terça-feira, 7 de novembro de 2017

Opinião do dia: Luiz Werneck Viana

Qual o significado da campanha sem quartel para a derrubada do governo Temer vinda de círculos da direita em convergência com setores que reivindicam uma identidade à esquerda do espectro político? Certamente deve haver um. Mas qual? A esta altura parece claro que a via parlamentar não é propícia a esses propósitos, dado que o governo dispõe de folgada maioria nas duas Casas congressuais.

De outra parte, as ruas têm feito ouvidos moucos, ao menos até então, às incitações a manifestações de protesto contra o governo que lhes vêm dos meios de comunicação, em particular de sua rede mais poderosa e de ação mais capilar sobre a opinião pública, mantendo-se silenciosas. A intervenção militar, uma possibilidade teórica no quadro caótico que aí está, a quem serviria? Além de serem poucos os que a preconizam e de os militares não a desejarem, a experiência de 1964 deixou patente que as elites políticas que atuaram em favor de uma intervenção desse tipo foram logo decapitadas ou cooptadas pelo regime militar. Tais lições amargas não terão sido esquecidas, mesmo pelos que ora flertam com ela.

Então, o que é isso que temos pela frente? Dado que não é de todo plausível a hipótese de que a sociedade tenha ensandecido, como se faz demonstrar na vida cotidiana dos brasileiros que tocam sua vida no trabalho e nos estudos, em sua imensa maioria à margem de uma cena política que avaliam estar fora do seu raio de influência, o charivari nacional que nos atordoa tem sua fonte original na própria política e em suas instituições e atende pelo nome de sucessão presidencial.

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* Luiz Werneck Vianna é sociólogo, PUC-Rio, “A política, os feitiços e os feiticeiros”, O Estado de S. Paulo, 5/11/2017

Eliane Cantanhêde: Tripla proeza de FHC

- O Estado de S.Paulo

Ao defender desembarque de tucanos, FHC enfraquece Temer e PSDB e fortalece PT

Fernando Henrique Cardoso é um dos raros líderes a sobreviver nessa terra arrasada da política brasileira. Até por isso, e por ser um ex-presidente bem-sucedido e um intelectual com conhecida lucidez, que ele deve ter cuidado redobrado com o que diz e escreve. Milhões de órfãos de ideias e referências não têm muitas outras estacas para se agarrar.

Dito isso, uma dúvida: Fernando Henrique tem o direito de pensar e se manifestar apenas como líder de um partido, o PSDB? Ou ele tem o dever e a obrigação de agir como um estadista, um líder que se preocupa antes de tudo com o País?

A Constituição prevê que o impeachment de um (ou uma) presidente não é votado por juristas, mas por políticos, e determina que o (ou a) presidente só pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal depois do aval da Câmara dos Deputados. Por quê? Porque juristas, em geral, e ministros do STF, em particular, julgam com base unicamente na lei, enquanto políticos votam, em tese, refletindo o que é melhor para o País naquele momento.

Foi assim que Dilma Rousseff caiu. Além das “pedaladas”, tecnicamente comprovadas, houve um consenso de que o Brasil não resistiria a mais dois anos de erros crassos na economia e na condução política. E foi assim que Michel Temer assumiu e venceu (ou adiou) duas denúncias da PGR. Além de estar escrito na Constituição que o vice assume, seja ele João, Maria ou Michel, há um consenso de que derrubar Temer seria jogar o Brasil num buraco ainda mais profundo.

Merval Pereira: Força externa

- O Globo

No momento em que vários movimentos contrários à Operação Lava-Jato, no Legislativo e no Judiciário, tentam conter as investigações contra a corrupção, vem do exterior o reconhecimento dos que fizeram dela um dos mais importantes trabalhos contra a corrupção já realizados.
A força-tarefa coordenada pelos procuradores da República em Curitiba foi reconhecida ontem, mais uma vez, como o órgão de investigação criminal do ano pelo prêmio da Global Investigations Review, o mesmo que já havia vencido em 2015.

E o juiz Sergio Moro, responsável pelos processos de primeira instância da Operação Lava-Jato, será, em maio de 2018, o orador convidado da 173ª turma de formatura da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, papel que já foi desempenhado em outras ocasiões pelo ex-presidente americano Barack Obama e o ex-secretário-geral da ONU Kofi Anan.

