segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Saldos de primavera


Wilson Figueiredo
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Pode-se dar de barato que o presidente Lula embarcou, por precipitação, na canoa furada de Marta Suplicy. Tem direito a desconto ao chegar da restauradora viagem ao exterior, aonde foi conferir de perto a crise alheia em relação ao otimismo nacional. Lula chegou com a cabeça cheia de contradições e encontrou Marta Suplicy maltratada pelos números. Precisava cuidar da eterna prestadora desse serviço e zelar pelas relações internas da coalizão de partidos unidos pelo governismo submisso e separados pelos interesses insatisfeitos. No centro da coalizão, Lula é obrigado a suportar o PMDB o tempo todo. Os candidatos do peito presidencial conseguiram sair com escoriações leves, exceto em São Paulo. Estava com a cabeça longe quando garantiu que "a Marta vai ganhar".

Lula tem a vantagem de aprender com os próprios erros e, principalmente, com os alheios. É o saldo da humildade ressentida desde a infância. Seria talvez melhor que tivesse percebido na eleição municipal a maior intimidade entre eleitor e candidato (vida pública ou particular). Quem sabe desistisse da ilusão de que sucessão presidencial possa ter alicerces em eleição municipal.

Nada menos de 95 parlamentares abriram parêntese em seus mandatos e se apresentaram para revitalizar a relação federal com o eleitor municipal. Sabem todos onde acaba uma e começa a outra, e não só respeitam a diferença como recomendam a cura de uma derrota com uma vitória, nem que seja municipal: "Similia similibus curantur" – garante que, traduzido em bom português, tudo se cura com mais do mesmo. Insucesso eleitoral se trata com votos, a pomada dos deuses. Nada menos de 67 dos 97 parlamentares federais, candidatos a prefeito e vice, foram rejeitados pelo eleitorado local. E não foi apenas porque o mandato representativo está em baixa. Outros 15 ficaram para o segundo turno, que corresponde ao falecido exame de segunda época.

Dos senadores e deputados aprovados no primeiro turno, 11 são da base em que o presidente Lula pratica o chamado equilíbrio instável. A maior parte estava de olho na eleição de 2010, para renovar o Congresso sem mudar mais do que o estritamente necessário, além da cota dos mortos. O horário eleitoral gratuito é esporte cívico custeado com dinheiro do próprio eleitor.

Nenhum dos três senadores que se habilitaram se destacou nesta eleição municipal. O melhorzinho ficou em terceiro lugar no primeiro turno, e nem chegou ao segundo. Em São Paulo, dos 11 parlamentares que disputaram a eleição municipal, só dois se elegeram. Paulo Maluf teve menos votos para prefeito do que para candidato a deputado estadual.
Na outra ponta da diferença que separa eleição municipal de eleição federal localizam-se os prefeitos que se candidataram ao próprio lugar. Dois terços conseguiram. Confirma-se que reeleição bem trabalhada não depende da qualidade da administração. Ponto contra a reeleição.

Portanto, quem mudou não foi ainda o Brasil. O PT, muito menos. Mas Lula é outro. Está aí para o que der e vier. Se mudar muito, estraga. De vez em quando, alguém retira a reforma política da gaveta, espana a poeira, e o assunto se reanima como moribundo para receber a visita da saúde. Quem é que admite desidratar o feixe de privilégios do mandato parlamentar? Nada mais confortável do que irrigar com dinheiro público e contabilidade invisível os canteiros de votos.

Menos da metade dos 125 candidatos a prefeito e vice integra a famosa lista suja. Mais ou menos uns 45 dos que se apresentaram com a honra manchada não se elegeram. Por que não se criam cursos de preparação para candidatos de primeira viagem e não se adota a prática criada em Roma, onde os candidatos se vestiam de branco para pedir voto na rua, precedidos de um escravo que, na função de alto-falante, exaltava a honradez no exercício do mandato?

Candidato vem exatamente de cândido.


Da relação dos nomes que, mesmo sob investigação, se habilitaram a prefeito e vice em 95 municípios, 125 respondem a processo. Um bom começo. O TSE lançou a operação que, apesar das limitações legais (e, sobretudo, farisaicas), prenunciam avassaladora onda moral em formação na sociedade. Atrás das grades, uma candidata se elegeu vereadora no Rio. Não é possível deixar o veto para depois de eleito. O primeiro passo trouxe a questão até aqui. Agora, é com a opinião pública.

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