quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Candidatura impertinente


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO


As eleições em São Paulo têm a fama, forjada em séries históricas de pesquisas, de apresentarem mínimas mudanças na última semana de campanha. São oscilações marginais. Mantida esta característica, dificilmente o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) superará a margem que Gilberto Kassab (DEM) abriu a uma semana da virada para o segundo turno. Mas admitamos que, excepcionalmente, o vaticínio se frustre, e seja vencedor amanhã quem hoje é perdedor.

Nem a vitória redime os pecados desta campanha. Em qualquer circunstância, na regra ou na exceção, fica desde já registrado que Geraldo Alckmin, só ele, é senhor do seu destino. Uma campanha equivocada, para uma candidatura contestada, colocou em risco o futuro político de um partido até aqui bem estruturado em São Paulo.

Os últimos anos na vida política de Geraldo Alckmin mostram que ele não faz jus ao apelido que procura retratá-lo como um político insípido e incolor. Saiu de Pindamonhagaba e chegou a governador de São Paulo, primeiro como vice, depois titular com os próprios votos. Extraiu uma candidatura a Presidente da República, passando para trás o principal político do seu partido em São Paulo. Jogador ousado, firme, conseguiu êxito no partido e lançou-se candidato a prefeito na disputa contra um grupo do PSDB que está na situação, em que têm voz o presidente de honra do partido, Fernando Henrique Cardoso, e o governador do estado, José Serra. Proeza que não se viu em Minas Gerais, onde o governador Aécio Neves disse que não queria candidato do PSDB em Belo Horizonte e não surgiu ninguém para contestá-lo.

Alckmin tem fortes convicções sobre si e muita força de vontade. Se vencer, e é nisto que aposta, o cargo, com seu poder agregador, recupera os que foram feridos mais profundamente. Se perder, como os números hoje indicam, esperneia, acusa, ameaça sair, cobra forte aos amigos que não se submeteram à sua liderança. No caso atual, o que fará mesmo não está muito claro, mas políticos próximos a ele falam em mudança de partido, não se sabe se de verdade ou na base de mais um pouco do mesmo, a velha e eficiente pressão.

Estas características, porém, não lhe dão, ao contrário, lhe tiram e também à sua campanha, o instrumento básico de ação fundamental em qualquer pleito a mandato popular: o discurso. As motivações do eleitor para definir o seu voto, mostram as últimas pesquisas dos Institutos Ibope e Sensus, são muitas. Há os mais preocupados com propostas, há os que ainda têm identificação partidária - neste quesito o PT se beneficia muito, por exemplo, porque, nas capitais, tem cerca de 20% de preferência partidária - e há também a posição, o discurso. O discurso vem de um projeto de país, estado ou cidade que está na cabeça do candidato e de seu grupo político.

Alckmin, na campanha presidencial de 2006, foi "brifado", jargão que os homens de campanha utilizam para sintetizar as informações e idéias transmitidas ao candidato, por especialistas dos mais diferentes setores, e agora, também, muitos dos secretários da prefeitura, governada pelo PSDB, lembre-se, deram ao candidato tucano o cenário dos problemas e da gestão. Nem o candidato teve discurso em 2006, quando passou ao largo das questões essenciais e ficou na superficialidade da auto-exaltação e de um indefinido choque de gestão, nem tem discurso agora.

Na derrota de 2006, houve um fator preponderante sobre a falta do discurso: as virtudes da campanha vencedora. Luiz Inácio Lula da Silva já era vitorioso antes da realização do pleito. Quando sobreviveu ao ataque de 2005, que o feriu na sua dimensão ética, e a economia começou o ano eleitoral de 2006 em alta, estava claro que o presidente se posicionara da melhor forma para vencer. Houve a rasteira que lhe aplicou mais uma vez seu grupo político, formado por amigos muito próximos da Presidência da República, que reincidiu na transgressão ética e permitiu a realização do segundo turno com o dossiê falso contra o adversário político.

Mas, sem projeto e sem discurso, Alckmin não aproveitou a oportunidade. Ao contrário, enrolou-se mais ainda ao fugir do programa de governo do PSDB, sob ataque do oponente, e Lula passou como um tufão.

Nesta atual candidatura a prefeito, Geraldo Alckmin tem na falta do que dizer aos eleitores, e não nos adversários, sua vulnerabilidade maior. A candidatura de um grupo político, segundo define o cientista político Antonio Lavareda, da MCI, pode ser natural ou necessária. A eleição permitindo reeleição, o natural é o candidato ser o prefeito ou o governante que está no cargo. A candidatura necessária é a que, por algum motivo inviabilizada a candidatura natural, busca um substituto para ele. A candidatura Alckmin a prefeito, por este princípio, não seria nem natural nem necessária. Lavareda levanta uma hipótese sobre o que determina a falta de discurso do candidato do PSDB nesta campanha municipal. "É uma questão de pertinência da candidatura".

O eleitor, explica, consciente ou inconscientemente, ou até intuitivamente, percebe que há um grupo político, de democratas e tucanos, que está no comando da prefeitura. O prefeito é candidato natural à reeleição, o eleitorado do grupo está preferindo a continuidade. Aparece outro candidato do grupo, postula o mesmo. Confunde e impossibilita o discurso.

É impossível haver, por este raciocínio, dois candidatos da situação. Qualquer candidatura em relação a um prefeito postulando a reeleição é uma candidatura de oposição. Alckmin, que é do mesmo conjunto de forças políticas a que pertence o prefeito, apresentou sua candidatura. É um candidato também da situação que tenta uma postura de oposição, já ao final da campanha, ficando sem condições de apresentar um projeto político. A isto se define como uma candidatura sem pertinência.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

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