quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Chega de onda

Marcos Coimbra
DEU NO ESTADO DE MINAS
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

A eleição de 2008 está sendo rigorosamente igual à de 2004, quando Lula não estava nem perto de ser a quase unanimidade nacional que as pesquisas atuais revelam

Abertas as urnas (expressão antiga, que não quer dizer mais nada hoje em dia), saímos das especulações e chegamos à realidade. Muita coisa some nessa hora, inclusive algumas que pareciam grandes verdades.

Uma das que não se fala mais é a tal “onda vermelha”, que muitos analistas afirmavam que teríamos nas eleições municipais deste ano. Se ainda lembrarmos do que se lia na imprensa há algumas semanas, era a hipótese de que Lula seria capaz de içar quem quer que fosse à vitória. Impulsionados por seus índices de popularidade, imaginavam, seus indicados, país afora, surfariam na preferência dos eleitores.

Muita gente acreditou nessa conversa, dentre os quais inúmeros candidatos, que chegaram a se estapear na disputa pela imagem do Presidente em suas campanhas. Não só eles, porém, pois políticos e comentaristas comungavam da mesma convicção.

Apurados os votos, se há uma coisa que os resultados não comprovam é que houve uma onda desse tipo. Ela nem chegou a ser uma marola.

Isso não quer dizer que muitos candidatos do PT não venceram, pois vimos que o partido cresceu no número de prefeituras conquistadas, dentre as quais as de muitas capitais e cidades médias. Desempenho que pode ficar maior agora no segundo turno, pois o PT tem condições de vencer em diversas capitais importantes.

A pergunta é em quais das ganhas e das por ganhar houve influência apreciável da popularidade de Lula. Foi uma hipotética “onda vermelha” que levou o PT a obter os resultados que alcançou?

Pensando nas capitais, a partir das quais se costuma fazer a contabilidade dos partidos vitoriosos e derrotados, a eleição de 2008 está sendo rigorosamente igual à de 2004, quando Lula não estava nem perto de ser a quase unanimidade nacional que as pesquisas atuais revelam.

Nas capitais, o PT só ganhou onde já estava no poder, o que sugere que foram as administrações dos prefeitos que os levaram à reeleição ou, como no caso do Recife, à continuidade. Isso independeu da maior ou menor presença de Lula.

Em Fortaleza, por exemplo, Lula sequer foi para prestigiar a campanha vitoriosa de sua companheira de partido. Indo ou não a Rio Branco, Porto Velho, Palmas ou Vitória, faria pouquíssima diferença. Desde o ano passado, eram prefeitos cuja reeleição era considerada favas contadas.

O mesmo vale para maioria das cidades médias onde houve vitória de candidatos do PT no primeiro turno. Nelas, os novos prefeitos petistas, ou vieram de reeleições ou tiveram que se virar sozinhos, pois poucos deles contaram com Lula em seus palanques.

E onde Lula se empenhou, às vezes até demais? O que aconteceu em Natal e Curitiba, por exemplo, em cujas campanhas Lula fez de tudo, desde comícios a gravações para a propaganda eleitoral das candidatas de seu partido?

E o que aconteceu em São Paulo? Não era lá que Lula mais se comprometera com uma candidatura? Ou foi em São Bernardo, onde escalou um ministro para disputar a prefeitura e se envolveu até onde era possível? Em nenhuma das duas a eleição se resolveu domingo, sendo que Marta chegou atrás de Kassab.

Em si, a tese da “onda vermelha” foi apenas um desses factóides jornalísticos com os quais nos divertimos antes das eleições. Fala-se muito deles, mas não querem dizer nada.

Mas há nisso um aspecto a considerar. Se a “onda vermelha (ou lulista)” em 2010 for do tamanho que foi em 2008, é bom que Lula e o PT ponham suas barbas de molho na sucessão presidencial.


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