domingo, 25 de outubro de 2026

Uma campanha miserável em grandes debates, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O Brasil vivido no dia a dia pouco se assemelha ao País mostrado, muito de longe, na maior parte do falatório eleitoral

Fundamental para todos e chata para muitos, a economia foi um tema pouco discutido nas semanas finais da eleição. Sem familiaridade com esse e com outros temas da administração, o candidato oposicionista, Flávio Bolsonaro, pouco se aventurou nessa área. Envolvido na discussão econômica desde sua fase sindical, o presidente Lula avançou com moderação nesse debate, embora pudesse beneficiar-se muito mais de sua experiência no setor público. Durante a maior parte da campanha, os dois deram atenção talvez excessiva à orientação de seus assessores, muito voltada para o comportamento nos palcos.

O Brasil vivido no dia a dia dos trabalhadores, de suas famílias e da maior parte dos empresários pouco se assemelha, no entanto, ao País mostrado, muito de longe, na maior parte do falatório eleitoral. É maior, mais dinâmico e muito mais promissor do que aquele apontado nos discursos da oposição. Mas também tem problemas e desafios bem mais sérios do que aqueles admitidos pelos governistas.

A economia cresceu 4,8% em 2021. Nos quatro anos seguintes, as taxas foram 3,0%, 3,2%, 3,4% e 2,3%, resultados modestos para uma grande potência emergente. Nos dois primeiros trimestres de 2026, a expansão ficou em 1,1% e 0,5%. As últimas projeções para 2026 têm sido próximas de 1,8%, e a mediana das expectativas de inflação vem superando 5,0% há duas semanas. O quadro inclui, portanto, preços mais disparados do que em vários outros emergentes.

Crescimento medíocre e sem perspectiva de aceleração combina com baixo investimento produtivo. Governo e empresários têm frequentemente investido, em conjunto, valores menores que 18% do Produto Interno Bruto (PIB) e raramente iguais ou superiores a essa marca. No segundo trimestre de 2026, a taxa ficou em 17,6%. No Canadá, no mesmo período, correspondeu a 20,8%. Na República Tcheca, a 27,9%.

Investimento em máquinas, equipamentos, infraestrutura e construções diversas depende de vários fatores, como taxa de juros (custo do capital), perspectivas da economia e segurança para os investidores. No Brasil, os juros têm permanecido, por muito tempo, bem acima dos padrões observados no mundo rico e nas áreas em desenvolvimento. Mas também as incertezas são mencionadas, com alguma frequência, como fatores desestimulantes.

A insegurança pode estar associada a vários fatores, internos e externos, considerados tanto pelos investidores privados quanto pelos dirigentes do Banco Central (BC). Estes dirigentes, condutores da política monetária e com poder, portanto, para facilitar ou dificultar o crédito e o investimento, dão atenção especial, em seus cálculos, aos gastos do governo e às perspectivas das finanças públicas.

O Executivo pouco tem feito – talvez nada, de fato – para tranquilizar os dirigentes da política monetária. Fiel aos velhos padrões de seu partido, o presidente da República pode ter exibido uma forte preocupação com as finanças federais em outros tempos. Isso ocorreu principalmente em sua experiência inicial na chefia do governo, há mais de duas décadas. A prudência exibida no começo do atual mandato parece estar superada, tanto quanto a influência moderadora do ministro da Fazenda, Dario Durigan. A recaída no velho padrão talvez seja explicável, em grande parte, pela busca da reeleição. Se for reeleito, o presidente, já na faixa dos 80, dificilmente buscará um novo mandato por meio de votos.

A economia brasileira já perdeu impulso, no começo deste semestre, e é difícil estimar como evoluirá até o fim do ano. Os juros básicos permanecem elevados – em 13,75% – e a mediana das projeções do mercado indica 13,25% para o fim de 2026. Se as estimativas estiverem corretas, o próximo ano terminará com uma taxa de 12%, combinada com inflação de 4,3%, ainda próxima do teto da meta (4,5%). São números inquietantes e indefensáveis, por enquanto, mesmo num quadro internacional de muita insegurança.

Também as questões internacionais, como outras de grande complexidade, tiveram pouco ou nenhum peso na disputa eleitoral. Mas as posições dos candidatos são conhecidas, e o resultado da eleição poderá afetar o desenho político da região. Se Flávio Bolsonaro chegar à chefia do governo, as maiores economias da América do Sul serão todas seguidoras de Washington, como já são a Argentina, a Colômbia, o Chile e, numa condição especial, a Venezuela. Isso poderá oferecer algum consolo ao presidente Donald Trump, incapaz, até agora, de impor seu controle à Europa Ocidental.

Se esse quadro se materializar, o governo brasileiro cumprirá, com algumas décadas de atraso, uma tarefa desenhada há mais de 60 anos por algumas lideranças nacionais e claramente rejeitada, afinal, pelo penúltimo governante da fase militar, o marechal Ernesto Geisel. Tudo bem, esse militar foi mesmo um tanto estranho, assim como seu sucessor, responsável final pelo retorno ao regime civil. Afinal, que importa o atraso de algumas dezenas de anos no alinhamento continental, se outros grandes objetivos só foram alcançados depois de séculos de esforços? 

Um comentário:

  1. Cara incrível você falou falou não falou nada
    Flavio vai ganhar vamos ter a mudança necessária, tirar esse Brasil desse atoleiro econômico , dessa degeneração social e moral em que vivemos fruto da política do PT

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