O Globo
Nenhum candidato se arriscará a falar de
ajuste, e o eleito só se ocupará do problema depois da posse
O eleitor que acompanha o noticiário sobre as
eleições certamente já topou com reportagens e opiniões a respeito do ajuste
das contas
públicas. Mas quem acompanha apenas os programas partidários e as
declarações dos candidatos só encontra dois tipos de mensagem, que podem ser
assim resumidos: o adversário é uma porcaria; e o próximo governo será muito
bom para todos.
Há um certo consenso entre analistas, políticos e marqueteiros neste ponto: ajuste de contas, também conhecido como ajuste fiscal, será muito importante para o governo, qualquer governo, mas nunca será tema de campanha. Por dois motivos: o tema é complicado; e só trata de maldades.
Fica, assim, mais ou menos combinado: nenhum
candidato se arriscará a falar de ajuste, e o eleito só se ocupará do problema
depois da posse. O nome disso é estelionato eleitoral. E é impressionante que
tanta gente entenda ser assim mesmo.
Só que o problema é um baita problema. Não
encaminhar uma solução significa deixar que o país caminhe na direção de uma
forte crise econômica, tipo governo Dilma. Aos números. O governo federal
deverá gastar neste ano cerca de R$ 2,6 trilhões. É isso mesmo: trilhões. E não
estão incluídas aqui despesas contratadas com a recente oferta de bondades
eleitorais.
Como nota o economista Alexandre Schwartsman,
parece fácil cortar daí uns R$ 200 bilhões, o que já representaria um bom
ajuste. Mas é um enorme engano. As despesas dividem-se em discricionárias (que
o governo gasta se, e como, quiser) e obrigatórias, tipo dinheiro carimbado em
que não se pode mexer, por determinação legal e constitucional. Deixadas as
coisas como estão, o ajuste só pode ser feito nas despesas discricionárias. Eis
o problema: esses gastos nem chegam a 10% do total.
Para este ano, estão previstos R$ 244
bilhões. Esse dinheiro paga o funcionamento do governo: do cafezinho dos
burocratas às viagens das autoridades; da conta de luz das repartições ao
uniforme dos soldados; das recepções nos palácios às operações da Polícia
Federal; da manutenção a aluguéis de prédios.
Há exageros? Certamente. Talvez não precise
ter camarão no almoço de ministros dos tribunais superiores. Dá para vender uns
imóveis. Mas não é por aí que se arranjarão R$ 200 milhões de cortes. A menos
que se paralise completamente o governo. Se bem que isso... bom, deixa pra lá.
As despesas obrigatórias, para este ano,
deverão chegar a R$ 2,35 trilhões. As principais:
— Previdência,
R$ 1,1 trilhão;
— Salários do funcionalismo, R$ 445 bilhões;
— Programas sociais, R$ 400 bilhões;
— Saúde e educação,
gastos vinculados à receita, por norma constitucional, R$ 190 bilhões.
Considerem o maior item. A despesa com a
Previdência aumenta estruturalmente à medida que a população envelhece. É um
problema global. Qual a solução para isso? Uma reforma, outra, que eleve a
idade mínima de aposentadoria e o tempo de contribuição, a ser aprovada pelo
Congresso.
Difícil. Aliás, ainda na sexta-feira passada,
o Congresso fez o contrário. Promulgou uma Emenda Constitucional que reduz a
idade mínima e tempo de contribuição de agentes comunitários de saúde e agentes
de combate às endemias, ao custo de mais de R$ 3 bilhões por ano. Vantagem que
logo será reivindicada por outras categorias. Tem mais. Dos 35 milhões de
aposentados e pensionistas do INSS,
22 milhões recebem um salário mínimo. Esse salário é corrigido anualmente pela
inflação mais um ganho real. O gasto previdenciário cresce na mesma medida.
Como conter essa despesa? Ou corrigindo o
salário mínimo só pela inflação ou desvinculando-o das aposentadorias e
pensões, que passariam a ser reajustadas apenas pela inflação. Mas, para fazer
qualquer mudança nessa e nas demais despesas obrigatórias, é necessário um
amplo entendimento entre o Executivo e o Congresso.
Reformas estruturais ocorrem quando o
presidente da República toma a liderança e convence o Congresso a apoiá-las. Ou
quando a crise avança ao ponto de jogar o país em ambiente de dívida pública
elevada, juros na lua e recessão. Modelo: governo Dilma.

Uma pergunta derivada dessa aula oportuna, por que disputam numa eleição quem vai descascar um abacaxi desses?
ResponderExcluirEu hein?
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