domingo, 23 de maio de 2010

Reflexão do dia - José Serra


"Acho que mesmo comparando com a República Velha, que bem ou mal era um sistema oligárquico, eu não sei se tinha um patrimonialismo selvagem como tem hoje.

Tivemos nos últimos tempos um aprofundamento do patrimonialismo, que voltou na sua plenitude. Estamos no momento mais patrimonialista da nossa história. "

(José Serra, no discurso, sexta-feira, em S. Paulo, na reunião do Diretório Nacional do PPS)

Os ventos do mundo:: Merval Pereira

DEU EM GLOBO

Criado em uma família de várias gerações de diplomatas brasileiros e portugueses, o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia representa uma geração do Itamaraty que modernizou a política externa brasileira, acompanhando a crescente inserção internacional do país nas últimas décadas.

Além de ter sido um dos ministros mais longevos na história da diplomacia brasileira, nos seus seis anos de chanceler no governo Fernando Henrique Cardoso, Lampreia tem uma singularidade na vida pública que certamente fala muito sobre seu caráter: orgulhase de ser o único ministro das Relações Exteriores a ter deixado a carreira diplomática no mesmo momento em que saiu do governo, por vontade própria.

Este “servidor público” — como gosta de se definir —, que pautou sua atuação de diplomata na defesa da filiação do Brasil ao Ocidente “da democracia, do pluralismo político, da observância do direito, do respeito aos direitos humanos”, deixou a vida pública cansado “de mudanças e de ficar tão exposto aos azares da política”.

Está lançando pela editora Objetiva um livro em que analisa as cinco décadas em que atuou na diplomacia.

Recusa a definição de autobiografia, gênero que considera reservado a “homens do quilate de Nelson Mandela, De Gaulle ou Barack Obama”.

Seguindo conselhos de seu amigo Henry Kissinger, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, preferiu um relato de sua experiência pessoal na carreira diplomática, com análises da situação política na época em que os fatos se desenrol a r a m , a si m p l e s m e n t e transcrever o longo depoimento que deu ao CPDOC da Fundação Getúlio Vargas quando deixou o governo.

Além de relatos preciosos sobre momentos cruciais da diplomacia brasileira, como a intermediação na guerra de fronteiras entre Peru e Equador, cujo resultado final de paz considera “um dos maiores dias da nossa história diplomática”, ou as negociações em que o governo Figueiredo se envolveu para evitar que os Estados Unidos invadissem o Suriname para conter a penetração cubana naquele país, “Brasil e os Ventos do Mundo”, o livro de Luiz Felipe Lampreia, trata com detalhes de um dos temas mais em discussão nos nossos dias: a política brasileira de desarmamento nuclear.

O depoimento de Lampreia tem um valor especial, pois, por um desses sortilégios do destino, ele participou de toda a nossa história de negociações sobre o Tratado de Não Proliferação de Amas Nucleares (TNP), desde jovem assessor da delegação brasileira em Genebra no Comitê do Desarmamento, em 1968, quando o Brasil se recusou a assinar o TNP (considerando que ele tratava desigualmente os Estados, protegendo os que já possuíam armamentos nucleares), até, como chanceler do governo Fernando Henrique Cardoso, em junho de 1997, assinando o mesmo TNP.

Na análise de Lampreia, “nas décadas de 50 e 60 prevalecia no Brasil o pensamento de que o país ainda iria ocupar a posição de destaque que lhe competiria no mundo”. Nesse pensamento estava subentendido o desejo de um dia nos tornarmos uma potência nuclear, embora nosso contexto regional não apresentasse, como não apresenta até hoje, desafios de segurança.

Mas o momento político não permitia aceitar um tratado “que contivesse obrigações taxativas para países não nucleares e apenas intenções vagas de redução de seus arsenais por parte dos que detinham armamentos de fato”.

Já com Azeredo da Silveira, ministro das Relações Exteriores de Geisel, o Brasil assinou um acordo nuclear com a Alemanha, em 1975 — um marco na diplomacia brasileira, não apenas pela nova parceria internacional, como principalmente “pelo sentido de independência desafiadora do qual se revestiu em relação aos Estados Unidos”.

Segundo Lampreia, o objetivo do regime militar “era dotar o Brasil não necessariamente de armas nucleares, mas sim da capacidade de fazê-las”.

Anos depois,“os ventos do mundo” levaram Lampreia — escolhido por Fernando Henrique para seu chanceler depois de ter sido seu secretário-geral quando fora ministro das Relações Exteriores — a ser o signatário, em nome do Brasil, do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

Fernando Henrique pensou mesmo, revela Lampreia, em incluir essa mudança de posição brasileira em seu discurso de posse, o que não aconteceu.

Ele relata as principais razões para essa mudança do governo brasileiro: a posição principista do Brasil já não trazia respeito nem benefícios; a assinatura não acrescentaria nenhuma limitação às que já assumíramos, inclusive na Constituição de 1988, e assinar naquele momento completaria nossa inserção no mainstream internacional e nos capacitaria para outros cenários, inclusive o da cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Houve problemas em certas áreas militares que tiveram que ser superados, e a tática de pequenos avanços foi adotada, começando pela adesão ao Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis, renunciando aos mísseis militares de longo alcance. O Brasil, além do TNP, é signatário do Tratado de Tlatelolco e de um programa de fiscalização mútua com a Argentina.

Relata Lampreia: “Fernando Henrique e eu recusávamos a tese de que fosse necessário ter armas nucleares, mesmo depois da bomba indiana em 1994, para mostrar a força do Brasil no mundo. (...) Não acreditávamos que um artefato nuclear ou a detenção da tecnologia nuclear serviria de elemento de poder decisivo para o Brasil do século XXI”.

“Nenhuma situação de ameaça geopolítica e nenhuma razão séria de segurança nacional justificariam essa opção. Não creio que possa haver dúvidas fundamentadas a esse respeito, embora saiba que algumas pessoas ainda alimentam essa alternativa”.

Aécio por linhas tortas:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Do hospital onde estava internado em São Paulo, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, falou na semana passada com Aécio Neves por telefone na Europa. Terminou a conversa otimista com a possibilidade de o ex-governador de Minas Gerais aceitar ser candidato a vice na chapa presidencial com José Serra.

Transmitiu essa impressão à cúpula do partido que aguarda em silêncio, admite a torcida e para além desse limite não se permite avançar.

As chances aumentaram, mas não há nada decidido, inclusive porque o ex-governador de Minas Gerais voltou ao Brasil neste fim de semana e só retomará a agenda de trabalho nos próximos dias. O primeiro tema da pauta é a eleição estadual mineira.

Com um olho na situação regional e outro no cenário nacional, Aécio deve resolver se reconsidera ou não a decisão de concorrer a uma vaga no Senado para integrar a chapa presidencial como vice de José Serra.

É provável que ainda nesta semana se reúna com Serra, Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Guerra e Tasso Jereissati, para discutir o assunto.

O assunto que estava aparentemente fora de cogitação voltou a circular a partir de onde menos se esperava: Minas Gerais, pois os correligionários de Aécio sempre impuseram as maiores resistências à composição da chamada chapa puro-sangue.

Pelo menos com o nome do ex-governador como candidato a vice. Consideravam essa hipótese uma ofensa ao estado, um papel subalterno, uma demonstração de arrogância dos paulistas que queriam pôr Minas "a reboque" na eleição.

Pois enquanto os paulistas cumpriam à risca a quarentena de silêncio imposta por Aécio, eis que de Minas começaram a surgir movimentos na direção oposta à posição anterior.

Do bastidor saíram à cena aberta quando o secretário-geral do PSDB mineiro, Lafayette de Andrada, disse na quinta-feira que existe "um grande desejo da militância do partido e dos mineiros de um modo geral de que Aécio aceite ser vice na chapa de José Serra.

O que teria operado tão radical mudança?

É o que se perguntam também até outro dia os acusados que solapar a altivez dos mineiros.