Sergio Moro havia sido homenageado em outubro com o Prêmio Notre Dame, o mesmo já concedido, entre outros, à Madre Teresa de Calcutá e ao ex-presidente americano Jimmy Carter e sua mulher, Rosalynn. O prêmio é “entregue periodicamente para homens e mulheres cuja vida e obra demonstram dedicação exemplar aos ideais pela qual a Universidade preza”. (...) “Os homenageados previamente com o Prêmio Notre Dame, cada um à sua maneira, atuaram como pilares de consciência e integridade, suas ações beneficiando seus compatriotas e, através de seus exemplos, o mundo inteiro, quando se comprometeram com a fé, a justiça, a paz, a verdade e a solidariedade com os mais vulneráveis”, informa a Universidade.

Ao receber o prêmio, o juiz Sergio Moro fez uma afirmação que já se tornou emblemática: “(...) há razões para acreditar que a era dos barões da corrupção está chegando ao fim no Brasil.”

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, ao anunciar a premiação da força-tarefa de Curitiba no Facebook, disse que o maior prêmio seria “resgatar o país das mãos de um sistema político criminógeno. (...) mais que prêmios, precisamos de mudanças. De outra forma, daqui a alguns anos, estaremos diante do mesmo descalabro que vemos hoje na política brasileira”.

Raymundo Costa: Meirelles aposta na reforma por 2019

- Valor Econômico

Para ministro, reforma interessa governo e oposição

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, descarta inteiramente a hipótese de que sua eventual candidatura a presidente possa de alguma forma prejudicar a votação e aprovação da reforma da Previdência. Primeiro porque o fato de se considerar "presidenciável" não significa necessariamente que vá disputar a cadeira de Michel Temer no Palácio do Planalto. Segundo por achar que todos os partidos empenhados em assumir o poder em 2019 têm interesse na aprovação da reforma da Previdência.

Queira ou não, o fato é que Meirelles, no momento em que se reconheceu "presidenciável", passou a ser visto e tratado como potencial candidato. Sua passagem pelo Conselho Consultivo da J&F está sob o microscópio da imprensa e dos adversários. E agora surgiram denúncias sobre uma suposta conta não declarada no exterior, na realidade um fundo que o ministro usava para fazer benemerência e efetivamente estaria declarada no Brasil.

O ministro acha que está blindado tanto num caso como no outro. No aspecto político, se diz convencido de que não é o fato de ser considerado "presidenciável" que deverá atrapalhar a reforma previdenciária, a joia da coroa perseguida pelo presidente Michel Temer. E não acredita nessa hipótese por "duas razões importantes", segundo afirmou ontem ao Valor, em declaração à coluna.

Hélio Schwartsman: Direitos humanos no Enem

- Folha de S. Paulo

A exemplo do MBL, o Escola Sem Partido simboliza bem a indigência intelectual do país. Ambos os movimentos se valem de raciocínios teóricos típicos de quem nunca se aventurou muito além de "Reinações de Narizinho".

Ainda assim o Escola Sem Partido acabou inadvertidamente fazendo algo útil. Ao pedir à Justiça e dela obter uma liminar que suspende o item do edital do Enem que considera nula toda e qualquer redação que "desrespeite os direitos humanos", o movimento trouxe uma discussão interessante.

Com efeito, a atitude do Inep, o órgão do MEC que elabora e corrige a prova, de dar nota zero a essas dissertações sem nem sequer considerar os argumentos que lá estejam é coisa de quem nutre o pensamento religioso —"não conspurcarás o nome dos direitos humanos"—, não de educadores preocupados em ensinar pela via do convencimento.

Rubens Bueno: Mão grande nos fundos de pensão

- Blog do Noblat

A Superintendência de Seguros Privados decidiu intervir no Fundo de Previdência dos Funcionários dos Correios – Postalis. Essa notícia, à primeira vista, deveria trazer alívio aos participantes, pensionistas e aposentados do Fundo e demonstrar que o estado brasileiro estaria exercendo sua função na plenitude.

Todavia, a expressão popular “antes tarde do que nunca”, para ser válida neste caso, precisa de explicações que ainda não foram dadas a uma categoria de trabalhadores que não foram atendidos pela PREVIC, quando clamaram pela intervenção no POSTALIS, para afastar dirigentes que se mostravam totalmente relapsos com os recursos dos participantes e assistidos.

