quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Reflexão do dia – Luiz Werneck Vianna


Ainda agora, no curso desse ciclo de dezesseis anos de governos de social-democracia à brasileira, com seus temas reprisados à exaustão, como esse tal de presidencialismo de coalizão que nos assola desde FHC, sinais que poderiam indicar uma circunstância afortunada para invenção e descoberta de novos caminhos, nos levam mais uma vez ao passado, em busca de velhas ferramentas. Assim, nesta sucessão presidencial, os magos da prestidigitação eleitoral afetam sacar da cartola a tópica do nacional-popular, evocando um tempo de crispações e de duros antagonismos da sociedade dos anos 1950/60, embora vivamos sob um céu de brigadeiro, nessa ordem burguesa domesticada, que se aprofunda sem cessar.


(Luiz Werneck Vianna, em artigo,’O problema do inimigo e a questão nacional’, no Valor Econômico, segunda-feira, 02/8/2010)

O nosso 18 Brumário :: Marco Antonio Villa

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Lula quer aparecer como benfeitor de todas as classes, tal qual Luís Bonaparte

O maior personagem da eleição não é candidato: Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje é o grande cabo eleitoral não só da sua candidata mas de toda base governamental. Chegou a esta condição contando com o auxílio inestimável da oposição.

No primeiro mandato teve sérios problemas, como na crise do mensalão. A oposição avaliou -erroneamente- que seria menos traumático e mais fácil deixá-lo nas cordas, para nocauteá-lo em 2006.

As saídas de José Dirceu, Antonio Palocci e Luiz Gushiken deram a Lula o protagonismo exclusivo. Só então teve condições de governar como sempre desejou.

A troika limitava sua ação e dividia as atenções políticas. Dava a impressão de que o chefe de Estado não era o chefe do governo.

A crise foi providencial para Lula: libertou-se do aparelho partidário, estabeleceu alianças como desejava e passou a ser a âncora exclusiva de sustentação do governo.

O segundo mandato, na prática, começou no início de 2006. A oposição mais uma vez evitou o confronto direto. Avaliou -erroneamente, novamente- que seria melhor manter os governos estaduais de São Paulo e Minas, transferindo o enfrentamento direto com Lula para 2010.

Em um terreno livre, Lula teve condições únicas para um presidente nos últimos 40 anos: estabilidade política, crescimento econômico e controle do Congresso.

As CPIs, que criaram problemas no primeiro mandato, perderam importância. Os frutos da estabilidade e uma conjuntura internacional favorável possibilitaram um rápido crescimento da economia e a expansão do consumo.

Paulatinamente, Lula foi afrouxando a política fiscal, abandonou as rígidas metas do primeiro mandato, manteve um câmbio artificial, incentivou o capital especulativo e foi empurrando para o próximo presidente uma bomba de efeito retardado.

Abrindo um imenso saco de bondades, ampliou o crédito para as classes C e D, favoreceu as viagens internacionais para a classe média e criou uma nova burguesia -a burguesia lulista- que ampliou o seu poder graças às benesses dos bancos oficiais. Expandiu numa escala nunca vista os programas assistenciais, como o Bolsa Família, e manietou os velhos movimentos sociais comprando suas lideranças.

Tal qual Luís Bonaparte, Lula "gostaria de aparecer como o benfeitor patriarcal de todas as classes". Foi ajudado pela oposição, sempre temerosa de enfrentar o governo. Usando uma imagem euclidiana, Lula "subiu, sem se elevar - porque se lhe operara em torno uma depressão profunda". Ele almeja transformar o 3 de outubro no seu 18 Brumário.

Percepções:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A expectativa de poder que o presidente Lula exala, mesmo no fim de seu segundo mandato, é a responsável pela percepção majoritária de que, ao fim e ao cabo, sua candidata Dilma Rousseff vencerá a disputa com Serra pela sucessão presidencial.

Essa percepção, ressalte-se, está baseada na capacidade de influência do presidente, mas, sobretudo, no jogo bruto que ele vem usando, não respeitando limites na faina para eleger sua escolhida.

A sensação generalizada é de que não há como resistir à combinação da popularidade presidencial com sua falta de escrúpulos na manipulação do poder político.

Apesar de, até o momento, as pesquisas eleitorais mostrarem uma disputa mais acirrada do que se poderia esperar diante dessa mistura explosiva que desequilibra a disputa, a opinião predominante entre os especialistas é a de que a vitória de Dilma é inevitável, justamente por causa de Lula.

O cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise, especialista em destrinchar o comportamento do brasileiro comum através de pesquisas, autor de livros que desvendam A cabeça do brasileiro e A cabeça do eleitor, está convencido de que a eleição caminha para uma derrota acachapante do Serra, com vitória da Dilma no primeiro turno.

Ele revela que tem feito pesquisas mostrando uma cartelinha com o retrato do Lula dizendo que ele apoia a Dilma, e outra com o Serra e o Aécio, para representar a força máxima do PSDB. A pesquisa projeta uma vantagem de Dilma entre 15 a 20 pontos já no primeiro turno.

Segundo ele, até a última semana de agosto, primeira de setembro, esse cenário já se refletirá nas pesquisas como consequência da presença de Lula na propaganda televisiva.

As pessoas estão experimentando uma grande satisfação com a conjuntura, e querem a continuidade do Lula, diz ele, que usa sua teoria de árvore de decisão para apostar que o eleitor priorizará a continuidade do governo Lula a eventuais questões políticas ou partidárias.

Francisco Guimarães, do Instituto GPP, fez uma média das pesquisas mais recentes, principalmente Ibope e Datafolha, e diz que a impressão que temos é de que a Dilma saiu na frente na campanha, cresceu muito até o início de junho e hoje temos um quadro mais estável. Independentemente do apoio de Lula.

As médias mostram um resultado próximo do empate técnico, mas com tendência favorável a Dilma.

A média de votos válidos com os três institutos, incluindo o Vox Populi, mostra Serra em movimento cadente, saindo de 51% em janeiro para 42% em julho, enquanto Dilma vai de 39% a 46% no mesmo período.

A mesma média, só com Ibope e Datafolha, mostra Serra indo de 47% para 43% e Dilma, de 39% para 45%.

Por regiões do país, a média das pesquisas Datafolha e Ibope também mostra Dilma em ascensão, mesmo onde perde, e Serra caindo, mesmo onde ganha.

No Nordeste: Serra em abril com 40% e em julho ficou com 33%; Dilma foi de 48% para 55%.

No Norte-Centro-Oeste: Serra foi de 43% a 39% e Dilma, de 39% a 48%. No Sul, Serra vai de 58% a 52% e Dilma, de 30% a 38%.

No Sudeste: Serra cai de 54% para 45% e Dilma vai de 32% para 41%.

No Sudeste, a vantagem de Serra nessa estatística está influenciada pela última pesquisa do Datafolha, que ainda o dá na frente.

O Ibope mais recente já registrou um empate técnico, com Dilma em vantagem.

Mas há mais coisas em jogo do que a simples estatística, que, na definição do escritor italiano Pitigrilli, é a ciência que diz que, se eu comi um frango e tu não comeste nenhum, teremos comido, em média, meio frango cada um.

Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, por exemplo, coloca um pouco de política em sua análise dos números e acha que a situação hoje, embora indique favoritismo de Dilma, não está definida.

Ele dá importância aos debates entre os candidatos, por exemplo, o que Alberto Carlos Almeida minimiza.

E acha que, com Dilma escondendo o PT e exibindo Lula, a única saída dos tucanos é destacar os perigos de um governo do PT sem Lula. O que Alberto Carlos Almeida considera uma tática equivocada.

Para Montenegro, no Nordeste a candidata oficial está consolidada, e no Sul o candidato oposicionista está consolidado. A decisão seria no Sudeste, com três problemas para Serra.

No Rio a diferença a favor da Dilma aumentou. Na opinião de Montenegro, nem Serra nem Dilma empolgam o eleitorado, e se o PSDB fosse esperto jogaria suas fichas no Rio na Marina, para dividir os votos e reduzir a diferença.

Em São Paulo, o governo do Serra, embora tenha sido muito bom, não tem marca, segundo Montenegro, o que faz com que o ex-governador tenha começado com 25 pontos de frente e hoje esteja com apenas 11.

Mas o grande problema do PSDB é Minas, onde Serra começou ganhando por 15 pontos, e hoje está perdendo por dez pontos.

Acho que o Aécio (ex-governador Aécio Neves, candidato ao Senado), quando entrar na televisão, vai levantar o Anastasia (governador Antonio Anastasia, candidato à sucessão de Aécio) e embolar a eleição com o Hélio Costa (PMDB). Mas a pergunta é: isso ajudará o Serra? Montenegro chama a atenção para detalhes importantes da eleição: é a primeira vez em que o eleitor vai poder votar em trânsito para presidente, e isso pode ajudar um pouco a candidatura de Dilma, na visão de Montenegro, porque há uma migração muito grande do Nordeste para o Sudeste, principalmente para São Paulo, e muita gente não transferiu o título de eleitor.

A questão é saber se esse eleitor teve o cuidado de se registrar para votar em trânsito.

Outra novidade, porém, pode atrapalhar muito Dilma, na opinião de Montenegro: pela primeira vez o TSE está exigindo que se apresentem dois documentos na hora da votação o título de eleitor e uma identidade.

As pessoas mais pobres tendem a ter apenas um documento, porque documento é uma coisa cara, comenta Montenegro, para quem no Nordeste isso pode ter efeito.

