terça-feira, 13 de outubro de 2009

A esquerda em busca de um eixo

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


No momento em que o PT volta a mostrar aversão a alianças com outros partidos, sua costela esquerda, o P-SOL, está adiantado na discussão das composições a ser feitas em 2010. Na prática, isso significa o apoio da sigla à candidatura verde da senadora Marina Silva a presidente da República e que a vereadora Heloisa Helena vai disputar o Senado.

Em sua curta existência, nascido do primeiro racha do PT no governo, no calor da discussão da reforma previdenciária, o P-SOL transformou-se numa das siglas mais fechadas na escala partidária. Na extrema-esquerda, ameaçava reproduzir o caciquismo dos partidos mais conservadores, com Heloisa Helena, sem dúvida, como manda-chuva do partido.

A importância da mudança da sigla está de imediato no impacto que a saída de HH do páreo sucessório provocará nas pesquisas. A simples entrada de Marina na disputa levou Ciro Gomes (PSB) a reafirmar sua candidatura e elevar o estresse entre o Palácio do Planalto e os pessebistas. Resta saber qual será a repercussão do apoio do P-SOL à ex-ministra do Meio Ambiente.

O deputado Chico Alencar (RJ) listou os motivos pelos quais o partido deve apoiar Marina. Argumenta que o P-SOL nasceu do repúdio ao "transformismo conservador do PT". Mas não conseguiu aglutinar a esquerda "e quebrar o grave quadro de desencanto com a política". O que ocorreu foi uma crescente "naturalização da corrupção".

Arrefeceram a indignação com o "mensalão" e outros "procedimentos espúrios", sem falar no questionamento ao "continuísmo da política econômica ortodoxa de ajuste fiscal e do superávit primário", combatidos hoje pelo P-SOL, como eram antes pelo PT.

O P-SOL se vê ignorado como oposição ao governo, condição atribuída aos "demo-tucanos". Pior, diz ele: "Em vários embates a pseudopolarização que agrada o sistema coloca o bloco PT/PMDB e caudatários (PTB, PP, PR...) no campo da "esquerda" , como nos debates do Pré-Sal".

"Lula, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o "Minha Casa, Minha Vida", poderosas alavancas eleitorais, é o "avanço possível"; fora dele só há regresso ao privatismo máximo e ao Estado mínimo, reza o senso comum de amplas parcelas, até progressistas. Para elas, o que vem de Lula é sempre aceitável e justificável".

O papel e influência de Lula são vistos como "frutos de duas décadas de lutas, das quais foi o principal dirigente: ele mantém força, que é utilizada para evitar os enfrentamentos e passar sua política, elogiada por grandes empresários - "Lula salvou o capitalismo", como exaltou o ex-deputado Delfim Netto".

Beneficiadas com cargos e verbas - analisa o deputado -, centenas de direções sindicais, nas principais categorias, funcionam como correias oficialistas de transmissão. "A força do atual governo e sua capacidade de aglutinação social deve-se muito mais a políticas compensatórias e localizadas do que a mudanças estruturais. Falta um polo aglutinador, social e político, capaz de ocupar o espaço no debate do enfrentamento da crise a partir de uma perspectiva de esquerda".

O P-SOL, em sua autocrítica, reconhece que, se não conseguir articular condições políticas para garantir a candidatura HH, não será mais visto como portador de um projeto alternativo de país, acredita Chico Alencar.

"Em política, espaço vazio é espaço logo ocupado por outro". E o fato novo para a disputa de 2010, o "outro", é a saída de Marina do PT e sua filiação ao PV, "Como ponderam diversos camaradas e mostra a realidade, sua candidatura deverá atrair setores preocupados com o meio ambiente, descontentes com a corrupção, à direita e esquerda (como HH, em 2006), uma juventude "potencialmente ecológica", além de parte dos movimentos sociais que sempre orbitaram em torno do PT", diz.

"É preciso, com urgência, dialogar com esses setores a partir de balizas programáticas, reconhecendo o forte apelo que causa a trajetória emblemática de Marina - não do seu "furta-cor" PV", diz o texto de Chico, apreensivo com o que começa a ser dito de dirigentes de um até agora pouco visível PV.

O que o P-SOL teme é que, na atual situação, o cenário de 2010 possa ser ainda pior que o de 2006, mesmo sem Lula no páreo, o que acontece pela primeira vez desde 1989. A redemocratização brasileira completou um ciclo com o PT. A esquerda, principalmente aquela desencantada com Lula, está atrás de um novo eixo

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

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