O Globo
A desistência de continuar no cargo foi
arrancada a fórceps, muitos trabalharam para convencê-lo a facilitar a vida do
presidente.
Um líder de governo no Senado estar envolvido num escândalo de corrupção — como o senador petista Jaques Wagner no caso Master — já seria um problemaço para um governante que pretende ser reeleito pela quarta vez à Presidência da República. Seria demitido imediatamente, para livrar o presidente, no caso Lula, de problemas eleitorais na campanha. Mas Jaques Wagner, vê-se, não é um senador qualquer. Tem história no PT e na luta sindicalista com Lula. São amigos há 50 anos. Essa circunstância piora a situação de Lula, pois ele não tem condições emocionais para demitir o amigo, e o amigo não quer ajudá-lo a se safar dessa. Quer é se safar, por isso se abraça ao presidente como um afogado.
Geralmente, essa atitude provocaria a morte,
mesmo que eleitoral, dos dois. A reeleição de Jaques Wagner para o Senado na
Bahia já está ameaçada pelo escândalo. A de Lula, nem tanto. Mas há que
aguardar as próximas pesquisas eleitorais para ver o tamanho do estrago. Wagner
acreditava que o melhor para seu projeto pessoal seria permanecer no cargo, o
que obrigou Lula a agir. A desistência de continuar no cargo foi arrancada a
fórceps, muitos trabalharam para convencê-lo a facilitar a vida do presidente.
Contudo, fazendo isso, ele complicou sua própria situação, que continua
delicada, especialmente considerando as circunstâncias pessoais que envolvem os
dois.
Politicamente, a solução encontrada era a
mais simples: Wagner deveria se afastar e se defender fora do governo. No
entanto ele parecia não muito incomodado com sua posição. Chegou a se comparar
a Lula, que já enfrentou situações mais graves, incluindo a prisão, e ainda
assim é presidente, como ressaltou, sem piedade, na primeira declaração depois
da ação da Polícia Federal. Essa comparação foi infeliz para Lula, pois o leva
a uma conexão com o caso Master. Levanta suspeitas sobre sua participação desde
o início, como acusa a oposição, especialmente quando solicitou a contratação
do ex-ministro Guido Mantega pelo Master.
A reunião de Lula com Daniel Vorcaro no
Palácio do Planalto, fora da agenda oficial, ao lado do futuro presidente do
Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, que ele mesmo nomeou, foi interpretada
como sinal verde de apoio. Pelo menos foi o que Vorcaro entendeu. Saiu do
encontro com Lula satisfeito, segundo relatou à namorada na ocasião, com a
sensação de que tudo seria resolvido a contento. Lula disse ter apenas
garantido a ele que a questão de seu banco seria tratada pelo BC “dentro da
lei”, sem viés político. Não precisava recebê-lo pessoalmente para garantir
isso. Assim como Flávio Bolsonaro não precisava visitar Vorcaro na prisão
domiciliar para encerrar as negociações.
A notória boa vontade presidencial em
recebê-lo deu ao banqueiro a impressão de que o assunto estava bem encaminhado.
Dessa forma, fica mais difícil para o governo do PT explorar mais profundamente
a ligação de Flávio com Vorcaro. A favor do PT, está o fato de Flávio não
apresentar um único documento comprovando que os recursos recebidos de Vorcaro
foram destinados ao filme — aparentemente, não é verdade. Claro que a diferença
entre os dois casos é grande. Não foi Lula quem se envolveu a ponto de pedir
dinheiro a Vorcaro, e sim Flávio. Mas, em campanha eleitoral, o que importa é a
impressão, não a verdade factual.
Nos dois casos, os senadores envolvidos não
são capazes de mostrar um documento que comprove suas alegações. Flávio não
prova que o dinheiro não foi usado com outros fins, como sustentar o irmão Eduardo,
que vive nos Estados Unidos. Wagner não tem como explicar o apartamento que seu
amigo Guga (Augusto Lima), sócio de Vorcaro, comprou a pedido dele para sua
filha. As demais explicações, embora esdrúxulas, servem para uma defesa frágil.
Quanto ao apartamento, não há quem acredite na história do empréstimo para
pagar depois.

Ainda bem que ele ressaltou que os dois casos são distintos.
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