segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A fina fronteira entre campanha e realizações

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Responsáveis pelos conceitos dos programas partidários que vão ao ar no fim do ano quebram a cabeça para conseguir dar visibilidade a pré-candidatos ao Palácio do Planalto sem que pareça propaganda antecipada
Tiago Pariz

O PT cogita reduzir a participação da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, no próximo programa de televisão que vai ao ar em 10 de dezembro. Com o objetivo de mostrar como as realizações da administração do presidente Lula se confundem com o partido, a peça foi construída sob a sombra das críticas do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, em torno dos limites entre divulgação de obras do governo e antecipação de campanha.

No processo inicial de levantar ideias, prefeitos e parlamentares petistas defendiam que seria uma ótima oportunidade para transformar Dilma na estrela das peças publicitárias. A cúpula da legenda, contudo, entendeu que seria melhor poupá-la e diluir sua participação com a de Lula e de outros petistas. A proposta é insistir que Lula representa o PT e vice-versa. Pesquisas internas do partido mostram que setores da população dissociam a imagem do presidente da do partido. Colar novamente as duas figuras faz parte da estratégia de transferência de votos, considerada essencial para a vitória da pré-candidata na eleição do ano que vem.

O PT tem direito a três inserções que vão ao ar em 3, 5 e 8 de dezembro, além de uma peça mais longa, de 10 minutos. A transmissão em cadeia de rádio e de televisão do programa está marcada para o dia 10. “A nossa proposta é cumprir a legislação num programa conceitual sobre a divulgação da doutrina e dos princípios do partido e do governo”, disse o presidente do PT, Ricardo Berzoini (SP).

Outra mudança prevista no programa de dezembro é a redução dos convidados. Apesar da boa aceitação entre os militantes da última peça, que trouxe depoimentos de várias figuras do governo, a proposta é apresentar mais imagens e mostrar como o governo conseguiu superar a crise, classificada pelo presidente Lula como apenas “uma marolinha”.

Berzoini insistiu ser praxe os programas do partido mostrarem os “líderes, um governador ou prefeito e pessoas de destaque do governo”. Ele ressaltou que o conceito final dos programas ficará mais próximo da definição nesta semana. “Nós ainda vamos refinar”, disse. O secretário nacional de Comunicação, Gleber Naime, explicou que o projeto visa unir Lula e PT. “O programa vai mostrar que as realizações do governo do presidente Lula têm tudo a ver com o PT”, sustentou.

Em programas recentes, Ciro Gomes (PSB-SP) e Marina Silva (PV-AC), também pré-candidatos, apareceram com destaque nas veiculações de suas legendas.

Críticas

O ministro Gilmar Mendes criticou o presidente Lula e a ministra Dilma pela viagem de fiscalização de obras da transposição do Rio São Francisco. Ele questionou a confusão entre as ações do governo com campanha eleitoral antecipada. Os petistas reagiram às alfinetadas do presidente do STF e disseram que ele extrapolava a função em seus comentários. Nesse embate de governo versus Justiça, até o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), saiu em defesa da divulgação de ações do governo.

Os tucanos também preparam um programa de televisão para 3 de dezembro. A ideia dos marqueteiros é colocar Serra e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, dividindo as inserções. O objetivo é mostrar que não há animosidade entre os dois pré-candidatos tucanos à Presidência da República. Ambos divergem em relação ao momento ideal para o PSDB definir quem irá concorrer. O mineiro quer antecipar a escolha para dezembro e ameaça se lançar ao Senado em janeiro se até lá o partido não chegar a um consenso. O paulista quer empurrar para março a decisão.

O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), tenta construir um entendimento entre os dois, apesar da resistência de Serra, e é favorável à demonstração de unidade no programa gratuito de televisão. A proposta foi formulada por Luiz Gonzales, aliado de Serra, e por Paulo Vasconcelos, o marqueteiro por trás das campanhas do governador de Minas Gerais. Se não houver consenso na gravação da imagem de união, cada um dos pré-candidatos terá cinco minutos disponíveis.

Impasse inconveniente

Os tucanos não sabem ao certo como resolver o candidato ao Palácio do Planalto se o impasse entre Serra e Aécio persistir. O partido espera que eles consigam formular uma saída consensual.
Sem ela, a decisão sairia de uma consulta com militantes numa convenção. O problema é que não há tempo hábil para convocar uma reunião ampliada desse porte até o fim do mês, nem uma prévia. O presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE), no entanto, garante que se precisar tem condições de realizar a prévia. Segundo ele, os cadastros estaduais dos militantes estão bastante avançados.

"A nossa proposta é cumprir a legislação num programa conceitual sobre a divulgação da doutrina e dos princípios do partido e do governo”
Ricardo Berzoini (SP), presidente do PT

O número
10 minutos

Tempo disponível para PT e PSDB nos programas em cadeia de rádio e de televisão que vão ao ar em dezembro
Memória
Comitiva à beira do rio

Durante três dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou uma comitiva de ministros, governadores, e pré-candidatos à Presidência da República num giro por obras de revitalização e transposição do Rio São Francisco em Minas, na Bahia e em Pernambuco. Lula teve de responder em todas as escalas que o objetivo da visita não era fazer comício, mas vistoriar os canteiros de obras.

O presidente levou a ministra Dilma Rousseff, sua pré-candidata, e, em um dos trechos, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), que também almeja concorrer ao Planalto, juntou-se à trupe.

Numa das vistorias, Lula coordenou o sorteio de 55 casas destinadas a moradores da Vila Produtiva Rural do Junco (PE) que foram deslocados por conta dos trabalhos dos operários no rio. Foram 85 famílias beneficiadas.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, foi um dos críticos da viagem. “Estão testando a Justiça Eleitoral. É uma viagem feita com recursos públicos. Nem o mais cândido dos ingênuos acredita que isso é fiscalização de obras. Não se tinha visto até então a ministra Dilma fiscalizar obras. A questão tem que ser discutida”, disse Mendes.

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