quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ordens superiores do presidente: Rosângela Bittar

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Cautelosos para evitar riscos inúteis pois já têm o que perder, dirigentes do PT relutavam usar seu programa eleitoral, em dezembro, para expor mais ao Brasil a candidata a presidente Dilma Rousseff. Foram demovidos por quem manda: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu uma ordem pessoal para entregar o programa a Dilma, às favas as regras eleitorais.

Lula está conduzindo a campanha da sucessão com mão de ferro e é ele quem acelera a ação dos petistas e dos grupos políticos que já dispõem de seu tempo e trabalho para a ministra.

Há um núcleo político da campanha, com atividade intensa, de que participam integrantes do PT e do governo, formado por Ricardo Berzoíni (presidente do PT), Antonio Palocci (deputado), Fernando Pimentel (ex-prefeito de Belo Horizonte), Alexandre Padilha (ministro da coordenação política), Gilberto Carvalho (chefe do Gabinete Pessoal do presidente) e Franklin Martins (ministro da Comunicação). O publicitário João Santana, responsável pela imagem da candidata e treinamento em conteúdos de discursos e entrevistas, participa das reuniões deste grupo. Ao contrário de outros marqueteiros, Santana tem interferido muito na definição de conteúdo do discurso.

O grupo dedica-se à análise da agenda, avaliação das alianças, preparação do discurso, elaboração de notas e textos para a ação política da candidata em cada evento. Semana passada, por exemplo, saiu desse colegiado todo o comportamento de Dilma no encontro com os movimentos sociais, em São Paulo.

No momento atual da campanha estes sete políticos são os mais influentes na campanha de moldagem da candidata e seu discurso. Um exemplo de definição: a sua marca será Dilma, sem sobrenome, e não Dilma Rousseff, que se transformaria, facilmente, em "Dilma do Chefe", como se conjecturou nos debates internos. Outras decisões: o tema do meio-ambiente tem que fluir, com prioridade, não só por ser mundialmente atual como para neutralizar qualquer aspecto negativo que possa emergir da péssima relação de Dilma com a ex-ministra e senadora Marina Silva, também candidata a presidente pelo PV, defenestrada do governo, e depois do PT, depois de embates fortes em defesa do Meio Ambiente.

A redução da desigualdade de renda e oportunidades, com aprofundamento na faixa de crianças e jovens, ao contrário da faixa de adultos e idosos atendidos até agora, é outra linha de discurso analisada pelo grupo político. Discute-se, também, uma melhor distribuição territorial nas regiões metropolitanas. Um tema também definido para esta candidatura é a questão rural que, para este núcleo político, mistura-se à prioritária questão ambiental e de ciência e tecnologia.

Também com a coordenação - esta mais à distancia - de Lula atua o Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) do PT, que se dedica, agora, basicamente a promover pesquisas e traçar mapas eleitorais, passando a organizar estruturas nos estados e ancorar a discussão das alianças regionais. Berzoini lidera este núcleo mas José Eduardo Dutra, uma vez eleito presidente do PT, assumirá papel mais importante. O ex-deputado José Dirceu tem grande espaço dentro do PT e para dialogar com os aliados. No dia 10 próximo o grupo reunirá os coordenadores nos Estados para organizar melhor as tarefas.

O programa de governo da candidata está sob a coordenação de Marco Aurélio Garcia, assessor especial do presidente da República, que repete agora a sua atuação nas campanhas presidenciais de 94, 98 e 2006. Só o de 2002 foi coordenado por Antonio Palocci, que substituiu Celso Daniel, morto antes da campanha do candidato Lula. Desta missão participa também a Fundação Perseu Abramo, do PT, que convocará autoridades dos diferentes ministérios para reunir as ações do governo Lula e traçar projeções para um governo Dilma.

O conselho político, hoje centrado no governo e no PT, será ampliado com a participação dos aliados quando começar a campanha oficial. O PMDB criou um grupo forte para fazer a interlocução com o PT que terá hoje sua primeira reunião;

No grupo conta-se como certo que Dilma ficará na vitrine do governo, viajando o país, com uma agenda política forte, até abril, e avalia-se que não será necessário atingir mais que 20% a 25% até a campanha de TV começar, quando se dará a entrada nacional do presidente Lula na casa dos eleitores.

Encontro marcado

O ministro do STF e ex-advogado Geral da União, José Antônio Dias Toffoli, nunca descartou a hipótese de votar no processo de extradição de Cesare Battisti, o brigadista reclamado pelo governo italiano. O que Toffoli disse é que não pretendia votar nos processos em que assinou a representação da AGU, o que não é o caso da ação contra Battisti.

A votação está quatro a três pela extradição. Há expectativa de que o o ministro Marco Aurélio Mello vote favoravelmente a Battisti. Se Toffoli acompanhar Marco Aurélio, Battisti passa à frente, 5 a 4. O presidente do Supremo, Gilmar Mendes, cuja opinião é conhecida, deve empatar o jogo (Celso de Mello se declarou impedido). O empate favorece Battisti e Mendes, segundo entendem advogados, não pode usar a condição de presidente para desempatar.

O jogo no Supremo pode mudar em favor de Battisti, mas se o italiano perder ainda pode ser salvo pelo presidente Lula. Caso semelhante ocorreu na França, onde outra italiana, Marina Petrela, teve a extradição concedida pela suprema corte, mas foi anistiada pelo presidente Nicolas Sarkozy "por razões humanitárias". Battisti, segundo diagnosticaram os médicos da penitenciária da Papuda, em Brasília, onde está preso, sofre de um problema hepático crônico e de depressão profunda.

O final do julgamento está previsto para o próximo dia 12. Resta saber a repercussão política de eventual decisão de Lula se ela for contrária à decisão do STF.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

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