quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Usados e descartados

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O Rio de Janeiro é um nó cego para a candidatura de José Serra a presidente. Em 2002, o tucano levou uma surra de Luiz Inácio Lula da Silva. Foram 3,2 milhões de votos a 721.081 (o mais votado foi Anthony Garotinho, com 3,4 milhões de votos). Mas o tucano ganhou pontos com o Rio e com o seu governador, Sérgio Cabral, no primeiro embate de bastidor para valer com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para 2010, que envolveu o marco regulatório do pré-sal.

Depois do jantar que reuniu Lula e ministros aos governadores Serra, Cabral e Paulo Hartung, do Espírito Santo, os dois últimos, lulistas por afinidades pessoais e dependências administrativas, saíram mais impressionados com o desempenho do governador de São Paulo do que com o da ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República.

Serra não se expôs. Durante o jantar, defendeu um período maior de discussão dos quatro projetos que Lula enviou ao Congresso. Cabral e Hartung registraram como um apoio importante de vez que, à esta altura, tempo é o que Rio e Espírito Santo mais precisam para defender suas posições. Do lado de fora, Serra não entrou no mérito da questão.

Para Sérgio Cabral, o modelo de divisão dos royalties do pré-sal a ser definido pode ser decisivo para seu futuro eleitoral. O mesmo ocorre com Paulo Hartung. Hoje, dos dois são beneficiados por um regime especial de divisão dos royalties. Lula e Dilma defendem a divisão igualitária por todos os Estados para o pré-sal.

Cabral saiu aborrecido do jantar realizado na véspera do lançamento do marco regulatório do pré-sal, apesar de ter elogiado Lula em entrevistas. Não passou despercebido ao governador do Rio a desenvoltura com que se comportou o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, na reunião.

Franklin foi uma espécie de regente da orquestra. Em determinado momento, segundo apurou o Valor, chegou a elevar a voz para o governador do Rio de Janeiro. Além dele, também estavam à mesa Dilma e o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, além de Lula.

A queixa política de Cabral em relação a Dilma é o que importa no momento. Em conversas com governadores e colaboradores o governador deixou claro que viu Serra mais preparado que Dilma para governar e que a ordem de sua preferência pessoal passou a ser Lula, Serra e Dilma. O que não significa que sua preferência política venha a ter esta ordem, nas eleições de 2010.

Serra saiu do episódio solidário com os colegas do Rio e do Espírito Santo sem comprar briga com o Nordeste, onde estaria acampada a "tropa de choque" contrária aos interesses cariocas e capixabas, como se diz tanto nas terras de Cabral como nas de Hartung.

Cabral esperava que Dilma fizesse a costura entre os Estados, antes da apresentação dos projetos. No final, Serra é que teria mostrado maturidade para tratar de assunto dessa envergadura.

As pesquisas em poder de Cabral revelam que os cariocas gostam da aliança do governador com o Lula. O sentimento é que o Rio já foi muito maltratado na história recente. A parceria é positiva para o Estado, dizem as pesquisas, mas nunca deve ser de subserviência. O carioca preserva o orgulho da antiga capital e acredita que o Brasil tem com ele uma dívida eterna pela criação de Brasília.

A exemplo da oposição, os dois governadores condenam a pressa para estabelecer regras para algo que só vai funcionar no final da próxima década. Entre eles circula que Franklin é um dos ministros mais intransigentes quanto ao regime de urgência urgentíssima no Congresso. Amigos de Lula contam outra história: o presidente realmente acha que o pré-sal é uma "dádiva de Deus" que aconteceu em seu governo, ele quer que este seja o registro da história.

Se for este o caso, deve-se esperar um grande embate no Congresso. Do contrário pode se repetir o que vem ocorrendo no governo Lula, que o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA) chama de "usados e descartados" - o incessante lançamento de programas, com fins eleitoreiros, que não tardam a desaparecer do discurso do presidente. Os exemplos mais escancarados seriam o "Fome Zero", o "Primeiro Emprego" e o "Biocombustível". Pode ser. Mas qualquer projeto aprovado agora que não for do interesse público, certamente será mudado em 2011.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. A titular da coluna, Rosângela Bittar, não escreve hoje excepcionalmente

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