quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Opinião do dia: Miriam Leitão*

Melhor faria o GSI se aproveitasse a experiência que o general Heleno e outros integrantes da cúpula do governo acumularam quando serviram na Amazônia para entrar fundo nos problemas reais da região: a invasão de grileiros em florestas e parques nacionais, o desmatamento ilegal e predatório, a ameaça aos indígenas, a destruição da biodiversidade, os documentos falsos de propriedade de terra, o uso da região como rota do crime organizado.

As divergências que os especialistas de diversas áreas, as entidades do terceiro setor e eventualmente integrantes do clero tenham em relação às posições do governo Bolsonaro sobre questões ambientais e climáticas são apenas isso: divergências. Uma sociedade democrática é, por natureza, plural. As pessoas divergem, discutem, se manifestam, são convencidas, convencem, mudam de ideia. Hoje os partidos que se opõem à atual administração estão enfraquecidos em grande parte por seus próprios equívocos políticos. Mas isso não significa que o governo não enfrentará, na sociedade, vozes discordantes às decisões que tomar em qualquer área, principalmente nos temas mais sensíveis.


*Miriam Leitão, jornalista, ‘Erros do governo na Amazônia’, O Globo, 13/2/2019

William Waack: O berreiro do desmame

- O Estado de S.Paulo

Bolsonaro e Guedes apenas começam o confronto com os interesses de cada grupo

A agenda liberal de Paulo Guedes chegou ao leitinho e, com ela, o vocabulário sobre a discussão tornou-se preciso, realista e fiel aos fatos. “O desmame não pode ser radical”, disse a ministra da Agricultura ao se referir a pretendidos cortes nos subsídios do crédito rural, anunciado pelo colega da Economia.

Nem o setor dos produtores de leite pode prescindir de tarifas de importação (diretas ou na forma de antidumping) para enfrentar competidores externos – Bolsonaro atendeu os produtores e disse no Twitter que o leitinho deles, em sentido metafórico, está garantido. Na mesma linha geral surge a tomada de decisão sobre o fim da isenção dada às contribuições previdenciárias dos produtores rurais que exportam.

A proposta de agenda liberal de Guedes supõe o fim dessa renúncia (cerca de R$ 7 bilhões por ano nos cofres do INSS), tanto por razões fiscais como pelo propósito conceitual mais amplo. A Agricultura diz que não faz sentido tirar refresco de um setor – o de exportações agrícolas – que ajuda substancialmente a gerar os superávits comerciais que a economia também precisa.

Essa é uma típica discussão que no Brasil (mas não só) anda em círculos há décadas, subordinada sempre ao curtíssimo prazo e às turbulências dos momentos de crise econômica e política. Que obrigaram sucessivos governos a esticar contas (aumentando impostos, por exemplo, ou deixando de investir) para atender a todos que demandam seu leitinho.

Vera Magalhães: E, de novo, vai sobrar para os generais contornar a crise

- O Estado de S.Paulo

Com 44 dias de mandato, dos quais 15 passou internado, Jair Bolsonaro promoveu ontem um processo de fritura de um ministro que começou pelas redes sociais e tendo o filho como instrumento, evoluiu para uma entrevista à TV e colocou até Sérgio Moro no olho do furacão de uma crise política que preocupa os militares e não se sabe que extensão terá.

Gustavo Bebianno praticamente foi demitido no ar por Bolsonaro, depois de um dia inteiro sob óleo quente no qual foi colocado primeiro por Carlos Bolsonaro e, depois, pelo pai em pessoa.

Embora pouco seja visto nesta função, “Carluxo” tem mandato de vereador no Rio. Mesmo não tendo cargo na gestão do pai, é um de seus principais protagonistas. Chamou de mentiroso pelo Twitter o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Para corroborar sua tese, divulgou na mesma rede o áudio de uma conversa privativa de Bolsonaro com o auxiliar.

A indisposição de Carlos com Bebianno remonta à campanha. Por pouco ele não ficou sem ministério, mas a gratidão do então presidente eleito ao advogado, que comandou o PSL na campanha, superou a birra do filho. Agora, a suspeita de que mais de uma seção estadual do partido usou laranjas para destinar recursos do Fundo Partidário foi o pretexto para “Carluxo” voltar à carga, sob os auspícios do pai.

Merval Pereira: Autofagia

- O Globo

Mourão é considerado por um grupo de bolsonaristas como um potencial inimigo, um Cavalo de Troia

A família Bolsonaro parece gostar de um enfrentamento. Ontem à noite, o presidente avalizou pelo Twitter uma afirmação do filho Carlos, que desmentia o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, que dissera que mantivera contato com Bolsonaro no hospital. Queria desfazer assim os boatos de que estaria desgastado com o presidente devido a denúncias de uso indevido de verba propagandística durante a eleição. Pelo jeito, talvez não seja mais ministro hoje.

O PSL está debaixo de fogo cruzado devido à suspeita de ter desviado dinheiro da campanha eleitoral utilizando-se de candidatas “laranjas”. Gustavo Bebianno, que foi presidente do PSL e teve papel de relevo na campanha, está sendo acusado por um grupo de bolsonaristas, entre eles o próprio Carlos, de ter participado dessa tramoia que está sendo investigada pela Justiça.

Já na transição do governo houve uma briga entre os dois. Carlos atribuía a Bebianno o convite a Marcos Carvalho, dono da agência AM4, responsável pela campanha digital do presidente eleito, para participar da equipe.

Carlos considera-se o responsável pela comunicação de Bolsonaro nas mídias sociais, tem até mesmo as senhas do pai, e não admite concorrência. Acusou Marcos Carvalho de querer aparecer como “marqueteiro digital” vencedor, sem ter tido tal importância.

Certa vez, o vice-presidente Marco Maciel ouviu de Heitor Ferreira, ex-secretário particular dos presidentes Geisel e Figueiredo, a definição do posto que ocuparia no governo de Fernando Henrique Cardoso: “Vice-presidente é nada à véspera de tudo”.

Maciel soube equilibrar-se nessa linha quase etérea entre o “nada” e o “tudo”, e hoje é exemplo de comportamento para um vice-presidente, discreto e eficiente. Ontem, o vice-presidente Hamilton Mourão recebeu com um sorriso o presidente Bolsonaro, que voltava a Brasília depois de 16 dias internado no Hospital Albert Einstein em São Paulo.

Sorriso que desfez qualquer desconforto que poderia ter causado uma ironia do presidente, ao telefone: “Quer me matar?”, perguntou a Mourão, que tratou de revelar a “brincadeira” para retirar dela qualquer conotação outra. Embora estivesse se referindo ao churrasco de confraternização de sua turma, de que Mourão participara enquanto ele estava no hospital, o presidente Bolsonaro refletia um estado de espírito inoculado pelo vereador do Rio Carlos Bolsonaro, o filho 02, que mantém a desconfiança de que existem pessoas interessadas na morte de seu pai.

Bernardo Mello Franco: O pit bull que morde o governo

- O Globo

Sem cargos no governo, os filhos de Bolsonaro vão se especializando em fabricar crises. Desta vez, o tumulto tem origem no dedo nervoso de Carlos, o Zero Dois

Jair Bolsonaro costuma chamar o filho Carlos de “meu pit bull”. Ontem o cão raivoso voltou a morder o governo. O Zero Dois atacou o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Chamou de mentiroso um dos ministros com gabinete no Planalto.