Primeiro: traduzem o que vai à mente de Aécio?

Mesmo de longe, dificilmente seus correligionários diriam algo que contrariasse suas posições.

Segundo: qual o ganho objetivo de deixar o plano do Senado para abraçar o projeto da vice?

Hipóteses aventadas. Uma: como a prioridade de Aécio é manutenção do poder político em Minas, seus aliados teriam ficados preocupados com o destino da candidatura de Antonio Anastásia, vice de Aécio, hoje no exercício do cargo. Ele aparece na pesquisa Vox Populi com 17% contra 45% para Hélio Costa do PMDB.

A presença de Aécio numa chapa presidencial, estariam raciocinando, teria mais poder de "puxar" o candidato a governador que uma candidatura ao Senado. Despertaria o sentimento de "Minas lá" no Planalto.

Outra: candidato ao Senado, Aécio terá necessariamente de descartar um aliado, Itamar Franco, já que são duas vagas em disputa, ele se elegeria certamente e a segunda provavelmente ficaria para o campo adversário: PT ou PMDB.

Mais uma: candidato a vice, Aécio ajuda a oposição a não deixar "escapar" de maneira danosa os votos de Minas para Dilma Rousseff o que, se acontecer, também resultará em prejuízos para ele. Locais e nacionais.

E se perder como vice? Terá apostado alto, podendo manter o governo estadual. Se José Serra perder a presidência e Aécio for para o Senado e o PT ou o PMDB ficarem com o governo de Minas, será senador de minoria e terá perdido o controle político do estado.

E qual o efeito sobre o eleitorado da chapa puro-sangue?

Aécio Neves costuma dizer que impacto político é coisa efêmera. Mas os tucanos não desprezam a eficácia do instrumento. Acham que aliado ao desempenho da dupla, à complementação de atributos de personalidade, à liderança política que exercem nos dois maiores colégios eleitorais do País não garante a vitória, mas é boa parte do caminho andado.

Ainda assim, em se tratando de mineiros, ninguém ainda sabe direito qual é o rumo certo.

Antes que o vento sopre:: Wilson Figueiredo

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Antes que a direção favorável dos ventos mude, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou ter chegado sem esforço à conclusão de que deve ao poder tudo que aprendeu e, em seguido, se convenceu sem dificuldade de que ele também foi bom para o Brasil. A conclusão, portanto, é que tudo acabou bem para os dois.

A recíproca não deixa de ser verdadeira. Os brasileiros também devem ter aprendido com ele o suficiente. O Brasil, nem tanto. Terá desaprendido o suficiente para temer pelos costumes políticos. Sem ter como aplicar politicamente o sucesso nas pesquisas, Lula se recusa a ouvir falar de consequências imprevisíveis, que não mostram pressa em se manifestar. Como dizia o próprio conselheiro Acácio, que cedia precedência às causas, as consequências podiam esperar. Por culpa de outras questões, a entrevista ao jornal espanhol El País ficou sem repercussão e um Lula diferente, sem leitores.

Chefe de Estado (observou, certamente em portunhol, que vem a ser a maneira espanhola de pronunciar palavras em português) não é pessoa, mas instituição. Não tem vontade própria todo santo dia e, se quiser governar, fica obrigado a fazer acordos que sejam possíveis. Olha o mensalão aí. O presidente Lula carimbou a definição segundo a qual política é a arte do possível, sem desconsiderar os que pensam exatamente o contrário.

Mesmo assim, a circunstância presidencial não tem impedido Lula de tentar o impossível e aprender que recuar também é atributo político, sem o qual governantes se estrepam. Quanto à conclusão de que foi bom para o Brasil, o tempo dirá. Que ele se tenha em conta mais alta do que os que o precederam, fica também para depois. A última palavra será a do tempo, e pela boca da História, que não aprecia lorotas.

Luiz Inácio Lula da Silva ainda aproveitou a oportunidade para declarar que nada o obriga a gostar de um presidente porque é de esquerda ou de direita; ou, ao contrário, de abominar outro governante por ser direitista. Estando em solo espanhol, foi delicadeza fazer a barretada com a citação nominal do ex-presidente José Maria Aznar, conservador, e do socialista José Luis Zapatero. Uma no cravo, outra na ferradura. E aí Lula foi mais Lula ao sacar do bolso a frase embrulhadinha para concluir que, no exercício do poder, sou um cidadão, como diria, multinacional e não multideológico. Ainda bem. Que seria de nós se não fosse?

À medida que o fim do segundo mandato tarda mas não falha, o presidente acelera o processo político com o que aprendeu e o que, ao sair, ainda está aprendendo. Deu dados suficientes para ser decifrado ao menos um dos mistérios que envolvem a lenda de que era metalúrgico de esquerda e conseguiu, sem alarde, fazer mais do que a direita pretendia e muito menos do que seu anterior discurso de esquerda autorizava.

A afirmação de que Marx que não é autor cujas páginas costume frequentar recomendou primeiro construir o capitalismo e depois fazer o socialismo é, primeiro, um escudo, depois, uma derrapagem. A questão é que o capitalismo jamais designaria o socialismo herdeiro do seu saldo histórico. Há uma ordem natural que o capitalismo não precisou observar, pois existiu antes de haver teoria e continua fagueiro até hoje. Já o socialismo encheu tratados de teorias luminosas, que a realidade insiste em contradizer, na prática, para baralhar as cabeças. Trata o socialismo como o primo pobre que estudou demais e se empanturrou de teoria e dissidências intermináveis.

A história vai ter dificuldades em classificar Lula, seja à esquerda, que ele recusa terminantemente, seja à direita, na qual não confia por instinto. Na verdade, ele reeditou o personagem de Molière que se abalou quando soube que era prosador sem desconfiar, ainda que por exclusão: não sendo poeta, só lhe restava ser prosador. Não havia outra. Lula também ficou confuso, sem saber se era, politicamente, de esquerda ou de direita, até perceber que, não sendo esquerdista, não tinha como não ser de direita. Pronto. Guardou segredo e se satisfez em recuar para o centro com uma carta de intenções que lhe valeram (as intenções, fique claro) a eleição e a reeleição e ainda lhe reservam o juízo final.

(Por serem inesgotáveis, entrevistas do presidente Lula continuam sempre na próxima oportunidade)

E agora, José? :: Eliane Cantanhêde

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Maio é o mês das noivas e de Dilma Rousseff, que pegou bem a onda dos comerciais e do programa do PT e avançou em todos os índices do Datafolha: empatou com José Serra em 37%, pulou para 19% na pesquisa espontânea, passou para a dianteira por um ponto na projeção de segundo turno e melhorou sua rejeição de 27% para 20%. É hora de festa no PT.

Mas junho vem aí, e é a vez de Serra na telinha. Ele terá o programa do DEM na quinta, 27, e três dos quatro programas do mês que vem: PPS dia 10, PSDB dia 17 e PTB dia 24. Sobra para Dilma o PRP, dia 3.

É nesse clima, e com essa vantagem de exposição pró-Serra, que ocorrerão as convenções partidárias para formalizar as candidaturas, com igual tempo na mídia e igual espaço nos jornais.

O problema dos formuladores e marqueteiros tucanos é como ocupar bem o tempo, compensando o que os programas dos petistas e de seus aliados têm e que faz toda a diferença: o fator Lula.

Quanto mais aumenta a simbiose Dilma-Lula, maior a ansiedade tucana pela atração de Aécio Neves para vice de Serra. Aécio não é Lula, obviamente, mas une São Paulo e Minas, com seus imensos eleitorados, e é capaz de trazer para a campanha o que nem Serra nem Dilma conseguem: arejamento, juventude, empatia com o eleitor.

Serra afirma-se nos três Estados do Sul e esgueirou-se em alas significativas do PMDB, como RS, PE e MS, abrindo fissuras na aliança nacional do partido com Dilma. Aécio, além de sacudir o segundo maior colégio eleitoral do país, poderá ser, como vice, um cabo eleitoral forte no maior flanco serrista: o Nordeste, onde o efeito Lula é mais devastador contra o tucano.

