Folha de S. Paulo
Uma sociedade racista e viciada em
desigualdades é resistente a mudanças que visam garantir direitos aos negros e
proteção às mulheres
Grupos precisam se unir contra o retrocesso
de conquistas civilizatórias alcançadas ao longo de décadas de lutas
Por mais que não seja uma surpresa, dada a
trajetória histórica que nos trouxe ao atual patamar de desigualdades nacionais
vigentes, a cruzada empreendida por agentes políticos contra as cotas
étnico-raciais, a misoginia e a criminalização do racismo são
impressionantes.
Se a proposição de um projeto de lei flagrantemente inconstitucional é, por si, uma afronta à democracia, a insistência em contrariar o pacto federativo para fazer valer uma tese que, além de ferir a Constituição, contraria a fartura de dados e evidências sobre a preponderância do fator étnico-racial na estruturação das desigualdades ultrapassa todos os limites da civilidade, da moralidade e do chamado "espírito republicano".
É o caso do novo PL
apresentado na Assembleia Legislativa de SC para alterar as
regras de acesso a vagas reservadas para cotas raciais nas universidades do
estado, nos concursos públicos e nas contratações de professores e técnicos
para instituições estaduais.
Para quem ainda não se deu conta, a
escravização africana foi um projeto político que instituiu o racismo e
estruturou as desigualdades socioeconômicas contemporâneas. Por isso, cotas
étnico-raciais são uma medida de reparação e um direito conquistado pelo povo
negro.
Não se trata de favorecimento, mas de uma
maneira assertiva e bastante efetiva de promover justiça social e garantir
acesso a oportunidades historicamente negadas a milhões de brasileiros pretos e
pardos.
E o que dizer da emenda parlamentar embutida
no PL 896/2023
que tramita na Câmara dos Deputados, em Brasília, para criminalizar a misoginia e
que (por estar dentro da lei do racismo) tem o potencial de livrar a cara de
quem alegar opinião ou convicção religiosa, filosófica, acadêmica ou política
ao expressar seu racismo.
Investidas como essas demonstram o quanto uma
sociedade racista, machista e viciada em desigualdades é resistente a mudanças
que visam garantir direitos. Mulheres e negros precisam se unir contra o
retrocesso de conquistas civilizatórias alcançadas ao longo de décadas de lutas
dos movimentos sociais.

Mulheres e negros já votam ''diferente'',sem contar os artistas.
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