Tudo é possível :: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

As investigações sobre os atentados ao comandante, ao quartel da tropa de elite (Rota) da polícia e a queima de ônibus e carros nos últimos dias em São Paulo não indicam até agora com segurança que sejam ações coordenadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). As escutas telefônicas dos presídios, por exemplo, não revelaram planos do que se convencionou chamar de crime organizado.

Entretanto, o fato de os atos criminosos se repetirem começa a levar as autoridades de segurança pública a suspeitar de que haja uma tentativa de criar uma situação de inquietação na cidade.

Com qual objetivo, o governador Alberto Goldman ainda não se arrisca a dizer, pois não tem informações ou indícios suficientes. Goldman não afirma, mas também não elimina a hipótese de que possa haver motivação eleitoral por trás dos crimes. "Se os dias passam e os fatos continuam a acontecer é sinal de que existe alguma articulação", diz ele.

O governador não tem comprovação nem faz ilação a respeito de ligações diretas entre partidos e facções criminosas. "Ninguém faz uma reunião para orientar isso ou aquilo".

Segundo ele, se houver organização nas ações o mais provável é que os líderes do PCC estejam se aproveitando do momento eleitoral para criar constrangimento ao governo.

"Eles sabem que a oposição vai criticar, vai explorar e vai dizer, como já está dizendo, que há perda de controle na segurança pública e não há perda de controle coisa nenhuma. É a hora e a maneira que eles escolhem para se vingar do governo, por isso é que seria melhor se os partidos não mordessem a isca e não entrassem nesse jogo".

Goldman tem tido reuniões diárias para acompanhar os resultados das investigações e discutir com a área de segurança como prevenir novos atentados ou mesmo o aumento do clima de tensão.

"Estamos de prontidão". A preocupação mais imediata agora é com o Dia dos Pais, no próximo domingo. Em 2006, as rebeliões em presídios e atentados ocorridos também na antevéspera das eleições começaram logo após o Dia das Mães.

Nessas ocasiões, os presos de melhor comportamento saem para visitas e pode haver por parte dos líderes que continuam presos uma distribuição de "tarefas" na rua para os que recebem o benefício. Já aconteceu outras vezes e, de acordo com o governador, há preocupação de que no domingo possa acontecer de novo. É disso principalmente que se ocupará a área de segurança pública de São Paulo daqui até lá.

Eleições. Sobre a disputa eleitoral propriamente dita, o governador Alberto Goldman avisa logo que não tem uma visão muito acurada sobre o cenário nacional, pois está absolutamente concentrado em São Paulo, onde não tem gostado de ver o crescimento de Dilma Rousseff nas pesquisas.

Ele confessa surpresa com o desempenho, que atribui a dois fatores: aos eleitores de oposição (ao PSDB) e à generalizada sensação de bem-estar proporcionada pelo aumento da capacidade de consumo gerada pela ampliação do crédito. "Este fator, a meu ver, é o mais importante e o mais difícil de combater porque, se as pessoas se sentem bem comprando, não vão dar ouvidos a quem alerta para as consequências amanhã ou depois".

Goldman não está animado nem desanimado, estacionou no meio-termo, que é como ele vê a situação dos dois principais candidatos: "Equilibrados, aguardando que o eleitor desperte realmente para as eleições e deixe o quadro mais definido".

Mas a campanha está na rua há muito tempo, não?

"Só para quem já tem a cabeça feita. A partir de agora é que começa a disputa para valer pelos votos daqueles 20% que vão decidir".

Pesquisa. A vice-procuradora eleitoral, Sandra Cureau, mandou pedir ontem ao governador Alberto Goldman todos os discursos feitos por ele desde a posse, em abril.

Foram mais de cem pronunciamentos que serão enviados para Brasília. A procuradora quer examinar os textos para conferir quantas vezes Goldman infringiu a legislação fazendo campanha para José Serra.

O debate dos fracassos enriquece a agenda:: Elio Gaspari

DEU EM O GLOBO

Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva podem melhorar a agenda da sucessão presidencial se substituírem a retórica da marquetagem pela discussão dos fracassos de programas pontuais, relacionados com temas livres de polêmicas.

Não se trata de mostrar a vidraça quebrada para culpar o outro, mas de dizer o que se pode fazer para consertar a janela.

Nem tudo o que dá errado precisa continuar dando errado. O maior fracasso social-marqueteiro de Nosso Guia foi o programa Fome Zero.

Corrigido, transformou-se no seu maior êxito, o Bolsa Família.

Adiante vão dois exemplos de fracassos.

Em ambos, o governo saciou sua voracidade publicitária e, diante dos resultados bisonhos, ofereceu explicações do tipo temos um problema em Kabul porque invadimos o Afeganistão. Com isso, deu ao mau desempenho um verniz de fatalidade, mascarando a inépcia.

Programa Papel Passado: Em 2003, o governo federal lançou uma iniciativa destinada a regularizar a propriedade de imóveis no andar de baixo das cidades brasileiras. Pretendia beneficiar um milhão de famílias em três anos. Gastou R$ 50 milhões e, até maio passado, produziu 136 mil escrituras registradas em cartório.

Num cálculo grosseiro, os sem-papéis brasileiros estão em cima de um patrimônio de R$ 150 bilhões, mas por falta de papéis têm insegurança jurídica e dificuldades no acesso ao crédito bancário. São moradores de favelas ou mesmo de uma empulhação burocrática chamada loteamento clandestino, como se fosse possível existir um bairro na clandestinidade. Explicações para a ruína, o comissariado tem de sobra.

Enem/Vestibular: No ano passado o MEC anunciou um sistema capaz de transformar as provas do Enem em instrumento de seleção para a primeira fase do vestibular das universidades federais.

Os educatecas prometiam que a garotada teria duas, talvez três, oportunidades de fazer o exame durante o ano. Um sonho. Deu tudo errado. Roubaram as provas, o MEC pôs no ar listas malfeitas e até hoje há estudante reclamando. Quanto às três oportunidades, tchau. Neste ano haverá um só exame. Se alguém trabalhar direito, algum dia a prova será informatizada e a garotada fará vários exames por ano, como nos Estados Unidos.

Há ainda dois fracassos conhecidos, compar tilhados por Dilma Rousseff e José Serra, ruínas tucanas que prosperaram na gestão petista.

No projeto do Cartão SUS, o governo atolou R$ 400 milhões e produziu apenas irregularidades.

No cumprimento da lei que obriga os planos de saúde privados a ressarcir a Viúva quando os seus clientes são atendidos pelo SUS, ambos conseguiram quase nada.

Há poucas semanas, as repórteres Fabiane Leite e Mariana Mandelli mostraram que o Hospital São Caetano, tradicional instituição de São Caetano do Sul (SP), fechou serviços e despejou na rede pública dezenove clientes do plano Di Thiene que lá estavam internados.

Recebê-los no Hospital Brasil, que o administra, nem pensar. Sua controladora, a rede DOr, informou que, contratualmente, não tem esse compromisso.

Ao saber do despejo, o presidente da ANS, Maurício Ceschin, disse o seguinte: Eu nunca vi isso na minha vida. A patuleia, que sustenta a ANS, já viu, várias vezes.

Elio Gaspari é jornalista.

Compulsão pela censura :: Fernando Rodrigues

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - O Tribunal Superior Eleitoral decidiu nesta semana que a candidata a presidente Dilma Rousseff (PT) terá direito de resposta na revista "Veja". A publicação fez uma reportagem com declarações do deputado Indio da Costa (DEM-RJ), candidato a vice na chapa à Presidência encabeçada por José Serra (PSDB).

O texto de "Veja" é duro. O título: "Indio acertou no alvo". Pode-se gostar ou discordar do estilo, mas há ali referências a fatos acontecidos. No caso, as relações mantidas no passado por integrantes do PT com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia -estas, por sua vez, notórias por ligações com narcotraficantes.

O PT reclamou. Enxergou na reportagem um suposto dano à imagem de Dilma. O TSE concordou.

Seria cômodo agora falar sobre liberdade de expressão e malhar os ministros do TSE. Mas o cenário é mais complexo. As eleições no Brasil ainda têm como base o Código Eleitoral, produzido em 1965 pela ditadura militar.

Há um fio condutor nas regras em vigor: a compulsão pela censura, pela limitação da livre expressão. O Brasil é um caso raro em que candidatos podem se declarar como tal apenas a partir de julho do ano eleitoral. Também não se conhece país no qual camisetas sejam proibidas em campanha (lei 9.504). Em democracias normais, ao político com poucos recursos só resta a opção de divulgar seu nome pintando algumas camisetas no fundo de seu quintal. Aqui, seria cassado.

Lá pelas tantas, o Código Eleitoral determina que a propaganda dos candidatos não poderá "empregar meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais".

Com uma lei dessas, não é à toa que o TSE julgue necessário dar direito de resposta a políticos que se sentem injuriados quando citados numa reportagem de revista.

Carta à esquerda :: Roberto Romano

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

"...é preciso cuidado, porque as pessoas têm leis, as pessoas têm regras... Se começam a desobedecer às leis deles para atender ao pedido de presidentes, vira uma avacalhação" (Lula, recusando apelar em favor de Sakineh Mohammadi Ashtiani, que poderá serapedrejada em praça pública)

Prezados senhores da esquerda brasileira:

Em 18/9/1969 foi decretada a Lei de Segurança Nacional, imposta pela Junta Militar. O seu texto previa exílio e pena de morte para os acusados de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva". Contra ela se mobilizou parte da sociedade civil, intelectuais e políticos opostos ao arbítrio, às torturas, aos tratamentos humilhantes dos presos políticos e à censura. Estratégica na luta contra a lei tirânica foi a mobilização de Estados democráticos estrangeiros e de suas elites favoráveis aos direitos humanos no Brasil.