O empate detectado pelo Datafolha confirma as expectativas: uma disputa pau a pau, o papel decisivo da TV e Lula como fator de desequilíbrio. Que armas a oposição tem para neutralizá-lo? Nem a oposição sabe responder.

Irã e o império decadente:: Luiz Carlos Bresser-Pereira

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Há algum tempo, o establishment mundial recebeu com um misto de irritação e descrença a notícia de que o presidente Lula se dispunha a intermediar a questão do Irã.

Na semana passada a diplomacia brasileira alcançou um êxito histórico em Teerã ao lograr que o governo nacionalista islâmico do Irã aceitasse o acordo sobre a troca de urânio pouco enriquecido por urânio enriquecido a 20% nos mesmos termos que as grandes potências e a AIEA(agência atômica da ONU) haviam proposto há seis meses.

Não obstante, alegando que o acordo não assegura que o Irã não utilizará o restante do urânio em seu poder para se tornar potência nuclear, os EUA conseguiram convencer as demais grandes potências a levar ao Conselho de Segurança da ONU a proposta de novas sanções ao Irã. E adicionaram mais uma "razão": assim, evitam que seu aliado Israel bombardeie o Irã. Significa isso que o acordo de Teerã fracassou?

As razões para ignorar o acordo bem pensado e realizado não se sustentam. A recusa dos EUA de continuar a negociação a partir dele deixou mais uma vez claro que seu objetivo principal não é evitar que o Irã tenha a bomba, mas é desestabilizar seu governo.

Desde a Revolução Islâmica de 1979, os EUA vêm procurando derrubar o governo nacionalista iraniano. Primeiro, porque o regime seria fundamentalista; depois, porque ameaçaria Israel.

Nesse sentido, suas ações não se limitaram ao "soft power" e à diplomacia, mas foram militares. Em 1981, financiaram uma guerra mortífera do Iraque de Saddam Hussein contra o Irã, que durou quase dez anos e terminou com a derrota da coligação americano-iraquiana.

Agora, depois de haver invadido e submetido seu antigo aliado, voltam- se de novo contra o regime dos aiatolás e de seu boquirroto e autoritário presidente, Mahmoud Ahmadinejad.


Mostram, assim, coerência em sua política imperial de controle político-militar do Oriente Médio. O fato de a China ter concordado em assinar o pedido de mais sanções significaria que não usará seu poder de veto no Conselho de Segurança? É possível, mas não é provável.

A China assinou o pedido para, neste momento, não aumentar seu contencioso com os EUA, que já é grande.

Por isso, é bem possível que o acordo de Teerã e as reações que está provocando levem os chineses, que não têm interesse em que os EUA e a Europa aumentem ainda mais seu poder no Oriente Médio, afinal a recusar seu voto às sanções.

Os EUA são um império em decadência que tenta ser imperial em uma fase da história mundial na qual os impérios não fazem mais sentido.

Os dois últimos grandes impérios foram o britânico e o soviético. Fracassaram por diferentes razões, mas principalmente porque hoje mesmo países mais atrasados são membros plenos da ONU e não aceitam a dominação imperial.

Não obstante, os EUA insistem em terem bases militares espalhadas em todo o mundo para "legitimar" a imposição de sua vontade. Sabemos, porém, que não é com armas, mas com bons argumentos e com concessões mútuas que haverá paz entre as nações.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), passa a escrever quinzenalmente neste espaço.

Vida e palanques:: Alberto Dines

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

A cada dois meses nova engenhoca chega ao mercado para massificar informações e vender a sensação de que estamos em vias de saber tudo, mas a humanidade nunca esteve tão confusa e tão distante do conhecimento.

A equipe do geneticista americano Craig Venter não inventou a vida a partir do zero como foi entendido por alguns. Os cientistas trabalham no projeto há 15 anos e finalmente conseguiram replicar e reprogramar o genoma de uma bactéria conhecida: "Não criamos a vida do nada, usamos uma célula preexistente para receber um genoma sintético".

Modéstia de cientista, a insignificância representa um formidável avanço tanto na genética como na filosofia. Na quinta e sexta-feira, durante algumas horas, os mais dogmáticos – ou menos céticos – ficaram com a impressão de que o ser humano, fruto da evolução das espécies, pretendia equiparar-se a Deus. Entre perplexo e preocupado, o Vaticano chegou a manifestar-se a respeito. Felizmente nada mudou: apesar da re-engenharia celular, a humanidade continua incapaz de reprogramar-se ou corrigir-se. Sequer encontrou uma fórmula destinada a melhorar a convivência entre os semelhantes.

A prova está contida no episódio ocorrido dias antes quando o circo da informação foi tumultuado pela entrada em cena de um tapete voador (persa, naturalmente), pilotado pelo presidente Lula e o premiê turco Recep Erdogan contendo a proposta de um acordo para evitar que o Irã embarque numa aventura nuclear. A ciranda armada em torno da ousada iniciativa de dois países emergentes mostra quão distante está o mundo real da racionalidade laboratorial que levou à criação da célula sintética.

O Brasil não está no Oriente Médio nem na Ásia Central mas tem o direito de preocupar-se com a ameaça de um bomba atômica iraniana. Por isso não se ocupa com os artefatos nucleares indianos, norte-coreanos ou mesmo paquistaneses. Não é uma questão de letalidade balística mas política: o regime de Teerã, além de totalitário, é agressivo. Em 1994, explodiu um edifício no Centro de Buenos Aires matando 85 pessoas e ferindo mais de 200 por que eram judeus. É fácil imaginar o que pretenderá fazer nas vizinhanças quando estiver apto a despachar mísseis nucleares.

E o que temos a ver com isso? Em janeiro de 1942, há 68 anos, quando o Brasil rompeu relações com os países do Eixo não estávamos diretamente ameaçados e, no entanto, atravessamos o Atlântico e fomos à Europa para lutar contra o nazifascismo, aliás, os únicos latino-americanos a fazê-lo. A presença brasileira nos grandes fóruns internacionais começa justamente em 1947, em seguida à nossa participação na Segunda Guerra Mundial, quando o ex-chanceler brasileiro Oswaldo Aranha foi escolhido para presidir a ONU.

O acesso ao cenário (ou ribalta) internacional é livre, franqueado apenas aos que têm competência para frequentá-lo. O que não é o caso do caudilho Hugo Chávez que sonha com um protagonismo internacional mas não consegue livrar-se da megalomania e da demagogia. O Brasil preparou uma partitura bastante sofisticada para exibir em Teerã incluindo um parceiro europeu moderamente islâmico, a Turquia, mas tropeçou na execução: diplomacia requer discrição, Cantinflas e Sancho Pança jamais seriam embaixadores.

Proclamar aos quatro ventos, dias antes da assinatura, que o acordo nuclear tinha 99% de chances de ser aprovado foi um erro brutal. Pior foi ignorar que os aiatolás preparavam-se para anunciar depois do acordo que o seu país continuaria enriquecendo urânio além da quantidade a ser entregue à Turquia. Enquanto isso, em silêncio, madame Clinton acertou com os 5 Grandes, uma nova rodada de sanções contra o regime de Ahmadinejad. Era o que se esperava.

A façanha de Craig Venter era igualmente esperada desde que ele próprio liderou o sequenciamento de genomas. O progresso científico é previsível, quase linear. Os mistérios da vida não foram esclarecidos – talvez nunca o sejam – apenas replicados. É o suficiente.

Os negócios humanos também podem ser sequenciados, reproduzidos e reprogramados. Só não podem ser tocados em palanques.

