sábado, 16 de junho de 2018

Entrevista/FHC: Bolsonaro é autoritário e Ciro Gomes, imprevisível e errático

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz à ISTOÉ que a sociedade está em busca do novo, mas que nenhum partido conseguiu apresentar até agora um candidato com esse perfil. “Nem o PSDB”, admite

Germano Oliveira | ISTOÉ

Em entrevista exclusiva à ISTOÉ, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse considerar um atraso para o desenvolvimento do País a polarização entre Jair Bolsonaro, que para ele representará a volta do autoritarismo, e Ciro Gomes, considerado como “imprevisível” por não ser possível caracterizá-lo nem como direita nem como esquerda. Por isso, o ex-presidente, que nesta segunda-feira 18 completa 87 anos, defende com vigor a união dos sete candidatos do centro em torno de uma única candidatura que, necessariamente, não precisa ser a do PSDB. “Eu não posso dizer: só caso se for com a Maria”. FH afirma que até às convenções a negociação em busca da unidade será importante para a consolidação de um “projeto progressista e democrático”. Alegou estar convencido, porém, que Geraldo Alckmin é o melhor candidato e que o PSDB “não tem plano B”.

• O senhor subscreveu há alguns dias o manifesto “Por um pólo democrático e reformista”, pedindo a união dos partidos do centro, para evitar uma volta ao passado. Qual é a ameaça política que o senhor vê ao futuro do Brasil?

Eu falo da criação de um pólo progressista e democrático, respeitando a Constituição e o Estado de Direito. No quadro atual, a gente até se esquece das ameaças que podem acontecer. De forma dramática, acho pouco provável que aconteça uma quebra formal das regras do jogo. De forma não dramática, ou seja, pela absorção paulatina dos que vierem a governar o País, com a adoção de medidas mais arbitrárias, isso pode acontecer sim. Temos que evitar uma volta ao passado. Eu não me refiro tanto ao lulopetismo, do risco do PT voltar a governar, porque a gente já tem experiência do que é o PT no poder. Não acredito que eles quebrem as regras e rumem para o viés autoritário. O risco vem do pólo à direita. As declarações do candidato Jair Bolsonaro nos assustam. Ele é autoritário. Tem feito declarações autoritárias. É preciso que o Brasil não tenha também um governo imprevisível e arbitrário. No caso do Ciro Gomes, eu não posso dizer que ele seja de direita ou de esquerda. Ele não é uma coisa, nem outra. Ele é mais errático, portanto, é imprevisível.

• Como unir o centro? O deputado Marcus Pestana, do PSDB, chegou a propor que todos os sete candidatos do centro desistam de suas candidaturas e se escolha então um nome de consenso. Isso é possível?

Na vida partidária, é difícil imaginar que as pessoas, no ponto de partida, se disponham a abrir mão. Elas se dispõem a dizer que vão ganhar. No momento em que estamos há o risco de que nenhuma dessas candidaturas de centro chegue ao segundo turno. Há o risco sim de termos uma imprevisibilidade ou uma tendência autoritária no segundo turno. Portanto, seria aconselhável que as pessoas olhassem para as pesquisas. Como os políticos, naturalmente, puxam a brasa para a sua sardinha, têm que ter capacidade de entender que isso é um processo. Mesmo os candidatos ligados a grandes partidos não têm mostrado capacidade de juntar e acho que precisamos chegar a um entendimento até as convenções.

• Ou seja, faltam menos de dois meses…

Sim, as convenções vão até 5 de agosto. É o tempo que vamos ter para isso. Os que têm consciência histórica e o sincero desejo de ver o Brasil andar, e que não vêem apenas a sua candidatura, têm esse tempo para alinhavar uma possibilidade de se chegar a um nome que represente a maioria da população. A população não quer que fiquemos na mão dessas duas candidaturas mais radicais e que hoje estão à frente nas pesquisas. Quer alguém mais palatável. Centro não quer dizer “centrão”, que no Brasil significa a união de tendências fisiológicas. O País cansou disso. A chave de tudo é alguém que inspire confiança. A crise mais perceptível hoje é de confiança. Temos que voltar a ter entusiasmo pelo Brasil. A falta de entusiasmo deriva dos fracassos recentes que sofremos.

• Geraldo Alckmin não consegue sair dos 6%. Por que não decola?

No primeiro momento de qualquer campanha você tem a seguinte dificuldade: tornar-se conhecido ou ser demasiadamente conhecido. Até o muito conhecido, como é o caso do Geraldo, precisa fazer as pessoas tomarem conhecimento de que ele é candidato outra vez e isso leva tempo. No Brasil tem muita coisa nova acontecendo. Tem o novo no cinema, tem o novo no teatro, na música, tem novo no futebol. Agora, o que falta é o novo na política.

• O PSDB tem o novo?

Nem o PSDB e nenhum outro partido tem o novo.

• Como se obter o novo?

Isso passa pelos meios de comunicação e nós estamos habituados aos meios de comunicação tradicionais, rádio, televisão, jornal e revista. Mas hoje temos as mídias sociais. Os meios de comunicação estão ansiosos pelo bizarro ou pelo novo. Então, um político tradicional como o Geraldo, leva mais tempo para se consolidar. Mas também esse novo não pode queimar na largada. O Geraldo é um candidato experimentado, é maratonista. Tem que se dar tempo ao tempo. Isso não significa, porém, que temos que ficar de braços cruzados.

• Alckmin está jogando parado?