Figuras proeminentes da Igreja uniram-se aos advogados, jornalistas e gente do povo para entregar às instituições internacionais denúncias e pedidos de inspeção no Brasil. Aqueles líderes eram acusados, pelos que apoiavam o regime, de tentar "denegrir a imagem da nossa terra no exterior". O slogan ditatorial - Brasil, ame-o ou deixe-o -, musicado por Dom e Ravel, reforçou a campanha supostamente patriótica que buscava apagar os gritos dos torturados. Existiam leis, mas os dignos intérpretes da norma jurídica foram calados, como é o caso de Evandro Lins e Silva, morto sem que o poder tenha reconhecido a injustiça contra ele, a sua cassação do Supremo Tribunal Federal. Existiam leis, mas elas não emanavam da soberania popular, surgiam das sombras, nos palácios.

Recordo o ensino de Norberto Bobbio. Poucos entenderam como ele, no século 20, a natureza da lei. Em magistral escrito, diz o jurista que a política se divide entre a praça e o palácio, e retoma o dito de Guicciardini: "Entre o palácio e a praça existe uma densa névoa ou muro tão grande que pouco sabe o povo sobre o que fazem os governantes e porque o fazem, como se o assunto dos dirigentes fosse algo feito na Índia." Bobbio indica o fato de não contarmos até hoje com uma sociologia da praça. E, no entanto, ela é fundamental na política. "Manifestação na praça" significa a multidão de pessoas indignadas com os palácios. A praça reúne muitos indivíduos, a sua forma aberta permite livres discussões. Quem para ela se dirige tem alvo comum: reivindicar direitos, ouvir líderes. "Na democracia representativa (...) a praça é a mais visível consequência do direito de reunião ilimitado quanto ao número de pessoas que possam exercitá-lo juntas e ao mesmo tempo" (Bobbio).

Finaliza o jurista dizendo que "palácio e praça são duas expressões polêmicas para designar, respectivamente, os governantes e os governados, sobretudo o seu relacionamento de incompreensão recíproca, de estranheza, rivalidade, ainda hoje como no trecho de Guicciardini. (...) Vista do palácio a praça é o lugar da liberdade licenciosa; visto da praça o palácio é o lugar do poder arbitrário. Se cai a praça, o palácio também é destinado a cair." A esquerda brasileira viveu o seu tempo de praça, quando enfrentou a repressão palaciana. Sob a ditadura, ela implorava a intervenção estrangeira para a defesa de seus direitos humanos. Nos palácios de agora, apoia os que, no Irã e na África, torturam, massacram, caluniam os opositores.

Senhores da esquerda: se perguntados sobre a violação dos direitos, os adeptos do regime autoritário respondiam que as leis deveriam ser obedecidas. Nada falavam sobre a legitimidade legal, pois o assunto era proibido e censurado. O presidente de hoje, com o Itamaraty, usa linguagem idêntica à dos generais e juristas formados na escola de Francisco Campos. Ele usou a praça para subir ao palácio e levou consigo a turba dos oportunistas que jamais tiveram compromissos com os direitos civis ou humanos. Como diz Bobbio, para quem está no palácio a praça, ao invocar direitos, é lugar de liberdade licenciosa, "avacalhação". Quem hoje é governo pode voltar à praça, a menos que deseje, por meios espúrios, garantir para si os palácios.

O nosso presidente não se recorda mais dos tempos em que era oposição. E apoia no Irã os que aplicam leis tirânicas, ali esvaziando praças com a ponta das armas. Aquelas mesmas praças eram cheias de cidadãos hoje presos, exilados, condenados à morte. Não é exigida coerência de ninguém. Todos podem trair os ideais que antes defendiam, ou pareciam defender. Mas não esqueçam, senhores da esquerda: a memória coletiva supera a propaganda que fornece popularidade aos ocupantes ocasionais dos palácios. Em tempo não muito distante o nome de Lula será posto ao lado dos realistas que negaram os direitos humanos em nome do "business", como diz o Itamaraty. Caso os senhores ainda se imaginem na ala esquerda, deveriam atentar para a escolha de algo que define a sua dignidade: preferem a truculência palaciana ou a "avacalhação" da praça? Optando pela primeira, os senhores entram para o clube de Mussolini, Francisco Campos, Filinto Müller, Pinochet e similares. Se a escolha for pela segunda, aceitem os cumprimentos de Sobral Pinto, García Lorca, Pablo Neruda, Evaristo Arns, Vladimir Herzog. Não existe muito tempo para o seu juízo: amanhã, na praça ensanguentada em que se transformou o Irã, os direitos humanos serão alvejados na carne de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Sob o silêncio cúmplice dos palácios brasileiros.

P. S.: Solicitar ao Irã que exile a vítima e a instale em nosso país, como sugeriu o presidente, é agir como carcereiro de povos alheios. É transformar o Brasil em imensa colônia penal terceirizada. Nada mais.

Filósofo, professor de Ética e Filosofia na Unicamp, é autor, entre outros livros, de "O Caldeirão de Medeia" (Perspectiva)

Diplomacia da mesa do bar de Tia Rosa :: José Nêumanne

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus lugar-tenentes - o ministro oficial Celso Amorim e o chanceler oficioso Marco Aurélio Garcia - têm surpreendido o mundo com um tipo de política externa pouco respeitado, pelo menos entre Estados democráticos de Direito no Ocidente: a diplomacia da conveniência. Trata-se de uma leitura heterodoxa da ética da conveniência de Max Weber. E esse aparente pragmatismo a toda custa se traduz no slogan que o ministro de Relações Exteriores brasileiro cunhou para explicar a súbita adesão do chefe de governo brasileiro ao pleito de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, tirano da Guiné Equatorial, país de colonização espanhola e francesa, de entrar na comunidade lusófona: "Negócio é negócio."

Essa retórica de fazer corar o mais pétreo dos especuladores do mercado de capitais passou por cima de graves acusações de violação de direitos humanos. E, pior ainda, do fato de o ditador ter sido considerado o oitavo governante mais rico do planeta pela revista Forbes, apesar de (ou seria et pour cause?) o país por ele governado ser um dos mais pobres do paupérrimo continente africano. Mas esta não foi a primeira nem a única vez que Sua Excelência, do alto de sua respeitável biografia de herói da democracia construída sobre os escombros do regime autoritário tecnocrático-militar no Brasil, fez pouco-caso da vida humana em benefício das próprias conveniências, que ele e seus áulicos confundem com as da Pátria. Mais chocante que o relógio de ouro e diamantes exibido pelo mandachuva há 31 anos em seu país, o mais antigo presidente da África inteira, foi a gargalhada flagrada pelos fotógrafos quando Lula conversava com Raúl Castro, o irmão mais novo de Fidel, no instante em que o cubano era informado da morte do prisioneiro dissidente em greve de fome Orlando Zapata. O escárnio do líder de um partido que se diz de trabalhadores pobres, ao manifestar tal descaso pelo sacrifício do preso negro, pedreiro e mártir de uma ditadura ainda mais longeva que a de Nguema, assustou, mais do que surpreendeu, as boas almas do mundo que devotam genuína admiração ao self made man que ascendeu da mais baixa à mais alta escala social, tornando-se o mais poderoso e popular governante do Brasil desde o desembarque do português Tomé de Souza em praias da Bahia. E o susto foi tão legítimo como a admiração.

Engana-se, contudo, redondamente quem imaginar que essa gargalhada tenha sido o ápice das desastradas intervenções brasileiras no episódio dos dissidentes cubanos. Lula comparou-os com bandidos comuns em prisões brasileiras. E Marco Aurélio Garcia tentou ficar com o crédito pela libertação esporádica de um grupo deles, dizendo que os espanhóis, que participaram efetivamente do acordo que os soltou, só fizeram o gol numa jogada armada pelo Itamaraty.

A diplomacia lulista não precisou sair do Caribe para armar mais uma confusão causada por essa mistura de arrogância e ignorância que o professor Roberto Campos chamava de "arrognância". Num lance de grosseria explícita, Sua Excelência resolveu ignorar a presença de Álvaro Uribe na presidência da Colômbia, menosprezando a soberania do vizinho amigo e democrático para beneficiar o compadre venezuelano Hugo Chávez. O desrespeito se assemelha a negar pedido de extradição do criminoso Cesare Battisti pela Itália, soberana e democrática, que lhe teria negado pleno direito de defesa.

A presidência da Colômbia, entre um vizinho arruaceiro e outro grosseiro, emitiu nota oficial na qual resumiu em poucas linhas a mentalidade que comanda a política externa brasileira nos últimos sete anos e sete meses: Lula tem dificuldade de distinguir o pessoal do institucional. Hábil negociador sindical, confunde a negociação em fóruns internacionais com as noitadas no bar de Tia Rosa, em São Bernardo, onde decidia os passos dos metalúrgicos nas greves no fim dos anos 1970. Para retaliar Uribe ele se dirigiu diretamente a Juan Manuel Santos, o eleito que tomará posse na presidência colombiana sábado, adotando atitude idêntica à assumida no mesmo dia pelas Farc.

