terça-feira, 19 de maio de 2009

Uma incógnita

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

A reação surpreendentemente agressiva do governo contra a convocação da CPI da Petrobras, ao mesmo tempo que aumenta a convicção de que há muito a investigar na gestão petista da estatal, faz com que a oposição tema que o feitiço possa virar contra o feiticeiro se os movimentos não forem feitos de maneira correta. O passionalismo com que setores da oposição querem tratar o assunto só servirá aos governistas, que têm um discurso já explicitado pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, de que a oposição quer desmoralizar a Petrobras para privatizála se retomar o poder em 2010. Seria o mesmo debate sobre privatização que ajudou a derrotar o candidato tucano Geraldo Alckmin em 2006, e que pode marcar PSDB, PPS e DEM como “vendilhões do templo”, especialmente num tema explosivo como a Petrobras, um símbolo patriótico para muitos.

Essa situação torna-se ainda mais delicada porque o DEM está realmente dividido sobre a CPI, e isso explicaria a condução titubeante de sua direção nas negociações anteriores à sua implantação.

O líder José Agripino Maia, porém, afirma que trabalhou para evitar que integrantes do DEM retirassem a assinatura da convocação, o que a anularia, e garante que o partido indicará logo seus integrantes, sendo que o senador Heráclito Fortes já pediu para fazer parte dela.

Ele descarta a insinuação de que, pelo fato de uma empresa de propriedade de seu filho, o deputado federal Felipe Maia, ter contrato com a Petrobras para distribuir combustível de aviação nos aeroportos de Natal e Mossoró, o DEM teria sido menos incisivo do que em outras ocasiões. Segundo ele, o contrato já foi renovado duas vezes no governo Lula e vale até 2011, quando outro governo já terá assumido.

A aprovação da CPI da Petrobras mostrou, mais uma vez, como é frágil a maioria governista no Senado, e é uma indicação também de que dificilmente o governo conseguiria aprovar uma emenda constitucional para permitir ao presidente Lula concorrer pela terceira vez consecutiva à Presidência, como insistem alguns integrantes de sua base na Câmara.

Embora o presidente Lula, sempre que pode, negue que patrocine essas iniciativas, há no seu entorno político quem esteja se movimentando.

Na reunião para o lançamento da exploração do présal, no dia 1ode maio último, vários governadores presentes e políticos ligados à base governista conversaram sobre a possibilidade, diante do fato novo que é a doença da ministra Dilma Rousseff.

A corrida contra o tempo parece estar perdida, mas o apelo do tema aumentou muito depois da incerteza provocada pela doença da ministra e de seu tratamento, que congelou as negociações políticas.

Se em 2007, quando o assunto ganhou força, não foi adiante porque a reação da base governista foi negativa, hoje essa posição já não seria majoritária, diante da falta de opções.

O secretário particular de Lula, Gilberto Carvalho, que pode vir a ser o próximo presidente do PT, chegou a sondar extraoficialmente alguns governadores sobre o terceiro mandato em 2007, mas não colheu grandes entusiasmos.

Hoje, os pequenos partidos da base governista estão perdidos, procurando uma âncora onde se agarrar, enquanto as grandes forças políticas, PT e PMDB, buscam se acertar para uma campanha eleitoral que ninguém sabe quem disputará realmente.

Com a dúvida sobre as reais possibilidades de Dilma enfrentar uma campanha presidencial difícil e estafante, e sem uma definição do lado do PSDB sobre se o candidato será José Serra ou Aécio Neves, a primeira corrida presidencial sem Lula em mais de 20 anos transformouse em uma incógnita.

O governador Aécio Neves parece ter um projeto traçado de antemão: não sai do PSDB, e não aceitará ser vice de Serra caso o governador paulista venha a ser confirmado candidato do partido.

Ele está entusiasmado com a receptividade que tem tido em suas andanças pelo país, que classifica de “extraordinária”, e diz que vai fazer novos eventos no Nordeste, onde é pouco conhecido.

Seu raciocínio sobre o partido é linear: “Não saio do PSDB. A partir do momento em que o partido aceitou minha proposta, não tenho por que sair”.

Ao mesmo tempo, acha que esses eventos lhe permitem a aproximação com alguns pequenos partidos, “uma porta aberta para conversar”.

Como o caso do PR, que ontem o convidou para ser candidato pela legenda.

Acha que esses pequenos partidos estão em busca de uma saída com a doença da Dilma. Ele vê “certo vazio, não há entusiasmo com as soluções”.

De qualquer maneira, ele reafirma que em outubro fará uma avaliação definitiva.

Depois de meia dúzia de eventos, se a coisa endurecer entre ele e Serra, tem o compromisso do partido de fazer as prévias.

Se a tendência estiver como hoje, a favor do governador paulista, provavelmente não insistirá. Mas quer ter a oportunidade de, nestes seis meses, ganhar um pouco de visibilidade.

Dentro de 20 dias, vai fazer uma pesquisa para ver como está sua posição, mas admite que o seu nível de desconhecimento é muito alto, sobretudo no Nordeste.

Aécio se detém em uma pesquisa do instituto de opinião Vox Populi com a Band, que mostra que, entre os que conhecem “muito bem” os candidatos, 13% votariam em Ciro, 24% em Dilma, 31% em Serra e 44% em Aécio.

No final de uma campanha presidencial, todos os candidatos tornam-se “muito conhecidos” dos eleitores, raciocina Aécio, que conta com isso e com o acesso que tem a diversos partidos para formar uma coalizão vitoriosa em 2010.

Mas tem só até o fim do ano para reverter a situação.

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