O tuíte de Carluxo abriu uma nova crise no bolsonarismo. O ministro já estava na berlinda desde que reportagens da “Folha de S.Paulo” revelaram um laranjal nas campanhas do PSL. Agora é fritado a fogo alto pelo filho mais próximo do presidente. O Zero Dois é vereador no Rio, mas prefere disputar poder em Brasília.

Na transição, ele escreveu que morte de Bolsonaro não interessaria “somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto”. A frase foi interpretada como um recado ao vice Hamilton Mourão.

Desta vez, o ataque foi mais direto. Carluxo desmentiu Bebianno, que disse ter falado três vezes com o presidente na terça. O relato foi uma “mentira absoluta”, rebateu o herdeiro do presidente. Ele também divulgou um áudio em que o pai se recusa a atender o ministro.

Bruno Boghossian: Aterrissagem no laranjal

- Folha de S. Paulo

Chamado de mentiroso pelo presidente, Bebianno pode cair atirando

Liberado do hospital após 17 dias, Jair Bolsonaro embarcou no avião presidencial em São Paulo e pousou no meio do laranjal do PSL. As falcatruas dos aliados e as barbeiragens da família levaram para dentro do Palácio do Planalto as suspeitas sobre o esquema de candidaturas de fachada revelado pela Folha.

O novo governo mostrou mais uma vez sua inabilidade em construir barreiras para a contenção de crises.

Acuado, Bolsonaro decidiu jogar na fogueira o ministro Gustavo Bebianno, que comandou o PSL durante a campanha eleitoral.

O auxiliar sofreu um ataque público inusual. Para negar rumores de que seria demitido, Bebianno declarou que havia conversado com Bolsonaro sobre os repasses financeiros feitos a candidatas suspeitas. O presidente e um de seus filhos fizeram questão de detonar a versão.

Em uma publicação nas redes sociais, Carlos acusou Bebianno de mentir sobre esses diálogos. Reproduziu ainda uma gravação em que Bolsonaro dizia ao ministro que não trataria do assunto. No fim do dia, o presidente repetiu essa informação.

Chamado de mentiroso pelo chefe, Bebianno perde condições de ficar no cargo, mas diz que não deixará o governo. É vergonhoso, aliás, que Bolsonaro escolha queimar um auxiliar em vez de apenas demiti-lo.

Janio de Freitas: Laranjas venenosas

- Folha de S. Paulo

A realidade vai mais longe, porque a Câmara está contaminada

A bancada do PSL de Bolsonaro está constituída, na Câmara, com a inclusão de beneficiários de burla eleitoral. E não só eleitoral, por se tratar de atos lesivos aos cofres públicos. Essa é a realidade.

A revelação desta Folha que Bolsonaro considerou acabada, de candidatos-laranjas para tomar dinheiro do fundo partidário, não se soluciona com a responsabilização de um ou outro dirigente do PSL na última eleição. É o que querem os Bolsonaros. Mas a realidade vai mais longe, porque a Câmara está contaminada.

Também não bastam investigações do Ministério Público e da Polícia Federal em Minas e em Pernambuco, estados com a burla de "laranjas" já exposta na Folha. Como o próprio Bolsonaro dirige o indicador para Gustavo Bebianno, hoje secretrário-geral da Presidência e presidente do PSL no ano passado, há mais motivo para suspeitar que a burla rendosa fosse uma orientação ampla. Além disso, o já comprovado desvio de verba eleitoral, para pagamento de gráfica inexistente, atesta um método de desvios para caixa dois ou para bolsos pessoais.

Os eleitos com recursos partidários provenientes de dinheiro público, em montante aumentado por golpe, tiram a legitimidade das votações de que participem. E o provável, com isso, é que sujeitem os resultados a questionamento judicial, para anulá-los. Diante disso, e apesar de mais interessado nas boas relações com Bolsonaro, Rodrigo Maia tem obrigações próprias de presidente da Câmara, e não se justifica sua indiferença ao surgimento do caso.

Ser mais um na série diária do governo Bolsonaro não faz desse um episódio qualquer. Mas, se não houver atenção pública, dos órgãos oficiais não se deve esperar o predomínio da imparcialidade e da lei. Sob o pretexto de "pacificação" e "harmonia", ninguém quer nada. De bom.

Ricardo Noblat: Pai e filho entregam cabeça de Bebianno

- Blog do Noblat | Veja

República em estado de choque
Quando o jornal O Estado de São Paulo, em dezembro último, publicou que Fabrício Queiroz, ex-motorista do então deputado Flávio Bolsonaro, estava sendo investigado por ter movimentado em sua conta mais de R$ 1 milhão sem ter renda para tal, o presidente eleito Jair Bolsonaro apressou-se em se meter no assunto.

Amigo há mais de 40 anos de Queiroz, defendeu-o sugerindo que parte do dinheiro deveria ser proveniente da família dele. Em seguida, quando se soube que um cheque de Queiroz fora depositado na conta de Michelle, a futura primeira-dama, Bolsonaro logo explicou que era parte de um dinheiro que ele lhe devia.

Não demorou muito para que os rolos de Queiroz respingassem em Flávio. E então o que fez Bolsonaro? Correu também a defender um dos seus garotos. Flávio era inocente, garantiu o pai. Quem o atacasse na verdade queria atacar o presidente da República – ou seja, ele, Jair. Dali para frente, esse virou o mote da defesa de Flávio.

Com Gustavo Bebianno, nomeado por ele ministro da Secretaria-Geral da presidência da República, o comportamento de Bolsonaro foi o oposto. Menos de dois dias depois de Bebianno ser atingido pela suspeita de que patrocinou um laranjal de falsos candidatos quando presidiu o PSL, Bolsonaro entregou-o às feras sem piedade.

Nesse caso ainda está por ser decifrado se foi o filho, Carlos, vereador no Rio, que usou o pai para demitir Bebianno, de quem nunca gostou, ou se foi o pai que usou o filho para forçar Bebianno a pedir demissão. Pelo menos até o início da madrugada de hoje, Bebianno repetia que não pediria demissão. Só sairia demitido.

Foi Carlos que explodiu a bomba na sua página no Twitter. Ao jornal O Globo, Bebianno dissera que via WhatsApp falara três vezes com Bolsonaro sobre o laranjal do PSL quando o presidente esperava receber alta do hospital Alberto Einstein. Carlos chamou Bebianno de mentiroso. Afirmou que ele não falara uma única vez com o pai.

E para provar que dizia verdade, postou um áudio onde se ouve a voz de Bolsonaro dizendo a Bebianno: “Gustavo, está complicado ainda. Não vou conversar, não vou conversar com ninguém.” Por mais ousado que fosse, Carlos seria capaz de divulgar uma mensagem de voz do presidente da República sem a prévia autorização dele?

Militares de bom coração que ocupam postos importantes do governo chegaram a pensar que Carlos divulgara o áudio à revelia do pai, e ficaram perplexos com isso. Até que no Twitter, Bolsonaro compartilhou a mensagem postada pelo filho, e em entrevista ao Jornal da Record, confirmou o que o filho escrevera.