Há uma semana, o jeito peculiar do lulismo de tratar da soberania dos povos produziu outra pérola da insensibilidade diplomática, quando o presidente brasileiro se recusou publicamente, como havia feito com os dissidentes cubanos, a pedir a comutação da pena de apedrejamento de uma mulher iraniana a seu "amigo" Mahmoud Ahmadinejad. "As pessoas têm leis. Se começarem a desobedecer às leis deles para atender ao pedido de presidentes, daqui a pouco vira uma avacalhação", justificou seu desinteresse pela vida de Sakineh Mohammadi Ashtiani, viúva acusada de adultério.

Mas Lula, o insensível, virou Lula, o magnânimo, em seu palco preferido, o palanque de sua candidata à própria sucessão, Dilma Rousseff, em Curitiba, sábado passado. Ali, na certa convencido de que lhes seria mais conveniente apelar pela vítima do que apoiar o carrasco, candidatou-se, com uma frase infeliz, a herói mundial pela comutação da pena capital da mãe de dois filhos condenada por adultério, que, em países democráticos, caso do Brasil, nem é mais passível de pena como crime ou sequer contravenção. "Se vale minha amizade e o carinho que tenho pelo presidente do Irã e pelo povo iraniano, se esta mulher está causando incômodo, nós a recebemos no Brasil", disse ele.

O recuo de Lula, mesmo não sendo atendido pelo destinatário, deve ser relevado em nome da boa causa. Elogiável será o efeito da metamorfose ambulante do presidente brasileiro pelo resultado que pode produzir. Mas não é exagerado lembrar que vidas humanas estão acima de interesses negociais e que a amizade pessoal nunca deve prevalecer sobre a liberdade individual. É bom que a diplomacia de conveniência do governo lulista tenha abraçado uma causa justa, mas tal mudança só produzirá efeitos positivos se vier com a consciência de que em diplomacia a conveniência não pode abrir mão do respeito.

Presidente do TSE vota contra verticalização

DEU EM O GLOBO

Julgamento é interrompido; partidos pressionam para que decisão seja revista

Carolina Brígido

BRASÍLIA. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Ricardo Lewandowski, votou ontem pelo fim da verticalização no horário eleitoral gratuito. Segundo regra aprovada pelo próprio tribunal no fim de junho, partidos que são rivais na eleição presidencial e aliados nas disputas locais não poderiam aparecer juntos no horário eleitoral gratuito, que irá ao ar no rádio e na TV a partir do dia 17. Lewandowski endossou essa tese originalmente, mas ontem recuou. A votação, no entanto, foi interrompida por um pedido de vista do ministro Marcelo Ribeiro.

Ontem, Lewandowski argumentou que, se os candidatos têm liberdade para se coligar livremente a regra da verticalização para as alianças caiu no Supremo Tribunal Federal há cerca de dois anos , não faria sentido o TSE impedir a divulgação das alianças no horário eleitoral. A expectativa é que o pedido de vista seja devolvido antes do dia 17, data do início do programa eleitoral em rádio e televisão. A revisão do assunto pelo TSE está sendo feita por pressão de praticamente todos os partidos, que se sentiram prejudicados.

A meu ver, não se pode impor regra de verticalização para as eleições.

Não parece coerente com a autonomia partidária.

Se é licito aos partidos se coligarem livremente, limitar isso afrontaria a lógica do fim da verticalização. A questão é eminentemente política e deve ficar a critério das agremiações partidárias disse ontem o presidente do tribunal.

Após a decisão de junho do TSE, houve comoção no meio político. Pressionado, Lewandowski não permitiu a publicação da decisão, sob o argumento de que novas consultas sobre o tema tinham sido apresentadas, e havia o risco de mudança de opinião dos ministros.

A decisão impedia os candidatos a governador de usar a imagem de presidenciáveis no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, se suas coligações tiverem mais de um partido com candidato ao Planalto. Por exemplo: o tucano José Serra não poderia aparecer na campanha eleitoral de rádio e TV no Rio de Janeiro.

Isso porque o PV de Fernando Gabeira tem candidata, Marina Silva. Ela também ficaria impedida de aparecer no horário de Gabeira.

Serra não teria espaço no horário gratuito nem em São Paulo, onde o candidato ao governo, Geraldo Alckmin (PSDB) está coligado com o PHS, que tem candidato próprio a presidente.

Já o governador Sérgio Cabral (PMDB), coligado com o PTB, ficaria impedido de aparecer ao lado da petista Dilma Rousseff, pois o PTB está coligado nacionalmente com o PSDB.

Na decisão de junho, o TSE respondeu a uma consulta feita pelo PPS em relação à coligação que o partido tem no Rio com o PSDB e o PV, em torno da candidatura de Gabeira. A resposta acabou gerando a verticalização da campanha. Na votação interrompida ontem, o TSE respondia a uma consulta feita por Marconi Perillo, candidato do PSDB ao governo de Goiás.

Serra inaugura horário eleitoral

DEU EM O GLOBO

Sorteio define ordem de aparição dos candidatos

BRASÍLIA. O horário eleitoral gratuito será inaugurado no próximo dia 17 com a propaganda do presidenciável José Serra, do PSDB. O sorteio para a ordem de aparição dos nove candidatos à Presidência no programa foi feito ontem à noite pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A candidata petista, Dilma Rousseff, será a quinta a aparecer.

Marina Silva, do PV, será a oitava.

Segundo a legislação, o último candidato torna-se o primeiro no dia seguinte da exibição do horário eleitoral dos candidatos a presidente.

O rodízio acontece todos os dias. O horário eleitoral gratuito será exibido em rede nacional de rádio e televisão entre os dias 17 agosto e 30 de setembro.

O programa reservado para candidatos a presidente será exibido às terças, quintas e sábados, às 13h e às 20h30m. Em seguida, é a vez dos candidatos a deputado federal.

Os candidatos a deputado estadual, governador e senador terão seus programas exibidos às segundas, quartas e sextas, também pela manhã e à noite. O sorteio da ordem dos demais candidatos será realizado pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs).

De acordo com o sorteio, a ordem de exibição dos candidatos à Presidência no primeiro dia do horário eleitoral será: PSDB e partidos coligados; PSOL; PCO; PSTU; PT e partidos coligados; PSDC; PRTB; PV e PCB.

Serra diz que arrecadação menor até agora preocupa

DEU EM O GLOBO

Em visita a uma favela com Gabeira, tucano disse esperar que dinheiro entre

Flávio Freire

SÃO PAULO. O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, disse ontem, procurando demonstrar bom humor, que está preocupado com o fato de sua campanha ter sido a que menos arrecadou doações entre os três principais presidenciáveis.

Até o início desta semana, o comitê tucano havia recebido recursos que somam R$ 3,6 milhões, contra R$ 11,6 milhões da petista Dilma Rousseff e R$ 4,65 milhões da candidata do PV, Marina Silva.

Após gravar imagens para o horário eleitoral gratuito na TV durante visita à favela Heliópolis, em São Paulo, Serra disse que ainda espera mudar esse quadro.

Preocupa (a menor arrecadação entre os três), mas espero que os recursos entrem (risos), porque às vezes tem muito atraso nisso disse o candidato.

Até agora, todas as doações são de pessoas jurídicas Todas as doações feitas até agora à campanha tucana são de pessoas jurídicas. Do total arrecadado, R$ 2,7 milhões foram gastos com a estrutura eleitoral. Serra, no entanto, não quis se estender no assunto.

Descontraído, fez uma pequena caminhada numa escola técnica e num ambulatório médico de especialidades, inaugurados por ele quando era governador. Ao lado do candidato do PV ao governo do Rio, Fernando Gabeira, andou por ruas da favela. Gabeira disse que queria conhecer o projeto do Ambulatório Médico de Especialidade (AME), o qual diz que pretende implantar no Rio, se eleito.

Os ambulatórios oferecem pequenos procedimentos cirúrgicos e exames como eletrocardiograma, eletroencefalograma, endoscopia, teste ergométrico e ecocardiografia, entre outros. O paciente deve ser encaminhado do prontosocorro para utilizar os equipamentos, a partir de agendamento prévio.

Assim como fui conhecer o (projeto) Mãe Curitibana, aceitei o convite do Serra para conhecer o AME, que quero implantar no Rio disse Gabeira.

Durante a visita a Heliópolis, Serra se concentrou em gravar imagens para a TV. Subiu quatro andares de um conjunto habitacional popular para colher depoimento de uma família que vive ali. Na saída, atendeu o pedido de uma emissora de TV para conversar com populares enquanto tudo era gravado.

O candidato ainda visitou a Etec (escola técnica) e o AME de Heliópolis, que inaugurou quando era governador.

Heliópolis era a maior favela do Brasil. Quando cheguei à prefeitura, começamos a transformar Heliópolis num bairro, com asfalto, esgoto, água potável, luz elétrica, novas moradias para substituir as mais degradadas, canalização de córrego, escolas e até um ambulatório médico de especialidades, que tem capacidade para 20 mil consultas por mês. E também uma escola técnica, que tem 1.200 alunos em vários cursos. É o que eu quero fazer em todo o Brasil disse o tucano.

Campanha para Serra

DEU NO ESTADO DE MINAS

O comando da campanha do presidenciável José Serra (PSDB) anunciou que vai encaminhar material de campanha para os candidatos que concorrem nos estados. O objetivo é colar o nome de Serra nos concorrentes do PSDB aos governos estaduais, tendo em vista que a maioria deles faz campanha solteira, sem destacar o nome do candidato a presidente pelo partido.