Ele está fazendo o que é necessário. Procurando alianças, com o objetivo de ter mais tempo de rádio e televisão. E ele tem um outro objetivo: as estruturas políticas estão desgastadas, mas elas existem. Quem imaginar que a Câmara vai mudar de cabo a rabo, está enganado. Os candidatos a deputado dependem muito das estruturas organizadas, dos clubes, das empresas, das igrejas. Então, o candidato está costurando alianças para ter apoios nos Estados. E ele precisa escolher também o vice. Vai escolher no Sul, Sudoeste ou no Nordeste? E o que faz com Minas e com o Rio, que são Estados que decidem? Em Minas, ele tem o Anastasia, mas e no Rio? Dificilmente o PSDB terá um candidato próprio com força lá. Vai se aliar a quem no Rio?

• O MDB, DEM, PP e outros estão resistindo em fazer aliança com o PSDB?

Li hoje que o DEM já está decidindo não ter candidato a presidente. Acho que o nosso candidato, como ex-governador de São Paulo, tem um problema a resolver. Os palanques no Estado. O problema é que há dois candidatos a governador que apoiam o Geraldo (João Doria pelo PSDB e Márcio França pelo PSB). Eu tive dois palanques dificílimos em São Paulo quando fui candidato: Mário Covas e Paulo Maluf. Não foi fácil, mas saí com uma votação estrondosa de São Paulo. O que une hoje é a crença no candidato, que ele toque o coração das pessoas. Alckmin ganhou várias eleições e do jeito dele. Eu sei que São Paulo não é o Brasil, mas de qualquer maneira ele é bom de televisão, fala claro, e é simples. Se o Brasil cansou de desordem, de imprevisibilidade, o Geraldo é o candidato mais seguro. Me lembro que quando me elegi presidente pela primeira vez, em junho eu estava com 12% e o Lula com 40%. Aí veio o Plano Real em julho e disparei em agosto. Tá certo que agora não tem o Plano Real…

• O senhor acha que o eleitor continua procurando o novo?

E não é só aqui, essa tendência de se procurar o novo. Aconteceu na Espanha, na França e nos Estados Unidos, embora o Trump não seja o novo que eu goste, mas ele propôs uma coisa que juntou os cacos. E aqui tem que juntar, ter coesão, uma chama nova. Aqui estamos às cegas. Com o quadro atual para o segundo turno, o empresário reflui, o consumidor compra menos, as pessoas ficam preocupadas com o futuro.

• O senhor já disse que a população quer o novo e lá atrás pensou em nomes como o do apresentador Luciano Huck, mas ele não aceitou ser candidato. O senhor também já defendeu nomes como o de João Doria.

Primeiro vamos falar do Luciano Huck. Ele é popular, tem densidade social e é ligado ao PSDB. Mas ele teve que tomar uma decisão. A decisão era dele e não minha. E ele escolheu ficar na Globo

• E o Doria, tem gente do PSDB que defende trocar Alckmin por ele?

Nunca vi ninguém defender. Vejo no jornal, mas nunca vi nenhum líder do partido defender isso. Acho a troca pouco provável. E o Doria tem chance de ser governador de São Paulo.

• Então o partido tem que insistir com o Alckmin até o fim?

Não sei qual será seu potencial de crescimento, mas certamente o candidato do PSDB é o Alckmin. Não vejo plano B.

• O senhor acha que pode ter um nome alternativo para impedir a polarização do Bolsonaro e Ciro, que o senhor já disse que representam um atraso para o País?

Não se pode dizer: eu só caso se for com a Maria. Tem que ver o que vai acontecer nesses dois meses até as convenções. Eu, por exemplo, não acho a Marina um terror. Acho que a Marina tem muitas virtudes. O Alvaro Dias não sei qual é a base efetiva. Hoje tem votos no Paraná. O problema do Alvaro é que quem vota nele, votaria no Geraldo.

• Mas esses nomes seriam para cabeça de chapa ou para vice do Alckmin?

Estou dizendo que você não pode, no ponto de partida de uma negociação para se encontrar um candidato de centro, falar que eu só caso se for com a Maria…O Geraldo tem mais conhecimento da máquina, capacidade administrativa, olha para o fiscal. Podem dizer: ah ele é muito religioso. Sim, pode ser. Mas não é uma pessoa que julgue as coisas pelo ângulo da religião ou pela ideologia. Ele é tolerante. A Marina também é tolerante. O que ela não tem é partido, tempo de televisão. É barreira grande.

• Ela seria uma boa vice para o candidato do PSDB?

Ela não quer ser vice. Eu não vou propor uma coisa que pode ser entendida como menor. Eu respeito a Marina. Na eleição de 2014, ela apoiou o Aécio contra a Dilma. Ela é previsível. Mas neste momento não há razão para propor também que o Geraldo seja seu vice.

• O centro unido vence a eleição?

Sim, podemos vencer. E qual é o medo de não ganhar? Nós já perdemos muito tempo. É patético. Perdemos a centralidade no mundo. Temos que resolver problemas óbvios. Não dá para ter o endividamento público crescente como temos. Isso termina em inflação ou algo pior, como confisco, sei lá o que. Temos que tomar decisões cruciais, que já deveríamos ter tomado a mais tempo. O Brasil vai acabar? Não, não vai acabar. Mas se não unirmos o centro e permitirmos a vitória dos que polarizam hoje vamos atrasar nosso desenvolvimento.

• E polarização entre esquerda e direita? O senhor acha que é tudo o que a maioria da população não quer ou ainda há quem prefira o Fla-Flu?