A demissão do ministro interessa ao pai e ao filho. Carlos jamais se conformou em não ser o secretário-geral da presidência da República. Ameaçado por um novo rolo que pode lhe tomar de vez a bandeira da luta contra a corrupção, Bolsonaro escolheu entregar a cabeça de Bebianno para manter a sua. Os poderosos agem assim.

Não foi isso que fez Lula com o então ministro José Dirceu para escapar do mensalão do PT? Jurou que fora traído. Demitiu o ministro, que ainda por cima perdeu o mandato de deputado federal. A chamada Nova Política é um espelho da Velha.

O Estadão: Desmentido por Bolsonaro, Bebianno diz que não sai

Presidente manda apurar suspeita de fraude no PSL e diz que ministro pode ‘voltar às origens’

Tânia Monteiro / O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro colocou em xeque a permanência no governo do ministro Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presidência). À TV Record, Bolsonaro afirmou que mandou a PF investigar as acusações de que o PSL – partido que foi presidido por Bebianno – teria financiado candidaturas laranjas. “Se (Bebianno) estiver envolvido e, logicamente, responsabilizado, lamentavelmente o destino não pode ser outro a não ser voltar às suas origens”, afirmou. Bebianno disse que não pedirá demissão. Durante o dia, Carlos Bolsonaro, filho do presidente e desafeto de Bebianno, escreveu no Twitter que o ministro mentira ao dizer que havia conversado três vezes com o presidente sobre as acusações. Horas depois, o próprio presidente endossou o filho. Nos 17 dias em que Bolsonaro ficou hospitalizado, as divisões internas do governo se acentuaram.

O embate entre o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, jogou ontem o Planalto em sua pior crise nos 44 dias de governo. Após receber alta do hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ficou internado por 17 dias, o presidente tomou o lado do filho na briga e desautorizou Bebianno, sugerindo até mesmo que ele pode deixar o cargo.

Em entrevista à TV Record, Bolsonaro disse que o ministro mentiu quando afirmou ao jornal O Globo que eles conversaram anteontem três vezes pelo telefone sobre rumores de crise no governo. O presidente informou que determinou à Polícia Federal a abertura de inquérito para apurar suspeitas de desvios de recursos do Fundo Partidário destinados ao PSL por meio de candidaturas laranjas nas eleições de 2018.

Bebianno presidiu o partido durante o período eleitoral. “Se (o Bebianno) estiver envolvido e, logicamente, responsabilizado, lamentavelmente o destino não pode ser outro a não ser voltar às suas origens”, afirmou o presidente à Record.

Reportagens do jornal Folha de S.Paulo apontaram suspeitas de candidaturas laranjas em Minas Gerais e em Pernambuco.

Bolsonaro acrescentou na entrevista à TV que o pedido de abertura de investigação foi feito ao ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, que disse ter “carta branca” para determinar investigações do caso. “O partido tem que ter consciência. Não são todos, é uma minoria do partido que está aí nesse tipo de operação que nós não podemos concordar.”

Bebianno afirmou que não pretende deixar o cargo e confidenciou a amigos próximos que se o presidente quiser que ele saia, terá de demiti-lo.

Folha: Apoiado por Bolsonaro, filho ataca ministro e agrava crise

Filho de Bolsonaro ataca ministro, e caso dos laranjas do PSL abre crise no governo

Carlos Bolsonaro chamou Gustavo Bebianno de mentiroso; Folha revelou caso dos candidatos

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO E BRASÍLIA - A revelação do esquema de candidaturas laranjas do PSL pela Folha provocou uma crise no governo de Jair Bolsonaro, alavancada pelo ataque do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, ao ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno.

Nomes importantes da bancada do PSL na Câmara se manifestaram sobre o caso, aumentando a tensão no partido, que está sob pressão com a série de reportagens do jornal sobre o uso de candidaturas laranjas para desviar verba do fundo partidário nas eleições.

No centro da crise estão o presidente atual do PSL, o deputado federal Luciano Bivar (PE), e Bebianno, que presidiu o partido no ano passado, inclusive durante o período eleitoral.

Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) afirmou nesta quarta-feira (13) em rede social que o ministro mentiu ao dizer que conversou três vezes com seu pai, o presidente Jair Bolsonaro (PSL), no dia anterior.

“Ontem estive 24h do dia ao lado do meu pai e afirmo: 'É uma mentira absoluta de Gustavo Bebbiano [sic] que ontem teria falado 3 vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado pelo Globo e retransmitido pelo Antagonista'.”

O presidente quer uma solução rápida para o caso, discutiu com o ministro e o fez cancelar agendas, o que aumentou a pressão entre aliados para que Bebianno peça para sair do governo.

O deputado Alexandre Frota (PSL-SP) afirmou que o seu partido “não passará a mão na cabeça de bandido”. “Ontem [terça (12)], a maioria dos partidos de esquerda que subiram aqui [na tribuna da Câmara] falou que o PSL é um partido de laranjas. O PSL não é um partido de laranjas”, afirmou Frota.

“Qualquer secretário, deputado, ministro envolvido em qualquer coisa, essa laranja podre vai cair”, disse.

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) criticou Carlos Bolsonaro pelo ataque feito a Bebianno. "Não pode se misturar as coisas. Filho de presidente é filho de presidente. Temos que tomar cuidado para não fazer puxadinho da Presidência da República dentro de casa para expor um membro do alto escalão do governo dessa forma", disse Joice.

Reportagem da Folha deste domingo (10) revelou que o grupo do atual presidente do PSL, Luciano Bivar (PE), recém-eleito segundo vice-presidente da Câmara dos Deputados, criou uma candidata laranja em Pernambuco que recebeu do partido R$ 400 mil de dinheiro público na eleição de 2018. O dinheiro foi liberado por Bebianno.

Maria de Lourdes Paixão, 68, que oficialmente concorreu a deputada federal e teve apenas 274 votos, foi a terceira maior beneficiada com verba do PSL em todo o país, mais do que o próprio presidente Bolsonaro e a deputada Joice Hasselmann (SP), essa com 1,079 milhão de votos.

O Globo: Bolsonaro diz que Bebianno mentiu e pode deixar governo

Carlos, filho mais próximo do presidente, fez pressão contra ministro em rede social

Depois de Carlos Bolsonaro chamar o ministro Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral da Presidência, de mentiroso em rede social, negando que ele tenha conversado com o presidente após ser acusado de envolvimento com candidaturas laranjas do PSL, Jair Bolsonaro endossou as críticas do filho e disse à TV Record que mandou a PF investigar o caso. Se responsabilizado, o ministro “terá que voltar às suas origens’’, afirmou o presidente. Bebianno disse à GloboNews não ter intenção de se demitir. Bolsonaro “bate o martelo” hoje sobre a reforma da Previdência.

Bolsonaro: Bebiano pode sair do governo

Jussara Soares e Bruno Góes | O Globo

BRASÍLIA O presidente Jair Bolsonaro afirmou ontem que o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, pode “voltar às origens”, caso esteja envolvido no suposto repasse de dinheiro do fundo público eleitoral para candidatos laranjas do PSL. Bolsonaro disse ser “mentira” que tenha falado com Bebianno, anteontem, com o avanço das acusações. A fala ocorre em meio à pressão exercida pelo vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), que não é do governo, para que o pai demita um de seus mais importantes auxiliares.