A legislação de previdência privada no Brasil é uma das mais modernas. Porém não foi capaz de frear uma avalanche de desmandos e irregularidades encontradas no setor, principalmente nos fundos privados de previdência complementar, onde a presença do estado se fazia presente com a indicação política dos diretores.

O Postalis é um dos maiores fundos de pensão de estatais do país em número de participantes ativos e beneficiários e vem sofrendo com um déficit de R$ 7,4 bilhões. Rombo decorrente da má gestão dos recursos, que tem sua raiz no aparelhamento político sob o governo do PT.

Luiz Carlos Azedo: 100 anos depois

- Correio Braziliense

O centenário da Revolução de Outubro, por causa da adoção do calendário gregoriano pelos russos, um legado dos bolcheviques, comemora-se hoje. A Revolução Russa, que começou em fevereiro, com a destituição do czar Nicolau II, provocou grande entusiasmo entre os intelectuais brasileiros antenados no mundo. Já naquela época, havia socialistas de diversos matizes nos nossos meios intelectuais, mas o que predominava no movimento operário e sindical, que promoveu uma onda de greves por todo o país naquele mesmo ano, eram as ideias anarquistas.

Foi nesse meio que surgiu o Partido Comunista, sob a liderança de Astrojildo Pereira, em 1922, o mesmo ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo. A mesma divisão que ocorrera na Rússia entre social-democratas e comunistas, a partir da tomada do poder pelos bolcheviques, se reproduziu em todo o mundo. No Brasil, não foi muito diferente. Num período conturbado da República, que estava sob comando das oligarquias, muitas das quais remanescentes do regime escravocrata, o antigo Partido Comunista (PCB) era uma seção da III Internacional, refletia a doutrina e seguia as orientações de Moscou, em confronto aberto com os social-democratas e outras tendências socialistas.

Míriam Leitão: Desfazer o nó

- O Globo

O Tribunal de Contas da União é que definirá que tipo de solução o Banco Central pode aprovar em relação à Caixa Econômica (CEF). Ela precisa de capital para se enquadrar nas resoluções de Basileia. A direção executiva da CEF havia sugerido soluções que não agradaram ao BC e ao Tesouro. Agora se discute uma ideia que terá que ser aprovada pelo Conselho do FGTS, e, depois, pelo TCU.

A proposta é transformar R$ 10 bilhões da dívida do FGTS em capital, tornando o Fundo dono de uma parte do banco. Sendo capital, pode ser mais bem remunerado, mas ao mesmo tempo há mais riscos, afinal pode ter que absorver perdas inesperadas. Por isso terá que ser aprovado pelo credor, no caso o Conselho do FGTS, mas precisa ainda de que o TCU considere que a solução se enquadra nas regras existentes.

Essa consulta informal ao TCU tem se tornado rotina no governo, exatamente para evitar que se crie novos problemas como as pedaladas ou soluções criativas inventadas pelo governo passado e que até hoje estão tendo desdobramentos.

José Márcio Camargo *: Alvo móvel na mira do BC

- O Estado de S.Paulo

Sem reformar a Previdência, em 20 anos aposentadorias e pensões consumirão toda a receita do governo federal

O Banco Central (BC) do Brasil voltou a reduzir a taxa básica de juros (Selic), desta vez em 0,75 ponto de porcentagem. Ao mesmo tempo, sugeriu em seu comunicado pós-reunião que deverá continuar o processo de queda da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Com isso, a taxa deverá atingir o nível mais baixo desde a estabilização da economia, em 1994 (provavelmente 7,0% ao ano). A pergunta que estão se fazendo os investidores é se vai parar aí ou se tem mais espaço para cair.

Ao contrário do que ocorreu na experiência anterior em que o BC adotou uma política similar (de forte queda da Selic) em 2012/2013, desta vez todos os indicadores sugerem que a redução é sustentável, ou seja, a taxa poderá permanecer em níveis relativamente baixos por um período relativamente longo de tempo.

Cláudio de Oliveira: Julius Martov e a Revolução Russa

- Gramsci e o Brasil

Julius Martov foi uma das mais proeminentes personagens da Revolução Russa de 1917. Líder dos internacionalistas, facção de esquerda dos mencheviques, ele se opôs à participação dos socialistas nos governos provisórios após a Revolução de Março e a abdicação do czar Nicolau II [1]. Foi também contrário à permanência da Rússia na I Guerra Mundial. A continuidade no conflito agravou a crise econômica do país e a insatisfação popular abriu caminho para a Revolução de Novembro, quando então os bolcheviques tomaram o poder, liderados por Vladimir Lenin [2].

