segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A crise vai da economia à política, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O quadro piora em 2027. Nesta reta final de campanha, o governo tem tomado medidas que aumentam o gasto

Não será por falta de aviso. A economia tem dado seguidos sinais de piora há algum tempo, mas a semana passada foi especial. No sentido negativo. A inflação voltou a subir forte, os números indicando que deverá terminar o ano mais perto dos 5%, acima do teto da meta. Segundo dados do IPCA-15 de setembro, ficaram mais caros dois itens que impactam diretamente o orçamento das famílias: energia elétrica e alimentação.

No quesito das contas públicas, a equipe econômica finalmente admitiu o que analistas independentes mostram há meses: haverá déficit neste ano, de novo. Isso apesar de a arrecadação de impostos continuar quebrando recordes. Em agosto, a receita alcançou R$ 235,5 bilhões, o melhor resultado para o mês em toda a série histórica. De janeiro a agosto, o governo federal arrecadou R$ 2,1 trilhões, um ganho real (descontada a inflação) de 7,12% sobre o mesmo período do ano passado.

Pode-se dizer que a equipe econômica exibe seu melhor desempenho neste ponto: arrecadar mais. O problema é que seu pior desempenho é no ponto oposto: a despesa cresce ainda mais. Com os truques de contabilidade, que tiram da conta algumas despesas, o Ministério da Fazenda espera um déficit zero neste ano, em vez do superávit previsto até pouco tempo. Sem os truques, o governo fecha o ano com déficit de R$ 80,9 bilhões.

O quadro deve piorar em 2027. Nesta reta final de campanha, o governo tem tomado medidas que aumentam o gasto (como o reajuste do Bolsa Família) e reduzem a receita, como a proibição das bets, que já renderam quase R$ 20 bilhões em impostos desde sua regulamentação.

O governo tem argumentos. O Bolsa Família estava sem reajuste desde 2023. E a jogatina está destruindo o orçamento de muitas famílias. Mas custa dinheiro do mesmo modo. O rombo fica maior para o ano que vem. E se trata de um buraco a descoberto. Só um exemplo: o Projeto de Lei Orçamentária para 2027, enviado ao Congresso pelo governo agora em agosto, não prevê os R$ 27 bilhões de gasto com o reajuste do Bolsa Família. E prevê pouco mais de R$ 10 bilhões com receita das bets, que sumirá.

Não há escapatória. O futuro governo terá de cortar gastos, fazer um ajuste fiscal e gerar superávits. Será ou isso ou uma crise com recessão, inflação, juros altos e desvalorização do real. Não se trata de exagero. Seria apenas a repetição de crises semelhantes por que passaram o Brasil e outros países.

O político americano Mario Cuomo, do Partido Democrata, que foi governador de Nova York, sabia ganhar eleições e fazer bons governos. Porque são situações diferentes. A campanha, dizia ele, se faz em poesia. O governo, em prosa. Regra universal. Mas os políticos por aqui inventaram algo mais grosseiro: o estelionato eleitoral — faz-se no governo o contrário do que se prometeu na campanha.

Dados esses parâmetros, como se observa a atual campanha presidencial? Lula já disse que isso de superávit é bobagem. Mas também disse que fez o maior superávit da história brasileira. E fez mesmo, no Lula 1. Só que, naquela gestão, iniciada em 2003, Lula estava com medo da reação negativa do mercado. Dólar e juros dispararam, e os títulos da dívida pública se desvalorizaram com sua eleição. Ele foi praticamente obrigado a praticar uma política de austeridade.

Hoje, Lula não tem mais medo do mercado. Mas há expectativa em setores econômicos de que Lula aceitará algum tipo de ajuste quando deparar com a iminência de uma crise. Seria um ajuste limitado, que desviaria da crise, mas sem criar as condições de crescimento sustentado. Mais do mesmo.

E Flávio Bolsonaro? Ele disse que não fará economia com o salário mínimo nem com a Previdência. Mas seus assessores econômicos afirmam que haverá ajuste fiscal. Duvidoso. A pauta principal do senador é tirar seu pai da cadeia. Um gesto de vingança. Ao buscar isso, lançará o país numa crise institucional sem precedentes, que não deixará espaço para uma política econômica consistente.

E tudo isso num ambiente político tomado pela corrupção. Difícil momento.

 

Um comentário:

  1. Quanto Ódio é rancor contra Bolsonaro
    Estão fazendo com ele como os romanos antigos faziam para apagar os seus inimigos da história apagamento Total
    Até a foto do Bolsonaro está proibido na campanha as redações Dos grandes jornaisnão falam nada Dessa censura absurda, pra não dizer das centenas de presos políticos sem um processo legal silêncio na mídia
    A torcida vergonhosa das redações dos grandes jornais pelo Lula está chegando ao auge
    Só quero ver como é que vão ficar depois da vitória do Bolsonaro , vão começar aquela ladainha da maldição

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