos da defesa judicial do ex-presidente, que podem chegar a R$ 2 milhões no barato, está disposto a cobrar a fatura.

Os planos para 2024 são fabulosos. Usando o inelegível como "cabo eleitoral de luxo", o PL estima alcançar 1.500 prefeituras, quatro vezes as atuais 360. Em São Paulo a intenção é comandar 150 municípios; a aposta na capital é o senador Marcos Pontes, após a desistência forçada do deputado federal Ricardo Salles. No Rio surge o nome do general Braga Netto, que escapou da condenação no TSE. Isso sem falar na corrida presidencial, quando Bolsonaro poderia influir em ene prováveis candidaturas, num leque que vai do governador Tarcísio de Freitas à senadora Tereza Cristina.

Joel Pinheiro da Fonseca - O Twitter e o debate público

Folha de S. Paulo

Se Musk não tornar a rede sustentável, morrerá um importante palco do debate público

Falamos muito do poder das redes sociais, mas não reparamos o quão rápido ele surgiu e o quão rápido pode mudar. MySpace, Orkut, Friendster, StumbleUpon, Google+; nomes que ficaram para trás e hoje é como se nunca tivessem existido. O que nos traz ao Twitter: será que ele está fadado a seguir o mesmo caminho?

Quando Elon Musk comprou o Twitter e começou a fazer mudanças, não faltaram profetas do colapso. A demissão em massa de funcionários faria com que serviços essenciais começassem a falhar e em breve o site sairia do ar. Era questão de dias.

Meses se passaram e nada disso aconteceu, o que nos leva a suspeitar duas coisas: 1) que o número inflado de funcionários da empresa deficitária talvez não fosse tão necessário assim. 2) Que as profecias de colapso iminente feitas agora que Musk implementou novas mudanças (limitou a quantidade de tweets diários que podemos ler) também devem ser exageradas.

Andrea Jubé - ‘Ninguém no PT trabalha com a hipótese de Lula não ser candidato em 2026’

Valor Econômico

Declaração de inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro não tranquiliza os adversários

A declaração de inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não tranquiliza os adversários. Meses antes da sentença da Justiça Eleitoral, o ex-mandatário já estava com o pé na estrada, desempenhando o papel de cabo eleitoral de luxo do PL, e priorizando os três Estados que concentram cerca de 40% do eleitorado: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Desde que voltou ao Brasil, em 30 de março, após o sabático nos Estados Unidos, Bolsonaro esteve cinco vezes em São Paulo, três delas ao lado do bem avaliado governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

No começo de maio, foram juntos à Agrishow, em Ribeirão Preto, um reduto do agronegócio bolsonarista. Uma semana depois, o ex-presidente acompanhou Michelle Bolsonaro na posse de Rosana Valle como presidente do PL Mulher na Assembleia Legislativa paulista.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Adam Smith e a mão invisível

Valor Econômico

Smith ‘despolitiza’ as relações sociais, buscando afirmar a autorregulação da sociedade econômica

Diriam os da antiga: reler o livro “Economic Sentiments” de Emma Rothschild é bálsamo para a alma. A erudição e os cuidados históricos e conceituais da autora também podem balançar os neurônios dos interessados nos avanços e recuos da outrora chamada Economia Política, hoje proclamada urbi et orbi como Ciência Econômica.

Entre tantas admiráveis passagens, escolhi o capítulo 5, “The Bloody and Invisible Hand”.

Emma começa por suspeitar que Adam Smith não estimava especialmente a mão invisível. Diz ela que a imagem da mão invisível deveria ser interpretada como uma ironia. Em sua caminhada para desvendar os significados que Smith teria emprestado à expressão Mão Invisível, a autora encontra três sentidos em ocasiões bastante diferentes.

 “O primeiro uso, em sua ‘História da Astronomia’ (que se acredita ter sido escrita na década de 1750, mas foi preservada por Smith para publicação póstuma), é claramente irônico. Smith está falando sobre a credulidade das pessoas em sociedades politeístas, que atribuem “os eventos irregulares da natureza”, como trovões e tempestades, a “seres inteligentes, embora invisíveis - a deuses, demônios, bruxas, gênios, fadas”. Não atribuem apoio divino ao “curso ordinário das coisas”: “O fogo arde e a água refresca; corpos pesados descem, e substâncias mais leves voam para cima, pela necessidade de sua própria natureza; nem a mão invisível de Júpiter foi necessária para ser empregada nesses assuntos”.

O segundo uso, diz Emma, está na “Teoria dos Sentimentos Morais”, em uma passagem publicada em 1759, e mantida inalterada ao longo das revisões subsequentes da obra por Smith. O irônico está aqui de uma maneira diferente. Smith está descrevendo alguns proprietários ricos particularmente desagradáveis, que não estão preocupados com a humanidade ou a justiça, mas que, em “seu egoísmo natural e rapacidade”, perseguem apenas “seus próprios desejos vãos e insaciáveis”. Empregam, no entanto, milhares de trabalhadores pobres para produzir mercadorias de luxo: “Eles são conduzidos por uma mão invisível a (...) sem querer, sem saber, promovem o interesse da sociedade”.