No dia 8 de novembro, dia seguinte à insurreição, durante o 2º Congresso dos Sovietes — os conselhos de representantes de operários, camponeses, soldados e marinheiros — Martov propôs a formação de um governo de união de todas as correntes do socialismo russo para evitar que o país mergulhasse no caos. Para desespero de Martov, a maioria dos mencheviques e socialistas revolucionários se retirou do encontro em protesto contra o levante. O gesto dificultou a negociação apoiada por líderes bolcheviques como Grigori Zinoviev e Lev Kamenev. No entanto, a resposta da maioria bolchevique à proposta veio de Leon Trotski:

As massas populares seguiram nosso estandarte e nossa insurreição é vitoriosa. E agora nos dizem: Renunciem à vitória, façam concessões, cedam. A quem? Eu pergunto: a estes grupos deploráveis que nos abandonaram ou a quem apresenta tal proposta? [...] Ninguém na Rússia continua ao lado deles. Um acordo só pode ser firmado entre partes iguais [...]. Mas aqui não há acordo possível. Àqueles que nos deixaram e àqueles que nos aconselham a transigir, respondemos: Vocês são corruptos miseráveis, sua função acabou; vão para onde devem ir — para a lata de lixo da história.

Martov então se concentrou nas eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas no final daquele mês. Porém, os mencheviques obtiveram uma votação de apenas 3%. Contrariando a arrogância e o sectarismo de Trotski, os vencedores foram os socialistas revolucionários, com 40% dos votos, ao suplantarem os 24% dados aos bolcheviques [3]. Os liberais do Partido Constitucional Democrata obtiveram 5% dos votos. Em minoria e com ajuda de soldados que participaram da insurreição, os bolcheviques fecharam a Constituinte.

Iniciada a guerra civil, Martov apoiou o Exército Vermelho contra a intervenção estrangeira e o Exército Branco, comandado por generais monarquistas. Apesar do apoio ao governo soviético no combate à contrarrevolução, o líder menchevique foi um crítico contundente da repressão generalizada, opondo-se ao fechamento de jornais liberais e às perseguições aos partidos que faziam oposição pacífica. As posições de Martov indicavam a possibilidade de uma alternativa democrática e socialista tanto ao último governo provisório — liderado pelo trudovique Alexander Kerensky —, quanto à ditadura comunista que se seguiu [4]. A bibliografia sobre Martov em português é quase inexistente. Após o fim da União Soviética, em 1991, foram publicados vários livros revalorizando o papel de Martov na Revolução Russa. Porém, a obra fundamental sobre ele foi publicada ainda em 1967 pela Editora da Universidade de Cambridge, do Reino Unido, em coedição com a Universidade de Melbourne, da Austrália. Intitulada Martov – A Political Biography of a Russian Social Democrat, é de autoria de Israel Getzler (1920-2012), professor da Universidade de Jerusalém, e continua inédita no Brasil.

A questão democrática
A obra de Getzler traz as polêmicas entre Martov e Lenin, como a de 1903, durante o 2º Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), sobre a organização do partido: se dirigido por um comitê centralizado, mas aberto à filiação de todos os que aderissem ao seu programa, como defendido por Martov, ou se por um círculo composto exclusivamente de revolucionários profissionais, como queria Lenin. A proposta vencedora foi a de Martov. O livro relata a ação posterior de Lenin para alcançar a maioria, pois, mesmo vencendo no Congresso, Martov e seus partidários ficaram em minoria no Comitê Central, o que causou a divisão do POSDR em duas alas: mencheviques (partidários da minoria, em russo) e bolcheviques (partidários da maioria).

A discussão sobre a forma de organização partidária revelava duas questões de fundo que marcarão todas as divergências entre Martov e Lenin: a avaliação que faziam do nível de desenvolvimento econômico da Rússia e a concepção de cada um sobre o Estado e a democracia. Lenin acreditava que o capitalismo estava suficientemente desenvolvido para uma revolução socialista e defendia um governo forte e centralizado — a ditadura do proletariado. Martov avaliava que o país não estava suficientemente industrializado, possuía um operariado pequeno e uma grande massa de camponeses analfabetos. Propunha uma estratégia democrática e reformista, como já praticada por socialistas franceses e alemães.

