segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Samuel Huntington

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


S Samuel P. Huntington morreu na véspera do Natal. Tendo adquirido notoriedade no Brasil por seus contatos com o governo a propósito da "descompressão" do regime de 1964, Huntington, com quem tive contato pessoal como estudante anos atrás, foi, dentre os grandes nomes da ciência política contemporânea, talvez o mais propenso a iconoclastias e mesmo a posições antipáticas ou politicamente "incorretas". Ditada pelo compromisso tanto com o rigor profissional quanto com valores políticos, em que a identificação com o Partido Democrata (e a forte oposição à intervenção no Iraque, por exemplo) se mesclava com certo conservadorismo realista, essa propensão o manteve em evidência e o expôs a críticas azedas ao longo de sua carreira acadêmica.

Uma das contribuições importantes do realismo de Huntington ocorreu, ainda na década de 1960, nas discussões sobre desenvolvimento político. Seu trabalho substituiu a mera ênfase corrente na democracia pela atenção dada ao "grau" de governo (ele seria um dos responsáveis, um pouco mais tarde, pela introdução da questão da "governabilidade" das democracias) e à capacidade que os sistemas políticos revelem de construir e operar instituições fortes e estáveis - o que não é sinônimo de instituições não-democráticas, apesar de embutir alguma tolerância com o autoritarismo, incluindo a reavaliação em termos favoráveis da União Soviética, que era então anátema para a ciência política academicamente dominante. De toda forma, o contraste decisivo seria o que opõe sistemas "institucionalizados" ou "cívicos" a sistemas "pretorianos", onde a fragilidade institucional induz cada foco particular de interesses a valer-se na arena política dos recursos de qualquer natureza que tenha à mão, resultando no fatal protagonismo dos militares.

Há inconsistências, que levaram a claros erros de avaliação em casos concretos (destaque-se o caso do Paquistão, com Ayub Khan erigido em grande legislador pouco antes de o país se ver reduzido ao caos). Há também a discutível visão da condição pretoriana como uma espécie de pântano em que se chapinha sem rumo e sem saída. Mas a perspectiva tem o mérito de apontar para uma sociologia das instituições políticas cujo horizonte é o equilíbrio necessário entre a autonomia perante o jogo cotidiano dos interesses, de um lado, e, de outro, a sensibilidade e a adaptabilidade perante a multiplicidade de interesses ou de "forças sociais", em particular os novos interesses a emergirem em qualquer momento dado. E esse equilíbrio envolve um outro, entre ação intencional e enraizamento cultural e valorativo: "a cultura importa" é o título de um volume organizado por ele já em 2001.

Justamente o impacto da cultura e dos valores foi o foco polêmico de suas intervenções mais recentes. Temos a tese do "choque das civilizações", marcado pelo confronto entre o Ocidente e, em especial, o mundo islâmico, com os muitos comentários negativos que suscitou - sem deixar de suscitar igualmente, porém, retratações importantes, como a de Fouad Ajami no New York Times em janeiro de 2008, recuando da crítica a Huntington a respeito e dando-lhe razão. Temos ainda as denúncias sobre o perigo que a intensa imigração mexicana, e latino-americana em geral, representaria para os Estados Unidos. Em entrevista de 2004 ao mesmo jornal a propósito do volume dedicado ao tema ("Who Are We?"), Huntington ilustra numa pílula a disposição de dizer verdades desagradáveis que lhe marcou a carreira. Diante da observação da entrevistadora de que o livro endossava os valores anglo-protestantes, sua resposta é mais ou menos a seguinte: "Os Estados Unidos seriam o país que foram e ainda são hoje se, nos séculos 17 e 18, em vez de sermos colonizados por protestantes ingleses, nossos colonizadores tivessem sido católicos franceses, espanhóis ou portugueses? A resposta é não. Seríamos um Quebec, um México, um Brasil." O artigo e o volume sobre o choque das civilizações contêm uma definição de "Ocidente" que dele exclui a América Latina, com implicações intrigantes sobre onde situar apropriadamente Espanha e Portugal. A resposta de 2004 insinua o deslocamento da própria França, e dos países católicos em geral, para uma espécie de Ocidente de segunda.

Huntington sustenta na entrevista que sua posição não é contrária à imigração, mas pela assimilação plena dos imigrantes (e lembra que sua mulher é filha de um imigrante armênio). A questão de interesse que a resposta citada suscita é a de se deve ser lida como apontando um mero fato ou se haveria razões para tomar a sério a insinuação que indico, em que um estilo de vida baseado na ética do tabalho, racionalizador e economicamente dinâmico desqualifica um outro passível de ser mistificado em termos de relaxamento, desfrute e "ócio criativo": se este último se associa com desigualdade, elitismo e pobreza, não há como deixar de buscar dose importante dos ingredientes do primeiro.

Mas há matizes. A corrida presidencial do ano passado mostrou com clareza as duas faces da vida política dos Estados Unidos, e seria difícil pretender ligar, sem mais, as raízes anglo-saxônias com a face melhor. A vitória de Obama sem dúvida envolve um importante elemento positivo de mudança cultural. E mesmo se Obama (que Huntington, já doente, com certeza apoiou) pode ou deve reclamar a reafirmação de elementos igualmente importantes do legado que recebeu das tradições do país, essa mudança cultural tem claro substrato na transformação demográfica, de que a imigração é parte destacada: o país melhora não com a assimilação irrestrita dos imigrantes, mas com a mudança que a imigração há muito ajuda a produzir.

Seja como for, viva Huntington, que pensou e defendeu abertamente as posições a que a reflexão o levou.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

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