— Se estiver envolvido (Bebianno), logicamente, e responsabilizado, lamentavelmente o destino não pode ser outro a não ser voltar às suas origens — afirmou o presidente, em entrevista à TV Record.

Bolsonaro afirmou que ele mesmo pediu a investigação do caso ao ministro da Justiça, Sergio Moro.

Ontem à noite, Bebianno disse à GloboNews que não pretende pedir demissão, negou as acusações e reafirmou que conversou com o presidente:

— Não tenho essa intenção porque não fiz nada de errado. Meu trabalho continua sendo em benefício do Brasil. O presidente, se entender que eu não deva mais continuar, ele certamente vai me comunicar.

Bebianno, contudo, expressou a aliados, na noite de ontem, que ainda analisa possível pedido de demissão. O ministro tem conversado com assessores e integrantes do governo para tomar sua decisão.

A crise foi deflagrada após Carlos Bolsonaro expor, nas redes sociais, um áudio do presidente endereçado ao ministro, que comandou a campanha eleitoral e presidiu o PSL no período da disputa. Na gravação, Bolsonaro afirma que tem recomendações médicas para não falar com seus auxiliares e deseja “sorte” ao subordinado.

O filho do presidente postou a gravação no começo da tarde, enquanto o pai voava de São Paulo a Brasília, para mostrar a seus seguidores que o ministro teria mentido ao dizer ao GLOBO que havia conversado três vezes com Bolsonaro no dia anterior.

O gesto do filho do presidente desagradou a ala militar do Planalto, que viu no entrevero um desgaste desnecessário para o governo.

Roberto Dias: A praga do amarelinho e a política

- Folha de S. Paulo

Revelações sobre candidaturas de laranjas expõem a fragilidade do discurso ético do PSL

A combinação de laranja e política já foi bem mais divertida. Tem lugar de honra no anedotário o debate de Mário Covas e Paulo Maluf sobre a então pouco popular praga do amarelinho, na campanha de 1998. A partir dali, o progresso tecnológico conteve a propagação da doença nos laranjais de SP.

Não há consenso sobre que caminho levou a palavra laranja a tomar outro sentido, bem menos saudável: o de batizar a pessoa que tem seu nome utilizado para alguma fraude. Mas é inequívoco que nenhum avanço legal parece estar sendo capaz de deter a incidência desse mal.

A última manifestação apareceu na Folha nos últimos dias. As revelações expõem a fragilidade do discurso ético do PSL, o partido do presidente. É interessante notar que a reação do bolsonarismo vai sendo diferente da de Jair no episódio Wal do Açaí e da de Flávio no caso Queiroz. Parece agora faltar coragem para sustentar que laranja não é laranja.

Matias Spektor: Dois lobbies

- Folha de S. Paulo

Para uma parcela dos democratas, proposta de ministro equivale a uma licença para matar

O novo pacote anticrime proposto pelo ministro Sergio Moro afeta em cheio a relação entre o governo Bolsonaro e os Estados Unidos. O motivo é a nova redação dos artigos 23 e 25 do Código Penal, que, ao reduzir a interdição das forças de segurança brasileiras para matar, divide águas no Congresso americano.

Neste momento, o Legislativo americano é o ator mais relevante no relacionamento entre o Brasil e os EUA. Afinal, o governo Trump joga todo o seu peso para oferecer a Bolsonaro um ambicioso pacote de promessas políticas e diplomáticas no encontro do mês que vem.

Para torná-las realidade, a Casa Branca terá de conseguir a anuência de ao menos uma parcela da bancada democrata, cujos deputados controlam as comissões mais relevantes do Congresso.

O Executivo goza de uma grande vantagem para convencer esses deputados: o apoio do Palácio do Planalto à política americana para a Venezuela. A postura brasileira tem o apoio e a simpatia de numerosos congressistas democratas que, mesmo se opondo a Trump, estão de olho no eleitorado latino que anseia pelo fim da ditadura chavista.

Acontece que há outra parcela do Partido Democrata que enxerga em Bolsonaro uma ameaça à democracia latino-americana.

Luiz Carlos Azedo: Moro e Doria pagam pra ver

- Correio Braziliense

“A ‘convivência pacífica’ entre polícia e bandido nos presídios estava possibilitando, frequentes ameaças a promotores e juízes por homicidas confessos, em audiências e julgamentos”

O ministro da Justiça, Sergio Moro, e o governador de São Paulo, João Doria, pagaram para ver a reação do Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção criminosa do país, ao transferir Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e mais 21 chefões do tráfico de drogas das penitenciárias estaduais de Presidente Venceslau e de Presidente Bernardes, no interior do estado, para os presídios federais de Mossoró (RN), Porto Velho (RO) e Brasília (DF), recém-inaugurado na Papuda. Não existe superlotação nem registro de fugas nesses presídios.

Efetivamente, essa é a primeira ação disruptiva de Moro nos presídios, em comum acordo com o governador João Doria, que alfinetou os antecessores ao dizer que esse tipo de medida já poderia ter sido tomada. Segundo o governo paulista, Marcola e seus comparsas estavam planejando uma fuga do presídio, em razão das propostas de endurecimento de penas e do regime carcerário.

A decisão é muito emblemática por causa da crise ocorrida no Ceará, após a transferência dos chefões do crime organizado dos presídios daquele estado para presídios federais — há mais dois: um em Campo Grande (MS) e outro em Catanduvas (PR) —, que são reservados para presos de alta periculosidade e líderes de facções criminosas.

A transferência da alçada estadual para a federal muda o status quo do tráfico de drogas em São Paulo, porque haverá uma desconexão entre os líderes históricos da PCC e toda a poderosa rede de tráfico de drogas, inclusive para o exterior, existente no estado. Além disso, põe fim à “convivência pacífica” entre polícia e bandido nos presídios, que estava possibilitando, inclusive, frequentes ameaças a promotores e juízes criminais de primeira instância por homicidas confessos, em audiências e julgamentos.

Maria Cristina Fernandes: A quem responderá o general brasileiro no Texas

- Valor Econômico

Alinhamento será posto em xeque em caso de ação militar

Quando o general brasileiro Alcides Faria Jr., hoje num comando de brigada em Ponta Grossa (PR), desembarcar no Forte San Houston, em San Antonio, no Texas, no fim de abril, para assumir suas funções de subcomandante das Forças Armadas americanas, já terão se esgotado todos os prazos dados pelos Estados Unidos para que a Venezuela aceite a remessa de alimentos e remédios enviada ao país.

Comida num país que passa fome, é comandado por um ditador e tem um governo paralelo é um ativo evidente nas mãos de quem esteja disposto derrubar o poder constituído. Como as autoridades americanas já determinaram que a questão não é se a Venezuela vai ou não aceitar mas quando, uma ação militar revestida de ajuda humanitária é um desfecho real.

O cenário abre uma lista de dúvidas frente às quais o Congresso Nacional não teve a possibilidade de se confrontar porque não foi consultado e, ao contrário do americano, nem mesmo informado. Se o Pentágono enviar a ordem para o Forte San Houston, o que deverá fazer o general brasileiro? Interromperá a cadeia de comando que passou a integrar ou cumprirá as diretrizes da ação militar do Pentágono? Uma pista é saber quem pagará seu salário, mas não há nem mesmo um acordo público, ou designação já publicada no Diário Oficial, para saber se a tarefa caberá ao governo brasileiro ou americano.