Rede de desinformação – Editorial: Folha de S. Paulo

A ascensão de Donald Trump, cujo triunfo nas urnas completa um ano nesta quarta (8), tornou-se ponto de inflexão no debate sobre o emprego de redes sociais para disseminar notícias falsas, particularmente em disputa eleitoral.

Há farta evidência de que usuários russos, ligados ou não ao Kremlin, tentaram interferir no pleito por meio da desinformação.

Sabe-se, também, que o estratagema visava, em grande parte, favorecer o então candidato republicano. Numa frente, o FBI (polícia federal) investiga suposto elo da equipe de campanha com o governo da Rússia. Já o Legislativo apura como a operação virtual se fez possível e qual foi seu impacto.

Investimento e seriedade – Editorial: O Estado de S. Paulo

Com muita capacidade ociosa, a economia brasileira ainda tem espaço para crescer por algum tempo, mas a partir de 2019 será preciso cuidar mais do investimento produtivo, disse ontem o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Em outras palavras, ainda por um ano, ou pouco mais, a expansão econômica poderá ser puxada pelo aumento do consumo, sem risco de grande pressão inflacionária. Essa declaração dá uma descrição razoável de um país apenas saído de uma longa e funda recessão e em fase inicial de crescimento. Sobra capacidade instalada na maior parte da indústria e ainda é possível aumentar a produção, para atender à demanda em recuperação, sem muita despesa em máquinas, equipamentos e instalações. Esse é um aspecto positivo da situação nacional: a primeira etapa da recuperação é mais fácil do que seria se dependesse da ampliação e da modernização do parque produtivo. A mensagem é essencialmente correta, mas comporta alguma qualificação – o que é normal, quando se trata de uma entrevista, ou seja, de um jogo rápido de perguntas e respostas.

Pressão por alta de juros testará Powell no comando do Fed – Editorial: Valor Econômico

Para os padrões extravagantes das decisões de Donald Trump a escolha de Jerome Powell para chefiar o Federal Reserve foi recebida sem surpresa ou polêmicas pelos investidores. Rico, moderado, republicano com bom trânsito no partido, ele tem seguido Janet Yellen nas principais decisões de política monetária e apoiado a estratégia bastante gradual de elevação dos juros e de redução da montanha de US$ 4,5 trilhões acumulados no balanço do Fed para fazer frente à Grande Recessão iniciada em 2008. Só a revanche política pode explicar por que, se era para manter a continuidade de orientação do banco, Yellen não foi convidada a permanecer no comando do banco central mais poderoso do mundo.

Com expectativas cada vez mais baixas diante dos atos de Trump, os mercados praticamente não se moveram depois da indicação, um sinal de que foram rejeitados os principais "finalistas" da lista do presidente que poderiam provocar terremotos financeiros - Kevin Marsh e John Taylor. Críticos do relaxamento monetário, eles possivelmente imprimiriam uma cadência altista mais rápida nos juros. Para Taylor, pai da regra que leva seu nome, os juros já estariam acima dos 2% se presidisse o Fed.

Região Metropolitana requer plano de mobilidade – Editorial: O Globo

Grandes obras feitas para Copa e Olimpíada ficaram restritas à capital fluminense. Integração entre os transportes é precária, e a tarifária não existe

Apesar de investimentos de R$ 13,6 bilhões em transportes nos últimos anos, com foco na Copa e na Olimpíada, a mobilidade urbana teria se desenvolvido de forma desigual para o conjunto da população fluminense. É o que mostra reportagem do GLOBO publicada ontem, com base em estudo do economista Rafael Pereira, do Ipea. Segundo a pesquisa, as obras foram feitas em regiões de renda média e média alta da cidade, contribuindo para o isolamento da Região Metropolitana.

O estudo traduziu em números algumas desigualdades. Em 2014, os 10% mais pobres do Rio conseguiam chegar em até uma hora a 15% dos empregos. Agora chegam a 16%. Já os 10% mais ricos levavam até uma hora para alcançar 30% dos locais de trabalho. Hoje, esse percentual subiu para 36%.