O governador Antonio Anastasia prometeu que fará campanha colada na de Serra. Mas, no grande banner afixado na parede de fundo do palco improvisado do Portal de Eventos que ficou lotado - não apareceu o nome do presidenciável tucano, que foi citado somente uma vez no discurso de Anastasia. Aécio também mencionou o ex-governador paulista somente uma vez.

Já o ex-presidente Itamar Franco, candidato ao Senado, embora tenha se reconciliado com Serra, deixou a entender que o seu sentimento em relação ao presidenciável tucano não mudou muito. Ao se referir a Aécio Neves, disse que ele estava sendo preparado para concorrer à Presidência da República. Mas as circunstâncias não permitiram, disse Itamar. Itamar não citou o nome de Serra.

Serra lança pasta para pessoas com deficiência

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Portadores de necessidades especiais devem ter atendimento ampliado, nas áreas de educação e saúde, prevê programa do candidato tucano

Christiane Samarco

BRASÍLIA - O candidato do PSDB a presidente, José Serra, deve anunciar hoje, em Minas Gerais, a criação do Ministério da Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Ele viaja para Poços de Caldas, no sul do Estado, onde fará uma visita à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e terá um encontro com lideranças de vários segmentos de pessoas com deficiências.

Quem está à frente desta programação da campanha tucana é o deputado Eduardo Barbosa (PSDB-MG), atual presidente da federação nacional que congrega 2.070 APAEs do País. As associações atendem cerca de 400 mil deficientes, mas a fatia do eleitorado que está envolvida com esta questão é bem maior.

"Escolhemos Poços de Caldas para sediar o encontro porque temos várias entidades voltadas para esta questão na cidade", diz o deputado, que aposta no anúncio do ministério nesta quarta-feira.

Como Serra criou uma estrutura administrativa específica para cuidar da pessoa deficiente tanto na Prefeitura de São Paulo como no Estado, a expectativa dos tucanos é de que, uma vez na Presidência, ele faça o mesmo nacionalmente. "Deve ser um ministério amplo na defesa dos direitos desses segmentos, passando pela educação, saúde e formação para o trabalho", aponta Eduardo Barbosa.

O parlamentar lembra que, quando esteve à frente do Ministério da Saúde, Serra foi o autor da portaria que prevê o atendimento especial à pessoa com deficiência no Sistema Único de Saúde (SUS). "Na Presidência, ele terá que universalizar este atendimento que ainda é muito acanhado".

Segundo ele, a política de assistência social do eventual governo Serra terá também um segmento voltado para o envelhecimento da pessoa com deficiência, que em décadas passadas morria muito jovem e, hoje, tem uma média de vida muito semelhante à de qualquer brasileiro.

Eduardo Barbosa diz que a legislação é "muito boa", mas que existe vácuo entre lei e ação. "O discurso da inclusão não entrou na ação concreta do governo", afirma.

Público-alvo. Estima-se que cerca de 14% da população brasileira sofre com algum tipo de deficiência. Por isso, Barbosa avalia que Serra falará diretamente para 30 milhões de pessoas.

Assessor de tucano ataca política energética de Lula

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Kelly Lima / Rio

A mão forte do Estado sobre a economia durante o governo Lula foi duramente criticada em evento no Rio pelo consultor e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) David Zylbersztajn, nomeado porta-voz do candidato José Serra (PSDB) na área de energia.

Da criação da empresa estatal de petróleo, que atuará no novo modelo de partilha de áreas exploratórias, à presença da Eletrobrás na construção da usina de Belo Monte, tudo foi mal avaliado. "A criação da Petrosal é uma das maiores barbaridades já vistas no mundo. Não há nada que indique que o governo vai ganhar mais com o modelo de partilha do que com o de concessão."

Zylbersztajn criticou o que chamou de "aparelhamento das agências reguladoras" e disse que há certa confusão no atual governo sobre a definição de qual é o papel de um Estado forte.

Aécio afirma que aliança em Minas não favorece campanha

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Para ex-governador, campanha estadual cooptou "setores aecistas ligados a Lula", que não trabalham por Serra

Christiane Samarco

BRASÍLIA - A campanha do presidenciável do PSDB, José Serra, enfrenta dificuldades em Minas Gerais, onde ele foi ultrapassado por sua principal adversária, Dilma Rousseff (PT). No período de dez dias, o tucano faz hoje a terceira visita ao Estado, onde o ex-governador Aécio Neves montou um arco de alianças apostando em sua própria candidatura à Presidência, mas acabou candidato ao Senado.

O próprio Aécio admite que a campanha estadual, focada na reeleição do governador mineiro, o tucano Antonio Anastasia, cooptou "setores aecistas ligados ao governo Lula", que não trabalham por Serra.

Dilma abriu 12 pontos de vantagem sobre Serra em Minas, segundo maior colégio eleitoral do País. De acordo com pesquisa Ibope/Estado/TV Globo, a petista tem 44% das intenções de voto, contra 32% para o tucano.

A lista de aliados na campanha pela reeleição de Anastasia inclui partidos lulistas como PP, PDT e PSB. "Cobrar desses segmentos que venham para a campanha nacional é desconfiança ou má-fé", declarou Aécio em entrevista ao Estado, dizendo que esses partidos estão coligados com Dilma no plano federal.

Aécio argumentou que, diferentemente de São Paulo, onde o PP lançou candidato a governador contra o tucano Geraldo Alckmin, em Minas os membros desse partido não têm candidato próprio e apoiam Anastasia.

"O Serra vai vencer a eleição em Minas", apostou Aécio, dizendo estar otimista após a visita a Montes Claros, onde 83 dos 92 prefeitos que integram a Associação dos Municípios do Norte de Minas declararam apoio a Anastasia.

Segundo Aécio, a campanha estadual "movimenta mais" por conta do leque de apoios que ele foi construindo ao longo dos oito anos de governo. Ele alegou que, se por um lado os parlamentares da base lulista não pedem voto para Serra no palanque do PSDB, também não fazem campanha para Dilma. "Como neutralizamos muitos aliados, Serra acaba tendo ganho político", diz Aécio, criticando "meia dúzia de áulicos que estimulam intrigas".

Sem recursos, Gabeira pede socorro a Serra

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Candidato da coligação PV-PSDB ao governo do Rio, deputado recorreu ao presidenciável tucano para produzir programas de campanha

Wilson Tosta / RIO

A quatorze dias do início da propaganda política gratuita na TV e no rádio, o candidato da coligação PV-PSDB ao governo do Rio, deputado Fernando Gabeira, resolveu pedir socorro ao presidenciável tucano José Serra para obter recursos para produzir os programas da sua campanha.

Gabeira foi ontem a São Paulo para se reunir com o presidenciável do PSDB - oficialmente, para conhecer um Ambulatório Médico de Especialidades, bandeira de Serra no governo estadual, mas também discutiu o problema que opõe verdes e tucanos fluminenses. O candidato a vice, Márcio Fortes (PSDB), também foi ao encontro de Serra.

O pedido de ajuda de Gabeira se deu no quadro de divergências que envolve a campanha do PV desde o início. O deputado, que hesitou em assumir a candidatura e depois se envolveu em uma polêmica em torno da coligação com o DEM, enfrenta outros problemas. Depois que o ex-governador Anthony Garotinho (PR) anunciou que concorreria a uma vaga na Câmara dos Deputados, Gabeira ficou só na disputa com o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), que tenta a reeleição com apoio do presidente Lula, a máquina estadual, uma coligação extensa e aliado a 91 dos 92 prefeitos fluminenses.

"Houve uma promessa de ajuda que ainda não foi cumprida e possivelmente pode não ser. Entendo", disse o deputado. "Não há nenhum problema, se houvesse entenderia. Promessas são feitas em circunstâncias que as pessoas não dominam e que depois não permitem que sejam cumpridas." Gabeira negou que declarações sobre falta de apoio de aliados - ameaçou não lhes dar cargos em um eventual governo, mas "uma banana" - tivessem relação com falta de dinheiro.
"Tenho noção de elegância, não discuto essas coisas em público", disse. "O que disse foi que não me renderia incondicionalmente, não lotearia os cargos." Um dos trunfos de Gabeira é o fato de sua candidatura a governador ter viabilizado - ainda que com problemas - um palanque regional para os tucanos, que, no Rio de Janeiro, não tinham nenhum quadro de peso que pudesse ajudar a candidatura de Serra. A aliança, com PSDB, DEM e PPS, foi estimulada pelo próprio presidenciável tucano, que, ao financiar o programa, também poderá ganhar alguma influência em sua confecção. Há alguns dias, Gabeira se irritou quando o Estado lhe perguntou sobre a possibilidade de imagens de Serra serem inseridas em sua propaganda. "No meu programa mando eu", disse ele.

Atrito. Em São Paulo, Gabeira não acompanhou Serra na caminhada nem na visita a uma escola técnica da região. O candidato do PV disse ter vindo a São Paulo a convite de Serra para conhecer um Ambulatório Médico de Especialidades. Ele negou, em entrevista coletiva, qualquer atrito com o PSDB por conta da informação de que os tucanos haviam prometido recursos para a campanha do PV no Rio.

"Acho que os pobres têm de ser muito elegantes com a questão do dinheiro. Se houve alguma promessa e se as circunstâncias, que na política são muito dinâmicas, não permitem que a promessa seja cumprida, eu não vou reclamar nem tornar isso um problema. A gente sabe fazer campanha sem dinheiro", disse Gabeira. "Não houve nenhuma ajuda (por parte do PSDB) e nós não estamos cobrando isso."