» Alberto Dines é jornalista

Dilma sobe e empata com Serra

DEU NA FOLHA DE S. PAULO (22/5)

A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com seu concorrente direto, José Serra (PSDB). Ambos têm 37%, segundo levantamento nacional realizado ontem e anteontem. Na pesquisa anterior, feita em 15 e 16 de abril, Dilma tinha 30% - ou seja, a intenção de voto na petista subiu sete pontos.

Dilma sobe 7 pontos e empata com Serra, aponta Datafolha


Tucano cai 5 pontos desde levantamento de abril e ambos aparecem com 37%

Petista atinge melhor marca na série do instituto, lidera na espontânea e também registra empate no 2" turno; Marina se mantém com 12

Fernando Rodrigues

BRASÍLIA - A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com José Serra (PSDB). Ambos estão com 37%.

O levantamento foi realizado ontem e anteontem com 2.660 entrevistas.

A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Marina Silva (PV) aparece com 12%. Os que votam em branco, nulo ou em nenhum somam 5%. Indecisos são 9%. Na comparação com a última pesquisa Datafolha, realizada em 15 e 16 de abril, Dilma teve uma alta de sete pontos percentuais -de 30% para 37%. Já Serra caiu cinco pontos, saindo de 42% para os mesmos 37%.

Essa é a primeira vez que ambos aparecem empatados no Datafolha, que traz outros números positivos para a petista.

TV e Lula

"O principal fato que pode ser apontado como responsável por essa alta da candidata é o programa partidário de TV que o PT apresentou recentemente", diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. Na semana passada, o PT foi à TV com vários comerciais de 30 segundos e com seu programa mais longo, de dez minutos. A estrela dessa investida de marketing foi Dilma Rousseff, com Lula como cabo eleitoral. Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não são apresentados a uma lista com os nomes dos candidatos, a curva da intenção de voto de Dilma continuou a descrever uma sólida curva ascendente. Ela tinha 8% em dezembro.

Em abril, estava com 13%. Agora, foi a 19% e está isolada em primeiro lugar. José Serra pontuou 14% -ele também vem subindo nesse quesito, mas em ritmo mais lento. Ainda na pesquisa espontânea, há também 5% que dizem ter intenção de votar em Lula , que não pode ser candidato. Outros 3% declarar querer votar no "candidato do Lula".

E 1% respondem "no PT" ou no "candidato do PT". Em tese, portanto, o potencial de voto espontâneo em Dilma pode ser de 28% -os seus 19% e mais outros 9% dos que desejam votar em Lula, em quem ele indicar ou em um nome apresentado pelo PT.

2º turno e rejeição

Quando são colocados na lista de candidatos os concorrentes de partidos pequenos, o cenário não se altera muito. Dilma e Serra continuam empatados, cada um com 36%. Marina tem 10%.

E só dois nanicos pontuam: José Maria Eymael (PSDC) e Zé Maria (PSTU). Dilma também colheu bom resultado na rejeição: seu índice caiu de 24% para 20% enquanto o de Serra subiu de 24% para 27%.

Marina também teve um resultado positivo, pois sua rejeição caiu de 20% para 14%. Na projeção de segundo turno, os dois estão tecnicamente empatados: a petista tem 46% contra 45% do tucano. Em abril, Serra aparecia dez pontos à frente da petista nesse quesito, com 50% a 40%.

Para PSDB, pesquisa reflete burla do PT à lei

DEU EM O GLOBO

Programa partidário na TV é aposta para Serra voltar a liderar

Catarina Alencastro

BRASÍLIA. Para o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), o crescimento da précandidata petista à Presidência na pesquisa Datafolha — e, consequentemente, o empate técnico com o tucano José Serra — é resultado da exposição intensa que Dilma Rousseff teve em maio. Especialmente, segundo ele, com a propaganda do PT na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece narrando a história da exministra.

Sérgio Guerra aposta que José Serra começará a campanha oficial, em julho, novamente à frente de Dilma.

— A pesquisa evidencia o resultado de forte exposição e o não cumprimento integral da lei.

A exibição de candidatos na TV afeta as intenções de voto. Maio foi o mês deles. Junho será o nosso — aposta Guerra.

Aliados de Serra acreditam que a balança voltará a pender para o lado tucano em junho, quando vai ao ar o programa partidário do PSDB e seus aliados. Embora acuse o PT de desrespeito à lei eleitoral, o PSDB também deverá aproveitar o espaço na TV para alavancar a imagem de seu candidato.

Tucano diz que exibição na TV afeta intenção de voto Sérgio Guerra ressalta que Dilma tem aparecido sem a preocupação do contraditório, o que levou ao empate técnico: — Nós próximos dias, haverá o programa partidário e nosso candidato aparecerá.

Tudo indica que chegaremos à campanha propriamente dita muito na frente.

Para o PT, a escalada de sete pontos percentuais de Dilma mostra que Lula acertou ao escolher sua ex-ministra chefe da Casa Civil para sucedê-lo. Alguns já contam com a vitória: — Hoje, a minha avaliação é que a Dilma ganha as eleições — comemorou o deputado Arlindo Chinaglia, líder em exercício do PT na Câmara.

Mais cauteloso, o presidente do partido, José Eduardo Dutra (SE), disse que a pesquisa só confirma a competitividade da candidata. Para ele, os números mostram que quando a campanha começar oficialmente, em 5 de julho, Dilma e Serra estarão “em situação de equilíbrio”: Mais cedo, no Twitter, Dutra ironizara, com trocadilho: “Agora, todos os institutos estão de acordo. Dilma subindo e a oposição descendo a Serra.” O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), disse que Serra cai nas pesquisas por soar falso.

O presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ), aposta na vitória de Serra por margem pequena de votos. O líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), disse no Twitter: “A pesquisa Datafolha, essa sim séria e respeitada, demonstra a consolidação de joseserra”.

“Para @dilmabr apenas empatar, ela teve que desrespeitar leis, ser punida quatro vezes pelo TSE, usar a máquina pública e fraudar currículo

Para analistas, petista cresceu graças a Lula

DEU EM O GLOBO

Presidente estaria conseguindo transferir votos para candidata

Marcelle Ribeiro

SÃO PAULO. A melhora do desempenho da pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, na pesquisa Datafolha vai além da variação de sua preferência junto aos eleitores. Na avaliação de analistas políticos, significa também que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está conseguindo transferir sua popularidade para a candidatura da ex-ministra.

Segundo o coordenador do programa de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eurico Figueiredo, Lula tem tido sucesso em tornar Dilma uma pessoa conhecida pela população.

O Tribunal Superior Eleitoral já aplicou quatro multas ao presidente por fazer campanha antecipada da pré-candidata.

— Historicamente no Brasil, os grandes líderes têm conseguido fazer seus sucessores desconhecidos ficarem conhecidos.

O (Paulo) Maluf conseguiu eleger o (Celso) Pitta. Além disso, temos duas máquinas atuando, a do PT e a do PMDB, e que vão aumentar — lembra Figueiredo.

Para o professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fábio Wanderley Reis, o resultado da pesquisa é um “feito” de Lula, principalmente pelas características pessoais da candidata petista.

— O fato de a Dilma ter se viabilizado é um milagre do Lula.

Ela é pesada, difícil, com uma personalidade pouco atraente para o eleitorado — observa.

Programa de TV teria influenciado pesquisa Fábio Reis, assim como Ricardo Ismael, professor de Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), acredita que o programa partidário do PT, exibido na TV há cerca de uma semana, influenciou no levantamento. O programa dava destaque a Dilma: — O PT usou o programa para fazer propaganda dela, e não do PT — afirma Ismael.

Os especialistas acreditam que o tucano José Serra deve manter a estratégia de reconhecer os progressos do governo Lula, mas afirmam que o tucano deveria enfatizar a ideia de que é mais experiente que Dilma.

Para os cientistas políticos, ao apontar queda nas intenções de voto em Serra, os dados do Datafolha podem fazer com que o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves decida, de fato, não ser vice na chapa nacional do PSDB, apesar das pressões.