Prova contra Temer foi forjada, diz Cunha

Compra de silêncio foi 'forjada' para derrubar Temer, diz Cunha

Em depoimento à Justiça, ex-deputado afirma que flagrante de Joesley contra presidente foi armada pela PGR

Reynaldo Turollo Jr., Fábio Fabrini / Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) negou nesta segunda (6) que seu silêncio tenha sido "comprado" para evitar que fizesse delação e implicasse o presidente Michel Temer.

Em depoimento prestado à Justiça Federal em Brasília, ele disse que a suposta trama –levantada na colaboração do empresário Joesley Batista, da JBS– foi montada pela PGR (Procuradoria-Geral da República) para provocar a queda do presidente.

A acusação embasou a segunda denúncia ajuizada pelo ex-procurador geral da República Rodrigo Janot contra Temer. A Câmara negou prosseguimento à ação.

"Queriam atribuir isso para justificar uma denúncia que pegasse o mandato do senhor Michel Temer. Prova forjada, deram uma forjada e o senhor Joesley foi o cúmplice dessa forjada. Ele está pagando por isso o preço agora", declarou Cunha, referindo-se ao pedido de rescisão da delação do empresáriopor suspeitas de que tenha omitido informações dos investigadores.

Cunha alegou que o MPF (Ministério Público Federal) não lhe havia proposto uma colaboração. "Ele [Joesley] construiu a retórica de que o senhor Michel Temer era complacente com a compra do silêncio para eu não delatar", comentou.

Sem delação, Cunha muda estratégia e ataca Funaro

Lava Jato. Em depoimento, deputado cassado diz que suposta compra de silêncio foi ‘forjada’ para derrubar presidente; peemedebista levanta suspeição contra ministro

Fabio Serapião, Beatriz Bulla / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - Preso pela Lava Jato, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) negou em interrogatório ter recebido dinheiro do empresário Joesley Batista para não fazer delação e disse que a suposta compra do seu silêncio foi “forjada para derrubar” Michel Temer. Ele também atacou Lúcio Funaro. As declarações revelam nova estratégia de Cunha após o encerramento da negociação de seu acordo de delação.

Após ter a negociação de um acordo de colaboração encerrada com o Ministério Público Federal (MPF), o deputado cassado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ataca a delação do corretor Lúcio Funaro, apontado como operador de seu partido, e ensaia uma defesa do presidente Michel Temer. Segundo Cunha, uma suposta compra de seu silêncio pelo empresário Joesley Batista, do Grupo J&F, com anuência do presidente, foi “forjada para derrubar o mandato” do peemedebista.

Preso em Curitiba desde outubro do ano passado e condenado na Lava Jato, Cunha prestou ontem depoimento na 10.ª Vara Federal Criminal de Brasília ao juiz Vallisney de Souza Oliveira na Operação Sépsis, que investiga pagamento de propina por empresas em troca de liberação de aportes do Fundo de Investimento do FGTS (FIFGTS). Enquanto acenava com a possibilidade de um acordo de delação, Cunha chegou a apresentar perguntas “constrangedoras”, nas palavras do juiz Sérgio Moro, a Temer.

Cunha nega compra de silêncio por Joesley

Murillo Camarotto | Valor Econômico

BRASÍLIA - O ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) disse ontem em depoimento à Justiça Federal que a tese de compra do seu silêncio pela JBS foi forjada para forçar a derrubada do presidente Michel Temer. Segundo ele, o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot cometeu uma série de equívocos na ânsia de tirar o presidente do cargo. Cunha admitiu ter promovido reuniões entre Temer e empresários, inclusive Joesley Batista, mas negou que os encontros trataram de propina.

"Queriam atribuir isso (a compra do silêncio) para justificar uma denúncia que pegasse o mandato do senhor Michel Temer. Prova forjada, deram uma forjada e o senhor Joesley foi o cúmplice dessa forjada", disse Cunha ao juiz Vallisney de Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília. Cunha é réu em processo relativo à Operação Sepsis, que investiga um esquema de cobrança de propina relacionado ao FI-FGTS, braço de investimentos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.

Em quase seis horas de depoimento, Cunha não fez qualquer acusação contra Temer. O único integrante da alta cúpula do governo atingido por ele foi o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, acusado por Cunha de mentir em depoimentos à Justiça. O ex-deputado, entretanto, não relatou nenhum episódio de recebimento de propina por parte do ministro, mas disse de forma irônica que, "em se tratando de Moreira Franco, ele deve ter recebido". Procurado, o ministro disse que "são notórias as divergências políticas entre mim e o ex-deputado, portanto, não me surpreende qualquer juízo de valor."