Pelo prazo em que foi anunciado o engajamento do general, no 37º dia do governo Jair Bolsonaro, é provável que o convite e seu aceite tenham se dado na gestão Michel Temer. Não há registro que a cooperação tenha nascido no Ministério da Defesa onde se teme que um engajamento militar do Brasil na Venezuela aumente a pressão de refugiados em Roraima e exponha a inferioridade bélica nacional. Em 29 de setembro de 2015, um tanque blindado de mais de 50 toneladas que saíra de Campo Grande e atravessara a Amazônia, fez disparos na Serra do Tucano, próximo a Boa Vista. Exibido para o vizinho ao Norte, armado de submarinos, baterias de defesa antiaérea e caças Sukhoi, foi um ensaio de teatro amador.

Para convencer os senadores americanos de sua proposta orçamentária, o almirante americano discorreu sobre as ameaças de o Exército Islâmico vir a estabelecer vinculações com narcotraficantes latino-americanos. No governo passado, quem mais deu asas a esta tese foi o ex-ministro do gabinete de Segurança Institucional, o general Sérgio Etchegoyen.

Celso Ming: O que pretende Bolsonaro?

- O Estado de S.Paulo

Se o presidente Bolsonaro tem uma estratégia de política econômica ninguém sabe qual é. Ele vai operando com um conjunto nebuloso de princípios pouco coerentes entre si que mais cedo do que tarde tendem a entrar em choque.

Seu ministro da Economia, Paulo Guedes, foi escolhido por suas propostas liberais e pela defesa da economia competitiva, que dispensa as muletas dos subsídios.

Mas o presidente Bolsonaro também não esconde seu viés protecionista. Sem determinar limites claros, já mostrou contrariedade com o que entende como sinais de voracidade do capital estrangeiro (especialmente dos chineses) sobre ativos brasileiros, mais de uma vez sugeriu que a atividade produtiva deva ser blindada contra concorrências fortes e, nessas condições, deva ser menos exposta à concorrência externa. Ao mesmo tempo, nomeou como ministro das Relações Exteriores o embaixador Ernesto Araújo, que se notabilizou pelo seu discurso antiglobalista, notadamente contra movimentos de integração econômica e política entre países e blocos de países, o que sugere proposta de cunho nacionalista e não liberalizante.

Na última terça-feira, Bolsonaro tomou partido no primeiro conflito entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, na questão da importação do leite em pó. Para o ministro Paulo Guedes não faz sentido continuar protegendo a pecuária nacional contra a entrada de produtos lácteos da União Europeia e da Nova Zelândia. Por isso, baixou decreto que extinguia a tarifa alfandegária de proteção. No entanto, a ministra Tereza Cristina entende que, sem proteção, a pecuária leiteira brasileira não subsistiria e defendeu a criação de taxa alfandegária extra sobre as importações. Com o aplauso de Bolsonaro, desta vez Tereza Cristina levou a melhor e o propalado “posto Ipiranga”, supostamente a única e última palavra em política econômica, foi obrigado a recuar.

Zeina Latif*: O estrangeiro aguarda

- O Estado de S.Paulo

A dúvida é se o País se tornará adulto responsável ou se vai depender de mesada dos pais

Tem sido bastante frequente a avaliação de que a reforma da Previdência trará um ganho de confiança que irá se traduzir em maior interesse por investimentos no País. Há exageros nesta análise.

Não há dúvidas sobre a melhora da confiança diante de uma reforma que traga uma perspectiva de eliminação do rombo das contas públicas e estabilização do regime fiscal. Este é o passaporte para o Brasil ingressar na fase adulta, superando sua prolongada adolescência. Daí a rapidamente colhermos os frutos em termos de investimento e crescimento são outros quinhentos.

Começando pelos investidores estrangeiros, os dados sugerem que não serão eles os líderes da retomada do investimento. Pelo contrário. Eles geralmente aguardam a economia ganhar tração para aumentar a presença no País. A perda do grau de investimento atrapalha.

Além disso, é pequena a participação do investimento direto estrangeiro no investimento total, possivelmente menos de 10%, quando se leva em conta que os investimentos em planta nova (greenfields) representam em torno de 25% do total (média mundial).

A ideia de que o fim das incertezas eleitorais será impulso para o investimento dos estrangeiros não é respaldada pelos fatos. Este não parece ser muito afetado pelo ciclo político. Há um interesse crescente dos estrangeiros, mas ainda em estágio inicial, na busca de maior compreensão da agenda econômica do novo governo.

Míriam Leitão: A reforma e seu maior inimigo

- O Globo

Reforma será aprovada, mas o governo tem dispersado força política em brigas internas. Projeto ainda não foi apresentado e já está sob ataque

A reforma da Previdência será aprovada. Sobre isso há pouca dúvida. A questão é saber quando e com que substância. Antes de o projeto do Ministério da Economia ser oficialmente conhecido ele já está sob ataque. O Brasil é especialista em engavetar reformas, vem fazendo isso desde o governo Fernando Henrique. Quando não derruba o projeto, torna-o tão anêmico que logo logo é preciso reiniciar a batalha.

A reforma Bolsonaro será aprovada porque é início de governo e ele terá força política para levar o tema à votação e vencer. Não será fácil, como poderia. O governo tem dispersado parte desse poder inicial nas brigas da bancada do partido do presidente e nas disputas internas no Executivo sobre o teor das mudanças a apresentar. O maior inimigo do governo nesta reforma tem sido ele mesmo.

O Ministério da Economia diz que fará grande campanha publicitária para explicar a necessidade da reforma. É uma boa ideia, só não é inédita. O governo passado também tentou comunicar, com anúncios, e muitas entrevistas, a urgência de mudanças e os defeitos do sistema brasileiro. Ele tem um déficit explosivo e cria desigualdades sociais no país, já muito desigual. Ganha mais e se aposenta mais cedo quem é mais rico.

O ministro Paulo Guedes terá na sua empreitada o apoio dos principais veículos de imprensa, e dos jornalistas especializados, ou seja, a mídia tão criticada pela família presidencial nas redes sociais. Jornais já se detiveram sobre os números, os fatos e os riscos da Previdência. Sabem que a reforma é necessária, independentemente de diferenças de opinião sobre alguns dos diversos pontos da mudança proposta. As teses contra a reforma que, no governo Temer, foram defendidas com ardor pelo hoje senador Major Olímpio e o hoje ministro Onyx Lorenzoni, eram desinformadas. Agora no poder, os dois mudaram de ideia. É sempre tempo para se atualizar.

José Serra*:Menos juros, mais desenvolvimento

- O Estado de S. Paulo

Mudança para melhor exige compromisso efetivo com as reformas estruturais da economia

Não é novidade afirmar que elevados níveis de juros dificultam ou, no melhor dos casos, não facilitam o desenvolvimento econômico e social em nosso país e em qualquer outra parte do mundo. Juros altos como os brasileiros desestimulam o investimento produtivo e tornam a dívida pública excessivamente custosa em termos fiscais. Para se ter uma ideia, apenas em 2018 a despesa dos juros para a sociedade (setor público consolidado) ficou na casa dos R$ 380 bilhões - 5,5% do nosso PIB.