Não ajuda. Não é nem a questão de esquerda. O PT é previsível. Eu posso não gostar, mas sei mais ou menos o que eles vão fazer. Eu tenho mais medo da imprevisibilidade do Ciro. Com ele, não se sabe o que vem pela frente. O País fica tonto. Não estamos num momento de arriscar. Não podemos voltar atrás. Se crescermos 3% ou 4% durante dez anos, mudaremos o sentimento de todo mundo. Isto aqui não é para principiantes.

• A denúncia de que recebeu caixa 2 da Odebrecht pode estar afetando desempenho de Alckmin?

Geraldo tem passado limpo. Ele é pobre, classe média/média, e todo mundo sabe que ele não rouba.

• Falando em Odebrecht, o senhor pode explicar o pedido de dinheiro que fez a Marcelo Odebrecht para campanhas de tucanos em 2010?

Eu pedi mesmo. Sou presidente de honra do PSDB e quando via candidatos razoáveis que precisavam de apoio, eu pedia. Não só para a Odebrecht. Pedi, mas dei o número da conta de campanha. E eu não tinha cargo nenhum no governo. Não teve toma-lá-dá-cá.

João Domingos: A ingenuidade de Ciro

- O Estado de S.Paulo

Polêmicas verbais provocadas pelo pré-candidato do PDT quase sempre o prejudicam

O início da semana foi marcado por uma forte agitação política, fruto das notícias de que Ciro Gomes, pré-candidato do PDT à Presidência da República, estava conversando não só com o PSB e o PCdoB, ditos parceiros preferenciais, mas também com DEM, PP e Solidariedade (SD). Por consequência, outros partidos, como o PR, tenderiam a aderir quase que automaticamente à composição, o que poderia dar a Ciro Gomes o maior tempo de propaganda no rádio e na TV, além de furar barreiras em Estados onde o PDT tem pouca estrutura. O conjunto dessa aliança, na visão dos articuladores do PDT, passaria ao eleitor brasileiro a mensagem de que Ciro Gomes fará um governo de união nacional, no qual cabem a centro-esquerda e a centro-direita.

De fato, Ciro e os coordenadores de sua campanha, como o irmão, o ex-governador Cid Gomes, estão conversando com todo mundo mesmo. Mas eles precisam saber que não estão só nessa empreitada. O PSDB de Geraldo Alckmin, que vinha tropeçando em cima de tropeços, percebeu o quanto poderia ficar para trás se não começasse imediatamente a procurar os dirigentes partidários da centro-direita, fazer-lhes acenos, propor-lhes acordos vários, um deles envolvendo a negociação em torno da presidência da Câmara e, quem sabe, a do Senado. As negociações com o PDT refluíram, os tucanos refizeram sua estratégia de campanha e, num gesto pouco comum, Alckmin delegou poder ao vice-presidente do PSDB, ex-governador de Goiás Marconi Perillo, que foi autorizado a construir alianças em nome do pré-candidato à Presidência. Um passo que normalmente se dá nessas disputas intrincadas.

Alckmin diz que aliança para a campanha poderá reunir até oito partidos

Presidenciável do PSDB já tem apoio de PPS, PSD, PV e PTB, e busca outras legendas do chamado Centrão

Daniel Weterman | O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Após ser cobrado pelo próprio partido e aliados, o pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB, Geraldo Alckmin, ouviu um apelo nesta sexta-feira, 15, para ser mais didático na campanha e se esforçar mais para ganhar a eleição. O pedido foi feito por um dos membros da plateia em palestra a médicos da Universidade de São Paulo (USP). Como resposta, o tucano disse que o quadro de alianças pode chegar a oito partidos na campanha presidencial.

"Muita gente que está dizendo que é candidato não é candidato, vamos saber em agosto quem é e quem não é. Estamos caminhando com cinco partidos e acho que pode chegar a sete ou oito partidos", afirmou Alckmin. O presidenciável já avançou em atrair o apoio de PPS, PSD, PV e PTB, e ainda busca conversar com DEM e outras legendas do chamado Centrão.

Após Alckmin apresentar suas propostas na área da Saúde, o urologista Miguel Srougi afirmou ao ex-governador paulista que o pensamento dele estava correto e que o tucano era um dos melhores políticos do Brasil, mas que precisava ser mais didático para conquistar o eleitor e ganhar a eleição.

"O problema é que o senhor precisa ganhar a eleição", disse o médico. "O povo não vai se sensibilizar se disser que conseguiu um superávit de R$ 5 bilhões, mas o filho doente foi de posto em posto e morreu", completou. Para o urologista, o eleitor está interessado em saber como vai conseguir emprego, alimentação e ter serviços públicos de qualidade.

Como resposta, Alckmin disse que "democracia dá trabalho" e que ele está buscando explicar como atingir sua promessa de dobrar a renda do brasileiro. Um diferencial de outros pré-candidatos, acrescentou, é o fato de ser médico. "O médico é o cuidador, e a política tem esse sentido de cuidar, do abraço coletivo. Meu dever é melhorar a Saúde. Não vamos fazer mágica, mas vamos melhorar.

Aliança
Após o evento, realizado na Congregação da Faculdade de Medicina da USP, Alckmin disse que as alianças eleitorais serão fechadas apenas no fim de julho. Mais uma vez, o tucano acenou para o DEM, que lançou Rodrigo Maia como pré-candidato, dizendo que o PSDB está junto com os democratas em diversos Estados

"Vários fatores criam um laço de identidade", afirmou. Na quinta-feira, 14, o DEM anunciou apoio ao PSDB na eleição para o governo de São Paulo. Sobre a disputa estadual, Alckmin declarou não ver nenhum problema em participar de futuras agendas públicas com o pré-candidato do seu partido, João Doria, e com o governador Márcio França (PSB), que foi seu vice e deve disputar a reeleição.

