quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Para quem Flávio está mentindo? Por Vera Magalhães

O Globo

Mudança em relação ao fim da escala 6 x 1 e promessa de não mexer em benefícios sociais contrastam com promessa de corte de R$ 200 bilhões

Flávio Bolsonaro promete ao mercado financeiro um ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões nos primeiros 18 meses de governo. Aos eleitores, garante que não cortará benefícios sociais, não mexerá nas aposentadorias nem reduzirá recursos para saúde e educação. Ontem, foi além: anunciou voto favorável ao fim da escala 6x1 e prometeu que o governo compensará os empresários pelos custos da medida.

É difícil que todas essas promessas sejam cumpridas. Ou ele vende ao mercado um ajuste que não pretende fazer, ou esconde dos eleitores os sacrifícios que pretende impor. Nenhuma das hipóteses é tranquilizadora, e ambas podem ser traduzidas como estelionato eleitoral.

A equipe econômica de Flávio chegou a estudar um ajuste de 2% do PIB, equivalente a R$ 250 bilhões, com mudanças nas regras de correção da Previdência e nos pisos constitucionais de saúde e educação. A campanha negou que essas propostas integrem seu programa. Ficou a promessa de um “tesouraço” de 1,5% do PIB, sem explicação convincente sobre onde a tesoura cortará.

Flávio garante manutenção do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, para o qual promete até prestações menores, e dos demais programas sociais. Rejeita a desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, para o qual diz que continuará concedendo reajustes acima da inflação. Promete também reduzir impostos, diminuindo a arrecadação. Agora, quer que o governo banque parte da conta da redução da jornada de trabalho.

Tudo isso enquanto promete enxugar drasticamente as despesas públicas. Só que 92% do Orçamento federal já está comprometido com gastos obrigatórios. Não há como produzir uma economia dessa magnitude apenas cortando ministérios, cargos comissionados e penduricalhos, combatendo fraudes ou vendendo imóveis da União. São medidas defensáveis, algumas necessárias, mas cuja contribuição para a meta anunciada nem sequer foi quantificada. Privatizações geram receitas pontuais, não redução permanente das despesas. O governo de seu pai prometeu muitas, entregou poucas.

A pergunta que se impõe é se parte do mercado financeiro não tem sido deliberadamente cínica ao aceitar essa grave ambiguidade. Será que investidores e economistas acreditam que Flávio cumprirá as promessas feitas a eles e romperá as assumidas com os mais pobres e, por isso, está tudo bem? Uma mentira precificada, para ficar no jargão compreensível ao meio — desde que os enganados sejam os outros, bem entendido.

Lula tem, ao longo dos anos, explicitado o compromisso com uma agenda social clara e uma meta fiscal fluida, insuficiente. Tem responsabilidade pelo agravamento da situação das contas públicas, resiste a cortar despesas obrigatórias e não apresentou proposta clara para reduzir ou ao menos estabilizar a dívida pública, que chegou a níveis impraticáveis. Sua frouxidão fiscal é criticada com razão.

Mas ele nunca escondeu que a preservação dos programas sociais e a valorização do salário mínimo são prioridades de seu projeto político. Pode-se discordar das escolhas, podem-se questionar seus custos e pode-se exigir que ele diga como pretende financiá-las, mas não se pode alegar surpresa. Diante disso, vê-se que o setor financeiro e também o produtivo concedem a Flávio um crédito de confiança que negam ao petista, por mera afinidade ideológica.

Há uma diferença entre confiar na capacidade de um candidato para executar um programa conhecido e torcer para que ele pratique o contrário do que promete caso eleito. A segunda hipótese implica aceitar que o eleitor é enganado deliberadamente.

Se o mercado acredita que a agenda econômica verdadeira é a que circula reservadamente entre seus interlocutores privilegiados, deveria exigir que fosse explicitada. Afinal, o compromisso com a responsabilidade fiscal não deveria dispensar a obrigação com a transparência na campanha, até para que os penalizados possam fazer uma escolha informada.

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