— Essa opção de ser vice é ruim (para Aécio) porque ele fica atrelado a uma possível derrota do Serra e não tem muito a ganhar na eventual vitória da chapa. Uma posição de vice-presidente não abre muito espaço para manobra — acredita Fábio Wanderley Reis.

Para Ricardo Ismael, a saída de Ciro Gomes (PSB) da disputa também influenciou: — Sua saída confirma a tese de que Dilma seria favorecida.

Aliados de Dilma querem universidades públicas pagas

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

PMDB quer mensalidade em universidade pública

Vera Rosa

BRASÍLIA - Principal aliado do PT na campanha de Dilma Rousseff à Presidência, o PMDB apresentará proposta para o programa de governo com pontos que colidem com o que os petistas pregam. No capítulo da educação, o PMDB aconselha Dilma a instituir "progressivamente" a cobrança de mensalidade nas universidades públicas federais, caso seja eleita presidente.

O partido escalado para ocupar a vaga de vice na chapa acha que o governo deve cobrar prestação dos alunos "cuja renda familiar anual seja superior a 150 salários mínimos" - a referência corresponde hoje a R$ 76.500,00.

"Essa proposta é inconstitucional", avaliou o jurista Dalmo de Abreu Dallari, ao destacar que o artigo 206, inciso IV da Constituição, garante a gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais.

Para Dallari, a sugestão é "puramente demagógica" e não tem futuro. "Trata-se de expressão de egoísmo e insensibilidade social", afirmou.

Nas diretrizes do programa de Dilma, aprovado no 4.º Congresso do PT, em fevereiro, os petistas propõem exatamente o contrário. Diz o texto que, para ter educação de qualidade e constituir uma sociedade do conhecimento, será necessário "aprofundar o processo de expansão das universidades públicas".

Desde 2003, o número de vagas nas universidades federais subiu de 113 mil para 228 mil, segundo o Ministério da Educação. O PMDB sabe que introduzir no debate eleitoral a cobrança de mensalidades para alunos que podem pagar é como mexer num vespeiro. Tenta, porém, ajustar o tom da proposta, que no passado foi cogitada sem sucesso pelo PSDB.

A comissão que redige a plataforma a ser entregue a Dilma já produziu vários textos. Num deles, chegou a sugerir o "fim da gratuidade do ensino superior", sem nenhum parâmetro de renda familiar, mas a ideia foi vetada, sob a alegação de que a campanha de Dilma seria acusada de "privatista".

A última versão do documento, intitulado Um caminho para o Brasil, encontrou a fórmula dos 150 salários mínimos após muitos cálculos.

Mesmo assim, antevendo mais polêmica, o PMDB já cortou o trecho que propunha o fim das cotas raciais nas universidades. Encaixou, no entanto, um tópico que prevê o pagamento de uma poupança, na conclusão do ensino médio, para as crianças beneficiadas pelo Bolsa-Família.

Choque de gestão. Para arrepio do PT e do governo, o programa do PMDB também bate na tecla do "verdadeiro choque de gestão" para reconstruir o Estado. Vendido como marca registrada dos tucanos, o termo "choque de gestão" é abominado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Cada vez que a gente contrata mais, há sempre pessoas que fazem duras críticas de que o Estado está inchando, que é preciso que tenha um choque de gestão no País, e vai por aí afora", lamentou Lula, durante cerimônia de sanção de um projeto de lei que cria varas da Justiça Federal, em agosto. "O que as pessoas não se dão conta é que, se tudo funcionar como um relógio, o custo do País será infinitamente menor."

Depois de o PT pregar um Estado forte, o PMDB agora propõe metas para os servidores. Embalado pelo slogan do partido - Há muito Brasil pela frente -, o programa sustenta que é preciso "desenvolver as práticas de avaliação, de cobrança e de incentivo da qualidade do desempenho do Estado".

Uma versão anterior, produzida pelo ex-ministro Mangabeira Unger, ignorava a vocação do PMDB de se manter no poder e disputar espaços no governo. O texto de Mangabeira descrevia "ilhas de profissionalismo administrativo no serviço público" flutuando em "oceano de discricionariedade política".

Antídoto. Para ele, o antídoto era e ainda é "organizar as carreiras de Estado e colocá-las no lugar da grande maioria de cargos comissionados, de indicação política". Este trecho, porém, não consta da última redação.

No capítulo dedicado à economia, o PMDB defende com todas as letras a manutenção da política de metas de inflação, câmbio flutuante e "compromisso com a responsabilidade e realismo fiscais". Detalhe: o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está na comissão responsável pelo programa de governo, que só deverá ficar pronto no final deste mês.

Remunerar as contas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) nos mesmos moldes da caderneta de poupança, "para desestimular o saque da conta, que ajuda a fazer a rotatividade do trabalho no Brasil", também integra a lista de propostas do PMDB. O Planalto é contra, pois argumenta que essa mudança interfere nos financiamentos habitacionais. A plataforma será apresentada na convenção nacional do PMDB, em 12 de junho.

Gabeira lança sua pré-candidatura com sigla dividida

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Italo Nogueira

RIO DE JANEIRO - Ainda com arestas a aparar na aliança, o deputado Fernando Gabeira (PV) lança hoje sua pré-candidatura ao governo do Rio, mas a chapa PV-PSDB-DEM-PPS ainda tem rachas e ambiguidades.

A escolha do deputado como candidato da aliança teve forte influência de José Serra (PSDB), mas Gabeira diz que pedirá votos só para Marina Silva (PV) no primeiro turno.Seus aliados, porém, esperam indicações de apoio a Serra. O ex-deputado Márcio Fortes (PSDB), cotado para ser o vice na chapa, cita um almoço em que Gabeira sentou junto a Serra: "Aquilo foi uma pré-campanha eleitoral, e o Gabeira estava lá para dizer que está com o Serra".

Os nomes ao Senado também racham o PV. O acerto inicial, em março, previa que DEM e PPS indicariam os candidatos, mas parte do PV e do PSDB rejeitam o nome de Cesar Maia (DEM).

"O problema era interno ao PV, e eu entrei como Pilatos no Credo", disse Maia.

O presidente do PV do Rio, Alfredo Sirkis, insiste em lançar a candidatura da vereadora Aspásia Camargo, mas entregou a decisão a Gabeira.

Divórcio:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO (22/5

A gravidade do que aconteceu durante a tramitação, na Câmara e no Senado, do projeto de lei Ficha Limpa, com a tentativa permanente de fugir ao espírito da proposta através de emendas de parlamentares dos mais diversos partidos, não está apenas na consequência dos subterfúgios dos políticos, se é que o TSE deixará que a nova lei não tenha a efetividade que a cidadania aguarda.

A questão central é a diferença radical entre o que os eleitores querem e o que os políticos estão dispostos a oferecer. Um divórcio entre os representados e seus representantes, a democracia representativa sendo deturpada pelo corporativismo.

Esse projeto de lei nasceu de uma iniciativa popular, figura criada na Constituinte de 1988, e reuniu inicialmente 1,7 milhão de assinaturas.

Chegou assim ao Congresso como uma reivindicação claramente popular, fruto do trabalho conjunto de nada menos que 44 entidades que compõem o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE).

Mas essa chegada triunfal de uma reivindicação da cidadania ao Congresso não impressionou as “excelências”, que estavam dispostas a guardar a iniciativa popular no fundo de uma gaveta fechada a sete chaves.

Se não houvesse uma mobilização constante dos movimentos sociais envolvidos, certamente este teria sido o destino desse projeto de lei.

Mais de dois milhões de assinaturas foram adicionadas através da internet, e os deputados passaram a ser pressionados por mensagens em seus correios eletrônicos ou pelos telefones da Câmara, a tal ponto que ficou claro que não seria tolerada uma tentativa de “engavetar” o projeto.

