segunda-feira, 8 de junho de 2009

Pequena euforia, triste Brasil

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Preso aos princípios neoliberais de liberalização financeira, o governo assiste inerte à volta da sobreapreciação cambial

NOS TRÊS últimos meses, os mercados de ações dos países emergentes estão experimentando uma forte alta. Isso é sinal de que a crise já está acabando? Ou então é uma pequena bolha -é mais uma manifestação do caráter perverso do sistema financeiro mundial? Ou ainda é consequência do reconhecimento do fato que a crise atingiu menos os países em desenvolvimento do que os países ricos?

Embora não seja possível dar uma resposta segura sobre o problema, o mais provável é que seja uma combinação dos dois últimos fatores. De um lado, a alta nas Bolsas reflete o espírito especulativo dos mercados financeiros internacionais, que retomaram o fluxo de capitais em busca de melhores rendimentos reais e ganhos com a valorização cambial; de outro, é o reconhecimento de que esta crise está sendo menos grave nos países emergentes, que, assim, tornam-se duplamente atrativos para a especulação.

Os proprietários de ações no Brasil sentem-se, naturalmente, aliviados, mas não devem se enganar: nada garante que as ações continuarão a se valorizar ou mesmo que mantenham o nível que já alcançaram. Em outras crises prolongadas -e esta o será-, o mercado de ações experimentou diversos momentos de recuperação logo seguidos de queda. Na longa recessão japonesa, houve ao menos cinco vezes em que o mercado acionário esquentou para em seguida os preços voltarem a cair.

No caso brasileiro, em que os preços são tão dependentes das compras de investidores estrangeiros, a instabilidade do mercado acionário é sempre muito grande. A fortíssima reação dos bancos centrais dos países ricos liderada pelo banco central americano derramou bilhões e bilhões de dólares nas suas economias.

Com isso, muito corretamente, os bancos centrais, lembrando-se do erro cometido pelo Fed em 1929, buscaram enfrentar a crise de liquidez provocada pelo pânico de outubro de 2008.

Em sua fase de euforia, as crises financeiras sempre se caracterizam pelo aumento absurdo do crédito. A partir, porém, do seu estouro, a decorrente perda da confiança leva o crédito a desaparecer, não restando alternativa aos BCs senão aumentar a oferta de moeda e baixar a taxa de juros para, assim, enfrentar o estrangulamento do crédito.

Não há garantia, entretanto, de que o dinheiro novo que passa para as mãos dos bancos e, mais amplamente, do mercado financeiro seja repassado para as empresas e os consumidores. Em vez disso, eles podem muito bem usar os novos recursos baratos para obter juros elevados nos países emergentes. Se, além disso, esse influxo de recursos externos especulativos provocar a valorização da moeda local, melhor ainda, porque agora o especulador ganha também -e muito- com essa valorização.

É essencialmente isso o que está ocorrendo no Brasil com o mercado de ações. Estamos vivendo uma pequena bolha especulativa na qual os juros reais elevados e a valorização perversa do real somam-se de maneira perfeita. Os rentistas, naturalmente, estão felizes, mas isso acontece para infelicidade do Brasil. Preso aos princípios neoliberais de liberalização financeira, incapaz de dar uma prova de autonomia nacional, nosso governo assiste inerte à volta da sobreapreciação cambial. A grande oportunidade que esta crise global ofereceu ao Brasil ao lhe permitir, sem nenhum risco, voltar ao desenvolvimento econômico sustentado baixando a taxa de juros e adotando medidas para controlar o câmbio está sendo pateticamente perdida.

Luiz Carlos Bresser-Pereira , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994"

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