domingo, 8 de novembro de 2026

Avesso do espelho e novos desafios, por Míriam Leitão

O Globo

O espelho do Brasil mostra um país que evitou o pior em várias áreas. Mas que tem pela frente escolhas difíceis no cotidiano de governar, principalmente na economia

O presidente Lula irá para a COP31 na Turquia. Notícia que todos já sabem. Agora tentem imaginar o que seria essa viagem, e a participação brasileira, caso o Brasil tivesse colocado na presidência um negacionista do clima? Seria constrangedor, como já foi anos atrás. O país chegará lá com os seus mapas do caminho, um deles para um mundo longe dos combustíveis fósseis e outro para a derrubada do desmatamento. A onda azul nos Estados Unidos elegeu uma exuberante diversidade, mulheres, negros, indígenas, que vão aumentar a representatividade. Tente pensar em como estaríamos no futuro se o Brasil escolhesse a rota oposta ao reconhecimento dos direitos de minorias ou de maiorias que estão sub-representadas, como as mulheres.

O Brasil pode agora se olhar no espelho e ver defeitos, contradições, mas também conferir suas chances de estar cada vez mais inserido na contemporaneidade. O mesmo governo Lula que traça um caminho para o mundo se afastar dos fósseis é o que comemora cada novo poço de petróleo no mar da Amazônia. O mesmo governo que defende a diversidade, tem ignorado a necessidade de ter mais mulheres no Supremo e — por que não? — uma mulher negra. Este é o ponto: contradição se pode criticar, negacionismo é um caminho perdido. Seja na ciência, na saúde, no clima ou na evolução social.

Lula irá depois à reunião do G20. Tentem lembrar do ex-presidente Jair Bolsonaro à deriva numa reunião anterior do mesmo grupo, quando seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, propunha que o Brasil fosse pária. Ou imagine agora, com Donald Trump indo enfraquecido para a segunda metade do seu mandato, como seria a política externa caudatária aos Estados Unidos. Pode-se apontar erros na diplomacia atual, porém o caminho pragmático e pluralista atende muito mais aos nossos interesses.

Na economia, há formas de projetar um equilíbrio nas contas públicas sem sacrificar as políticas sociais realmente progressivas. O país gasta muito com subsídios e isenções não focalizadas nos mais pobres. O economista Sergio Firpo publicou um artigo, na sexta-feira, na Folha de S. Paulo, sobre seus estudos na área. Pegando só um de seus exemplos, o país poderia economizar R$ 25 bilhões se conseguisse acabar com as isenções de títulos como LCI, LCA, CRI e CRAs e debêntures incentivadas. Essas letras de crédito e certificados de recebíveis não pagam imposto. Ou seja, quem compra um título do Tesouro tem que recolher tributo e o investidor desses papéis, não. Isso está criando uma enorme distorção porque o dinheiro está correndo para lá. Seus defensores dizem que eles são instrumento importante porque conseguem emprestar mais barato para o setor do agronegócio, de construção civil e imobiliário. Só que é subsídio dado a ricos e os setores já têm outros incentivos. É regressivo. Por isso é importante insistir na proposta de taxar esses produtos financeiros, que foi apresentada por Fernando Haddad e rejeitada pelo Congresso.

O presidente Lula fez um bom discurso de equilíbrio nas contas públicas, no entanto, depois se reuniu com um grupo de economistas em que vários não acreditam no ajuste fiscal e que, quando estiveram no governo, cometeram erros. A reunião foi fechada, contudo, é fácil imaginar que quem fez propostas concretas de ajuste, como o ministro Dario Durigan, estava minoritário. Lula precisa ouvir outras vozes. De quem acredita nas políticas sociais progressivas, e aponta a regressividade de alguns gastos e defende o ajuste fiscal.

Esse é, sim, o mais difícil dos quatro mandatos. A vida já deu grandes vitórias ao presidente Lula, e também tarefas difíceis para ele resolver. Na economia, nada será fácil. De fora, os ventos ora parecem soprar a favor, ora contra. O medo que paira há algum tempo sobre a economia mundial é se as empresas de alta tecnologia, e de inteligência artificial, podem provocar uma crise global. Uns dizem que é bolha, outros acreditam que está havendo apenas um ajuste de preços. “O desafio é que o custo de financiamento na economia americana está ficando cada vez maior e os volumes investidos não param de aumentar”, me explicou um integrante do mercado financeiro.

O espelho do Brasil mostra um país que evitou o pior em várias áreas. A democracia, os valores ambientais, sociais e diplomáticos foram reafirmados. Mas que tem pela frente escolhas difíceis no cotidiano de governar, principalmente na economia.

 

2 comentários:

  1. A pior provação que Lula passou foi aquela doença na laringe,eu não consigo nem pensar... Deus que nos dê proteção,à direita e à esquerda.

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  2. A presença de Guido Mantega na reunião foi um péssimo sinal político, ético e econômico.

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