quarta-feira, 24 de junho de 2026

O homem que virou cinema, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Alfredo Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE

Alfredo Bertini faleceu durante cirurgia de transplante de órgão no terceiro dia da 30ª edição do Festival de Cinema de Pernambuco, que ele idealizou e realizou anualmente desde 1996. Se esse fosse o roteiro de um filme, o diretor seria acusado de falsificar a realidade para servir ao drama; a crítica diria que a vida do personagem — economista, cinéfilo, escritor, filósofo, pai de família, agregador de amigos e realizador do festival — seria suficiente para dispensar esse recurso teatral; os assistentes da 30ª edição do Cine/PE sentiram a emoção de viverem a realidade mais surpreendente do que a ficção a que assistiam na tela. Na sua 30ª edição, Bertini foi mais do que o organizador do Cine/PE, foi seu principal personagem. 

Sua vida — desde a infância na Praia do Pina, em Recife, sua formação profissional, atuação na realização do Porto de Suape e no Ministério da Cultura, a produção de artigos, o pioneirismo no estudo da economia do audiovisual, a extraordinária capacidade de colecionar amigos — pode ser captada por um bom diretor, mas dificilmente alguém conseguiria reproduzir em tela a emoção coletiva vivida dentro do centenário Teatro Cinema do Parque naquelas noites da 30ª edição. Nos primeiros dias, todos estávamos voltados para o hospital esperando sua resistência e recuperação, sentindo a presença de Alfredo. Faleceu no instante em que se iniciava a exibição de um dos filmes de longa-metragem. Mas a notícia veio depois que a sessão terminou e as luzes se acenderam. Não houve anúncio bombástico nem choros públicos, apenas a dor de quem se sentia em dívida com o amigo que realizou o evento que nos reuniu no momento de sua partida.

Durante meses na lista de espera, ele aguardou por um fígado compatível. Nesse período, dialogou com amigos sobre a vida no corredor da vida que é a espera por um órgão. Falou sobre a realidade de nosso tempo, em que a ciência criou corredores para a vida sem abolir os corredores para a morte, seja pela guerra, pela penalidade jurídica, pela violência nas ruas ou pela pobreza. Manifestou com tristeza que o número de órgãos disponíveis aumentou em consequência do crescimento de morte de jovens em acidentes de trânsito, especialmente com motocicletas. Não deixou de refletir e compartilhar a ambiguidade existencial de sua sobrevivência depender da morte de outra pessoa. No conto Os dois corações, um jovem se conforma da falta de doador lembrando que tinha frágil coração biológico, mas sólido coração moral que lhe dava o privilégio de viver na era em que há técnicas para o transplante, mas ainda não ética para a doação automática. Bertini necessitava de um novo fígado, mas viveu até o último instante com aquele que recebeu no nascimento e usando plenamente sua capacidade moral de lutar por um Brasil melhor e por valores estéticos por um mundo mais belo, sobretudo pelo cinema.

Quem participa do mundo cinematográfico conhece a importância e a dificuldade para realizar um festival, ainda mais mantê-lo por 30 edições consecutivas. A escolha dos filmes, a agenda de atores, diretores e críticos, o transporte e o alojamento, sobretudo a engenharia financeira, são tarefas que parecem insuperáveis. Mas,  sem os festivais, os filmes não têm a divulgação de que precisam para chegar ao grande público. Sem o Cine/PE, dezenas de obras, longas e curtas-metragens, ficariam perdidas. Devemos a Bertini o lançamento de dezenas de filmes brasileiros, inclusive do novo cinema pernambucano, que hoje orgulha o Brasil.

Apesar do sentimento de dor, não havia a sensação de morte: ele continuava sendo a parte mais importante e presente do festival e continuará presente a cada ano, quando as futuras edições acontecerem. Ele era o condutor, mas o festival sempre foi resultado de uma equipe liderada também por Sandra Bertini, pelos filhos e por seus colaboradores. Foram eles que conseguiram levar adiante a 30ª edição, na qual o próprio autor, ao morrer, passou a integrar sua obra. Guardando o choro e sem reduzir o esforço, fizeram integralmente aquela edição, com a homenagem à atriz Claudia Abreu, e certamente darão continuidade ao festival. 

Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE, rebatizado como Festival Bertini do Cinema Brasileiro. Estará sempre presente porque virou ele próprio um filme, sobretudo se o cinema que abrigou o festival receber o nome de Cinema do Teatro do Parque Alfredo Bertini.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

Um comentário:

  1. É mais um que eu desconhecia,eu fico penalizado,não pela morte em si,todos vão,mas pelo sofrimento.

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