domingo, 4 de outubro de 2026

O desafio de Lula na hora da decisão, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Sob pressão, presidente precisa convencer descontentes de que mudança pode ser para pior

Foi há 20 anos, quando a Itália venceu sua quarta Copa do Mundo. Encerrado o torneio, o saudoso Fernando Vannucci saudou a campeã e fez um discurso inflamado sobre o fiasco da seleção brasileira. “É hora da gente mudar... ou mudar de vez. Vamos colocar o castelo de areia abaixo!”, conclamou.

As redes sociais ainda engatinhavam, mas a transmissão de 2006 virou meme instantâneo. Circula até hoje na internet, onde vídeos antigos ganham novos significados, inspiram piadas, alimentam outros debates.

No esporte e na política, mudar tudo é uma ideia poderosa. Derrubar o castelo soa mais tentador do que reformá-lo. É mais fácil destruir do que consertar as telhas, trocar as janelas, reparar os canos gastos pela ferrugem.

No segundo estado mais populoso do país, o eleitor parece seduzido pela promessa do bota-abaixo. Ex-cantor de pagode, o senador Cleitinho Azevedo decolou com um discurso que nega a política e vocifera contra o “sistema”. Num vídeo célebre, ensinou motoristas a burlar o pedágio de uma rodovia. Na CPI das Bets, abriu mão de fazer perguntas para pedir selfie a uma influenciadora sob investigação.

Sem a mais remota ideia de como gerir as contas de um estado quebrado, o populista de Divinópolis pode ser eleito hoje em primeiro turno. Se vencer, assumirá uma cadeira que já foi ocupada por JK, Tancredo e Itamar.

O apelo por mudança também dá o tom da disputa presidencial. Na quinta-feira, os dois candidatos favoritos martelaram a ideia no encerramento da propaganda de TV. “É hora de mudar”, discursou Flávio Bolsonaro. “Mudar é continuar avançando”, recitou Lula.

Desde a pandemia, cientistas políticos usam a expressão “maldição do incumbente” ao falar da onda de vitórias de candidatos de oposição. Segundo levantamento de Steven Lewitsky, a situação foi derrotada em 40 de 54 eleições nacionais entre 2020 e 2024. O povo puniu os governantes pelo aumento do custo de vida até em países que conseguiram frear a inflação, como os EUA de Joe Biden. Pode ser o caso do Brasil em 2026.

Guiado por pesquisas qualitativas, Flávio transformou o carrinho de compras em símbolo da campanha. Apostou na insatisfação do eleitor com a perda de poder aquisitivo, ainda que a alta dos alimentos tenha sido muito maior no governo do pai dele do que no atual.

Em busca do quarto mandato, Lula fez uma campanha errática. Gastou mais tempo falando em legado do que apontando para o futuro. Parecia esperar uma homenagem pelo conjunto da obra, quando o eleitor já sinalizava cansaço e preocupação com problemas que o atual governo não soube resolver.

Alertado para o risco de derrota, o petista tentou virar o disco nos últimos dias. Anunciou uma série de medidas populares e tentou driblar a ideia de continuísmo. “Mudar não é voltar para trás. Mudança não é tirar o que você já conquistou”, disse, no programa de quinta. A ver se terá tempo para atrair indecisos e barrar a volta da extrema direita.

Sob pressão, Lula precisa convencer os descontentes de que nem toda mudança é para melhor. O futebol tem exemplos disso. Depois do fiasco que irritou Vannucci, a CBF teve seis presidentes, e a seleção passou pelas mãos de oito técnicos. Em 20 anos, o Brasil perdeu mais cinco Copas — e ainda amargou a humilhação do 7 a 1.

2 comentários:

  1. às vezes dá impressão que não são jornalistas políticos são articuladores de campanha do Lula tamanha a preocupação E conselhos que dão Aos marqueteiros do PT
    É muito triste isso saber que o PT não duas redações dos melhores jornais com muito dinheiro e ainda encontrou um ambiente esquerdista natural dos jornalistas e aí tomou posse das redações e aí a gente fica ouvindo essas análises que na verdade são lamentos e conselhos para campanha do PT

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  2. Os jornalistas pensam, e percebem os riscos que a candidatura Flávio Bolsonaro representa pro país e pro nosso futuro! Vamos repetir o DESgoverno Bolsonaro???

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