sexta-feira, 12 de junho de 2026

A volta do bigodinho, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Fora de moda desde os anos 1950, retornou com os jogadores da seleção brasileira

Rayan, Martinelli, Ibañez, Raphinha, Endrick e Éderson são apenas alguns dos novos portadores

Se lhe disserem que essa ou aquela moda passará para sempre, não acredite. Nada é para sempre, muito menos modas. Um dia, xis anos depois, ela voltará e será recebida como grande novidade. Só nos últimos anos vimos a volta do delineador, do cílio postiço, da sobrancelha a lápis, de homens com sapatos sem meias e, quem diria, do álbum de figurinhas.

Eram voltas previsíveis. Quem dita o que vamos adotar é o mercado, e ele sabe que tudo que já foi vendido uma vez pode ser vendido de novo. Dê o espaço de uma geração, e logo a geração seguinte estará pronta para o abate. O intrigante é a volta de uma moda que, para existir, não exige a compra de um produto. Exemplo: como se explica a atual ressurreição do bigodinho?

O bigodinho é uma nesga de pelos bem rente ao lábio superior, com menos de 1 centímetro de altura, sem mais nada entre ele e o nariz. Não se confunde com o bigode standard, que preenche a maior parte daquele espaço, entra pelas ventas e, às vezes, transborda pelos cantos da boca. Um honesto bigodinho só exige um pincel, um sabão qualquer e o aparelho comum de gilete.

O bigodinho estava fora de moda desde os anos 1950. Seu último portador foi o roqueiro Little Richard, criador de "Tutti Frutti", e já então parecia démodé. E por uma simples razão: o dono do mais famoso bigodinho do século, Clark Gable, estava decadente. Em seus filmes dos anos 1930 e 1940, Gable, o rei de Hollywood, enfeitiçara milhões de mulheres com seu bigodinho —elas deviam fantasiar o roçado daqueles pelos em seus lábios. Os homens o imitaram, pensando parecer tão irresistíveis quanto ele. Mas Clark era inimitável, e eles se viram zanzando pela vida com seus inúteis bigodinhos. Com a morte do ator em 1960, todos os bigodinhos do mundo foram tosados.

De repente, surpresa. Veja a seleção brasileira. Lá estão Rayan, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Ibañez, Marquinhos, Martinelli, Raphinha, Endrick, o infeliz Wesley e seu substituto Éderson. Todos de bigodinho. Clark Gable não morreu em vão.

 

Um comentário:

  1. Ressuscitaram até a calça pantalona,esta eu achava que estava enterrada pra sempre.

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