Para a maioria dos analistas econômicos, a mudança para melhor dessa situação exige compromisso efetivo com as reformas econômicas estruturais da economia brasileira. Os objetivos principais seriam, no limite, o reequilíbrio da dívida como proporção do PIB e a ampliação de um quadro de previsibilidade e confiança dos agentes econômicos no governo e no Congresso.

Precisamos de um tripé de reformas, feitas com calma, lucidez e firmeza. Leve-se em conta que a política econômica depende da qualificação dos seus executores e de expectativas favoráveis da sociedade e dos agentes econômicos. O que as pessoas acham e pensam - e não apenas suas decisões a posteriori - afetam o quadro econômico antes que os fatos se concretizem.

A mera apreensão quanto a uma determinada conjuntura ou decisão pode levar a taxa de câmbio, a inflação ou os juros a um quadro de movimentos bruscos, prejudiciais à economia. Quando o mercado prevê tempos nebulosos e incertos, esses riscos são precificados nos diferentes ativos financeiros, a exemplo dos títulos da dívida pública, exigindo pagamento de juros mais elevados pelo governo. Este, por sua vez, aceita pagar taxas mais altas nos títulos que emite para financiar o déficit público. Quando as nuvens se dissipam e o horizonte fica mais claro, se dá o oposto: fica mais fácil e barato financiar as políticas públicas.

Os juros brasileiros já foram bem mais altos em relação aos padrões atuais. A chamada taxa Selic, o juro básico da economia, está em 6,5% ao ano. Antes das quedas recentemente promovidas com maestria pelo Banco Central (BC), a Selic estava em 14,25% ao ano.

Vinicius Torres Freire: Governo tem de parar de enlouquecer

- Folha de S. Paulo

Núcleo mais biruta e enrolado do bolsonarismo afeta até a boa vontade da elite

O governo de Jair Bolsonaro junta rolos demais e faz muita inimizade gratuita para apenas seis semanas de mandato.

Os filhos do presidente detonam ou amplificam crises. Alguns de seus ministros insultam cidadãos de bem. Etc.

Não quer dizer que daí saia uma crise relevante. Mas escândalos e malquerenças são passivos que ficam no armário, dívidas que podem ser executadas em caso de dificuldades e fraquezas.

O problema pode ir da negociação de um voto importante no Congresso ao caso extremo da deposição, a depender do ambiente político geral.

Quando um não quer, dois não brigam, no entanto. O dito popular bonitinho também serve para as sujidades da política.

Um governo cheio de rolos não dança se o Congresso não quiser, e o Congresso não costuma se levantar da cadeira se o povo não subir nas tamancas.

O monte de escândalos do governo FHC deu em nada, graças também a um Ministério Público amigo. Lula se reelegeu com um mensalão nas costas. Não foi assim com Fernando Collor ou Dilma Rousseff.

O clima é muito favorável a Bolsonaro, em uma situação de risco, porém.

Dois terços dos eleitores estão otimistas com o governo e a economia. A confiança de empresários e consumidores cresce desde a eleição, mesmo que a economia permaneça quase estagnada no buraco do inferno em que caiu.

Eugênio Bucci: Por que o presidente lida mal com a imprensa

- O Estado de S. Paulo

Bolsonaro acredita que celulares livrarão a humanidade da moléstia chamada jornalismo

A morte do jornalista Ricardo Boechat, na segunda-feira, ensejou uma manifestação atípica do presidente Jair Bolsonaro. Num pronunciamento exclusivo para o programa Brasil Urgente, da Band, ele deu a entender - embora de modo quase imperceptível - que reconhece a função questionadora do jornalismo. Desta vez, as palavras do chefe de Estado foram excepcionalmente respeitosas em relação aos profissionais de imprensa. Eis o que ele disse de Boechat: “Não (tínhamos) amizade de tomar cerveja, bater um papo, ir no futebol, (tínhamos) uma amizade jornalística, passamos muitos momentos juntos, por vezes (eu) sendo obviamente contrariado por ele, na maioria das vezes sendo elogiado. De vez em quando (Boechat) falava nos programas dele do apelido ‘Jacaré’, porque ele gostava de falar, vivia de boca aberta, no bom sentido, e eu botei esse apelido nele”.

Note-se a expressão “no bom sentido”. O presidente aceita que um mediador do debate público, nos microfones do rádio e da televisão, escancare a boca para falar, desde que, claro, “no bom sentido”. Note-se, ainda, a proporcionalidade que Bolsonaro encontra entre as ocasiões em que teria sido “contrariado” e as ocasiões em que teria sido “elogiado” por Ricardo Boechat.

Segundo a personalíssima estatística de que ele lança mão, o elogio teria sido mais frequente. Portanto, no raciocínio presidencial, o elogio é o que legitima a crítica. Ou: o elogio seria o pedágio a ser pago para que alguém mereça o direito de criticar.

Dessa passagem se pode vislumbrar um pouco mais da visão que o chefe de Estado tem da imprensa. Em caráter excepcional, ele admite a existência da função de criticar o poder, mas, para ele, essa função não pode ser tolerada incondicionalmente. Em sua visão, o elogio é a regra (posto que mais frequente), enquanto a crítica, desde que enunciada “no bom sentido”, há de ser a exceção.

Nos idos de antigamente, nas aulas de Educação Moral e Cívica, durante a ditadura militar, os adolescentes aprendiam que a crítica deveria ser “construtiva”. Em boa medida, parece que é nisso que Jair Bolsonaro acredita. Talvez tenha assistido a aulas de Educação Moral e Cívica.

Em regra, suas palavras têm sido mais ácidas em matéria de liberdade de expressão. Têm sido menos polidas. Em recente tuíte ele usou o substantivo “canalhice” para desqualificar um título jornalístico que julgou incorreto. “Canalhice.” O que fala, por detrás do substantivo, é a velha lógica dos poderes autoritários: se alguém discorda, não adere e não obedece, esse alguém só pode ter uma doença moral qualquer, um vício de caráter. Logo, só os canalhas não elogiam. Entendeu?

Na crença bolsonárica, o modelo de liderança que dá certo se baseia na credulidade da Nação. Credulidade e alinhamento acrítico. Em lugar da credibilidade da imprensa independente, a credulidade no governo casto, salvador e saneador. As evidências de que essa é a crença que habita a imaginação presidencial são incontáveis, profusas, acachapantes e transbordantes. Vêm desde a campanha, quando o candidato do PSL dirigia infâmias contra órgãos de imprensa como se tentasse exorcizar a Pátria, livrá-la do Asmodeu chamado dissenso, uma vez que só a concordância pode unir a Nação.

O presidente abomina a ideia de que o debate público supõe mediadores, níveis de representação e abstrações. Em lugar de relatos factuais elaborados pela instância das redações profissionais, anuncia que prefere a “comunicação direta”. A imprensa seria um atravessador nefasto, um aparelho opositor, uma usina de versões suspeitas sobre os fatos que, além de mentir reiteradamente, é desnecessária em tempos de tecnologias digitais. O presidente acredita que telefones celulares livrarão a humanidade dessa moléstia chamada jornalismo. Foi o que ele disse, com absoluta desinibição, no discurso de diplomação, no Tribunal Superior Eleitoral, no dia 10 de dezembro do ano passado:

“Senhoras e senhores, vivenciamos um novo tempo. As eleições de outubro revelaram uma realidade distinta das práticas do passado. O poder popular não precisa mais de intermediação, as novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes.