Alckmin diz que não é candidato a presidente do PSDB

Thais Bilenky / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), disse nesta segunda-feira (6) que "não é candidato a presidente do PSDB e sugeriu que a nova direção partidária seja composta pelas duas alas tucanas em disputa.

"Não tenho nenhuma pretensão de presidir o partido e todo o nosso esforço é de uni-lo", disse o tucano, no Palácio dos Bandeirantes.

Apesar das declarações públicas, tucanos captam interesse de Alckmin no posto, e aliados trabalham para viabilizá-lo no comando do partido. Interlocutores do governador paulista dizem que a intenção é que seu nome surja como solução para o problema da disputa interna.

Há meses, o PSDB vive um racha em torno do apoio ao governo do presidente Michel Temer. A ala governista, liderada pelo senador Aécio Neves, defende o nome do governador de Goiás, Marconi Perillo, para assumir o partido a partir de dezembro, ainda que o goiano tenha defendido o desembarque.

A ala crítica a Temer quer o senador Tasso Jereissati (CE), que assumiu interinamente a presidência da sigla após o afastamento de Aécio.

Tasso ganha apoio de intelectuais no PSDB

Por Vandson Lima, Raphael Di Cunto e Marcelo Ribeiro | Valor Econômico

SÃO PAULO - Defendido pelos chamados "cabeças-pretas" do PSDB para continuar no comando da sigla, o presidente interino Tasso Jereissati (CE) ganhou reforço em sua possível candidatura. Intelectuais ligados à legenda, Bolivar Lamounier, Edmar Bacha, Elena Landau, Luiz Roberto Cunha e Pérsio Arida divulgaram ontem um manifesto em seu apoio.

"Este é um manifesto em apoio à candidatura de Tasso à Presidência do PSDB. Mais do que nomes ou correntes partidárias, o que está em jogo é a postura que do partido diante do governo Temer", anuncia o longo texto, que enumera propostas e caminhos para os tucanos na política econômica e na agenda social.

"O PSDB deve aprovar as reformas que modernizem o Brasil. Mas não deve participar de um governo que não parece ter se comportado de acordo com os preceitos éticos", aponta o texto. "O PSDB precisa voltar a ser o PSDB do Plano Real, capaz de formular e implementar a agenda de reformas necessária para que o Brasil volte a crescer".

Governador do MS adere a Marconi e diz que sair da base é "equívoco"

Por Fernando Taquari | Valor Econômico

SÃO PAULO - O governador de Goiás, Marconi Perillo, ganhou um novo aliado em sua disputa com o senador Tasso Jereissati (CE) pela presidência do PSDB. Governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja engrossou o coro dos tucanos que consideram o goiano o melhor nome para unificar o partido a partir de dezembro, quando uma nova executiva deve ser eleita.

"Sou entusiasta da candidatura do Marconi Perillo. Ele é conciliador, busca a unidade interna, e não a divisão", afirma Azambuja ao Valor. "Tasso é ótimo companheiro, mas entendo que o PSDB deve ter um presidente conciliador, que converse com todos os lados que estão se digladiando", acrescenta.

Tasso tem o apoio dos tucanos chamados de "cabeças pretas", que defendem o rompimento com o governo Michel Temer e uma autocrítica no PSDB diante de erros cometidos por sua lideranças. Marconi Perillo está mais próximo da ala governista.

Governistas afirmam que PSDB pode ficar sem apoio em 2018

Aliados de Temer responderam a ultimato dado por FH em artigo

Maria Lima e Leticia Fernandes / O Globo


-BRASÍLIA- Irritados com a pressão dos tucanos que pregam o desembarque do governo já em dezembro, na convenção nacional do partido, interlocutores do presidente Michel Temer e lideranças do PMDB já falam abertamente que essa ruptura pode inviabilizar uma aliança futura para apoiar o candidato do PSDB a presidente no ano que vem. O ultimato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com críticas duras ao PMDB e ao governo, pode azedar de vez a parceria dos tucanos com o PMDB nacional.

Apesar do incômodo evidente, o presidente Michel Temer disse ontem que não ficou “irritado ou magoado” com as críticas do ex-presidente. A expectativa no Palácio do Planalto é que o PSDB, que ocupa quatro ministérios na gestão Temer, mantenha o apoio à administração do peemedebista e que o ajude a aprovar matérias prioritárias, em especial a reforma da Previdência.

