Revista Veja
É preciso enxergar o país para além do
retrato do momento
Vista como foto, a violência parece diminuir com a redução da maioridade penal; vista como filme, ela pode se agravar. Com base no momento, explica-se a opinião favorável à redução da maioridade penal; mas, vista como filme, sabe-se que essa redução tende a aumentar a criminalidade, porque muitos adolescentes presos cairão nas garras do crime organizado. No longo prazo, o aumento no tempo de permanência na escola tem melhor efeito na segurança pública do que a redução da maioridade penal. Há sessenta anos, Darcy Ribeiro dizia que “se não fizermos escolas hoje, vamos precisar fazer cadeias no futuro”; na época, preferimos a foto ao filme e, agora, repetimos o erro, construindo mais cadeias para novos condenados adolescentes.
Pesquisa recente de opinião sobre as
preocupações da população indica que em primeiro lugar está a violência (27%),
seguida da corrupção (20%), dos problemas sociais (18%), da saúde (13%), da
economia (9%) e, em último lugar, da educação (6%). Essa hierarquia mostra a
lucidez da população no momento da pesquisa. Mas, se no lugar da foto fizermos
um filme, a ordem se inverte. A luta contra a violência imediata depende da
ineficiência do aparato policial e jurídico para reprimir e punir o crime,
inclusive de menores de idade — mas também depende da qualidade e
universalização da educação básica.
“No longo prazo, a escola tem melhor efeito
na segurança pública do que a redução da maioridade penal”
A saúde é muito mais urgente que a educação e
depende de saneamento e da atenção médica, mas a pessoa educada cuida melhor da
própria saúde e da saúde pública. A desigualdade no acesso à educação provoca
ou acirra a desigualdade social, que, por sua vez, pressiona a violência nas
ruas como meio de sobrevivência. A corrupção depende da impunidade com os
corruptos eleitos, mas há uma correlação direta entre a universalização da
educação e a prática política com valores éticos na escolha de prioridades e na
conduta dos políticos.
Embora o emprego dependa do crescimento
econômico e este dependa da infraestrutura eficiente e da estabilidade jurídica
e monetária, sabe-se que a produtividade e a competitividade dependem do grau
de educação da população e que uma pessoa educada tem mais chances de conseguir
emprego. O desequilíbrio ecológico decorre de um propósito equivocado de
crescimento e da falta de regras para um sistema econômico em harmonia com a
natureza. Mas o desenvolvimento sustentável depende, sobretudo, de uma mudança
de mentalidade proporcionada pela educação. A soberania precisa de Forças
Armadas preparadas, mas, em sua base, está o povo educado. É difícil haver
soberania efetiva com população despreparada e até incapaz de reconhecer a
inscrição “Ordem e Progresso” na bandeira nacional.
Cada problema depende de outros fatores — o
atraso científico e tecnológico decorre da falta de qualidade do ensino
superior e da estabilidade no financiamento de pesquisas; a instabilidade
democrática decorre da falta de solidez das instituições; o combate à pobreza
depende de transferências de renda e da estabilidade monetária — mas a solução
para esses problemas requer também educação para todos. Quando conhecemos a
história, percebemos que a ausência da educação está na origem e na
continuidade de todos os problemas.
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

O pior é que o adolescente vocacionado para o crime não gosta de escola,conheci vários,cidade pequena funciona como laboratório,a gente conhece todo mundo.
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