Em vídeo, FHC reforça apoio a Alckmin: 'Homem preparado'

Presidente de honra do PSDB afirmou que Geraldo Alckmin tem capacidade de 'ligar o destino do País à vida de cada um'

Daniel Weterman | O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Após reações no PSDB com movimentações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o presidente de honra do partido gravou um vídeo reforçando apoio à eleição do ex-governador Geraldo Alckmin para a Presidência da República.

"Por que é minha opção o Geraldo Alckmin? Porque ele é um homem preparado, é um homem que sabe que é preciso olhar para o gasto público, mas ele sobretudo é um homem pessoalmente simples, um homem ligado à população", disse FHC, em vídeo divulgado pela assessoria de Alckmin.

O ex-presidente afirmou que o País precisa escolher um presidente que reforce a democracia e tenha um "olhar competente" para resolver as demandas populares. Na fala de FHC, o ex-governador teria a capacidade de "ligar o destino do País à vida de cada um".

Na semana passada, Fernando Henrique afirmou ao jornal O Globo que o PSDB precisava deixar portas abertas à pré-candidata da Rede ao Planalto, Marina Silva. Anteriormente, o ex-presidente já havia incentivado outras candidaturas fora do PSDB, como a do apresentador de TV Luciano Huck.

Além do vídeo de FHC, a equipe de Alckmin tem divulgado nas redes sociais depoimentos de parlamentares tucanos a favor da candidatura do ex-governador, procurando reforçar um consenso no partido.

Marina fala com militares

- O Estado de S. Paulo

O General Eduardo Villas Bôas recebeu Marina Silva para uma conversa nesta sexta-feira, 15. Ele registrou o encontro em sua página do Twitter. Disse que o encontro faz parte de uma série de conversas que está tendo com os pré-candidatos à Presidência da República para tratar de “temas que sob a ótica do exército são importantes para serem discutidos com quem pleiteia dirigir a Nação”.

Até o momento, o general registrou apenas o encontro com Marina Silva. Há registros de um encontro com Rodrigo Maia, mas ai na figura de presidente da Câmara, e não de pré-candidato.

Prosseguindo nos contatos com os pré-candidatos à presidência da república, ocasião onde apresentamos alguns temas, sob a ótica do Exército, que consideramos importantes serem discutidos por quem pleiteia dirigir a Nação, recebi a Sra Marina Silva em nosso QG do @exercitooficial

TSE: impedimento de Lula pode ocorrer antes de ação do MP

Para Admar Gonzaga, certidão seria ‘prova’ de inelegibilidade

“Não podemos fazer com que milhões de brasileiros se dirijam à urna para votar nulo. Não contem comigo para isso Admar Gonzaga Ministro do TSE

Jeferson Ribeiro | O O Globo

TSE pode rejeitar registro de candidatura do ex-presidente Lula antes mesmo de haver uma solicitação formal. STF marca para dia 26 análise do pedido de liberdade do petista. -CURITIBA- O ministro Admar Gonzaga, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou ontem que o pedido de registro de candidatura à Presidência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ser rejeitado de ofício pela Justiça Eleitoral — ou seja, antes mesmo de haver uma solicitação formal do Ministério Público ou de algum partido político pela impugnação. A declaração reforça o entendimento já manifestado pelo atual presidente do TSE, ministro Luiz Fux.

Gonzaga explicou que, entre os documentos que o candidato apresenta para requisitar o registro, está uma certidão que demonstra se ele tem alguma sentença imposta por órgão colegiado. Lula foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro em segunda instância, portanto, está inelegível, de acordo com a Lei da Ficha Limpa. Então, segundo o ministro, o relator do caso no TSE poderia imediatamente negar o registro, sem permitir a abertura de prazos recursais.

— Quando se almeja o cargo de presidente da República, não podemos brincar com o país. Não podemos fazer com que milhões de brasileiros se dirijam à urna para votar nulo. Não contem comigo para isso. Na hora em que ele (candidato) traz uma certidão e uma prova da sua inelegibilidade, e eu sou um juiz — e isso já tem jurisprudência de 50 anos —, eu posso rejeitar o registro de ofício. A certidão (que comprova a condenação criminal) tem fé indiscutível. Eu vou perguntar a ele (candidato) alguma coisa? Ele confessou para mim, juiz, que é inelegível. Me desculpem, a decisão vai ser de ofício — disse Gonzaga no debate promovido pelo Congresso Brasileiro de Direito Eleitoral, em Curitiba.

O ministro acrescentou que o relator do caso também poderia negar o registro de ofício e pedir ao plenário do TSE que julgasse a decisão, para que não restassem dúvidas. Gonzaga, no entanto, considera que não há necessidade de contestar as provas fornecidas pelo próprio candidato sobre sua inelegibilidade.

‘Hoje o PSB não estaria com o PT’, diz Lacerda

Pré-candidato ao governo mineiro é cotado para ser vice em chapa petista e do PDT

Jonathas Cotrim | O Estado de S. Paulo.

TIRADENTES (MG) - Pré-candidato do PSB ao governo de Minas Gerais, o exprefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda disse ontem, em Tiradentes, que se o partido tomasse uma decisão hoje não estaria coligado com o PT. “Em política, nenhuma decisão é em definitivo. Mas, se a decisão fosse hoje, o PSB não estaria com o PT”, afirmou, durante evento voltado a empresários que reuniu pré-candidatos à Presidência e ao governo mineiro.