Nesse novo ambiente a crença na liberdade é a melhor garantia de respeito aos altos ideais que balizam nossa Constituição. Diferenças são inerentes a uma sociedade múltipla e complexa como a nossa, mas jamais devemos nos afastar dos ideais que nos unem: o amor à pátria e o compromisso com a construção de um presente de paz e de futuro mais próspero”.

Cora Rónai: Brasil, indignação

-O Globo

O ano mal começou, mas já vivemos tragédias que bastam por muitas temporadas: todas elas evitáveis, todas elas criminosas, todas elas nascidas do descaso e da negligência

Comecei a escrever esta coluna uma quantidade de vezes: escrevia um ou dois parágrafos, lia, apagava tudo, levantava, olhava os peixinhos, ia até a janela, tomava um café, recomeçava. Tomei muito mais café do que queria, deveria ou precisava, e provavelmente não vou conseguir dormir, mas isso não é nada diante de não conseguir escrever — de olhar para a tela, que é apenas um reflexo do meu pensamento, e não ver nada ali digno de nota, porque, de certa maneira, nada é digno de nota num país em que nem a vida humana vale mais nada.

O que vale, então?

A vida é perto, é o que nos cerca quase ao alcance do braço, e aí ainda há conforto, há amigos e família, há animais e plantas, há riso e momentos felizes, mas é como se tudo isso fosse material de contrabando, algo que usamos, mas não está propriamente dentro da lei, porque na verdade deveríamos todos nós, brasileiros, estar escondidos debaixo da cama, aos prantos, cobrindo a cabeça de cinzas.

Há um carnaval vindo aí, já há blocos nas ruas, mas um país que tem o descaso que o Brasil tem consigo mesmo não tem o direito de festejar nada.

Até a arte parece irrelevante, porque o que é que ela pode contra essa pele de rinoceronte estendida sobre o futuro? Poesia numa hora dessas, Augusto dos Anjos? O ano mal começou, mas já vivemos tragédias que bastam por muitas temporadas: todas elas evitáveis, todas elas criminosas, todas elas nascidas do descaso e da negligência. Não sobra tempo entre uma e outra para elaborar a perda. É como se respirar tivesse se tornado uma tarefa penosa, quase impossível; como se o próprio ar do Brasil estivesse envenenado e pegajoso como a lama da Vale.

A Vale, essa, que sabe há anos dos riscos das suas barragens, e não faz nada porque é mais fácil comprar um punhado de fiscais e meia dúzia de parlamentares; a Vale, essa, que constrói escritórios e restaurantes ao pé do desastre, porque o prédio em que os senhores seus diretores trabalham fica longe e não tem vista para a desgraça.

É difícil encontrar algo digno de nota quando se sabe que todos esses senhores diretores escaparão impunes, que essa companhia que envergonha o país escapará impune, que passados alguns meses, enterrados ou não os mortos, arrasada toda a natureza em torno, ninguém falará mais nisso, como já não se falava mais em Mariana, e será apenas questão de tempo até que a próxima barragem se rompa e mate, mate, mate.

Dona Mercedes Carrascal, como foram dignas, justas e fortes as palavras que a senhora disse durante o velório do seu filho, meu colega e amigo Ricardo Boechat! Muito obrigada pela demonstração de força e de cidadania, pela ternura e pelas memórias. Ao vê-la, entendi de onde vieram a generosidade, o caráter e aquela permanente indignação com que ele enfrentava, sem medo, os poderosos da terra. Receba, por favor, o meu abraço, o meu carinho e a minha maior admiração.

De volta ao comando, Bolsonaro tem de disciplinar seu governo: Editorial | Valor Econômico

O presidente Jair Bolsonaro deixou o hospital Albert Einstein e a expectativa é a de que comece a governar. Quarenta e quatro dias depois de tomar posse, Bolsonaro ainda não detalhou o que pretende fazer com a vital reforma da Previdência. O período em que esteve internado revelou a torre de Babel em que se transformou o núcleo de poder e suas adjacências. Bolsonaro tem o dever, se quiser fazer um bom governo, de formalizar um idioma único.

O maior espaço vazio deixado pelo presidente é o da reforma da Previdência. Há divergências no governo, como sempre há: a ala política quer uma coisa, supostamente mais palatável à população, a econômica quer outra, mais dura, e todos estão à espera do que decidirá Bolsonaro. Antes de ser novamente operado, em janeiro, ele próprio contribuiu para a cacofonia defendendo ideias (ou esboço delas) diferentes da seu todo-poderoso ministro da Economia, Paulo Guedes, sugerindo uma reforma mais branda até do que a que restou de seu antecessor, Michel Temer. Na mesma tecla tem batido o responsável pela coordenação política, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Pelas divergências e balões de ensaio que vêm a público, não parece ter havido acerto prévio, durante a campanha, sobre o alcance da reforma entre Bolsonaro, Guedes e a equipe que viria a ocupar o Planalto. O fato de outras propostas sobre o mesmo tema terem aparecido, com alterações em pontos fundamentais, como transição e idade mínima, reforça uma indefinição que já deveria ter sido superada a esta altura. A espinha dorsal da reforma ainda é uma incógnita.

Tensão entre Poderes: Editorial | Folha de S. Paulo

CPI dos tribunais e outras propostas de setores bolsonaristas soam como revanchismo descabido

Na vida real, a relação entre os Poderes republicanos nem sempre se dá com a harmonia preconizada pela Constituição. A política, afinal, se faz primeiro afirmando as diferenças para depois tentar apará-las pela negociação.

Suscita preocupações, entretanto, o ensaio de queda de braço entre a cúpula do Judiciário e setores mais inflamados do governismo no Congresso. As origens da animosidade vêm de antes da eleição, quando o Supremo Tribunal Federal se colocou como anteparo a alguns dos ímpetos mais tresloucados de bolsonaristas.

A corte reagiu com vigor ao devaneio golpista de Eduardo Bolsonaro, segundo o qual bastariam um cabo e um soldado para fechá-la. Ministros também deram indicações de que barrariam projetos mais flagrantemente inconstitucionais, como o Escola sem Partido.

Nos dias finais da campanha, o STF chegou a impedir policiais de entrar em universidades para, fazendo mau uso da legislação eleitoral, reprimir o que seriam manifestações antibolsonaristas.

Mais recentemente, o presidente do tribunal, Dias Toffoli, determinou que a votação para a presidência do Senado fosse secreta, o que desagradou à ala governista, defensora do sufrágio aberto.

Bolsonarismo usa armas do PT para animar militantes: Editorial | O Globo

Criticar Chico Mendes e suspeitar de bispos agita, mas não ajuda a governar

O bolsonarismo acaba de fazer algumas evoluções típicas cujo resultado prático é animar plateias e militância. Enquadra-se à perfeição neste caso a atenção, noticiada pelo jornal “O Estado de S.Paulo”, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), do ministro Augusto Heleno, com um inofensivo Sínodo, a se realizar no Vaticano, em outubro, para bispos do continente tratarem da Amazônia e seus índios.

