O Estado de S. Paulo
O Brasil vivido no dia a dia pouco se assemelha ao País mostrado, muito de longe, na maior parte do falatório eleitoral
Fundamental para todos e chata para muitos, a economia foi um tema pouco discutido nas semanas finais da eleição. Sem familiaridade com esse e com outros temas da administração, o candidato oposicionista, Flávio Bolsonaro, pouco se aventurou nessa área. Envolvido na discussão econômica desde sua fase sindical, o presidente Lula avançou com moderação nesse debate, embora pudesse beneficiar-se muito mais de sua experiência no setor público. Durante a maior parte da campanha, os dois deram atenção talvez excessiva à orientação de seus assessores, muito voltada para o comportamento nos palcos.
O Brasil vivido no dia a dia dos
trabalhadores, de suas famílias e da maior parte dos empresários pouco se
assemelha, no entanto, ao País mostrado, muito de longe, na maior parte do
falatório eleitoral. É maior, mais dinâmico e muito mais promissor do que
aquele apontado nos discursos da oposição. Mas também tem problemas e desafios
bem mais sérios do que aqueles admitidos pelos governistas.
A economia cresceu 4,8% em 2021. Nos quatro
anos seguintes, as taxas foram 3,0%, 3,2%, 3,4% e 2,3%, resultados modestos
para uma grande potência emergente. Nos dois primeiros trimestres de 2026, a
expansão ficou em 1,1% e 0,5%. As últimas projeções para 2026 têm sido próximas
de 1,8%, e a mediana das expectativas de inflação vem superando 5,0% há duas
semanas. O quadro inclui, portanto, preços mais disparados do que em vários
outros emergentes.
Crescimento medíocre e sem perspectiva de
aceleração combina com baixo investimento produtivo. Governo e empresários têm
frequentemente investido, em conjunto, valores menores que 18% do Produto
Interno Bruto (PIB) e raramente iguais ou superiores a essa marca. No segundo
trimestre de 2026, a taxa ficou em 17,6%. No Canadá, no mesmo período, correspondeu
a 20,8%. Na República Tcheca, a 27,9%.
Investimento em máquinas, equipamentos,
infraestrutura e construções diversas depende de vários fatores, como taxa de
juros (custo do capital), perspectivas da economia e segurança para os
investidores. No Brasil, os juros têm permanecido, por muito tempo, bem acima
dos padrões observados no mundo rico e nas áreas em desenvolvimento. Mas também
as incertezas são mencionadas, com alguma frequência, como fatores
desestimulantes.
A insegurança pode estar associada a vários
fatores, internos e externos, considerados tanto pelos investidores privados
quanto pelos dirigentes do Banco Central (BC). Estes dirigentes, condutores da
política monetária e com poder, portanto, para facilitar ou dificultar o
crédito e o investimento, dão atenção especial, em seus cálculos, aos gastos do
governo e às perspectivas das finanças públicas.
O Executivo pouco tem feito – talvez nada, de
fato – para tranquilizar os dirigentes da política monetária. Fiel aos velhos
padrões de seu partido, o presidente da República pode ter exibido uma forte
preocupação com as finanças federais em outros tempos. Isso ocorreu
principalmente em sua experiência inicial na chefia do governo, há mais de duas
décadas. A prudência exibida no começo do atual mandato parece estar superada,
tanto quanto a influência moderadora do ministro da Fazenda, Dario Durigan. A
recaída no velho padrão talvez seja explicável, em grande parte, pela busca da
reeleição. Se for reeleito, o presidente, já na faixa dos 80, dificilmente
buscará um novo mandato por meio de votos.
A economia brasileira já perdeu impulso, no
começo deste semestre, e é difícil estimar como evoluirá até o fim do ano. Os
juros básicos permanecem elevados – em 13,75% – e a mediana das projeções do
mercado indica 13,25% para o fim de 2026. Se as estimativas estiverem corretas,
o próximo ano terminará com uma taxa de 12%, combinada com inflação de 4,3%,
ainda próxima do teto da meta (4,5%). São números inquietantes e indefensáveis,
por enquanto, mesmo num quadro internacional de muita insegurança.
Também as questões internacionais, como
outras de grande complexidade, tiveram pouco ou nenhum peso na disputa
eleitoral. Mas as posições dos candidatos são conhecidas, e o resultado da
eleição poderá afetar o desenho político da região. Se Flávio Bolsonaro chegar
à chefia do governo, as maiores economias da América do Sul serão todas
seguidoras de Washington, como já são a Argentina, a Colômbia, o Chile e, numa
condição especial, a Venezuela. Isso poderá oferecer algum consolo ao
presidente Donald Trump, incapaz, até agora, de impor seu controle à Europa
Ocidental.
Se esse quadro se materializar, o governo brasileiro cumprirá, com algumas décadas de atraso, uma tarefa desenhada há mais de 60 anos por algumas lideranças nacionais e claramente rejeitada, afinal, pelo penúltimo governante da fase militar, o marechal Ernesto Geisel. Tudo bem, esse militar foi mesmo um tanto estranho, assim como seu sucessor, responsável final pelo retorno ao regime civil. Afinal, que importa o atraso de algumas dezenas de anos no alinhamento continental, se outros grandes objetivos só foram alcançados depois de séculos de esforços?

Cara incrível você falou falou não falou nada
ResponderExcluirFlavio vai ganhar vamos ter a mudança necessária, tirar esse Brasil desse atoleiro econômico , dessa degeneração social e moral em que vivemos fruto da política do PT