terça-feira, 11 de agosto de 2009

Ex-chefe da Receita fantasiou reunião com Dilma, diz Lula

Eliane Cantanhêde
enviada especial A Quito
Letícia Sander
enviada especial a Natal
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Ministra também nega encontro com Lina Maria Vieira para tratar de caso dos Sarney

Senador afirma não crer que Dilma tenha intercedido para apressar investigação contra sua família e diz que nunca pediu isso à ministra


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou de "fantasia" a declaração da ex-chefe da Receita Lina Maria Vieira de que a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) pediu que a investigação feita pelo órgão nas empresas da família Sarney fosse concluída rapidamente.
Dilma, em visita a Natal ontem, negou ter se encontrado a sós com Lina e disse que nunca tratou desse assunto com ela.

Em reportagem publicada anteontem pela Folha, Lina afirmou que foi chamada para um encontro a sós com Dilma no final do ano passado. A ex-secretária diz ter interpretado o pedido como um recado para encerrar a investigação.

Em setembro de 2008, a Receita recebeu um despacho do juiz Ney Bello Filho (1ª Vara Federal do Maranhão) determinando a ampliação de auditoria que o fisco conduzia havia um ano nas empresas dos Sarney. No ofício, o juiz se dizia insatisfeito com o resultado até ali, conduzido pela administração do antecessor de Lina, o ex-secretário Jorge Rachid.

Em outubro, já na gestão de Lina, a Receita passou a montar um grupo especial, com auditores de fora do Maranhão, para reforçar fiscalização no clã Sarney. Segundo a ex-secretária da Receita, semanas depois ela foi chamada por Dilma.

"Eu não fiz esse pedido", afirmou a ministra Dilma, acrescentando: "Olha, eu encontrei com a secretária da Receita várias vezes, com outras pessoas junto, em grandes reuniões. Essa reunião privada a que ela se refere... eu não tive com ela".

Dilma disse que não tinha como "classificar" a declaração de Lina. "Não vou ficar fazendo interpretação subjetiva dela" e negou ter tido ingerência sobre a demissão da ex-secretária.

Já o presidente Lula, em entrevista em Quito, no Equador, depois de participar de reunião de cúpula da Unasul (União das Nações Sul Americanas), disse que "quem construiu essa fantasia, essa história, em algum momento vai ter de dizer que foi um ledo engano".

Lembrado que foi a própria Lina quem contou o episódio numa entrevista publicada, Lula reagiu: "Minha filha, eu não sei se a Lina falou ou não, você é que está me falando. De domingo, eu não leio jornal. Na segunda-feira, eu ouço informações. Eu só digo uma coisa: duvido que a Dilma tenha conversado com a Lina sobre qualquer assunto desse. Duvido".

Lula ainda ironizou: "Pode escrever uma matéria escrito assim embaixo: "Erramos"". Referia-se à seção da Folha, com correções sobre informações divulgadas pelo jornal.

Ele também disse que não conversou com a ministra, que é pré-candidata do PT à sua sucessão em 2010, e insinuou que nem pretende fazê-lo.

"Eu não conversei com a Dilma nem hoje [ontem], nem ontem [anteontem], nem anteontem [sábado], nem "trasantontem" [sexta]", disse. Insistiu, porém, que não acredita na declaração de Lina, que foi demitida da Receita pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ao ser questionado se achava possível que Dilma tivesse procurado a secretária para pedir-lhe que encerasse a investigação, respondeu: "Acho que não". Foi enfático ao responder que ele não pediu nada a ministra nesse sentido. "Nunca, nunca."

Conselho de Ética

Lula também negou ter interesse num desfecho rápido dos processos contra Sarney no conselho. "O Senado tem maioridade e tem instrumentos para fazer as investigações que entender que deva fazer." Apesar de já ter feito uma série de manifestações sobre a crise na Casa, ontem disse que "não cabe a um presidente ficar dando palpite nas instâncias de investigação do Senado".

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