O Globo
Declaração da Independência dos Estados Unidos
da América completou 250 anos no sábado
Ontem, há 250 anos, o Ocidente começou a percorrer
uma de suas maiores mudanças. Reunidos na pequena cidade de Filadélfia (menos
de 40 mil habitantes, como o Rio, enquanto Beijing tinha 1 milhão),
representantes das 13 colônias inglesas da América do Norte assinaram a
Declaração da Independência de um país que viria a se chamar Estados Unidos da
América. Naqueles dias, não sabiam quantos eram, como ganhavam a vida, nem se
poderiam ser autossuficientes. Eram mais ricos, mais altos que os europeus (de
5 a 8 centímetros) e mais férteis.
Hoje esse é um texto sacralizado, mas só
começou a ser festejado depois de 1812.
Mais de 20 anos depois, em 1789, um volume com uma coletânea de documentos dos “americanos ingleses” foi encontrado com o alferes Joaquim José da Silva Xavier e encorpou as provas da militância sediciosa que levaria Tiradentes ao patíbulo.
No Federal Hall, a nove quilômetros do
estádio onde a seleção francesa enfrentou a do Paraguai, 56 pessoas discutiam
um texto.
Desde o início de junho, perto dali, numa
pensão, Thomas Jefferson, o caçula da assembleia, de 33 anos, trabalhava no
texto da Daclaração. Com ele estava Robert Hemings, seu criado escravizado de
14 anos, filho natural de seu sogro, pai de sua falecida mulher. Era irmão de
Sally com quem mais tarde Jefferson teria quatro filhos.
A ida desse texto para a caneta do caçula
teve a mão do acaso. Benjamin Franklin figura de muito maior relevância
declinou da oferta informando que, por norma, não escrevia textos que viriam a
ser discutidos e mudados por plenários. Ademais, padecia de crises de gota.
John Adams, outro sedicioso, pressentiu a importância do documento, mas
escreveu só o preâmbulo de outra resolução.
No dia 21 de junho, Jefferson mandou seu
rascunho a Franklin. Ela dizia que “nós consideramos verdades sagradas e
inalienáveis que todos os homens são criados iguais e independentes...” O
revisor riscou o “sagradas” porque sentiu um ranço de carolice, pois o sagrado
vem de Deus.
Daí saiu o célebre “we hold these truths to
be self-evidents” (“nós consideramos estas verdades evidentes por si mesmas”,
ao pé da letra.) Por exemplo: É uma verdade evidente por si mesma que a soma
dos ângulos internos de um um triângulo somam 180 graus.
Jefferson entregou o primeiro projeto no dia
28 de junho e sofreu 85 revisões. Caiu fora, por exemplo, a condenação do
tráfico de negros. Assinada no dia 4 de julho, a Declaração foi lida na cidade
no dia 8.
John Adams já implicava com Jefferson quando
ele ganhou a fama de ter redigido a Declaração. Jefferson sonhava com uma
utopia rural e Adams com uma nação mais comercial e industrial. Elegeu-se
vice-presidente em 1789 e presidente em 1797. Em 1801, quando seu rival foi
eleito, saiu de Washington à la Bolsonaro, para não lhe dar posse.
Numa trapaça da História, Adams e Jefferson
morreram no mesmo dia 4 de julho de 1826, o dos 50 anos da Declaração da
Independência.
Eleição americana
Por mais que uma parte do mundo acredite que
Donald Trump perderá a eleição de novembro, cravar esse resultado pode ser
apenas um desejo. Essa análise é de Kyle Kondik, editor da newsletter Sabato’s
Crystal Ball.
Olhando pelo retrovisor, a derrota dos republicanos
é provável. Nos últimos 58 anos, só dois presidentes aumentaram a bancada na
Câmara na eleição da metade do mandato: Clinton em 1998, com duas cadeiras,
depois de ter perdido 54 dois anos antes, e Bush filho, em 2002, ganhando oito
assentos, para perder 30 dois anos depois.
Em 2018, no seu primeiro mandato, Trump
perdeu 40 cadeiras. (Obama perdeu 63 cadeiras em 2014, tomando a maior sova do
período).
Depois do ataque ao Irã, a popularidade de
Trump entrou num viés de queda. Ele tem 57% contra e 39% a favor. Afinal, a
gasolina estava a US$ 3,20 o galão (3,378 litros), chegou a US$ 4,30 e está a
US$ 3,85.
Trump já indicou que pretende cavalgar as
festas dos 250 anos da assinatura da Declaração da Independência como se ele a
tivesse redigido e a estivesse a reescrever. (Esse documento foi a espoleta da
revolução que terminou, anos depois, com a independência.)
Em 1976 os marqueteiros do presidente Gerald
Ford fizeram-no cavalgar as festas dos 200 anos da independência, supondo que,
sentindo-se bem haveriam de reelegê-lo. As festas foram lindas, mas Jimmy
Carter ganhou a eleição.
Reforma do Judiciário
Quem conhece o Judiciário garante: a
magistratura passará por uma grande reforma em 2029.
Por muitos motivos, inclusive porque do jeito
que as coisas estão, não podem continuar.
Noves fora os penduricalhos e as farofas com
que grandes litigantes mimam magistrados, a judicialização perdeu a
racionalidade.
Boa notícia
As coisas boas também acontecem. Em três
anos, 47 cartórios habilitados pela Polícia Civil de Minas Gerais emitiram
102.208 carteiras de identidade. Como? Valendo-se da capilaridade dos
cartórios, dos serviços da Corregedoria-Geral de Minas e da ajuda do Sindicato
dos Oficiais de Registro Civil e da Polícia Civil do Estado.
Em alguns casos os cartórios atendem aos
sábados. Em outros, 102 ofereceram cursos para qualificar servidores e 47 já
emitem as carteiras. O cartório de Congonhas já passou dos 10 mil documentos
emitidos. (Quando é o caso, ele atende a domicílio).
A carteira de Identidade Nacional (CIN) tem
validade federal e está interligada aos bancos de dados da Justiça Eleitoral e
da Receita Federal.
A primeira CIN é gratuita e a segunda via
custa R$ 115,80.
Esse tipo de operação nasceu na Corregedoria
Nacional de Justiça, entregando escrituras para moradores de comunidades,
inclusive do Morro do Alemão, no Rio, onde o poder público aparece em muitos
casos para matar gente.
O segredo de iniciativas desse tipo está na
valorização do ensinamento da canção Maria Moita:
“Botar pra trabalhar quem nunca trabalhou.”
EUA vai ao PCC
O governo dos Estados Unidos impôs sanções a
dois finórios e de suas empresas, suspeitos de manter conexões com o PCC num
esquema de lavagem de dinheiro, inclusive valendo-se do guarda-chuva da
jogatina. Os americanos estão entrando na questão pelas bordas, ou, como dizia
Leonel Brizola, “costeando o alambrado”.
Todos os sancionados eram fregueses da
polícia paulista e do Ministério Público. Mas na terra das palmeiras, onde
canta o sabiá, as coisas iam devagar.
Foram congelados todos os bens da turma nos
Estados Unidos.
Vem mais chumbo por aí.

Muito boa a primeira parte da coluna.
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