Eliane Cantanhêde – Sai Nísia entra Wellington Dias na mira

O Estado de S. Paulo

Lula blindou o Ministério da Saúde, mas Centrão não desiste, só trocou o alvo

Semana vem, semana vai, e a troca no Ministério do Turismo não sai, mas agora vai e está para ocorrer a qualquer momento, sem surpresa, sem emoção e sem choro nem vela. Mas “só” isso não agrada ao União Brasil nem ao Centrão, que começam a mudar a direção do olho gordo: em vez da Saúde, passam a disputar o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, que tem orçamento tão grande quanto o próprio nome.

Ao disputarem a Saúde – que já foi ocupada por um dos seus, o deputado Ricardo Barros (PPPR), no governo Temer –, os líderes do Centrão bateram num muro de resistência que começou no Planalto, se estendeu para a Esplanada dos Ministérios, chegou ao Congresso e foi reforçado pela mídia. Na linguagem política, a ministra Nísia Trindade, ex-presidente da Fiocruz na pandemia, foi “blindada”.

Paulo Hartung* - Política ambiental como motor social

O Estado de S. Paulo

Além dos benefícios ambientais, o cuidado com a natureza pode ser uma alavanca para enfrentar a desigualdade social do País

Há alguns anos o meio ambiente vem clamando por atenção. O cuidar da natureza deixou o romantismo no passado e se tornou pauta urgente para as atuais gerações que têm a missão de enfrentar a convulsão climática, um dos maiores desafios da contemporaneidade.

O Brasil é um dos candidatos a protagonizar esta era de socorro ao futuro planetário. Para além de suas potencialidades, representadas pelo imenso ativo ambiental e sua matriz energética já diferenciada, ainda contamos com o anseio global por um Brasil mais cooperativo. Com as cartas dispostas sobre a mesa, cabe ao Brasil cuidar das fragilidades para, enfim, avançar efetivamente nesta agenda. É imperativo combater desmatamento, garimpo ilegal, queimadas, entre outros crimes.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Para onde conduzem as derrapadas dos governantes?

O Brasil acaba de assumir a presidência do Mercosul. Mas, com   que roupa Lula se apresentou por lá? O grande projeto de integração do Acordo regional, por se realizar ainda, é   com a União Europeia - um bloco que reúne 27 países -  que se arrasta, contudo, por mais de 20 anos. O brasileiro tem esperança de debutar sua gestão com a assinatura desse acordo, que livraria seus produtos e membros - Brasil, Argentina. Paraguai e Uruguai - de alguns embaraços fiscais impostos pelos europeus.

Há um mês, na expectativa de ampliar o escopo de sua influência regional, o brasileiro reuniu-se com presidentes de dez países latino-americanos. Suas ideias, pouco explícitas, foram aplaudidas por três ou quatro, mas ganhou a   contestação de outros.  As derrapadas retóricas do novo chefe do Estado do Brasil terminaram por abalar sua credibilidade também na Europa e nos EUA. Sua opinião sobre a invasão da Ucrânia foi apenas um detalhe.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Lula é incoerente ao julgar democracia ‘conceito relativo’

O Globo

Declaração é inaceitável depois de campanha eleitoral em que ele lutou contra ameaça antidemocrática

A condescendência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com as barbaridades da ditadura venezuelana chegou ao absurdo. Ao tentar justificar seu apoio ao ditador Nicolás Maduro, Lula afirmou em entrevista à Rádio Gaúcha que a Venezuela tem mais eleições do que o Brasil e que “o conceito de democracia é relativo”.

A declaração é ainda mais inaceitável depois de uma campanha eleitoral em que a promessa de defender a democracia, ameaçada por Jair Bolsonaro, atraiu para Lula o apoio de diversas tendências ideológicas. Lula venceu, e felizmente as instituições brasileiras têm se encarregado de punir Bolsonaro pelos arroubos golpistas — o TSE já o tornou inelegível por oito anos. Permanece no ar, porém, a pergunta: Lula teria reunido frente tão ampla se as declarações sobre a democracia “relativa” tivessem vindo à tona na época?

Poesia Mário Quintana - Deixem-me envelhecer

 

Música | Clara Nunes - Tristeza pé no chão

 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Fernando Gabeira - E agora, Jair?

O Globo

Existe uma possibilidade de a direita pós-Bolsonaro aceitar de forma tímida a ideia de proteção ao meio ambiente

A roda rodou, a fila andará. E agora, Jair? É uma questão coletiva: as mudanças num campo político, indiretamente, devem provocar mudanças no campo oposto. Emerge uma nova configuração.