Lacerda é considerado um nome crucial nas negociações entre PSB e PT para uma possível aliança nacional entre os dois partidos. O diálogo passa pela formação de acordos locais que, segundo resolução publicada no fim de semana passado pelo diretório nacional do PT, devem seguir a coligação nacional da legenda.

Pela negociação, Lacerda retiraria a sua pré-candidatura ao governo mineiro em benefício à candidatura à reeleição do governador Fernando Pimentel (PT). Em troca, os petistas retirariam a pré-candidatura de Marília Arraes (PT) ao governo de Pernambuco, maior colégio eleitoral sob domínio do PSB, e apoiariam a reeleição do governador Paulo Câmara.

Para tentar convencer Lacerda a desistir de sua candidatura ao governo de Minas, setores do PT cogitam chamá-lo para vice na chapa do candidato do partido. Embora o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteja preso em Curitiba pela condenação em segunda instância no caso do triplex do Guarujá (SP), o PT mantém seu nome como pré-candidato da legenda na disputa presidencial.

Para o ex-prefeito de Belo Horizonte, não há possibilidade de Lula ser o candidato do PT. Lacerda aposta que o nome petista ao Planalto será o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. “Essa hipótese não vai existir. Lula não será oficialmente candidato, mas o PT terá candidato, que será o Fernando Haddad”, disse.

Anastasia afirma que 'no tempo oportuno', Aécio se decidirá quanto a candidatura

Pré-candidato ao governo mineiro pelo PSDB declarou que as negociações para os nomes apoiados pelo partido para o Senado por Minas devem se prolongar

Jonathas Cotrim| O Estado de S.Paulo

TIRADENTES (MG) - O senador Antonio Anastasia, ex-governador mineiro e pré-candidato ao Palácio da Liberdade pelo PSDB, declarou nesta sexta-feira, 15, em Tiradentes (MG), que o senador Aécio Neves - réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção passiva e obstrução de Justiça - decidirá, "no tempo oportuno", quanto a uma eventual candidatura nas eleições deste ano.

Anastasia deu entrevista durante evento voltado a empresários na cidade histórica mineira, antes de participar de um debate entre pré-candidatos ao governo de Minas. Além de Anastasia, Marcio Lacerda (PSB), Rodrigo Pacheco (DEM) e Romeu Zema (Novo) participaram do debate. Ciro Gomes (PDT), Paulo Rabello (PSC) e Alvaro Dias (PR), pré-candidatos à Presidência da República, também compareceram ao encontro.

Sobre Aécio, que não foi ao evento, Anastasia declarou que "no tempo oportuno, (ele) decidirá se é candidato ou não nestas eleições". O ex-governador tucano afirmou ainda que as negociações para os dois nomes apoiados pelo PSDB para se candidatar ao Senado por Minas deverão se prolongar.

Anastasia: Alckmin vai subir na pesquisa quando a campanha engrenar

Por Marcos de Moura e Souza | Valor Econômico

TIRADENTES (MG) - O senador Antônio Anastasia (PSDB-MG), pré-candidato a governo de Minas Gerais, afirmou que o partido está unido em torno da pré-candidatura à Presidência de Geraldo Alckmin (PSDB), apesar da dificuldade do ex-governador nas pesquisas de intenção de voto.

“É natural que nesse momento com 20 candidatos haja uma diluição de intenção de votos”, afirmou Anastasia a jornalistas na manhã desta sexta-feira ao chegar a um encontro realizado na cidade mineria de Tirantes que reúne empresários e pré-candidatos.

Segundo o senador, o ex-governador de São Paulo tem uma posição consolidada como presidenciável e é “apoiado por todo o partido”.

O desempenho fraco do tucano nas pesquisas tem motivado críticas internas a como ele tem conduzido sua pré-campanha. Mas Anastasia procurou mostrar confiança.

“Acredito firmemente que, quando a campanha engrenar, nós teremos a figura do governador Geraldo assumindo uma das posições de ponta até porque acho que ele é o candidato de centro que tem mais condições de ir ao segundo turno e, por consequência, vencer as eleições”, afirmou Anastasia.

Sobre o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que enfrenta processo de corrupção na Justiça, Anastasia repetiu o que tucanos mineiros têm dito, que caberá a ele decidir se disputará ou não algum cargo este ano.

Roberto Freire: A Copa pode virar

- Diário do Poder

Em 1950, no Maracanã com 200 mil pessoas, o Uruguai derrotou o sonho brasileiro de sermos campeões mundiais de futebol.

Foi uma comoção nacional. Havia gente chorando pelas ruas.

Oito anos depois, na Suécia, os canarinhos de Garrincha, Nilton Santos, Didi, Vavá e daquele menino de 17 anos, Pelé, encantaram o mundo e trouxeram a Taça.

Vivíamos os anos JK, da construção de Brasília, da instalação da indústria automotiva, dos primórdios da Bossa Nova, da MPB e do Cinema Nacional voltado para as coisas do Brasil.

“A taça do mundo é nossa… com brasileiro… não há quem possa” cantava a nação, quando o escrete vitorioso desfilava, junto com multidões, pelas ruas do Rio de Janeiro, então capital federal.

Vivemos atualmente uma revolta surda contra a Copa do Mundo na Rússia.

Isso se deve, em parte, pela ducha de água fria que os 7 x 1 impuseram à nossa alma futebolista. Foi um choque de realidade, como poucos. Não éramos mais o que já tínhamos sido.

Se deve, também em parte, à corrupção que esteve presente na construção de arenas da Copa de 2014 e em obras de infraestrutura urbana. Os estádios elefantes-brancos são um monumento ao acinte.

