Uma semana de rupturas importantes no campo da Direita brasileira. Michelle Bolsonaro deixou a liderança do PL Mulher e expôs a falta de acomodação entre seus interesses e os objetivos do grupo capitaneado pelo enteado, Flávio Bolsonaro. Caso persista, o cisma entre os grupos pode representar um desafio estratégico à candidatura bolsonarista, dada a possível rejeição de uma parcela do eleitorado feminino conservador ao nome do filho do ex-presidente.
Os últimos dias permitiram observar com muita
clareza a contradição mais difícil a ser superada pelo conservadorismo
brasileiro: como manter o discurso tradicionalista da autoridade masculina e
a primazia das candidaturas de homens em um mundo em que o eleitorado é
majoritariamente feminino e onde as mulheres já não pensam e votam como antes?
Por mais que haja uma divisão do eleitorado entre conservadores e
progressistas, é inegável que as mulheres, sejam de que campo forem, ocupam
hoje um lugar de mais autonomia, protagonismo e desejo de decisão do
que no passado. Essa mudança de comportamento, mentalidade e sensibilidade é um
dos frutos do trabalho secular do movimento feminista.
Por conta das transformações estruturais na
sociedade, que impactam a dinâmica das relações de gênero, mulheres eleitoras
hoje sentem uma identificação mais direta com candidaturas femininas. Essa
confiança decorre da percepção de que as mulheres são mais capazes de
compreender os desafios vividos pelo batalhão de mães chefes de família Brasil
afora. O caso de Michelle Bolsonaro se torna ainda mais paradigmático porque a
ex-primeira-dama ocupa um cenário permeado por escândalos de corrupção e de
relações pouco republicanas dos enteados com nomes presentes nas páginas
policiais. Isso a credencia para uma liderança mais "pura", do ponto
de vista moral, aos olhos da eleitora conservadora.
O modo desastrado com que o grupo de Flávio
Bolsonaro e seus apoiadores diretos têm lidado com a crise acaba por expor
muito da misoginia presente no bolsonarismo. Paulo Figueiredo, ativista da
extrema direita radicado nos EUA, e fiel escudeiro de Eduardo Bolsonaro, publicou um vídeo em que afirma que "as mulheres não
sabem votar", ecoando, para o público brasileiro, uma campanha já presente
na extrema direita norte-americana pela eliminação dos direitos políticos das
mulheres. Lideranças ligadas ao PL e próximas a Flávio já discutem modos de
"punir" e "disciplinar" Michelle pelo ato de traição. O
próprio vocabulário empregado já é revelador.
Por mais que reclamem, os homens
conservadores não podem brigar contra a realidade: as mulheres já não são
as mesmas e não têm disposição de obedecer a quem não as reconhece nem respeita
como cidadãs plenas.
*Doutora em Direito e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Verdade,nem as de direita.
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