Mesmo assim, houve diversos movimentos dentro da Câmara, durante o processo de análise do projeto, para desvirtuar seu sentido, e, para que fosse aprovado, foi preciso negociar abrandamentos diversos, sendo o mais importante o que jogou para a condenação em segunda instância a inelegibilidade, circunscrevendo o impedimento da candidatura a uns poucos parlamentares.

Ao chegar ao Senado, o projeto foi recebido com as boas-vindas do líder do governo, Romero Jucá, que deixou claro que as prioridades do governo não são as mesmas da sociedade.

A reação foi tão grande que o governo teve que recuar.

A manobra corporativa culminou com a tentativa de alterar o espírito da lei na base da mudança do tempo verbal, que vai fazer com que o Tribunal Superior Eleitoral se pronuncie sobre a abrangência do que foi aprovado.

É a “Casa do povo” se rebelando contra o que o povo quer. Uma vez, o deputado Ibsen Pinheiro, que presidia a Câmara, disse que “o que o povo quer, a Câmara acaba querendo também”, referindo-se ao processo de impeachment de Collor.

Com o Ficha Limpa, o parto está sendo mais difícil, o que pode indicar um distanciamento maior dos parlamentares de seus eleitores, o que é um péssimo sinal para nossa democracia representativa.

As palavras

Recebi da escritora Ana Maria Machado um texto em que ela, na qualidade de “cidadã e eleitora, um ser político o tempo todo”, mas utilizando as ferramentas de sua múltipla condição de “intimidade com as palavras e a língua”, como escritora e exprofessora de português, esclarece a confusão dos tempos verbais da lei Ficha Limpa, aprovada pelo Senado com alterações de redação, que, temem alguns, podem mudar o espírito da legislação, adiando seus efeitos.

Com o texto de Ana Maria, o debate fica, pelo menos, mais inteligente: “Os que forem juristas podem ter suas interpretações.

E até mesmo chamálas de gramaticais. Nem por isso o estarão fazendo porque virão a ser juristas, mas porque o são.

“Os que forem políticos podem ver um significado diferente na lei segundo a necessidade de aplicá-la para os que forem aliados ou os que forem adversários. Mas não o fazem porque virão a ser políticos. Pelo contrário, justamente porque o são.

“Se numa reunião do Congresso, alguém tentar organizar a distribuição de assentos e pedir que os que forem deputados se sentem ao fundo do recinto e os que forem senadores se dirijam às primeiras filas, nenhum parlamentar vai achar que a recomendação se refere a uma eleição futura e que precisam esperar primeiro ser eleitos para só depois saber em que categoria de os que forem se enquadram.

“Da mesma forma, instados a buscar seus assentos nesse caso hipotético, os que forem juízes sabem perfeitamente que não precisam aguardar nomeações futuras. Já o são.

“Os que forem leitores — de Montesquieu, por exemplo — sabem buscar o espírito das leis por trás da letra das mesmas.

“A confusão não é apenas gramatical e de tempo verbal.

É filosófica, entre ser e vir a ser.

“Na famosa frase que aprendemos na escola (creio que de Osório), a conclamação era: ‘Quem for brasileiro siga-me’. Uma maneira de dizer, no singular: “Os que forem brasileiros sigam-me”. A urgência era evidente. Não se fazia necessário esperar processos de naturalização ou novos nascimentos.

“Os adiamentos podem até funcionar por mais algum tempo. Mas a extraordinária mobilização popular pressionando pelo fim dos fichas sujas mostra que a ficha do eleitor brasileiro está caindo. E em matéria de manobras para ganhar tempo e perpetuar a falta de ética na política, as que forem mais sutis serão sempre as mais repelentes. Não dá para mentir eternamente e renegar sempre o que se é.

“A tal história de ser impossível enganar todos o tempo todo”.

O potencial efeito Marina :: Marco Aurélio Nogueira

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO (22/5/2010)

Quiseram as circunstâncias objetivas, os fatos duros da vida e a intenção de certos atores que as eleições presidenciais de 2010 tivessem caráter plebiscitário: contra ou a favor da situação atual, ainda que não esteja claro nem se essa é uma situação desejável, nem quem responde por ela. Eleições desse tipo concentram holofotes em dois candidatos, mas não expulsam necessariamente outros postulantes. Sempre pode haver "terceiros nomes".

Na maioria dos casos, candidatos a "terceiros" não entram na disputa com a pretensão de vencê-la. Vencer, para eles, é conseguir um lugar ao sol: exposição pública, mais espaço para a propaganda de suas ideias ou acúmulo de "gordura" para negociar apoios num eventual segundo turno. Tudo somado, compõem um agregado de coadjuvantes que podem interferir no debate principal e até chegar a condicioná-lo. Podem também prejudicá-lo, evidentemente.

De todos os "terceiros" que surgiram e se mantêm na atual disputa presidencial brasileira, Marina Silva é a única em condições de cumprir algum papel de relevo, uma função positiva, capaz de repercutir na dinâmica democrática mais geral e mesmo influenciar o debate político que ocorrerá ao longo do ano.

Primeiro de tudo, porque se trata de uma candidatura eminentemente programática, sustentada por uma agenda ambientalista sedutora e por sua biografia, que parece tão íntima de sua causa que chega a se confundir com ela. É uma agenda estratégica, que faz alertas importantes a respeito das opções econômicas que são feitas no mundo e transfere atenção crítica para o debate sobre o desenvolvimento e a "aceleração do crescimento", questões que são invariavelmente debatidas sem a devida responsabilidade ética para com o futuro. Num contexto em que "desenvolvimento" virou a chave mestra que abrirá as portas do paraíso, não deixa de ser importante que alguém apresente o contraditório.

Por ser eminentemente programática, Marina flutua sobre partidos e alinhamentos políticos rígidos. Passa a imagem de que está acima das práticas políticas usuais. Com isso pode atrair eleitores cansados do discurso político rotineiro e sem graça, que pensam que se deve fazer política de outro modo ou simplesmente não querem saber de política. Dissidente do PT, não faz o tipo ressentida: mantém importantes pontes de comunicação com o povo petista e emprega uma linguagem crítica favorável ao resgate das tradições mais combativas do partido, desbaratadas após oito anos de governo Lula.

Nas entrevistas e intervenções que vem protagonizando, a candidata do PV tem demonstrado estar atenta a esse papel positivo de "terceiro nome". No último domingo, por exemplo, declarou ao Estado que sua candidatura não existe para "fazer o jogo de Dilma ou de Serra", mas para defender "um projeto político para o Brasil, já que os partidos, inclusive o PT, não foram capazes de atualizar seu pensamento". Para isso Marina acredita que é preciso buscar interações permanentes com o que chama de "comunidades de pensamento", ambientes que estariam acima de partidos políticos e se sustentariam por vínculos com "causas e princípios". Por esse caminho, acrescenta, pode-se chegar a uma "nova visão de como resolver os problemas do Brasil", a partir da identificação das conquistas que os sucessivos governos (FHC e Lula) conseguiram alcançar.

Em sua agenda "não há espaço para aventuras". É preciso manter a estabilidade mediante superávits primários, metas para a inflação e câmbio flutuante. Seu propósito é mudar o modelo de desenvolvimento, levando o País a se concentrar em atividades que produzam menos impactos no meio ambiente. Vai direto ao ponto, como na entrevista à revista Exame (17/5): "Precisamos mudar a ideia de desenvolvimento." Coisa fácil de falar e difícil de praticar.

Isso talvez explique por que o discurso da candidata permanece num terreno genérico demais quando se trata de detalhar ou enfrentar questões complicadas, caso da reforma tributária, da previdência e da legislação trabalhista. Ela se esquiva dizendo que suas propostas ainda estão em construção. Ainda que um pouco de imprecisão e de convicção de que não é preciso ter respostas para tudo confira certo charme, em algum momento as cartas terão de ser postas na mesa.

