quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ainda os símbolos

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


WASHINGTON. Num dia repleto de simbolismos como o da posse de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos, nada mais exemplar da mudança de rumo do poder do que o ex-vice-presidente Dick Cheney, momentaneamente de cadeira de rodas, vítima de um acidente caseiro, ser comparado ao Dr. Fantástico. Ninguém se lembrou de compará-lo ao ex-presidente Franklin Roosevelt, cuja memória vem sendo evocada desde que a crise econômica mostrou toda a sua profundidade. Nos dois casos, a cadeira de rodas é apenas um acessório acrescido à imagem dos personagens, não determinante de suas ações. Roosevelt foi um grande presidente, talvez o maior da História, pelas decisões que tomou em momento de grave crise econômica e conflito mundial.

Ser comparado ao personagem de Peter Sellers no formidável "Dr. Fantástico" ("Dr. Strangelove"), o filme dirigido por Stanley Kubrick que é uma das mais ácidas e divertidas críticas à Guerra Fria, tem um significado político óbvio, mas não gratuito.

O Dr. Fantástico do filme é um cientista nazista que se torna o conselheiro do presidente americano. Preso a uma cadeira de rodas, Dr. Fantástico não consegue controlar seus instintos e faz involuntariamente a saudação nazista para o presidente dos EUA, e defende um ataque nuclear contra a União Soviética.

Qual um doentio Dr. Fantástico saído das telas para a realidade, Cheney foi o cérebro por trás da política americana após 11 de setembro, especialmente a invasão do Iraque sob o pretexto de acabar com armas de destruição em massa que nunca existiram.

Na esteira da guerra, Dick Cheney levou a empresa em que trabalhava, a Haliburton, a participar da reconstrução do país, com obras milionárias sem licitação.

Adepto da política de ataques preventivos adotada pelos Estados Unidos, o vice-presidente Dick Cheney é o mentor de toda a política de segurança nacional que levou o governo Bush a claramente ultrapassar os limites da legalidade no combate ao terrorismo, e saiu do governo defendendo as posições mais polêmicas, como as técnicas de afogamento adotadas nos interrogatórios das prisões de Abu-Grahbi e Guantánamo.

Documento de uma comissão do Senado americano divulgado durante a campanha presidencial traz acusações frontais de que o desrespeito à Convenção de Genebra foi aprovado pelo presidente George W. Bush, e a autorização para que técnicas de afogamento fossem usadas nas prisões partiram diretamente do ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld, em ambos os casos com o vice Dick Cheney manobrando por trás da cena.

Uma das questões mais emblemáticas da mudança de comando no governo dos Estados Unidos, o fechamento da prisão de Guantánamo e o fim da tortura como método oficial de interrogatório a presos da guerra ao terror tornaram-se pontos centrais da discussão política nos Estados Unidos, e um dos primeiros atos do novo presidente foi sustar processos contra os presos políticos na guerra contra o terror em Guantánamo, que será desmobilizada em breve.

Dick Cheney, antes de deixar o poder, defendeu, em um programa de televisão, a tortura como maneira eficiente e rápida na luta contra o terrorismo, alegando que se tratavam de técnicas duras, mas necessárias.

Já o presidente Bush alega em sua defesa que o fato de não ter havido mais nenhum ataque terrorista ao território americano desde 2001 é a prova de que o país está mais seguro, e que a política antiterror de seu governo está correta.

De corpo presente, George W. Bush ouviu uma contestação firme aos principais eixos de sua política antiterror, inclusive a recusa de Obama de trocar os valores democráticos como o respeito aos direitos humanos pela segurança nacional, como se fossem excludentes entre si.

E Dick Cheney, que aconselhara em uma entrevista o presidente eleito a não se precipitar em relação a questões de segurança nacional antes de ser informado de todas as circunstâncias, sugerindo que havia informações secretas que justificariam atitudes mais drásticas do governo Bush, teve que ouvir a reafirmação de todos os princípios morais que nortearão a política americana, tanto para dentro quanto para o mundo.

Nada indica que a nova administração colocará no banco dos réus alguma cabeça coroada da gestão Bush. Mas a defesa de valores morais em contraposição a uma época de pragmatismos e isolacionismos, em que os Estados Unidos experimentaram a decadência de sua liderança mundial antes mesmo que a economia se revelasse tão combalida, é uma mudança de atitude que, é possível prever-se, será disseminada pela sociedade.

Desmobilizada pelo choque dos atentados terroristas, a sociedade americana custou a se dar conta de que o lado negro do poder da maior potência do mundo se aproveitou dessa apatia para prevalecer. A pretexto de defender o país, toda uma estrutura jurídica autoritária foi montada, relegando os melhores valores da sociedade americana a plano secundário.

Esse sistema começa agora a ser desmontado, para dar lugar aos valores tradicionais de justiça e igualdade. A quarentena de dois anos para os que trabalharem em seu governo, e o congelamento de salários dos principais assessores, são medidas simbólicas, mas concretas.

Para os que não acreditam que o presidente Barack Obama agirá como o candidato Barack Obama prometeu, ele mandou um recado forte no seu discurso de posse: "O que os cínicos não entendem é que o chão que eles pisam não é mais o mesmo".

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