Serra fez visita na tarde ao pátio de uma escola técnica de Heliópolis, acompanhado pelo candidato do PSDB ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin.
AGENDA

Dilma Rousseff
A petista passa o dia em Brasília. Pela manhã, visita a Rede Sarah Hospital de Reabilitação

José Serra
O tucano cumpre agenda em Poços de Caldas (MG). Às 13 horas, visita a APAE, e às 15 horas, tem encontro com entidades de pessoas com deficiência

Marina Silva
Passa o dia em São Paulo. Às 11h30 visita a sede do Projeto Incentivo à Vida

Potencial
O Rio é o terceiro maior colégio eleitoral do País, com 11,5 milhões de eleitores, o que representa 8,5% do eleitorado

Na ONU, Brasil pede diálogo com violadores de direitos

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O governo brasileiro quer mudar os procedimentos da ONU no combate às violações de direitos humanos. Em carta enviada aos Estados-membros, o Itamaraty propôs que se evite censurar publicamente regimes autoritários. A denúncia pública é considerada a principal forma de pressionar um país acusado de atentar contra os direitos humanos. O Brasil defenderá o diálogo com regimes violadores na revisão do funcionamento do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que começa no fim do mês. Com isso, o País diz esperar que a discussão de resoluções não sofra "politização". A proposta foi recebida com ceticismo por europeus, mas bem acolhida por africanos e árabes. Nos últimos anos, o Itamaraty tem evitado condenar países violadores nos órgãos da ONU. A estratégia é abster-se em votações sobre alguns casos e tentar manter o diálogo, mesmo com governos que cometeram atrocidades.

Brasil quer que ONU evite censura a países que violam direitos humanos

Em carta enviada a todos os Estados-membros da organização, representantes brasileiros defendem o diálogo com "infratores" e propõem reforma para que a condenação pública seja apenas o último recurso do Conselho de Direitos Humanos

Jamil Chade correspondente / Genebra

O governo brasileiro quer mudar a maneira como as Nações Unidas tratam as violações de direitos humanos no mundo. Em uma carta enviada a todos os Estados-membros da ONU, o Itamaraty propôs que a organização evite censurar publicamente regimes autoritários. A denúncia pública é considerada a principal forma de pressiona um país acusado de atentar contra os direitos humanos a mudar sua conduta.

O Brasil defenderá o diálogo com regimes violadores na revisão do funcionamento do Conselho de Direitos Humanos, que começa no fim do mês e termina em 2011. O argumento é que as reuniões de emergência da ONU detonariam crises internas.

As mudanças sugeridas na carta brasileira, datada de 19 de julho, à qual o Estado teve acesso com exclusividade, deve provocar controvérsia. Nos últimos anos, o Itamaraty evitou condenar países violadores nos órgãos da ONU. A estratégia é abster-se em votações sobre alguns casos e manter o diálogo, mesmo com governos que reconhecidamente cometeram atrocidades.

Em diversas ocasiões, o Brasil manteve-se distante dos países que criticaram abertamente Coreia do Norte, Irã, Sri Lanka, Sudão, entre outros governos, por desrespeitar direitos fundamentais. Para o Itamaraty, durante anos, a ONU virou palco de condenações e ataques que nunca resolveram as violações de direitos humanos. Nessas ocasiões, entidades como Anistia Internacional e Human Rights Watch criticaram a opção brasileira pelo silêncio. Brasília rejeita a avaliação e insiste que o atual sistema também não funciona.

Ineficácia. "Hoje, o Conselho de Direitos Humanos da ONU vai diretamente para um contencioso", diz a carta brasileira. Quando há uma crise ou violação generalizada de direitos humanos, os países podem propor uma reunião de emergência e a aprovação de uma resolução pedindo o fim da violência e condenando um governo pelas violações. O Brasil acredita que essa prática não é eficaz. "Elas servem aos interesses daqueles que estão fechados ao diálogo, já que lhes dá uma espécie de argumento de que há seletividade e politização", afirma o Brasil.

"Não se trata de aliviar as resoluções", diz uma fonte do governo brasileiro, mas de aperfeiçoar o caminho até que se chegue a elas, tornando-as mais efetivas. Para o Itamaraty, as críticas feitas até agora são pontuais e isoladas, o que não impede que a proposta brasileira seja colocada efetivamente em prática.

Uma alternativa apresentada pela diplomacia brasileira é a realização de reuniões técnicas, sem a aprovação ou a proposição de resoluções. O encontro ocorreria na ONU, entre as agências internacionais e o governo em questão. Outra proposta é promover viagens de delegações de governos ao local da crise, algo que já ocorre em outros órgãos da ONU. No entanto, governos europeus querem saber se essas viagens substituiriam a presença de relatores independentes. O temor é que uma delegação formada apenas por governos acabe, mais uma vez, poupando o país envolvido na crise de críticas mais duras. A delegação, segundo a proposta brasileira, teria de ser formada por representantes de várias regiões.

A ex-relatora da ONU para investigar abusos em Cuba, Christine Channet, diz que, como a ONU faz hoje, não há como avançar. "Não vejo muita esperança diante da estrutura que temos hoje", disse ela ao Estado. Christine, contudo, preferiu não responder se o modelo proposto pelo Brasil faria alguma diferença. / COLABOROU RAFAEL MORAES MOURA

Para entender

O Conselho de Direitos Humanos da ONU tem 47 países-membros, com mandato de três anos. Para que uma resolução seja aprovada, é necessária a maioria simples dos membros. A cada quatro anos, os governos são obrigados a passar por uma sabatina sobre suas políticas de direitos humanos. Os governos também apresentam propostas de resoluções a cada três meses, mas reuniões de emergência podem ser convocadas para a votação de uma resolução, caso haja apoio substancial.

Teerã rejeita proposta de asilo feita por Lula

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Ninio
DE JERUSALÉM - Na primeira reação oficial à intervenção do Brasil no caso, o Irã indicou ontem que rejeita a oferta do presidente Lula de conceder asilo à viúva Sakineh Ashtiani, 43, condenada à pena de morte por apedrejamento por suposto adultério.

"Pelo que sabemos, [o presidente Luiz Inácio Lula] da Silva é uma pessoa muito humana e emotiva, que provavelmente não recebeu informações suficientes sobre o caso", disse Ramin Mehmanparast, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

Em entrevista, disse que Sakineh "cometeu um crime" de acordo com a lei iraniana e que o governo poderia dar mais informações ao presidente Lula "para que ele entenda o caso".

Em San Juan (Argentina), onde participava da cúpula do Mercosul, o presidente Lula disse ter ficado "feliz" por Teerã ter percebido "que sou muito emocional".

"Segundo, não fiz um pedido [de asilo] formal. Fiz um pedido mais humanitário. Pelo que se fala na imprensa, ou [Sakineh] vai morrer apedrejada ou enforcada. Ou seja, nenhuma das duas mortes é humanamente aceitável. Por isso, fiz esse apelo. Obviamente, se houver disposição do Irã em conversar sobre esse assunto, teremos imenso prazer em conversar e, se for o caso, trazer essa mulher para o Brasil."

RESPEITO

Sobre direitos humanos no Irã, disse que "cada país tem sua lei, sua Constituição, sua religião [...] e precisamos aprender a respeitar o procedimento de cada país".

Lula ainda criticou o Conselho de Segurança da ONU, dizendo que há mais gente no mundo querendo "dividir para reinar".

"Lula foi apedrejado por Teerã"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O presidente Lula "foi mais uma vez humilhado por um de seus clientes", o presidente Ahmadinejad, com a resposta negativa à proposta de conceder asilo a Sakineh, diz Jackson Diehl, do "Washington Post". Com o título "Lula apedrejado pelo Irã", Diehl diz que ele foi "envergonhado por seu "amigo" iraniano".

Recorde de lucros

DEU EM O GLOBO

Itaú Unibanco ganha R$ 6,4 bi. Brasileiros lideram ranking de bancos das Américas

Aguinaldo Novo

SÃO PAULO - O aumento da margem financeira com empréstimos e a queda da inadimplência levaram o Itaú Unibanco a registrar lucro líquido recorde no primeiro semestre deste ano. Maior banco privado do país, a instituição ganhou R$ 6,399 bilhões, um aumento de 39,5% em relação a 2009. Foi o melhor resultado entre os outros grandes bancos de varejo do país que já divulgaram seu balanço e o maior da história para o período de janeiro a junho.

Uma compilação feita pela Economatica mostra outro título: nenhum banco nas Américas apresentou até agora lucro maior do que a instituição brasileira. O Itaú Unibanco aparece com ganho de US$ 3,552 bilhões, seguido por dois outros bancos baseados no Brasil Bradesco (US$ 2,502 bilhões) e Santander (US$ 1,119 bilhão).

Em quarto, está a subsidiária mexicana do Santander e, só então, vem um representante dos EUA: o Northern Trust (US$ 356 milhões). Para fazer a comparação, a consultoria considerou um dólar médio de R$ 1,8015 em 30 de junho.

A lista ainda não inclui os gigantes americanos Bank of America, Wells Fargo, Citibank, Goldman Sachs e JP Morgan Chase, que pela ordem lideraram o ranking em 2009.

Mas a expectativa inicial é que, apoiados na forte expansão do mercado interno, os bancos brasileiros possam diminuir a distância que os separa dos líderes na região.

Os resultados dos bancos brasileiros no primeiro semestre já foram muito positivos. E tendem a ser ainda melhores nesta segunda metade do ano afirmou o presidente da Austin Rating, Erivelto Rodrigues.

