quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Era Obama

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO

O momento era de tocar a História, tão próxima ela estava. A poeta convocou "os mortos que nos trouxeram até aqui". Eles estavam lá: na Bíblia de Lincoln; nas escadarias de onde Martin Luther King anteviu o dia da união entre brancos e negros, no qual eles poderiam se dizer "livres, afinal"; nas lágrimas dos velhos militantes dos direitos civis; nas evocações históricas do presidente Barack Obama.

A divisão racial que fraturou os Estados Unidos esteve presente nos comentários dos jornalistas, nas declarações dos cidadãos de todas as idades e cores entrevistados no gigantesco National Mall, nos textos e nas análises das versões online dos jornais. "Milhões testemunham um momento profundo da história racial", ressaltou, logo após a posse, a versão online do "New York Times". Na CNN, as perguntas constantes dos repórteres e âncoras aos entrevistados eram sobre o significado de ter o primeiro presidente negro do país. John Lewis, lendário participante do movimento de Martin Luther King, democrata pelo estado da Geórgia, admitiu sua incredulidade quando viu Obama fazer seu juramento:

- Isso não é verdade, não está acontecendo, não estou vendo um jovem negro assumir a Presidência!

Esse mesmo espanto, de chegar ao dia pelo qual tantas gerações esperaram, foi a frase mais comum de ontem, independentemente da idade. A lembrança da herança de velhos guerreiros da igualdade consolida os mesmos valores nos jovens. O discurso de Luther King foi lembrança insistente. Estava na fala da senadora Dianne Feinstein, que presidiu a cerimônia, quando disse que os sonhos de 44 anos atrás, naquela escadaria, tinham chegado à Casa Branca. A menção às divisões raciais estava também na bênção final do reverendo Joseph Lowery.

Os americanos não negam seus defeitos. Têm essa qualidade. Tiveram uma história terrível de divisão racial, mas lutaram contra ela de forma memorável. Mereciam o dia de ontem, da colorida união de dois milhões de pessoas no local da posse; do acontecimento que, se calcula, teve a maior audiência de televisão do mundo; do mágico pacto sobre todas as diferenças. Há países que negam a divisão que deveras têm. Nestes, a luta é mais difícil, porque o inimigo é escorregadio e o silêncio sobre ele, compacto e asfixiante.

- Esse é o sentido da nossa liberdade e da nossa crença, porque homens, mulheres, crianças de toda raça e toda fé podem se juntar em comemoração ao longo dessa magnífica praça; e porque o homem, cujo pai, menos de 60 anos atrás, não poderia ser servido num restaurante local, pode agora, diante de vocês, fazer o mais sagrado juramento - disse Barack Obama.

Ele toca a questão racial com a elegância de quem veio para governar para todos e consolidar o arco que une os que estiveram separados. A luta racial americana nunca foi só dos negros. Brancos, como os Kennedy, e milhões de outros, estiveram, desde sempre, do lado certo dessa longa história. Ted, o último dos irmãos, foi um dos primeiros a apoiar Barack Obama, lembrando que era hora de "passar a tocha" à nova geração. Obama se emocionou ao homenageá-lo no discurso no Congresso, logo após o desmaio do velho senador.

No discurso de posse, Obama chamou a herança do país de "colcha de retalhos" formada por cristãos e muçulmanos, judeus, hindus e pessoas sem religião. "Essa diversidade é a força, e não a fraqueza dos Estados Unidos", disse ele. Lembrou que, por ter superado a guerra civil e a segregação, saindo desses sombrios momentos sempre mais forte e mais unido, o país pode acreditar que os "velhos ódios" podem passar um dia. Como para mostrar sua fé no fim dos velhos ódios, o presidente Barack Obama enlouqueceu os seguranças quando saiu da sua superblindada e sombria limusine para caminhar livremente no meio da Avenida Pensilvânia, de mãos dadas com Michelle. Incrível cena.

Obama é uma passagem. Quebrou o monopólio de 200 anos dos brancos no cargo maior do país e começa a mudar o tom do que vigorou em Washington nos últimos oito anos. O discurso da posse do ex-presidente George W. Bush parecia saído direto de um manual da guerra fria, exalando ameaças e ódios. O presidente Barack Obama também avisou aos inimigos que eles serão derrotados, mas falou de tolerância, de estender a mão, em interesse e respeito mútuos com o mundo muçulmano. Alertou que o poder dos Estados Unidos cresce se for usado de forma prudente.

O dia em que a História parecia mais real que outros dias tocou quem viu, de perto ou de longe, os fatos. O diretor do Banco Mundial, Vinod Thomas, contou-me, logo após chegar da posse, que ele constatou, feliz, que nas ruas de Washington havia gente de todos os países do mundo. - Vi muitos brasileiros. Não os conhecia, mas reconheci que eram brasileiros - disse Vinod, que morou no Brasil por alguns anos.

Essa alegria do novo fica maior diante do tributo pago aos que iluminaram o passado. Como na poesia de Elizabeth Alexander: "Falem claramente que muitos morreram para que esse dia chegasse. Cantem os nomes dos mortos que nos trouxeram até aqui, que dispuseram os trilhos do trem, levantaram as pontes, colheram o algodão e as alfaces, construíram, tijolo por tijolo, os edifícios brilhantes que eles manteriam limpos e nos quais trabalhariam."

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