— Tenho mais de 30 anos de vida pública para ficar irritado ou magoado com alguém por escrever um artigo — disse o presidente, segundo assessores.

Apesar de Temer não ter subido o tom contra FH, auxiliares do Palácio avaliam, por outro lado, que “ninguém está no governo obrigado” e apostam que o PSDB não sairá em dezembro, como defende Fernando Henrique e uma ala do partido. Para alguns auxiliares do presidente, o timing do desembarque tucano “já passou”.

Para pressionar Temer a expulsar tucanos, base aliada vai sabotar projetos do governo na Câmara

Painel / Folha de S. Paulo

Risco de septicemia A novela mexicana do PSDB sobre a manutenção do apoio a Michel Temer deu fôlego aos setores da base aliada que querem ver os tucanos fora do governo o mais rápido possível. O incômodo se alastrou de tal forma que nem o PMDB, partido do presidente, demonstra solidariedade. O centrão diz que o Planalto deveria chutar o PSDB antes de ser chutado, em dezembro ou no início de 2018. Nesta semana haverá um ultimato: a disposição é a de não votar nem sequer um projeto do governo.

Vem a calhar Tucanos que tentam retardar a saída do governo dizem que, com a sigla oficialmente fora, parte significativa da ala que quer o desembarque se sentirá desobrigada de apoiar reformas, como a da Previdência, às vésperas do ano eleitoral.

Deixe-os ir O impasse no tucanato ampliou o poder de fogo do centrão. O deputado Benito Gama (PTB-BA) resume a tragicomédia: “Temer, para salvar 22 votos do PSDB, vai perder 200”.

Preço de mercado Os que querem que o Planalto desaloje o PSDB antes que o partido o faça por conta própria afirmam que um gesto tardio será mal recebido. Redistribuir postos após ser abandonado, dizem, dará a impressão de que Temer “está servindo a xepa”.

Nunca termina Um grupo de tucanos exigirá que Tasso Jereissati (PSDB-CE) deixe o comando interino do partido assim que ele oficializar sua candidatura à presidência da sigla. Essa ala diz que a permanência do senador cearense no posto fere a isonomia da disputa com Marconi Perillo (PSDB-GO).

Combate a fake news pelo TSE gera debate

Coluna do Estadão / O Estado de S. Paulo.

Gigantes do setor de tecnologia acompanham com atenção as discussões no TSE sobre o combate a fake news na campanha de 2018. Uma das preocupações do setor é com a diferenciação do que é uma manifestação espontânea dos próprios eleitores e do que pode ser configurado como propaganda eleitoral. As empresas também alertam que as determinações judiciais que envolvam retirada de conteúdo deverão conter especificamente o endereço na rede (URL) do material que deve sair do ar, para garantir a remoção do conteúdo correto.

» Cada coisa... O “timing” das decisões judiciais é outra preocupação que já foi discutida entre integrantes do TSE com empresas do setor de tecnologia.

» ...a seu tempo. As companhias alertam que remoção do conteúdo da internet é um procedimento mais rápido do que a identificação do usuário que fez a postagem, mas as decisões judiciais costumam fixar prazo único para as duas coisas.

» É guerra. O grupo governista do PSDB recebeu a informação de que a ala pró-Tasso Jereissati quer intervir no diretório do partido no Maranhão para tirar votos do governador de Goiás, Marconi Perillo, adversário de Tasso na disputa pela presidência da sigla.

» Nada disso. A direção nacional do PSDB diz que decidiu destituir o vice-governador do Maranhão, Carlos Brandão, do comando da sigla no Estado porque não admite a aliança para 2018 com o governador Flávio Dino (PCdoB) e com o PT.

» Cartas na mesa. O ministro das Cidades, Bruno Araújo, condiciona o desembarque do PSDB do governo Temer, como quer o expresidente Fernando Henrique, à escolha do candidato tucano ao Planalto na convenção de dezembro. Se a decisão ficar para depois, ele defende adiar a saída.

» Entre a cruz… O Centrão resolveu dar uma nova cartada para pressionar Michel Temer a fazer reforma ministerial: ameaça não ajudar a aprovar projetos de lei do Congresso (PLNs), que abrem recursos orçamentários para a União.

João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina

(trecho)

“…E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”