A revolta surda se deve, principalmente, à frustração que se sucedeu ao pós-impedimento de Dilma Rousseff.

Fernando Gabeira: Olhar brasileiro na Rússia de Putin

- O Globo

Momento em que ex-coronel da KGB surgiu na cena política do seu país é parecido com o do Brasil de agora, que busca estabilidade

Apesar das leituras, não me arrisco a analisar a política russa. Apenas comparar o que li com o que vejo e tentar, através da experiência, entender um pouco o Brasil.

O momento em que Vladimir Putin surgiu na cena política russa é parecido, por razões diferentes, com a atual situação do Brasil. Depois de uma década de transição para o capitalismo, os russos sentiam o país mergulhado no caos e ansiavam por algo que Putin oferece: estabilidade.

Tanto lá, naquele período, como no Brasil de agora, há uma sensação de perda de importância no cenário internacional de baixa autoestima e um desejo difuso por mais comando e autoridade.

Como um ex-coronel da KGB, que atuou em Dresden, na época Alemanha Oriental, Putin se aproveitou da ampla campanha positiva em torno da KGB, dirigida pelo seu mais ilustre dirigente: Yuri Andropov.

Um dos pontos altos da campanha foi uma série sobre um espião russo que se tornou herói nacional: Maxim Isaev. Sob o nome de Max Otto von Stierlitz, ele se se infiltrou no governo alemão e impediu com seu trabalho um acordo entre Estados Unidos e Alemanha, destinado a prejudicar a União Soviética.

Marco Aurélio Nogueira: A Copa e o jogo da vida

- O Estado de S. Paulo

Não será fácil revolucionar o futebol que se joga no Brasil. A Copa pode ajudar

No Brasil, como sabemos, a Copa do Mundo de Futebol coincide com anos eleitorais. Uma das consequências disso é a reiteração de uma “certeza” que sempre frequentou as mesas de conversa: as eleições instrumentalizam o futebol. Governantes e oposições, candidatos da direita e da esquerda usam o jogo para sensibilizar os cidadãos e pescar votos. O amarelo da camisa vira um verde-e-amarelo patriótico para uns, sendo ao mesmo tempo desprezado por outros, que criticam a Copa por seu potencial “alienante”.

Tem sido assim desde que o futebol se massificou no Brasil.

O presidente Michel Temer não se poupou de explorar o fato, imaginando extrair dividendos políticos. Espalhou pelas redes sua mensagem: “A Copa do Mundo começou. É hora de acreditar na força da camisa verde e amarela, no talento de nossos jogadores. Somos mais de 200 milhões de corações pulsando, batendo forte por nosso País. Estamos todos torcendo por nossa seleção. É hora de acreditar na força da camisa verde e amarela. A partir de agora desaparecem todas as diferenças. Rumo ao hexa”.

Politizar pode ser entendido como preocupação em fazer com que a política prevaleça: que se dê prioridade ao interesse público, que a discussão substantiva prevaleça sobre a troca de ofensas, que a busca do que é importante para um país supere os projetos de poder dos candidatos e de seus partidos. Não é partidarizar. Ao final de uma disputa devidamente politizada, é de se esperar que subsista uma ideia de Estado e de sociedade, se possível formada com o concurso de uma variedade de opiniões e interesses.

O modo como se pensa a política interfere no modo como se faz política. E vice-versa. Por mais que sofra a influência das circunstâncias históricas globais – cada época tem a sua política –, a discussão política está fortemente determinada pela cultura de cada sociedade. Ocupa, aliás, um lugar central nessa cultura, tendendo a preencher muitos espaços e florescer onde menos se espera. Está presente fortemente no futebol, seja como ação voltada para a conquista de poder, seja como fator de construção de uma coletividade.

As manifestações dos torcedores brasileiros durante a Copa refletem certamente o modo como pensam e agem politicamente. Muitos acham que os governos e os políticos são responsáveis pelo que há de errado no empreendimento futebolístico do país. Criticam a CBF, essa entidade merecedora da suspeita geral. Outros pensam que o futebol pode resgatar a dignidade nacional e contribuir para colocar as coisas no lugar. Há os que repudiam a apropriação comercial do evento e há os que desprezam o lado “mercenário” dos jogadores. Isso para não lembrar os que choram de emoção quando a “amarelinha” entra em campo e os que julgam não existir identificação da seleção com o país porque a população mal conhece os jogadores, que jogam em times do exterior.

O jogo serve para produzir esperança e para protestar. Para extravasar alegria ou disseminar ódios e ressentimentos.

Zuenir Ventura: Juntos numa só emoção

- O Globo

Amanhã, os brasileiros, enfim, estarão torcendo por um mesmo lado nas redes sociais, nos bares, nas ruas, em casa e diante da televisão

Amanhã deverá ser um dia como há muito não se via igual. Os brasileiros, enfim, estarão torcendo por um mesmo lado nas redes sociais, nos bares, nas ruas, em casa e diante da televisão. Sem polarização, sem ódio e sem xingamentos, não serão nem Fla nem Flu, nem esquerda nem direita, nada de coxinhas x petralhas, de golpistas x mortadelas, de neofeministas x feministas, de negros x os não bastante negros. Como no velho hino, todos estarão “ligados na mesma emoção” vibrando pela seleção.

Ao contrário do baixo astral que vinha reinando em quase todos os setores, com a sensação de que “o país não tem jeito”, o clima no futebol é bem melhor desde que o bom desempenho do time na fase das eliminatórias superou o trauma dos 7 x 1 para a Alemanha e nos devolveu a confiança de penta campões. E, quem sabe, pode trazer de volta o bom humor nacional.