Tenho feito muitas perguntas desde que se tornou previsível o resultado do júri. Algumas talvez até já tenham resposta, como a sucessão pessoal em 2026. Será uma escolha de sangue, um dos filhos de Jair? Será alguém com poder político e aura de administrador?

A direita tomará um novo rumo. Seguirá sendo pautada pelos temas de Bolsonaro? Nas análises anteriores, concluí que a misoginia de Trump e Bolsonaro tinha a base de apoio nas redes sociais. Nos Estados Unidos isso é mais nítido. Campanhas antifeministas precederam a entrada de Trump em cena eleitoral. Coletivos de homens revoltados com a rejeição feminina cresceram, surgiram os incel, coletivos de celibatários involuntários.

O ressentimento com as mulheres atingiu um nível dramático com o culto a Elliot Rodgers, um jovem de 22 anos que matou seis pessoas e lançou um manifesto falando de seu fracasso com as mulheres. Embora não exista uma estrutura tão organizada no Brasil, Bolsonaro intuiu que hostilizar as mulheres era um caminho popular entre um grande número de homens. Acontece que, no Brasil, as mulheres são maioria e definem as eleições. É possível que a direita descubra isso e as trate, pelo menos, com um respeito formal. Já seria algum tipo de mudança.

Miguel de Almeida - Melhor já ir se acostumando

O Globo

O enredo malufista guarda ainda poucos paralelos com o ocaso de Bolsonaro

Se eu postar uma foto de Luan Santana, Gabigol e Paulo Maluf e perguntar quem ali seria um político mal-afamado, o acerto viria por exclusão. Pois bem. Maluf, por anos, foi um miasma a assustar a boa família brasileira. Desalmado como seu descendente Jair, cunhou a clássica frase de espírito bolsonarista:

— Estrupa (sic), mas não mata.

A falta de votos nas urnas e a Justiça o jogaram no ostracismo — e, por vários anos, cumpriu prisão domiciliar. Há pouco devolveu alguns milhões de dólares desviados de uma obra pública paulistana. A quantia roubada dava para construir vários outros túneis e viadutos. Mesmo enredado, com suas digitais sangrentas na cena no crime, negava as suspeitas em ríctus indignado. Mentia sem Rivotril.

Em tempos mais pretéritos, promotores de Justiça avançaram sobre as espertezas de Orestes Quércia. A política da época congelou as investigações. Descobriu-se, para pouco espanto da plateia, que o preço do quilômetro do metrô paulistano era o dobro do cobrado no túnel sob o Canal da Mancha, entre França e Inglaterra. Se levantado o tapete roto, estariam ali as mesmas construtoras logo flagradas nos dutos da Petrobras.

Sepúlveda Pertence: Defensor incansável da democracia

Por Fernanda Alves, Reynaldo Turollo Jr. e Paolla Serra / O Globo

Respeitado nos meios jurídico e político, magistrado teve trajetória marcada pela resistência à ditadura

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), parlamentares e demais autoridades lamentaram a morte do ministro aposentado da Corte Sepúlveda Pertence. O jurista estava internado havia cerca de uma semana no Hospital Sírio Libanês, em Brasília, e sofreu falência múltipla dos órgãos, aos 85 anos.

Lula afirmou que Pertence foi um dos "maiores juristas da história do Brasil" e que foi um privilégio tê-lo como "amigo e advogado".

"Sempre atuou pela defesa da democracia e do Estado de Direito, como advogado e também como ministro do Supremo Tribunal Federal. Por isso, era respeitado por todos. Neste momento de perda, meus sentimentos aos seus familiares, em especial aos seus filhos, aos amigos e admiradores", escreveu o presidente.

Já a presidente do STF, ministra Rosa Weber, classificou Pertence como um dos mais "brilhantes juristas o país".

"Teve presença marcante e altamente simbólica no dia a dia da Corte ao longo dos anos. Grande defensor da democracia, notável na atuação jurídica em todos os campos a que se dedicou, deixa uma lacuna imensa e grande tristeza no coração de todos nós", disse a ministra.

Marcus André Melo * - Consequências do TSE

Folha de S. Paulo

As consequências do consequencialismo judicial desmedido são visíveis

"Xandão venceu." O tuíte da jornalista Malu Gaspar capta bem o sentimento público quanto à decisão do TSE sobre a inelegibilidade de Bolsonaro. Ele sugere personalização de decisões das cortes superiores –vistas como vendetas– e, mais preocupante, que a decisão tenha sido abertamente consequencialista. É um truísmo afirmar que as decisões de cortes superiores são políticas latu senso. Faço uso aqui da expressão para aquelas que não estão ancoradas estritamente no que está previamente estabelecido em lei –e que visa objetivos outros.

Numa análise positiva, há fatores que explicam o padrão hiperbólico de atuação do STF e, agora, do TSE.