Marina Silva não voa em céu de brigadeiro. Tem pontos frágeis complicados, que poderão conter sua contribuição ao debate presidencial. O mais grave deles é a falta de uma estrutura de campanha. Ela não dispõe de recursos financeiros, palanques suficientes nem tempo de televisão. Está cercada de bons assessores técnicos e intelectuais, mas ressente-se de assessoria política, o que é compreensível, dada a escassez de quadros com esse perfil em seu arco de alianças e especialmente em seu partido.

Há também o elemento religioso, sua formação evangélica. Marina flerta com o criacionismo, declarando sem vacilação que "Deus criou todas as coisas". Tem preparo e inteligência suficientes para saber que há aí um obstáculo a ser neutralizado, sob pena de sofrer alguma resistência da parcela mais "racional" do eleitorado e de limitar sua abordagem dos pontos mais complexos e controvertidos da agenda contemporânea: aborto, experimentação genética, usos da ciência, inovação tecnológica.

Apesar disso, e por não estar na disputa para somar votos, e sim para marcar posição, Marina pode fazer alguma diferença numa eleição que se anuncia como fadada a se decidir nos últimos minutos. Se conseguirá fazer isso é algo que depende muito de sua própria capacidade de explorar as virtudes que a engrandecem e superar os pontos frágeis que a limitam. Mas depende também dos rumos que a disputa tomará quando os exércitos plebiscitários entrarem de fato na luta.

Seu real efeito sobre o processo eleitoral ainda está em aberto.

Professor titular de Teoria Política da UNESP.

Cinesta apresenta sugestões para programa de cultura do PPS

Apontamentos para um programa de cultura do PPS:: João Batista de Andrade

1- Falar de política cultural em qualquer lugar do mundo deveria ser falar de tudo: da construção de uma sociedade, de seus embates, de suas idéias, da política, da ciência, dos costumes, crenças. E das artes. Uma aparente abrangência que na verdade, para um partido político que se pretenda transformador, - estão em sua própria razão de ser. Pois um partido político, - e portanto o exercício do poder-, se cria nas sociedades exatamente para conduzir e dar forma ao desenvolvimento de todos esses “setores” da vida social, buscando avanços, progresso, a dignidade de viver o presente e as melhorias para o futuro.

2- O PPS é caudatário de uma longa tradição humanista em busca do progresso e da justiça nas sociedades. Fugindo aos apelos religiosos, - que alimentavam a idéia de que as “injustiças eram justas”, o pensamento progressista alimentou a idéia de que as injustiças eram e são frutos da sociedade, da forma aparentemente “natural” de sua organização onde o mais forte pode exercer livremente seu poder sobre os mais fracos. Contra a idéia de que o mundo “existe e pronto”, “é para ser aceito e não para ser compreendido”, a humanidade afirmou, de forma vitoriosa, a possibilidade e necessidade de compreender e de transformar pelo bem da humanidade, - e, hoje, até pelo bem do próprio mundo. Por outro lado, aprendemos também que a realidade é transformável e se transforma sempre, obrigando-nos a aprender a cultuar o passado mas buscando dele a compreensão do futuro, livrando-nos das amarras que muitas vezes nos cegam para os novos desafios. A defesa dos avanços científicos é fundamental nessa longa trajetória do pensamento humanista transformador.

3- Sob o ponto de vista de governo, a política cultural deve permear toda a ação governamental: comportamento ético e coerente, transparência política, incentivo à pesquisa, apoio ao desenvolvimento da ciência e de novas tecnologias, melhoria e democratização crescente do sistema de ensino. No terreno das artes, desenvolvimento, democratização e divulgação de todas as manifestações artísticas no país.

4- A criação do MINC (Ministério da Cultura), se representou um avanço no sentido de aglutinar esforços pelo desenvolvimento, preservação e divulgação de nossos valores culturais e de nossa criatividade, trouxe também o risco de um isolacionismo cultural, com propensão ora ao corporativismo, ora ao militantismo. Num mundo em que as transformações tecnológicas nos afetam profundamente, as diversas gestões na área da cultura agem como se a essência estivesse na produção artística, capaz de expressar essas transformações, - e não nas próprias transformações que afetam o dia a dia e as expectativas de cada cidadão com relação ao seu padrão de vida e de seu futuro. Um comportamento isolacionista que acaba por se realizar em seu contrário: a subestimação dos valores universais e reveladores da produção cultural e de sua estreita ligação com os caminhos conflituados dessa era de tantas mudanças. A produção artística, assim, por esse viés isolacionista, se vê, na política governamental, como essa “corporação” ou esse “partido político” sempre às voltas com as dificuldades eternas de existir e se fazer ouvir. Esse isolamento leva a muitos erros, - e o MINC se torna alvo fácil de radicalismos impotentes e partidarismos.

5- Exemplo desse radicalismo (e isolacionismo) encontramos logo no início da gestão Lula, com a elaboração do soterrado projeto da ANCINAV, a agência reguladora que juntaria cinema e televisão, sob a tutela de um pensamento cinematográfico “imaginado” por grupos minoritários de esquerda da base governamental e também por erros de compreensão por parte da comunidade cinematográfica, esta certamente pela situação sem saída em que se encontrava com os avanços na área das comunicações no Brasil ( que excluiu o cinema brasileiro). A visão estreita da questão, -além do erro de pretender colocar as comunicações sob a batuta do cinema,- gerou um projeto impositivo e anacrônico, mesmo que apontasse a necessidade de resolver a crise do cinema nacional através, principalmente, dos meios de comunicação, como se deu tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Nos Estados Unidos, garantido que a produção de filmes para a TV fosse garantida à Industria Cinematográfica. Na Europa, com as privatizações das TVs públicas, cujo processo obrigou as empresas a investir no cinema europeu). É preciso também compreender que os cineastas apontavam, com razão, para a desobrigação nacional da televisão no Brasil e do poder excessivo desses meios de comunicação sobre a vida, a cultura, a política. Mas a visão estreita, corporativista do projeto pensava no sistema de comunicações, - pela sua grandeza, - como inimigo da cultura. O projeto fora produzido de forma fechada, na infantil expectativa de que “agora”, com “ a esquerda no poder”, os poderosos meios de comunicação teriam que engolir o projeto governamental. Ilusão fatal que, com o projeto devidamente engavetado depois das pressões partidas de todo lado, - levou o MINC a uma grave crise logo no início da gestão Lula. Crise que marcou a política cultural por umlongo período.

6- O risco de uma partidarização, na falta de uma maior clareza do que seria uma política governamental para o setor, pode-se perceber no que vio depois da crise da Ancinav, principalmente na gestão Juca Ferreira ( iniciada bem antes da saída do Ministro Gilberto Gil). Como acontece em todo o governo Lula, O novo ministro não está ali por ser um reconhecido artista, um ás da questão cultural, mas por ser de um partido da base aliada. Sem o traquejo e a vivência da área, de dentro da nomenclatura do MINC foram gestadas duas perigosas idéias que mostram a estreiteza desse pensamento pretensamente de esquerda: as conferências nacionais e o “plano diretor da cultura” ( a exemplo do que se dá na educação).

As conferências nacionais de cultura são realizadas nos velhos padrões da esquerda antiga e que, sabemos, gerou erros sem tamanho: pequenas assembléias no interior elegem delegados, esses delegados se reúnem nos estados e elegem delegados nacionais que se reúnem, em Brasília, aos milhares, para aprovarem as teses sobre a cultura brasileira. Claro, sem os pensadores de nossa cultura e sem os verdadeiros artistas que jamais freqüentariam eleitoralmente tais assembléias. Seria uma CUT da cultura, alimentada pelo desejo de muitos por espaços para seus trabalhos e de recursos para sua vida artística, na imensa maioria, amadora. E assim foram feitas duas, com milhares de “delegados”, como um partido político. Repercussão?- nenhuma.

O plano diretor da cultura sairia desses “democráticos” encontros.

É difícil até mesmo comentar tamanho primarismo.