O torcedor abandonou inclusive o esporte nacional de chamar o técnico de “burro” e de “escalar” o time em seu lugar, tão praticado durante a administração Dunga. Graças a Tite, o Brasil conquistou a vaga para o mundial de 2018 com um impressionante saldo de 25 gols a favor, dez vitórias, três empates e apenas uma derrota.

Adriana Fernandes: O BC e a Lava Jato

- O Estado de S.Paulo

É preciso saber quais bancos falharam, seus erros, e o que está sendo feito para puni-los

Apesar da crise econômica histórica, o trunfo do Brasil nos últimos anos tem sido o de suportar tormentas como as causadas pela Lava Jato e seus desdobramentos, que estão atingindo em grande escala políticos, autoridades e empresários.

Mesmo nos momentos mais tensos desde o início da operação, Judiciário, Legislativo e Executivo têm reagido - com maior ou menor agilidade - quando acionados por causa de descobertas de irregularidades. Em boa parte dos casos, é verdade, a contragosto.

Mas e o Banco Central do Brasil? O que fez diante das descobertas do maior esquema de lavagem de dinheiro desde o caso Banestado - escândalo descoberto no fim dos anos 90? Se não monitorou antes que empresas de fachadas, operadores de propina e lobistas lavassem bilhões desviados de órgãos públicos por meio do Sistema Financeiro Nacional, o que fez depois das descobertas?

Puniu aqueles que se valeram das brechas em nosso sistema para lavar dinheiro? Fechou essas brechas? E os envolvidos? São várias as perguntas que começam a surgir à medida que avançam as investigações. Mas, ao contrário do que vem ocorrendo em outras áreas, as investigações dos crimes financeiros ainda estão cobertas por uma nuvem densa e estão longe do conhecimento dos brasileiros.

Míriam Leitão: As renúncias

- O Globo

O problema do Brasil não é exatamente a carga tributária alta. Ela é alta, mas tem desconto para alguns e acaba sendo menor do que parece. A solução para o Brasil não é apenas cortar os gastos, é reduzir as despesas que são feitas em favor do beneficiário errado. É nesse ponto que o Tribunal de Contas da União (TCU) tocou. As renúncias fiscais são 30% da receita líquida, sem elas o país teria superávit.

OTCU olhou para o ponto certo do nó fiscal brasileiro e vários ministros falaram em tom forte sobre o assunto. Segundo Vital do Rego, as renúncias são de tal magnitude que afetaram o equilíbrio das contas. Para José Múcio, são “o novo vetor da desigualdade”. E na opinião de Bruno Dantas, o país tem “um encontro marcado com esses benefícios fiscais concedidos sem critério, sem análise de custo-benefício”.

Em função disso, o relator colocou ressalvas nas contas do governo em 2017. Pode haver muitos motivos para ressalvas, mas as renúncias fiscais em sua maioria foram herdadas. Algumas têm caráter plurianual e não podem ser simplesmente extintas. O ministro Vital do Rego disse que se o governo tivesse limitado as renúncias à média de 2003 a 2008 (R$ 223 bilhões) teria tido superávit. Mas no gráfico que acompanha o voto está claro que o total das renúncias fiscais era de 3,4% do PIB em 2008 e foram para 6,7% em 2015. Quem elevou o volume dos benefícios aos empresários após 2008 foram os governos Lula e Dilma. O governo Temer reduziu os gastos tributários para 5,4% em 2017, ano que está sendo examinado, principalmente os concedidos através do BNDES. A criação da TLP reduzirá ainda mais, no futuro, o gasto com subsídios financeiros do banco.

Temer errou quando fez um Refis e não conseguiu conter sua base que aumentou as vantagens para os devedores da Receita. Errou nas concessões à bancada ruralista no perdão às dívidas do Funrural. Concessões feitas a partir da crise que atingiu seu governo com as denúncias do Ministério Público. Mas os dois governos anteriores é que realmente aumentaram o total das transferências para os empresários entre 2008 e 2015.

Julianna Sofia: Memoráveis pedaladas

- Folha de S. Paulo

Fiscalistas temem furo ao teto de gastos, mas regra de ouro está sob risco iminente

A fragilidade fiscal do Brasil, com o Estado quebrado e o endividamento público caminhando para 80% do PIB, tem suscitado grande inquietação sobre o futuro do dispositivo constitucional que estabeleceu o teto de gastos da União. Vários presidenciáveis se opõem ou, no mínimo, são céticos sobre a permanência dessa trava nas despesas.

Especialistas calculam como elevada a probabilidade de descumprimento do limite já em 2019. O TCU estima que a máquina pública possa parar a partir de 2024: com os gastos obrigatórios —principalmente Previdência e funcionalismo— consumindo a totalidade dos recursos orçamentários sob o teto, não haverá dinheiro nem para cafezinho.

Há pânico entre fiscalistas, temerosos que o mecanismo criado por Michel Temer seja flexibilizado ou banido, e o complexo legado fiscal herdado pelo novo mandatário jogue o país numa situação de insolvência.

Ricardo Noblat: O labirinto de Ciro Gomes

- Blog do Noblat

Ele já foi longe demais, mas não o suficiente

À caça de apoios que lhe garantam mais tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão e lhe permitam avançar sobre Marina e Bolsonaro que estão à sua frente nas pesquisas de intenção de votos para presidente da República, Ciro Gomes (PDT) dispara em todas as direções e por enquanto não acertou em nenhuma.