Ganhos de bancos subiram 35% este ano

Pelos dados da Austin, o lucro apresentado por uma amostra de seis instituições (além de Itaú, Bradesco e Santander, também BMG, Industrial e Modal) alcança R$ 13,305 bilhões, o que representou um salto de 35,5% sobre junho de 2009. Neste mesmo período, a carteira total de crédito experimentou alta de 13,3% e as despesas com provisão para credores duvidosos despencaram 23,1%.

Rodrigues aposta na manutenção da forte demanda por crédito, com o acréscimo de que os spreads embutidos nessas operações (diferença entre as taxas pagas pelos bancos e os juros finais cobrados dos consumidores) continuaram a cair num ritmo menor do que o de liberação de novos empréstimos. A diminuição das despesas com provisão para créditos duvidosos e o aumento das receitas com tarifas terão também impacto positivo sobre o lucro final.

O próximo grande banco de varejo a divulgar seu balanço no semestre será o Banco do Brasil, no dia 16. A Austin prevê ganho próximo de R$ 4,8 bilhões, superando os R$ 4,5 bilhões do Bradesco.

As receitas com tarifas aumentaram 17,9%, enquanto as provisões registraram queda de 15,8%. Essa menor provisão foi resultado da redução da inadimplência. Considerando os créditos vencidos há mais de 90 dias, o calote caiu de 4,9%, em março, para 4,6% em junho. Em relação ao pico (5,9% em setembro passado), a redução chega a 1,3 ponto percentual.

O Itaú se valeu de créditos tributários para reduzir o desembolso com Imposto de Renda. O ganho (não-recorrente) foi de R$ 2,1 bilhões no semestre, na comparação com 2009. Por fim, o banco também viu sua carteira de crédito crescer 4% no segundo trimestre deste ano e 11,4% na comparação anual. A variação ficou abaixo da dos concorrentes, algo que o Itaú explica como sendo resultado do peso dos empréstimos para grandes empresas (que não têm crescido com o mesmo vigor de outras linhas). O banco prefere destacar que no segmento de varejo (que paga os maiores spreads) o aumento dos empréstimos chegou a 18,8% no semestre, em linha com a previsão para o ano todo (entre 18% e 23%).

Na hora de falar sobre inadimplência, o Itaú é mais cauteloso do que o mercado. Enquanto Bradesco e Santander veem espaço para novas quedas, o Itaú fala até em chance de um ligeiro aumento no terceiro trimestre.

Pode ser que suba um pouco ou caia um pouco disse o diretor-corporativo de Controladoria, Rogério Calderon, explicando que alguns agregados já indicaram risco de reversão.

Não vemos espaço para melhoria (dos indicadores de inadimplência). Mas já estamos em um patamar muito bom.

O mercado elogiou o balanço, mas não deixou de apontar problemas nos números. A analista Laura Lyra Schuch, da corretora Ativa, chamou a atenção para o crescimento nas despesas não decorrentes de juros (de 13%), justificadas pelo banco pelos gastos com propaganda relacionada à Copa e os custos para integração com o Unibanco, processo que só deve ser encerrado no início de 2011.

Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), as ações PN (preferenciais, sem direito a voto) do banco recuaram 3,05% e as ON (ordinárias, com esse direito), 2,21%. Os papéis da Itausa PN caíram 3,96%. Segundo analistas, a queda não teve relação com o balanço, mas com a alta das ações nos últimos dias. Até o pregão de ontem, as ações ON do Itaú Unibanco haviam subido 14,78% em 20 dias e os papéis PN, 18,64%.

Colaborou Bruno Villas Bôas

Indústria cai 1%, pior resultado desde a crise

DEU EM O GLOBO

Com recuo em junho, queda no segundo trimestre atingiu 2%. No semestre, porém, produção cresceu 16,2%

Rennan Setti

A produção industrial brasileira recuou, em junho, 1% em relação a maio a terceira queda consecutiva e a maior desde dezembro de 2008 (12,2%), no auge da crise financeira global. A Pesquisa Industrial Mensal, divulgada ontem pelo IBGE, mostrou ainda que, entre abril e junho, o setor acumulou 2% de queda, com ajuste sazonal. A desaceleração veio dentro do esperado pelos analistas.

No segundo trimestre, a indústria teve expansão de apenas 1,4% comparada ao primeiro, que registrara alta de 3% em relação aos últimos três meses de 2009. Porém, o primeiro semestre do ano registrou expansão de 16,2%, no melhor resultado da indústria do país desde o início da série histórica do IBGE, em 1991.

A desaceleração registrada em junho foi resultado de acomodação após um primeiro trimestre de grande atividade e também pode estar relacionada a fatores como estoques elevados em setores como o automotivo e até à Copa do Mundo, que teve três jogos do Brasil em dias úteis disse o economista do IBGE André Macedo. Apesar disso, a indústria segue em ritmo intenso, apenas 2% abaixo do patamar de março, mês recorde de toda a série histórica.

Carros e máquinas pesam no desempenho negativo A queda de junho foi generalizada.

Todas as categorias industriais e 20 das 27 atividades produtivas recuaram no mês. A categoria que mais puxou a desaceleração foi a dos bens duráveis (3,2%). Segundo Bernardo Wjuniski, analista da consultoriaTendências, a redução da produção de carros, com o fim dos incentivos fiscais para o setor, contribuiu para isso. Já os bens de capital (equipamentos para a própria indústria) caíram 2,1%, seu primeiro resultado negativo desde março de 2009.

Já os setores que mais impulsionaram a queda de junho foram, por exemplo, os de outros produtos químicos (-4,4%), máquinas para escritório e equipamentos de informática (-11,6%) e material eletrônico (-4,9%). Neste último, o que mais pesou foi a redução da produção de televisores após o período da Copa do Mundo. Segundo analistas, o evento esportivo também contribuiu para a redução na atividade industrial com as folgas dadas aos trabalhadores em dias de jogos do Brasil. Cálculo da LCA Consultoria estima que a Copa tenha pressionado o indicador do mês 1,3% para baixo.

Embora o segundo trimestre do ano tenha sido de desaceleração econômica, o forte ritmo de produção no começo do ano fez com que o primeiro semestre de 2010 fosse o melhor semestre para a indústria brasileira desde 1991. Mas André Macedo, do IBGE, alerta para o fato de que a base estatística do ano anterior influenciou o resultado. O primeiro semestre de 2009, que captou os efeitos do auge da crise global, apresentara um tombo de 13,4%.

Analistas acreditam que indústria retomará o ritmo O economista Bernardo Wjuniski espera que o próximo trimestre seja marcado por nova aceleração do ritmo produtivo.

A Tendências prevê que o ano tenha alta de 11% no ritmo industrial.

Acredito que o segundo trimestre foi um período de ajuste e não represente uma tendência de queda para o resto do ano afirmou o analista, que aposta em um Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 0,4%, ante os 2,7% no primeiro. Por isso, avalio que a decisão do Banco Central de reduzir a intensidade do aperto monetário foi equivocada.

Felipe Wajskop França, do ABC Brasil, também avalia que a pressão inflacionária continua forte e que o ritmo de expansão econômica está acima do suportado. Ele estima que o PIB do segundo trimestre apresente alta de 0,7%, enquanto o do ano ficaria em 7,3% O indicador industrial de junho, por ter vindo dentro das perspectivas do mercado, não obrigou os analistas a revisarem suas projeção de PIB.

Futuro contratado :: Miriam Leitão

DEU EM O GLOBO

A produção industrial caiu 2% no segundo trimestre, mais do que a previsão de vários economistas. Mas isso não é problema. A projeção mais comum continua sendo a de que o país vai crescer em torno de 7%. O número bonito no entanto esconde alguns desequilíbrios: os gastos públicos aumentaram, o déficit em conta corrente cresceu e consultorias apontam perda de qualidade da política monetária.

A MB Associados afirmou em relatório que o país começa a entrar em desequilíbrio macroeconômico. Diz que está em estágio incipiente, mas aponta piora nas políticas monetária, fiscal e um déficit crescente nas nossas contas externas. Parece exagero falar isso se a mesma consultoria projeta crescimento de 7% do PIB; 11,8% da indústria; e 9,9% do comércio este ano. Parte da explicação para o desacordo entre os números bons e o diagnóstico ruim está no carregamento estatístico.

Ele mostra que mesmo que a economia pare de crescer até o final do ano, a média do PIB de 2010 já será 6% maior do que a de 2009. Ou seja, esse número robusto, como dizem os economistas, já aconteceu. Representa mais um crescimento passado do que o futuro.

As indicações de políticas monetária e fiscal e as contas do setor externo sinalizam a necessidade de novas medidas de ajuste na economia, que deveriam vir com o próximo presidente.

Enfatizamos que esse cenário de desequilíbrio trará consequências negativas no longo prazo, enquanto no curto prazo o crescimento continuará ocorrendo, disse a MB Associados.

O déficit em conta corrente, segundo projeções do Itaú Unibanco deve atingir 2,5% do PIB este ano, contra 1,6% do ano passado.

Isso quer dizer que aumentou a nossa dependência de poupança externa. O déficit foi de US$ 5,2 bilhões somente no mês de junho.

A MB projeta uma deterioração crescente no déficit nos próximos anos (vejam no gráfico). Com reservas em mais de US$ 250 bilhões, isso não parece problema, mas há sinais amarelos: a balança comercial tem sido favorecida pelos preços altos das matériasprimas no comércio internacional.