Adiciona-se a isso o comentário insensato, feito no programa “Roda Vida”, da TV Cultura, pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de que Chico Mendes, segundo pessoas do agronegócio, usava os seringueiros “para se beneficiar”. Reconheceu, ao responder à pergunta, que não o conhecia. Poderia não ter respondido.

Mais uma vez, o vice-presidente Hamilton Mourão atuou no improvável papel de bombeiro sensato, com elogios ao líder seringueiro. Por sinal, Mourão e Heleno, quando generais da ativa, serviram na Amazônia, conhecem bem a região.

A contenção do PCC: Editorial | O Estado de S. Paulo

Com autorização da Justiça, o governo do Estado de São Paulo transferiu a cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC) para presídios federais de segurança máxima. Entre os presos está o líder da facção criminosa, Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como “Marcola”, preso desde 1999. Trata-se de uma das mais incisivas ações do Estado contra a mais rica e violenta quadrilha em atividade no País. Espera-se que a medida, há muito esperada, sirva para minar o poder de ação do PCC e, consequentemente, trazer mais segurança aos cidadãos de São Paulo e dos Estados onde a quadrilha fincou presença a ferro e fogo nos últimos anos.

Os 22 membros da cúpula do PCC que até então estavam presos na Penitenciária 2 (P2) de Presidente Venceslau, no interior paulista, foram transferidos na madrugada de quarta-feira para presídios federais em Mossoró (RN), Brasília e Porto Velho (RO).

Paralelamente à ação em São Paulo, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto para Garantia da Lei e da Ordem (GLO) autorizando o uso das Forças Armadas nas ações de segurança no entorno dos presídios federais para onde foi levada parte dos presos. “Fica autorizado o emprego das Forças Armadas para a Garantia da Lei e da Ordem, no período de 13 a 27 de fevereiro de 2019, no Estado do Rio Grande do Norte e no Estado de Rondônia, para a proteção do perímetro de segurança das penitenciárias federais em Mossoró e Porto Velho, em um raio de dez quilômetros”, diz um trecho do decreto, assinado também pelos ministros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno; da Defesa, Fernando Azevedo e Silva; e da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Bibi Ferreira a maior de todas

Em mais de 80 anos de carreira, atriz estrelou espetáculos inesquecíveis, como ‘My fair lady’, ‘Gota d’água’, ‘Piaf ’ e ‘Amália’

Artur Xexéo | O Globo

Atriz, cantora, autora, diretora e apresentadora de TV “estreou” ainda bebê e nunca mais deixou os palcos. Ela emocionava no drama, como provou em “Gota d’água”, escrita pelo grande amor de sua vida, Paulo Pontes. Era craque na comédia, como ficou demonstrado em “Às favas com os escrúpulos”, de Juca de Oliveira, na qual foi dirigida por Jô Soares. E cantava, como mostrou nos musicais “My fair lady” e “Piaf ”. E dançava, como o público descobriu na revista “Escândalos ‘50”, que pegou fogo (literalmente!) no Teatro Carlos Gomes. E tocava violão, como o mundo viu no filme britânico “End of the river”. É pouco? Pois tocava violino e piano também. E compunha. E fazia versões. E traduzia. E dirigia. E fazia isso tudo muito bem. O teatro brasileiro é pródigo em grandes atrizes. Mas Bibi Ferreira foi a maior de todas.

Ela é um dos elementos da matriz de um estilo brasileiro de representar. Quando começou, nos anos 40 do século passado, nosso teatro ainda não tinha se livrado totalmente da influência portuguesa. Ainda havia até sotaque nos palcos. Bibi ajudou a criar os pontos de ruptura. E, durante quase 80 anos — com uma interrupção de cinco anos, em meados dos anos 50, quando foi fazer graça para plateias portuguesas —, ocupou o palco com seu multitalento aliado a um inabalável respeito ao público, o que a transformou em mito.

UM FENÔMENO NA TV
A trajetória de Bibi confunde-se com a história do teatro no Brasil. Foi dona de companhia, quando o ofício era exercido desse jeito. Foi estrela de revistas, quando o gênero era o preferido do público. Foi a primeira grande estrela de musicais, quando o estilo estava chegando ao país. Fez teatro engajado, quando a classe artística era uma das mais significativas resistências ao regime militar. Esteve em atividade até os 95 anos de idade. Ela costumava dizer: “Não me lembro de nenhum momento da minha vida no qual eu não estivesse num camarim”.

Mas os camarins de Bibi não se limitaram aos das salas teatrais. Bibi foi também uma grande estrela da televisão. Antes de Hebe, antes de Chacrinha, antes de Flavio Cavalcanti, ela já era um fenômeno de comunicação. No “Brasil 60”, programa de variedades que a TV Excelsior, de São Paulo, transmitia aos domingos, com direção de Manoel Carlos, ela era a apresentadora que também cantava, contava piadas, entrevistava... fazia tanto sucesso que continuou em cena no “Brasil 61”, “Brasil 62”, “Brasil 63”... Bibi iniciou a tradição de toda emissor ade TV ter um programado mini calde variedades. Na TV Tupi, foi a apresentadora da primeira cerimônia de entrega do Oscar transmitida para o Brasil.

Vi quase tudo isso (nos anos 40, eu ainda não estava em atividade). Lá em casa, gostar de Bibi era uma qualidade hereditária. Minha mãe era apaixonada por ela. A primeira vez que fui ao teatro, foi para ver uma peça de Bibi Ferreira (“My fair lady”). Na televisão, acompanhei tudo. Era ordem de minha mãe. Depois de adulto, fiquei fã por conta própria. Tive a sorte de entrevistá-la algumas vezes e de ter contato com sua personalidade forte e divertida. Foi quando descobria cinéfila militante( assistia a um filme por dia), a piadista incorrigível (possuía uma ironia fina) e a mulher de verve surpreendente. Uma vez lhe perguntei se tinha alguma preocupação com alimentação saudável. Ela já havia passado dos 80. Ela me disse que sim. “No meu prato, não entra nada que seja verde”.

Depois de velho, tive a honra de escrever um musical sobre Bibi. Na sessão a que ela assistiu, estava morrendo de medo de ela não gostar. Ela chegou, sentou-se ao lado da amiga Jalusa Barcelos, que está escrevendo sua biografia, reclamou do ar condicionado eme chamou. Fui tremendo. Será que ela ia reclamar antes mesmo de o espetáculo começar? Bibi olhou pra mim com um ar severo e ordenou: “Me traz umas balinhas”. Saí correndo para comprar um saquinho de jujubas. Foi uma noite emocionante. Quando Amanda Costa começou a cantar “La vie em rose”, que Bibi imortalizou no espetáculo “Piaf”, a própria Bibi começou a cantar junto. O teatro se deu conta de que ela estava ali e a aplaudiu de pé. Foi sua última aparição pública. Seu último show. E, como sempre aconteceu nos últimos 80 anos, foi uma apresentação impecável.

Vinícius de Moraes: Eu sei que vou te amar

Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar
E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar, a cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu por toda a minha vida