Gastou os últimos meses tentando atrair o PT – sem sucesso. O PT irá de Lula, pelo menos até quando a Justiça permitir. E depois disputará a vaga de Michel Temer com Jaques Wagner ou Fernando Haddad. Se depender da maioria do partido e do próprio Lula, com Wagner. Se depender de Wagner, com Haddad.

É possível que o PT acene para Ciro com o lugar de vice na chapa do seu candidato – mas será só para Ciro recusar. E se Ciro for para o segundo turno e o PT não, é seguro que contará com o apoio do PT. Ciro quer ter o PC do B com ele desde já – mas a desistir da candidatura de Manuela D’Ávila, o PC do B reatará sua antiga aliança com o PT.

Ciro investe na companhia do PSB, partido que o abrigou no passado recente. Tem a simpatia de um grupo numeroso de deputados do PSB. Mas o PSB vive lá o seu dilema: juntar-se ao PT ou não ter candidato algum a presidente? O PSB de Pernambuco quer juntar-se ao PT. O de São Paulo, a Geraldo Alckmin (PSDB).

Propostas consistentes: Editorial | O Estado de S. Paulo

Daqui a quatro meses, a população terá de escolher o próximo presidente do Brasil. O primeiro turno das eleições é no dia 7 de outubro e o segundo turno, no dia 28 do mesmo mês. No entanto, apesar do pouco tempo que resta, o cenário eleitoral continua repleto de grandes indefinições. A rigor, não se pode nem dizer que o eleitor esteja indeciso, pois ainda não lhe foram apresentadas opções dignas de consideração.

Oficialmente, a campanha eleitoral começa no dia 15 de agosto, quando se encerra o prazo para as inscrições das candidaturas na Justiça eleitoral. Até essa data, a lei proíbe pedir votos. Isso não impede, no entanto, que os partidos e os pré-candidatos possam apresentar desde já suas propostas para o País. Na realidade, mais do que uma possibilidade, essa comunicação clara com a população é um dever de quem deseja participar do processo eleitoral. As próximas eleições são muito importantes para que se deixe o eleitor no escuro até, por exemplo, o dia 31 de agosto, data em que se inicia a propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

As ideias e os projetos dos candidatos devem ser apresentados ao eleitorado o quanto antes. E aqui se faz referência a propostas consistentes, não a meros slogans. É um tremendo risco para a democracia uma escolha baseada em slogans, já que na prática esse tipo de campanha – que não apresenta propostas, mas tão somente refrões e gritos de ordem – impede que o eleitor determine o rumo concreto que deseja dar ao País. Frases de efeito não definem políticas públicas, mais servindo para iludir o eleitor.

Lava-Jato enfrenta mais um obstáculo: Editorial | O Globo

O fim das conduções coercitivas, pelo STF, está dentro do conhecido contexto de resistência no governo, no Congresso e no Judiciário ao avanço do combate à corrupção

Reconheça-se que, pelo menos até agora, as dificuldades da Lava-Jato no enfrentamento inédito no Brasil da poderosa criminalidade do colarinho branco ainda estão mais no campo das ameaças. A aprovação apertada, por 6 a 5, pelo Supremo, do banimento da condução coercitiva, é importante, por ser um tolhimento das investigações contra a corrupção — seguiram o voto vencedor do relator (Gilmar Mendes) Rosa Weber, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello; saíram derrotados Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux e Cármen Lúcia, presidente da Corte.

As ações coercitivas, porém, podem ser substituídas por pedidos de prisão temporária, que vigora por cinco dias, havendo a possibilidade de prorrogação ou conversão pelo juiz, por iniciativa do Ministério Público, em prisão preventiva.

Um aspecto positivo da decisão da Corte, tomada na quinta-feira, é que, para a obtenção de prisão temporária, a argumentação precisa ser mais bem fundamentada. Atende-se, assim, à respeitável preocupação com direitos do cidadão.

Mas quem se preocupa com o enfrentamento da corrupção nos elevados escalões da política e da esfera dos negócios não pode se enganar.

O Supremo confirma sua divisão em torno deste tema, mesmo que muitos argumentos sejam embalados na louvável defesa dos direitos humanos e das liberdades constitucionais. Ninguém discorda disso, mas a questão velada é outra.

Lacuna na lei: Editorial | Folha de S. Paulo

Condução coercitiva de fato dava margem a abusos, mas eliminá-la pode ter efeitos colaterais

O Supremo Tribunal Federal decidiu na quinta (14) que a condução coercitiva para interrogatório de réu ou investigado, prevista no artigo 260 do Código de Processo Penal, não encontra abrigo na Constituição por ferir o direito de a pessoa ficar em silêncio e não produzir provas contra ela mesma.

Em votação apertada, de 6 votos a 5, a corte julgou duas ações, ajuizadas pelo PT e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que viam no instituto um desrespeito a preceitos constitucionais.

A condução coercitiva ganhou mais notoriedade e se tornou alvo de controvérsias em março de 2016, quando o juiz Sergio Moro, da Lava Jato, lançou mão do recurso ao convocar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a depor.

À época, juristas, advogados, constitucionalistas e até mesmo um ministro do Supremo, Marco Aurélio Mello, que deveria evitar pronunciamentos dessa ordem, criticaram a decisão, uma vez que o petista não teria se recusado a prestar esclarecimentos.

“Eu não compreendi. Só se conduz coercitivamente, ou, como se dizia antigamente, debaixo de vara, o cidadão que resiste e não comparece para depor”, disse então Mello, que agora votou pela inconstitucionalidade da medida.

João Cabral de Melo Neto: Uma faca só lâmina

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.