Qualquer desaceleração nas principais economias, qualquer redução da importação da China, pode reverter esse cenário de uma hora para outra.

O principal problema é que o déficit está crescendo de forma muito forte. Financiar quase US$ 100 bilhões por ano não será trivial, disse o economista Sérgio Vale, da MB.

Como o Brasil tem baixa taxa de poupança, e o governo tem déficit nominal, o crescimento acaba sendo financiado por poupança externa; o que não é difícil quando não há crise, mas torna o país mais vulnerável às oscilações externas. O que complica a situação é uma conjuntura de elevação dos gastos públicos, como a atual. O economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, que prevê crescimento de 7,2% do PIB este ano, acha inevitável que o próximo presidente, seja quem for, faça ajustes nas contas públicas.

A questão fiscal será uma herança negativa para o próximo governo. Quem assumir terá que aumentar a poupança do setor público para diminuir o déficit em conta corrente. É preciso conter o crescimento das despesas e aumentar os investimentos, do contrário, teremos gargalos de infraestrutura que vão impedir um crescimento maior do PIB explicou.

Para o economista Bernardo Wjuniski, da Tendências, que prevê crescimento de 6,4% do PIB este ano, as projeções de forte crescimento da economia estão escondendo desajustes, principalmente no campo fiscal. Ele explica que a dívida bruta saltou de 55% do PIB antes da crise internacional, em setembro de 2008, para 60,1% em junho deste ano. E chegou a bater em 64% em janeiro.

As projeções de crescimento do PIB estão camuflando políticas econômicas equivocadas no campo fiscal. A dívida bruta cresceu muito, em grande parte pelo fator BNDES, que foi capitalizado com a emissão de títulos públicos do Tesouro. O governo tem dado ênfase no crescimento de curto prazo disse.

Mas para o governo o importante é que haja clima de euforia este ano, para garantir a eleição da sua candidata. Desequilíbrios que estão sendo formados terão que ser enfrentados nos próximos anos.

Freire quer presidente atuante na economia

DEU NO DCI – DIÁRIO COMERCIO, INDÚSTRIA & SERVIÇO

SÃO PAULO - Presidente do PPS - partido que em 2004 rompeu com o governo de Lula e que agora faz parte da coligação que tem José Serra (PSDB) como candidato à Presidência -, Roberto Freire é categórico ao afirmar que o "mercado" e os empresários têm papel importante numa gestão pública, mas não são determinantes.

Ele defende, assim como Serra, que o presidente da República interfira na política econômica. Também é convicto da necessidade da redução da jornada de trabalho e temeroso quando o assunto é a mudança dos índices de produtividade rural.

Em entrevista exclusiva ao DCI, Freire, expoente político de Pernambuco, revela que tentará novo mandato na Câmara Federal, desta vez por São Paulo. Há quatro anos longe da Casa legislativa, disse que se estabeleceu no estado por conta de compromissos de trabalho e da liderança que exerce no PPS. Confira, a seguir, trechos da conversa.

Qual o senhor julga ser a maior contribuição do PPS para o programa de governo do Serra?

O PPS participa com o companheiro Arnaldo Jardim [deputado federal-SP]. Temos contribuições, por exemplo, no campo da reforma política. Fui autor da primeira lei em tramitação no Congresso sobre o financiamento público de campanha, em 1981, ainda na época da ditadura. Isso é uma necessidade há muito tempo. Acredito que hoje, mais do que nunca, é necessário mudar o sistema eleitoral, quebrar a inércia da reprodução de uma representação cada dia menos legítima e de deterioração da própria representação. A atividade política no Brasil está num momento muito grave. Esse governo Lula, inclusive, piorou. O mensalão talvez seja o mais emblemático disso.

Parece ser uma unanimidade que a reforma tem de sair, mas ela não avança. O que acontece?

Num sistema presidencialista, como o nosso, se você não tiver um Executivo que deseje fazer, não se faz. É muito difícil você ter consenso num Congresso em que você está discutindo a sua própria formação. Eu tenho vários motivos para votar em Serra, este é um deles. Ele não vai fazer concessões para ter maioria num Congresso. Ele vai trabalhar politicamente, mas não vai entrar em processos espúrios, o que foi uma marca do governo de Lula.

Na área econômica, o que o senhor destacaria?

Aí eu tenho de ter um certo cuidado porque não só Serra é especialista no assunto como ele tem posições bem firmes. O que eu posso dizer é que, do ponto de vista econômico, nós temos muita identidade com o que ele pensa há muito tempo. Por exemplo, ele foi um certo crítico da política ainda no Governo FHC. E foi um dos motivos para rompermos com o governo de Lula, que deu continuidade a essa política. Ela só não demonstrou seu esgotamento porque a economia internacional, até pelo menos 2008, experimentou um crescimento. Claro que estamos um pouco melhor do que ontem, mas quando você compara com o resto do mundo a tragédia aparece. Até porque Lula é um grande cuidador de cemitérios. Se você pegar o governo vai ver o que já morreu pelo caminho: Fome Zero, Primeiro Emprego, o Banco do Povo, o PAC já ninguém fala mais. O pobrezinho ficou órfão porque ninguém fala da Dilma como mãe. O Brasil é um dos países que menos investe dentre os em desenvolvimento, tem a mais alta taxa de juros, tudo isso em detrimento do seu crescimento.

E a questão da equipe econômica homogênea que o Serra fala tanto?

Isso é uma coisa fundamental. O governo de Lula só não apareceu nenhuma grave crise dessa incongruência da equipe econômica porque, como eu disse, a economia mundial beneficiava tudo. Então ninguém se preocupava, por exemplo, em ter um vice-presidente da República que parecia um mote perpétuo, só falava contra os juros. De vez em quando está brigando a Fazenda com oBanco Central. Começa a faltar coerência interna. Quem tem de garantir essa coerência é o presidente da República.

Isso significa uma interferência?

Do presidente? Claro! Eu o elegi para isso. Esse é um grande drama do neoliberalismo: quem manda são as forças de mercado. Então, política para quê? Por isso voto em Serra. Eu respeito o mercado, claro, mas não é o mercado que vai mandar, não. Quem manda é a política, até porque o mercado não resolve tudo.

Isso não traz aquele temor que havia em trocas de governo?

O mercado tem de entender que não é ele que governa o Brasil. Quer um exemplo? Nos Estados Unidos o presidente Barack Obama fez uma regulamentação dura do sistema financeiro. E não era para fazer? Aqui, no Brasil, porque é Lula o mercado faz o que bem entende? Com Serra não vai fazer. Serra disse isso muito bem e as pessoas entenderam: Banco Central não é a Santa Sé.

O senhor foi ligado à área agrária. O que acha dessa proposta que está no Congresso sobre a reformulação dos índices de produtividade?

Eu acho algo meio perigoso porque eu não quero desorganizar o que no Brasil é algo muito importante na nossa economia. O que nós precisamos enfrentar são os nossos bolsões de miséria, que ainda está muito vinculada ao latifúndio, às áreas improdutivas. Hoje há uma população expressiva atendida em programas de reforma agrária no Brasil. Isso não é Serra falando, é o PPS, o Roberto Freire. Talvez num primeiro momento seja necessária uma avaliação dos que já foram beneficiados e de como estão. Ouve-se falar que em muitos desses assentamentos as pessoas ainda estão sobrevivendo de cestas básicas. Isso é uma incongruência. Índice de produtividade, se valer alguma coisa, é para que ele seja superado, não tem de ser analisado apenas para efeito de desapropriação.

Outro braço-de-ferro no Congresso é a questão da redução da jornada de trabalho. Qual sua avaliação?

Sou favorável. Tem um panfleto célebre na história da humanidade que é o Manifesto Comunista de Karl Marx. Sabe qual é a sua consigna revolucionária? A jornada de trabalho de 8 horas. Naquela época, você trabalhava 12 horas. Será que depois de mais de 100 anos, 8 horas ainda é algo que não pode ser mudado? Você pode ter uma sociedade com mais horas de lazer, até porque na economia moderna hoje lazer é um setor importante.

Os empresários são contrários...

Mesmo argumento do mercado. É importantíssimo o papel que eles exercem, mas eles não mandam no País. O processo democrático vai decantar o que nós devemos fazer, o que é melhor para a sociedade como um todo. Eu vou defender as 40 horas. E também quero avisar: isso não tem nada a ver com o programa do governo, isso é Roberto Freire, PPS.

Se esse item for para a próxima legislatura e um eventual governo de Serra for contrário, o senhor vai se manter favorável?

O PPS vota, claro. Até porque isso não é um assunto de princípios do governo.

O senhor foi crítico quanto à gestão de Lula. Mas, segundo mandato, índice de aprovação histórica... qual é o mérito do governo?

Não tem presidente nem primeiro-ministro que nesse período de boom econômico não foi bem avaliado. Não vamos esquecer que Fernando Henrique ganhou no primeiro turno porque a economia ia bem. A crise trouxe uma dura realidade para ele. Eu acrescento algo mais. Lula teve pouca oposição e se converteu numa celebridade. O governo de Lula é governo de eventos. Quem aparece todo dia na televisão tem popularidade.

Quando o senhor diz que o governo de Lula teve pouca oposição faz uma autocrítica?

Não... até porque a gente fez com ética, rompeu com o governo quando começou a discordar... Só que era um pequeno partido, a repercussão não era tão grande.
(Publicado ontem, 3/8/2010)

Há poetas que são artistas:: Fernando Pessoa


E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao solo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.