segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tarifaço machuca, mas nem tanto, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Efeitos do tarifaço são limitados, e muitos setores compensaram perdas redirecionando exportações

Donald Trump não aliviou e cumpriu a ameaça de sobretaxar nossas exportações. Valendo-se de uma investigação sobre supostas práticas desleais, o órgão de defesa comercial americano aplicou uma tarifa extra de 25% sobre os produtos brasileiros.

É mais um capítulo da novela que começou ainda durante a campanha eleitoral, quando Trump começou seu bullying contra parceiros comerciais. Daí veio o Liberation Day, em 02/04/2025, com a aplicação de tarifas seletivas para cada país, que nos brindou com a alíquota mínima de 10%. Mas em junho de 2025 o presidente americano resolveu apontar seu armamento comercial para o Brasil. Com objetivos políticos e defendendo interesses de grandes empresas, iniciou o processo que agora confirmou a sobretaxa de 25%.

Incertezas e atritos comerciais afetam o fluxo de comércio. Nos últimos doze meses, o valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos ficou 13,1% abaixo do observado em 2024. Ou seja, desde a posse de Trump, nossas vendas para lá caíram US$ 5,3 bilhões, de US$ 40,4 bilhões para US$ 35,1 bilhões ao ano.

O tarifaço também repercute na política. Enquanto Flávio Bolsonaro tenta se esquivar do meme “Tariflávio”, culpando o governo pelo fracasso nas negociações, Lula sobe o tom do discurso nacionalista prometendo aplicar a lei da reciprocidade contra empresas americanas.

Sabedor dos riscos de desafiar Trump com retaliações, de concreto a resposta do governo foi anunciar a ampliação do plano Brasil Soberano, programa do BNDES que concede crédito a taxas camaradas para as empresas afetadas pelo aumento de tarifas.

No entanto, é preciso cuidado no uso desses recursos; afinal, as perdas não foram sentidas por todos os setores. Das 96 posições catalogadas pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), 23 conseguiram até mesmo ampliar as vendas para os Estados Unidos desde que Trump assumiu o poder, com destaque para aeronaves (+ US$ 704,9 milhões), máquinas e materiais elétricos (+ US$ 547,9 milhões) e produtos de alumínio (+ US$ 249,3 milhões). Esses setores, portanto, não têm motivos para pleitear ajuda governamental motivada pelo tarifaço.

Entre os maiores perdedores estão os setores de combustíveis minerais (- US$ 1,8 bilhão), produtos siderúrgicos (- US$ 721,2 milhões), madeiras (- US$ 644,5 milhões), açúcar (- US$ 482 milhões), celulose (- US$ 420,2 milhões) e café (- US$ 398,4 milhões).

Isso não significa, porém, que em todos esses casos o mau desempenho se deva exclusivamente ao tarifaço. O setor de combustíveis, por exemplo, foi desde o início preservado, incluído numa longa lista de exceções. O resultado ruim do petróleo nas compras americanas se deve principalmente a um redirecionamento de mercado da Petrobras para a China desde que a guerra eclodiu no Golfo Pérsico.

No caso do açúcar, a queda nas exportações para os EUA se deve mais a uma conjuntura setorial que combina quebra de safra, preços internacionais em baixa e conversão da produção para etanol do que às tarifas de Trump.

Antes de sair distribuindo crédito subsidiado para empresas, o governo precisaria considerar também que dos 73 setores que observaram menores vendas para os EUA, 39 deles compensaram os prejuízos exportando mais para outros países. O exemplo mais veemente são as siderúrgicas, que registraram diminuição de US$ 721,2 milhões para os EUA, mas obtiveram um aumento de US$ 1,7 bilhão para o resto do mundo.

Em vez do chororô empresarial e do discurso populista dos candidatos, o que realmente deveria pautar o debate está retratado no gráfico. Mesmo com a festejada pujança do agro, da mineração e do petróleo, o Brasil continua detendo a mesma fatia de pouco mais de 1% no comércio internacional desde o fim do boom das commodities.

Sem estratégia de agregação de valor e de diversificação das exportações, permanecemos estagnados, enquanto nossos concorrentes avançam.

 

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