Informo aqui que, como Secretário de Cultura do Estado de SP, me recusei a participar dessa farsa partidária que combati em todos os encontros nacionais de secretários da cultura dos estados brasileiros.

7- Será preciso re-encontrar o papel exato do MINC. São de responsabilidade desse ministério assuntos importantíssimos,como a preservação dos bens culturais, a divulgação de nossos valores culturais e de nossos artistas com suas criações, o apoio à produção cultural, a normatização das atividades culturais no país e de suas relações interministeriais. É preciso agir na compreensão de que a cultura é fruto da atividade humana e que ao governo cabe normatizar relações e incentivar a criação cultural, deixando para a sociedade, em toda sua complexidade, a busca de significados e a adesão aos novos valores criados nesse rico processo. É preciso entender o papel de cada setor da atividade cultural e também das necessidades da própria população diante da cultura, nesse caso, da cultura artística. Estender a oferta a todos, incentivar a produção e a distribuição, defender a diversidade cultural em todos as suas linhas, proteger o patrimônio cultural realizado e em realização, normatizar as relações entrre interesses diversos da área, como, por exemplo, o cinema e a TV.

João Batista de Andrade (maio de 2010)

Em reunião do PPS, Serra critica governo Lula

DEU EM O GLOBO

Tucano aponta "patrimonialismo selvagem"

Flávio Freire

SÃO PAULO. Num discurso repleto de críticas à condução política, econômica e ética do governo Lula, o pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, disse ontem à noite, durante reunião do Diretório Nacional do PPS, em São Paulo, que a atual gestão federal colocou em prática “o que há de pior” em matéria de patrimonialismo, quando se usa a administração pública como propriedade privada. O tucano ainda disse que está em falta coerência na vida pública.

— Nem na República Velha, que era um sistema oligárquico, não sei se tinha esse patrimonialismo selvagem que tem hoje. Essa prática voltou em sua plenitude, com tudo o que tinha de pior para acompanhar — disse Serra, que ainda condenou a política de geração de empregos e de desenvolvimento do atual governo.

De costas para um painel com a foto do ex-governador Aécio Neves, cotado para ser seu vice, Serra evitou comentar a negociação do apoio do senador Osmar Dias (PDT-PR) à campanha de Beto Richa (PSDB) ao governo paranaense: — Essa questão é o pessoal do Paraná que vai tocar.

Não cabe eu querer meter o bico, não tem motivo — disse Serra, que disse, no entanto, que pretende conversar com o senador pedetista nos próximos dias.

No evento do PPS, que reuniu o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), o exgovernador Orestes Quércia (PMDB), e o pré-candidato tucano Geraldo Alckmin, Serra criticou a política desenvolvimentista do governo Lula.

Disse que o Brasil está voltando a ser um país exportador, como na época em que, segundo ele, “a inflação criou uma poeira que sufocou o país”. E fez um apelo: — A vitória será um ponto de partida, e não de chegada.

Temos que exercer a coerência da vida pública, o que está faltando no país.

Serra eleva tom em evento do PPS e critica "patrimonialismo" do PT

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Pré-candidato tucano também atacou a política de desenvolvimento de Lula

Breno Costa

Diante de uma plateia composta por integrantes do Diretório Nacional do PPS, um dos partidos de sua coligação, o pré-candidato tucano à Presidência, José Serra, elevou o tom das críticas ao governo Lula, em comparação com o que tem adotado em entrevistas e discursos a outros públicos.

As críticas miraram da política de desenvolvimento econômico à ética do PT. Entre elas, a de que houve, sob o governo Lula, um "tremendo aprofundamento das práticas de patrimonialismo" e que este é o "momento mais patrimonialista da nossa história", em referência ao loteamento de cargos na administração pública federal, que ele diz ser opositor.

"Acho que mesmo comparando com a República Velha, que bem ou mal era um sistema oligárquico, eu não sei se tinha um patrimonialismo selvagem como tem hoje", disse Serra.Sobraram críticas ao PT e a um suposto desencanto gerado na sociedade por práticas de corrupção no governo.

""Se aquele que era o guardião da moral, da ética, do antipatrimonialismo toma outro rumo, o rumo oposto, para muita gente Deus morreu", afirmou o ex-governador.

A política econômica também foi alvo de críticas de Serra. Segundo ele, o Brasil adota uma política de desenvolvimento atrasada, voltada exclusivamente para o setor agrícola, para exportação.

"Nós estamos voltando rapidamente a um modelo que não atende à demanda de emprego que o país possui. Nós precisamos de uma economia que desenvolva não apenas o setor primário", disse ele.

Ao falar de "investimentos que não saem do papel", Serra usou o exemplo da ferrovia Transnordestina, obra do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) que está atrasada, para citar o que ele apelidou ironicamente de "The New Brazilian Way of Privatization" (o novo modelo brasileiro de privatização): o governo financia a construção de um empreendimento, mas o controle é da iniciativa privada.

O evento, realizado ontem à noite em São Paulo, serviu, oficialmente, para o PPS entregar propostas a serem incorporadas ao programa de governo do PSDB, em elaboração.

Serra vê País tomado por um ''patrimonialismo selvagem''

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em reunião do diretório do PPS, em São Paulo, tucano fez duras críticas ao governo federal, sem citar Lula nem o PT

Carolina Freitas

O pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, criticou um "patrimonialismo selvagem" existente no País. Em reunião do Diretório Nacional do PPS, o ex-governador fez ontem duro discurso contra o governo federal, sem citar o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem o PT.

Para Serra, quando o PSDB esteve no governo federal, diminuiu no País o patrimonialismo, definido por ele como "usar o governo como propriedade privada". "As práticas do patrimonialismo voltaram ao Brasil em sua plenitude, em tudo que tinha de pior", discursou Serra. "Estamos no momento mais patrimonialista da nossa história. Nem na República Velha, que era um regime oligárquico, tinha um patrimonialismo selvagem como o de hoje."

O tucano apontou ainda a existência de "bolchevismo sem utopia", que seria a ideologia de grupos que chegam ao poder e esquecem a ética em nome do partido.

Serra disse que o Brasil está batendo recordes da maior taxa de juros do mundo e da maior carga tributária entre países em desenvolvimento, além figurar entre os governos que menos investem. Ele destacou a importância de investimentos de prefeituras e governos estaduais na comparação com os feitos pela União. Além disso, lembrou que o Brasil investiu nos últimos anos um terço do nível registrado na economia dos anos 1970 e que São Paulo, durante a sua gestão, triplicou o volume de investimentos.

"A participação do governo federal (nos investimentos) é uma coisa pequena, quase insignificante, apesar de toda a onda", afirmou. Sem citar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o tucano disse que o governo conta autorizações para concessão de crédito de bancos de fomento e investimentos privados como se fossem dinheiro do governo. "É o New Brazilian Way of Privatization", ironizou.

As declarações foram feitas no encontro realizado pelo PPS, em São Paulo, para entregar propostas de governo ao presidenciável.

Vice. Serra afirmou não estar aflito com a indefinição sobre o nome do vice em sua chapa para as eleições de outubro. "É só a imprensa que está aflita com isso", afirmou à noite, em entrevista coletiva após participar do encontro no diretório do PPS. "Eu não estou. Pode olhar para mim e ver se estou aflito com alguma coisa. Não é uma questão que me angustia. Vamos ter uma boa solução."

Serra, que no início do ano havia previsto a definição do vice para maio, procurou reduzir a importância da indicação de um nome agora. "Não foi adiada (a definição). Não dá para marcar datas. É um processo", afirmou.

Serra evitou comentar a foto, em painel atrás da mesa do evento, com o presidente do PPS, Roberto Freire, apertando a mão do ex-governador de Minas Aécio Neves (PSDB), e Serra sorrindo entre os dois. "Só vi a foto agora", despistou, sem falar da possibilidade de o mineiro compor a chapa presidencial como vice.

Traduzir-se :: Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?



De Na Vertigem do Dia (1975-1980)